My Little Princess, ou a voz devida

por max 16. outubro 2012 10:55

 

Buscando o significado da palavra infância, descubro que ela tem origem no latim e que quer dizer "incapacidade de falar". A criança é alguém que não pode falar, que não pode expressar-se em público, que não tem vontade. No decorrer da história, as concepções sobre a infância variaram enormemente e, o que consideramos uma criança hoje em dia, é muito diferente do que se pensava a respeito há 200 anos. A criança de hoje está cercada de um sistema de proteção (de vozes) realmente invejável. Em algum lugar, li que, na Idade Média, considerava-se a criança um ser imperfeito. Em outro tempos, a criança era considerada uma coisa qualquer, um objeto de propriedade dos pais, e eles, com direito a essa coisa, podiam fazer desse pequenino o que quisessem. Os gregos e os romanos não tinham problemas em ter as crianças como objetos sexuais. Acredito que, em nenhum destes casos, podemos julgar os fatos, sob a ótica dos dias atuais. Eram outros tempos, outra maneira de ver o mundo. Com a modernidade (alguns estudiosos acreditavam que a infância é uma invenção da modernidade), os conceitos sobre os pequeninos mudam e surgem, evidentemente, os direitos da criança. De alguma forma, poderíamos dizer que, pouco a pouco, foi dada voz à criança (a voz é talvez uma forma de existência), um lugar no mundo. Já não se trata de uma criança muda, que deve submeter-se a qualquer ato arbitrário; agora, este ser humano conta também com vozes que falam por ele e, ao mesmo tempo, tem voz própria, direitos, humanidade.

Quando penso no filme My Little Princess (2010), de Eva Ionesco, não deixo de pensar nesses silêncios e nessas vozes, pois estamos diante de uma produção que apresenta uma criança (a própria Eva Ionesco) mergulhada no silêncio, com sua voz proibida.

Baseando-se em fatos de sua própria vida, a cineasta francesa fala, finalmente fala, finalmente tem voz, para contar a história da relação com sua famosa mãe, a fotógrafa de moda Irina Ionesco, que fez de sua filha (Eva) modelo de suas fotos. O tema não tem nada de especial, além do fato de que Irina Ionesco destacou-se como uma fotógrafa de forte tendência erótica. Suas fotos, a maioria em preto e branco, contavam com cenários, ambientações e adereços muito fetichistas, barrocos, decadentes, vitorianos inclusive . Eva não ficaria excluída das obsessões da artista. A criança foi retratada pela mãe a partir dos cinco até os 10 anos, semi-nua, sempre ou apenas coberta por toda a parafernália fetichista. Mas Irina Ionesco não somente tirou as fotos, mas também levou as imagens para as galerias de arte, e as galerias não hesitaram nem um segundo em comprá-las e até pediram mais.

Aqui poderíamos entrar no debate sobre a arte, o comércio e a moral. Aqui Jean Baudrillard estaria feliz e diria que essa é mais uma demonstração da morte da arte. Por que importa mais a doença que a obra de arte com seus valores estéticos? O que importa mais: a venda, a comercialização dessa arte sem que a moral intervenha, ou é necessário sobrepor a moral ao negócio? Também poderíamos nos perguntar sobre a natureza da arte. Poderíamos nos perguntar se, na arte, somente a dimensão estética é a que tem importância, ou se, por acaso, essas fotos não obedecem a atitude costumeira do artista que sempre sai por aí atirando na falsa moral. Mas o que denota a falsa moral quando se retrata uma criança nua? A mesma Eva Ionesco declarou que sua mãe, na verdade, não estava vendo a ela quando tirava as fotos, mas estava totalmente concentrada no processo de tirar fotos, de fazer arte. Porém, Irina não somente usou sua filha para suas fotos eróticas, mas também a colocou pra trabalhar em filmes eróticos e permitiu, além disso, que a fotografassem para as revistas Playboy e Penthouse. Eva tem o duvidoso privilégio de ser a modelo mais jovem já retratada pela Playboy (tinha 11 anos).

Ela pôde negar-se a fazer isso naquela época? Ao que parece, não. Irina era uma mulher possessiva, que amava, da sua maneira, a filha, e que queria levá-la pelos caminhos da arte de ser modelo artístico, ou algo que tivesse a ver com o estilo. Irina nunca disse um não para sua filha. Estava obcecada com a "carreira" que construía pra ela e até mesmo com sua própria arte. Quem sabe quais eram os conceitos que ela tinha sobre a infância, ou melhor, do que era ser mulher? O que é certo, é que, muitos anos depois, Eva Ionesco deu voz à criança e pôde, finalmente, contar sua história. Essa história está contada em My Little Princess. O assinante que julgue.

My Little Princess, este mês, no Max. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

Para reapresentações, clique aqui.

arquivos
 

nuvem