Les Revenants, ou a volta dos mortos-vivos incorruptos… e franceses

por max 29. outubro 2013 12:26

 

Uma das grandes promessas que sustenta a fé cristã é a ressurreição. O cristão diz que Cristo ressuscitou entre os mortos ao terceiro dia e que fez suas andanças falando com seus apóstolos. Ressuscitar significa que alguém estava morto e voltou à vida... em carne e osso?

Na primeira Epístola aos Coríntios, Paulo de Tarso diz que quando soou a trombeta anunciando o Fim "em um piscar de olhos, os mortos se levantaram, incorruptos". Enquanto Paulo estabelece uma clara diferença entre o corpo mortal e o corpo espiritual, não deixa de chamar a atenção esta frase que fala de mortos que se levantam, de mortos sem corrupção em seus corpos.

No Juízo Final, os mortos vão deixar seus túmulos e serão julgados por seus atos. Em oposição a esta ideia sagrada, teremos a figura do zumbi. O zumbi é um ser ressuscitado, mas não por Deus e nem sequer no Juízo Final. O zumbi é um produto da mão do homem – do seu jogo com os poderes divinos através da ciência -, e este corpo está corrupto – podre, deformado, cortado em pedaços.

O zumbi também desencadeia seu próprio Apocalipse. A fúria do zumbi, contra os sobreviventes humanos é a imagem do fim dos tempos na mitologia zumbi contemporânea. Quer dizer, o zumbi se eleva com uma blasfêmia claramente oposta ao conceito da ressurreição dos mortos que fala o cristianismo.

É uma ideia interessante que tem sido explorada infinitas vezes na cultura popular americana. Esse tipo de zumbi tem de sobra. Mas o que acontece quando esse morto volta, em um momento que não é o Apocalipse, não parece corrupto nem devorador de cérebros?

O que acontece se esse morto que volta nem sequer sabe que estava morto? Estas são as perguntas que fizeram a si mesmos os criadores de Les Revenants (2012) para realizar esta maravilhosa série francesa produzida pelo Canal+ e que tem muito a ver com o estilo e com o selo das produções originais HBO. Inclusive seu criador, Fabrice Gobert, confessa ser fã de A Sete Palmos (Six Feet Under).

Não é para menos que, em ambas as séries, os mortos voltam, alguns em carne e osso, outros em forma de memórias, alucinações ou espíritos. Mas voltam, em ambas voltam. Em Les Revenants eles aparecem um dia na cidade que foi sua pequena comunidade sobre a montanha, foi nesse povoado que morreram, alguns anos atrás.

Seu retorno, já comentei, é diferente dos zumbis: eles estão exatamente como estavam no dia que morreram, sem marcas, sem cicatrizes, sem o cérebro aparecendo, eles nem sabiam que estavam mortos. Para onde estamos indo? Vamos para uma série com uma carga pesada nos personagens, no drama dos personagens.

Não é para menos. Pergunte a si mesmo como se sentiria se, hoje, para seguir a carta aos Coríntios, fechasse os olhos e ao abri-los seria como se tivessem passado anos, as pessoas teriam mudado e, também, lhe veem como um estranho.

Por aí vai Les Revenants e seus oito episódios que poderemos acompanhar a partir desta quarta, 30 de outubro, no Max.

Quer dizer, se você gosta de zumbis, embora o gênero gore possa ser chocante, os franceses trazem uma série que fará você não se sentir culpado, e permite que você siga uma história de zumbi que não é zumbi. Algo assim, não? Zumbis esquisitos, inteligentes, dramáticos, existenciais, filosóficos. E há crimes e suspense também. Mas de outra maneira. Zumbi à francesa, claro, é isso que teremos.

Lembre-se: Les Revenants, a partir de quarta, 30 de outubro.

O que você vê quando vê o Max?

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