À Procura de Eric, ou uma comédia para Cantona e Loach

por max 11. março 2011 13:56

 

 

Uma comédia, o diretor Ken Loach (The Navigators, Carla's Song, Riff-Raff, Family Life, The Wind That Shakes the Barley, entre outros) traz-nos uma comédia. Por que insisto tanto nesse assunto? Bem, porque Loach é um dos poucos diretores europeus (é britânico) que se resiste a cair na tentação de Hollywood. Como bom europeu de esquerda, Loach defende o realismo socialista nos seus filmes. Por isso, é  estranho que faça uma comédia, quase uma tentativa de trair seus ideais. Mas não com À Procura de Eric (Looking for Eric, 2009) aqui Loach faz uma comédia à sua própria maneira. Uma comédia com um toque profundamente humano, social e solidário.  Loach é assim, sempre preocupado com o povo, pelo povo, como diriam nossos socialistas latino-americanos. E claro, Loach precisava de um bom lugar para o encontro da solidariedade e frescura da comédia. Esse espaço para estar com as pessoas e mostrar a sua alegria. Para um inglês socialista, para um espanhol socialista, para um argentino socialista, é o campo de futebol. O campo cultural onde as pessoas se unem por uma grande idéia, por uma grande emoção. Um lugar que mexe com as paixões, que as pessoas têm dentro. O futebol é como a alma. É uma alma fora, sobre o gramado e com duas balizas. Sim, é verdade que mesmo no campo existe o ódio e a violência, mas Loach não quer falar disso, não quer ver esse lado.  Loach prefere a épica dos homens que se superam através do futebol. Lembre-se que muitas grandes estrelas do futebol vêm de uma origem humilde, saem de grupos sociais marginalizados pela raça, cultura e situação econômica. Lembre-se também que no campo, os homens os onze jogadores, apesar das diferenças se unem para alcançar um único objetivo. O jogador é um herói e como todos os heróis, faz parte de um coletivo. Eric Cantona é um desses heróis. Metade sardo, metade espanhol, nascido em Marselha (não é parisiense, quero dizer) em uma família pobre, Cantona é um exemplo vivo do homem que se superou a si mesmo. E não só isso, também foi um grande jogador. Não só isso, era (ou é) um grande personagem. Lembre-se que Cantona chutou um fã com uma patada de caratê num campo de futebol em 1995, quando jogava pelo Manchester United. Mas o chute no fã Matthew Simmons não foi de graça. Simmons esteve atacando Cantona com insultos raciais e Cantona não agüentou. Mais tarde descubriram que Simmons, era um criminoso com prontuário. Embora Cantona tenha sido suspenso por nove meses e sancionado com serviços à comunidade, ficou como um verdadeiro lutador contra as injustiças do racismo. Mas sua fama não é por um simples chute, Cantona foi sem dúvida um grande jogador e muitos o consideram um homem que pensa muito sobre a vida, alguns acreditam que é um "filósofo". "Eu parei de jogar futebol aos 30, porque perdi  a minha paixão pelo esporte. Enquanto eu sentir a grande paixão que sinto pelo cinema, vou continuar fazendo filmes. Se eu ficar entediado, vou fazer outra coisa." Cantona declarou isso uma vez. E aí está ele, com cerca de quinze filmes em seu currículo como ator e, mais quatro em andamento. Em À Procura de Eric, sob a batuta de Loach, interpreta ele mesmo. Ou seja, Eric Cantona é  Eric Cantona, mas está na mente de outro Eric (Steve Evets), um carteiro fã de futebol, com problemas demais em sua vida.

Aos cinquenta anos, para  Eric, a vida não é o que  imaginou. Sua segunda mulher não aparece em lugar nenhum (acaba de sair da prisão, mas não voltou para casa) e também tem sérios problemas com seus enteados, envolvendo maternidade, desrespeito e relações com gangues. 

Em tal situação, não é surpreendente que o carteiro Eric precise de ajuda, ou pelo menos de alguns conselhos. E é aí que aparece o outro Eric. Nem mais, nem menos que o duro Eric Cantona, que começa aparecendo num jogo de alucinações muito normais ou muito lógicas, e muito equilibradas, por assim dizer. Claro que, para um diretor como Loach, Cantona, o futebol, as gangues, o homem de classe média, tudo é uma oportunidade perfeita para falar de temas que lhe interessam, do homem comum, da sociedade, da solidariedade.  A comédia, para cineastas como Loach, é outra forma de arte.

À Procura de Eric, na terça-feira 15 de março. Descubra Max.

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