Terra à Vista, o lugar para onde o presente e o passado convergem

por max 12. dezembro 2013 03:00

 

O passado e o futuro conjugados no presente, duas formas de vida que se encontram e onde o passado, claro, vai deixando de existir. Em alguns casos, a dissolução do passado pode trazer vantagens. O passado pesa, não funciona bem, acarreta procedimentos que já não fazem sentido, não produzem, não dão o que é necessário. O passado, com perdão do óbvio, está desatualizado. Mas, também, o passado é uma nostalgia, um lugar, em muitas ocasiões, mais humanitário. O presente e o futuro trazem complexidades, novos interesses que, em certas ocasiões, exigem frieza no modo de agir. É como se o progresso fosse uma máquina de rolo compressor que só vai para frente e não para, porque sabe que se parar pode sofrer acidentes e poderia ser manipulado de maneira inadequada. Em muitas ocasiões, a ética do passado e do presente se confronta, batalha, cria dramas ou até mesmo impede tragédias na alma das pessoas. Esse é, talvez, o caso de Terra à Vista (Terraferma, 2012), filme dirigido por Emanuele Crialese, cineasta italiano que ganhou seu lugar na história do cinema de seu país com filmes como A Ilha de Grazia (Respiro, 2002) e Novo Mundo (Nuovomondo, 2006).

Desta vez, Crialese nos leva à Sicília e nos apresenta Filippo (Filippo Pucillo), um jovem pescador que começa a ver as vantagens do turismo em contraste com a escassa renda como herdeiro da arte da pesca. A vida, com a chegada do dinheiro dos turistas, sem dúvida é mais fácil. Mas, neste vasto mundo – perto, muito perto – que se move lá fora não tem somente os turistas, também estão os imigrantes, aqueles que nunca pararam no tempo, mas que vão mudando de rosto conforme as crises vão atacando o mundo. Neste caso, essa crise enorme, mundial, globalizada, termina afetando este pequeno lugar de pescadores da África. Mas, assim como o turismo e a crise dos imigrantes alcançam aquela isolada população, as novas leis também fazem seu trabalho. As leis que pretendem globalizar, as leis que pretendem submeter tudo a um mesmo padrão. Paradoxalmente, tais aspectos globais funcionam como se fossem uma modernidade tardia. Essa modernidade que buscou valores e morais universais do epicentro europeu. No entanto, o filme de Crialese, como uma boa peça produzida em nossos tempos, enfrenta o local aparentemente universal. De alguma forma, podemos dizer, trabalha com dimensões universais. E fazendo frente à lei universal (essa que diz que os imigrantes ilegais não podem oferecer ajuda, que devem ser entregues às autoridades), ele enfrenta a lei pequena, a lei do próprio lugar: a lei do mar que diz que se um homem vem do mar pedindo ajuda, esse homem, seja quem for, deve ser ajudado. O passado, neste caso, parecia ser mais atual, mais humanamente futurista que o próprio presente. E é aqui onde volta essa ideia do passado e o presente confrontando-se com a cultura, como política, como ética na alma das pessoas. São duas maneiras de estar no mundo que se confrontam, duas maneiras de pensar, de ver e de viver o humano. Porque não somos ilhas, porque estamos rodeados de pessoas, pessoas que chegam por todas as partes. Por isso somos terra firme, mas às vezes, lamentavelmente, terra doente.

Terra à Vista, sábado, 14 de dezembro.

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