Beatty, ou como insistir até o final em fazer o bom cinema

por max 15. novembro 2011 05:11

 

Para alguns, Warren Beatty pode ser apenas um rosto bonito. É o típico preconceito que temos quando vemos alguém belo. Trata-se de um ledo engano, mas dizemos, sim. Quando jovem, Beatty era considerado um tolo pretensioso com futuro de galã. Ninguém acredita muito nele, nem em suas pretensões de garoto abusado e cínico. Mas aquela carinha de anjo tinha algo mais do que um rostinho para destacar-se. Warren, verdadeiramente, tinha cérebro e valentia e queria mudar o mundo e ser, além disso, outro Marlon Brandon. No início dos anos 60, ele queria urgentemente dar um grande salto na sua carreira. O Clamor do Sexo (Esplendor em la huerba) não tinha funcionado como se esperava nas bilheterias (logo passaria a ser um clássico, mas à época do seu lançamento foi considerado como uma obra pretensiosa de Kazan), e Beatty, tampouco, era muito bem visto entre os altos executivos de Hollywood. Sua atitude ficava parecendo a de um garoto prepotente e cínico (muito a La Brando, mas sem o sucesso comercial).

Naquele tempo, os papeis nos bastidores de Hollywood começavam a mudar. Beatty, além de ator, era produtor, um cara com ideias, um cérebro. Em 1965, produziu O que é que há, gatinha? (What´s New Pussycat?), com roteiro escrito por Woody Allen. O filme foi um sucesso, e Beatty, que havia recusado o papel de protagonista por sentir-se subestimado por Allen, teve uma grande decepção. Aquele poderia ter sido seu momento. Ali tínhamos o seguinte cenário: Beatty está a ponto de chegar aos 30 anos, é 1965 e ainda não havia chegado o filme que o lançaria à estratosfera. Então, aparece Truffaut, e Truffaut fala a ele de um roteiro fenomenal, de uma história de bandidos, perfeita para ele, e diz que deve entrar em contato com os roteiristas. Tratava-se de Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas, e prontamente Beatty apaixonou-se pela ideia. Queria estrelar, queria ser "o cara", e queria que tudo saísse perfeito; para isso, também decidiu que produziria o filme. Depois de convidar vários diretores, finalmente os roteiristas (Robert Benton e David Newman) indicaram Arthur Penn, que, nesse mesmo ano (1965), havia estreado Caçada humana (The Chase), com Marlon Brando. Ainda que o filme tenha sido um fracasso, Penn havia se mostrado, segundo os roteiristas, como um diretor que sabia mesclar o estilo americano e o europeu, alguém que tinha talento para o trabalho. Por sua vez, Arthur Penn havia caído no vazio. O fracasso de Caçada humana somava-se à sua demissão, em 1964, de O trem (The Train – ele foi substituído por Frankenheimer). Ninguém o chamava, ninguém o queria, era intelectual demais. Assim, quando apareceu Beatty não havia muito o que fazer. O ressentimento de ambos, as ambições de ambos, tudo estava ali para teimar em dar certo e fazerem um filme que, no princípio, ninguém queria. Beatty conseguiu um pouco de dinheiro, muito pouco, e as filmagens começaram, bem longe de Hollywood, no Texas, e com a constante discussão entre produtor-protagonista, o diretor e os roteiristas (a quem cabiam as decisões). No entanto, todos queriam o trabalho feito feito e todos queriam fazer algo diferente do que Hollywood estava acostumada: queriam algo próximo à violência, queriam heróis tolos, queriam fazer a tela explodir. Ainda que o filme tenha estreado no pior mês do ano, àquela época (setembro), ainda que a exibição foi reduzida a menos quantidade possível de salas, o filme foi conquistando fãs (tanto no público, quanto na crítica). Bonnie & Clyde era, depois de tudo, um golpe contra o sistema. Nunca o mundo havia visto tanta violência, tanto sangue, tanta exaltação à delinqüência em um só filme norte-americano. Um grupo de críticos começou a vê-lo como um trabalho artístico, como uma peça, herdeira das tendências européias, que rompe, além disso, com os velhos cânones de Hollywood. O filme mostrava bandidos protagonizando, mas bandidos encantadores (apesar de que Faye Dunaway não era nenhuma beleza excepcional, o que também marcava a diferença); havia violência como nunca havia se visto, todo esse sangue, toda essa maldade, todo esse humor, todo esse romance; havia diversão inteligente, isso era o principal. Logo o filme receberia 10 indicações ao Oscar (levou duas), sete ao Globo de Ouro, quatro ao BAFTA, entre outros. E Warren Beatty, a mente criminosa daquilo todo, sempre no centro do furacão, estava feliz porque havia conseguido que seu nome alcançasse as alturas que ele acreditava merecer, e porque havia dado um duro golpe em Hollywood, que ali tinha começado a cambalear, mas também buscava novas formas de revitalizar-se e de fazer negócios. Alguns, os mais corajosos, viram que um filme como Bonnie & Clyde havia saído por baixo custo e conseguido prestígio, ao conectar-se com o público, uma conexão que fazia tempo estava perdida. Uma conexão de ouro que Beatty e sua equipe tinham conseguido, mas principalmente Warren Beatty.

