Sr. Ninguém, ou a memória da alma

por max 16. outubro 2012 10:50

 

Os temas da alma e da memória não são novos. A memória, a lembrança, a construção da alma através da memória é fundamental para o ser humano. Borges disse, em seu conto "O imortal", que a morte nos faz (nós, mortais) preciosos e patéticos ao mesmo tempo. Porque temos a consciência da morte, fazemos tudo como se fosse a última vez. "Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do aleatório", disse Borges. Sermos belos e patéticos diante da morte nos torna criadores de histórias. Porque nascemos uma vez, porque morremos só uma vez e porque não temos mais do que uma vida, cada um de nós precisa renovar-se constantemente. Somos todos novos no mundo e precisamos de histórias, de memória, das lembranças, para sentir que vivemos. É uma das maneiras mais profundas de encontrar sentido na vida. A partir disso, por exemplo, no conto de Borges, o imortal Homero se apresenta como uma espécie de troglodita que desenha símbolos na areia. Aquilo que desenha e apaga não é uma língua, é o nada. O troglodita parecia estar vazio, porque sua imortalidade havia se esvaziado. Borges disse que, nos imortais, a história, cada ato do homem, é apenas "o eco de outros que o antecederam no passado, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que, no futuro, vão se repetir até a vertigem." A lembrança na imortalidade é inútil, conjectura entrelinhas de Borges. Trago aqui também, rapidamente, o vampiro de E. Elias Merhige em seu filme A Sombra do Vampiro (The Shadow of the Vampire, 2000). Aquele vampiro, interpretado por Willem Dafoe, em certo momento comenta que perdeu a memória, que já não pode se lembrar de suas origens, que passou tempo demais. O esquecimento engole o imortal que já nem luta contra essa falta de lembranças para perpetuar a memória, para dar sentido a sua vida.

No filme Sr. Ninguém (Mr. Nobody, 2009), percorremos os mesmos caminhos. Para Nemo (nemo nullius, em latim significa ninguém) falta pouco para morrer, ele vive no ano 2092, em um mundo onde os homens conseguiram um tipo de imortalidade, às custas de não viver, de não tomar decisões, de permanecerem estáticos. Mas este Nemo que vai morrer começa a contar sua história. Uma fascinante história que dura mais de cem anos e, até mesmo, mais que uma vida. Rapidamente, percebemos que os relatos de Nemo oscilam entre a ficção e as lembranças. Mas, por acaso, essa lembrança não é uma ficção? Por acaso, as histórias que contamos sobre nós mesmos não são um incessante preencher de vazios, vazios que são esquecidos? O interessante aqui é que Nemo, que certamente viveu muito e, como se contou, viveu mais de uma vida, também compartilha os reveses do esquecimento. Esses esquecimentos se transformam nas vidas vividas, em toda sua possibilidade, em universos paralelos. Nemo é o último ser humano nessa raça do futuro que vive trancada em seu medo de morrer, que vive paralisada e sem memória em uma falsa eternidade. Nemo é a vida, a vida preferível, vida melhor, mesmo que envolva a morte.

Jared Letto faz uma excelente interpretação, variando os diferentes Nemos que existem no filme. O cineasta belga Jaco Van Dormael (Um homem com duas vidas/Toto The hero, O oitavo dia/The Eighth Day) dirige este drama, ou talvez essa comédia leve de ficção-científica, com um tom delicado e metafísico, e com ritmo fluido apesar dos vai-e-vens entre as histórias Tudo o que começa com uma criança em um caminho, no qual precisa decidir entre sua mãe e seu pai que se separam, vai logo se ramificando em uma espécie de percurso pelos mundos da física quântica e dos mundos paralelos, o que nos faz refletir, através do que é narrado, sobre os temas da memória, do esquecimento e da imortalidade.

Um filme que comove e, ao mesmo tempo, alegra; um filme cheio de luz, Sr. Ninguém. Assista este mês. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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