Bonnie & Clyde, nesta terça-feira, 15 de novembro, no Max, dentro do ciclo Ícones de cinema.

O passado em Cannes

por max 29. abril 2011 12:00

 

 

Você sabe quem é a linda mulher que aparece no pôster da mais recente edição do Festival de Cannes? Trata-se nada mais e nada menos que de Faye Dunaway, a famosíssima atriz que participaria da fundação do chamado novo cinema norte-americano ao lado de outras atrizes como Barbra Streisand, Ellen Burstyn, Diane Keaton e com atores como Roberto De Niro, Jack Nicholson, Robert Duvall, Harvey Keitel sob a tutelagem de diretores como Scorsese, Coppola e Spielberg, entre outros. Dunaway, ao final dos anos sessenta e início dos setenta, derrubou muitos padrões culturais da indústria. Ela não tinha o tipo da estrela de Hollywood desses anos. Não era o protótipo da mulher bonita, para dizê-lo de alguma forma. Tinha um rosto diferente, exótico, inclusive de certa maneira mais próximo ao demoníaco que ao angelical. Dunaway, recordemos, também protagonizou em 1967 um filme que causaria sensação e escândalo no velho Hollywood: Bonnie and Clyde, ao lado de Warren Beatty. Um filme onde todos os atores parececiam pessoas normais, muito violento e que exaltava a vida de uns delinqüentes sanguinários. Dunaway esteve aí, marcou uma época e logo sua imagem e seu estilo particular a tornaram digna de uma fama muito merecida. Logo foi sinônimo de elegância e talento. Um monstro da arte, uma diva. Hoje em dia, essa marca se mantém. Dunaway é ícone da arte, das melhores atrizes que já existiram, da grandeza de um passado que para muitos é glorioso. E com certeza, essa necessidade de olhar para o passado está muito presente na contemporaneidade. O que é chamado de fenômeno da pós-modernidade planteia a morte da História. A História morre quando, segundo os filósofos da pós-modernidade, caem os grandes relatos que sustentam a idéia do progresso, do futuro melhor, da emancipação definitiva do homem. Quando caem estes relatos? Quando se demonstra que a ciência só levou à bomba atômica, às armas químicas, à guerra. Quando fica em evidência a pobreza, a fome, a brecha tecnológica, o fracasso das ideologias. Então, quando se rompe a idéia do futuro, também se rompe a História com H maiúsculo, porque essa história foi escrita por aqueles que mantiveram poder da voz universal e que não olharam para os lados até que tudo se converteu em tragédia. Então, essa versão da história e essa visão do futuro se derrubam, explodem e, ao não existir futuro, dirigem o olhar para o passado. No passado está o que é bom, o que é de qualidade, o que é lindo, verdadeiro e justo, o que deveria ser visto para trabalhar no presente e tentar criar um presente melhor dentro da perspectiva da pós-modernidade. Daí que a homenagem, a paródia, a imitação, a recuperação do passado esteja presente nas artes contemporâneas. Por isso não surpreende ver essa imagem de Faye Dunaway no novo pôster da 64ª edição do Festival de Cannes. Para os organizadores, Dunaway é sinônimo de elegância e prestígio, de um cinema —neste caso o novo cinema norte-americano— que em outra época foi magnífico, importante por atrever-se a romper preconceitos, tabus, por buscar sempre a arte, a essência da parte humana, sem menosprezar o entretenimento. Recordemos também que o novo cinema norte-americano nasceu com uma forte influência do cinema francês. Portanto os franceses, não podiam deixar passar a oportunidade para prestar homenagem a um cinema que homenageia, de certa maneira, ao seu cinema. Dunaway, essa mulher americana que no entanto também é tão européia, está ali, rodeada de elegância e beleza nesse pôster da nova edição do festival.

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