Lunar, a referência de Duncan Jones

por max 7. março 2013 04:30

 

Lunar (Moon, 2009), primeiro filme de Duncan Jones, não situa um momento exato no futuro em que o lado escuro da lua é uma imensa mina de onde é extraído um material conhecido como Helio-3, indispensável na Terra para o funcionamento dos reatores de fusão que movem a civilização. Estamos em uma grande operação controlada por uma corporação, que está sob o cuidado de um único homem, pois a base e as três escavadoras são totalmente computadorizadas e robotizadas. Sam Bell (Sam Rockwell) é apenas o fator humano necessário para manter a operação. Existe um contrato de 3 anos e a única companhia é GERTY, um robô com inteligência artificial com a voz de Kevin Spacey. A história nos coloca no momento em que está chegando o período do fim do contrato. Em duas semanas, Sam espera voltar para casa. Mas antes, algo estranho acontece. Sam começa a ter visões, que lembram um pouco o clássico Solaris (1972) de Andrey Tarkovskiy. Tanto em Lunar como em Solaris, a alucinação é uma imagem agradável, uma espécie de urgência da mente, a projeção de uma necessidade. De que algo não está bem na cabeça. No entanto, enquanto em Solaris, a ocorrência de alucinações femininas e a concretização é parte fundamental da trama, no filme de Duncan Jones parece ser uma homenagem ao próprio Tarkovskiy. Embora também, devo dizer, é um indício do que está prestes a acontecer com Sam. Ele está sofrendo um desgaste e a aparição de uma mulher é parte desse desgaste..

As referências do filme estão, sem dúvida, muito presentes no filme de Duncan Jones. GERTY nos leva ao HAL de Kubrick. Como HAL, GERTY controla o mundo de Sam, ele busca facilitar, mas ao mesmo tempo, o controla. GERTY, como HAL, é a marca do poder, que faz os moradores da estação espacial nos dois filmes lembrarem que não são eles que mandam no lugar, que os humanos estão ali porque alguém os mandou, alguém de longe, mas alguém com poder.

Um erro de GERTY permitirá que Sam descubra uma terrível verdade. As máquinas, em seu correto funcionamento, não são a realidade, mas a perpetuação de um estado de confinamento confortável. Quando estas falham, se abrem as portas do que é verdadeiro, do que está por atrás de tudo, das maquinações do poder. Um erro de GERTY e uma avaria na escavadeira levarão Sam a descobrir o outro homem dentro da cabine escavadora, um homem inconsciente que, uma vez de volta à base, torna-se idêntico a ele. Aqui está a questão do dublê, mas a partir do ponto de vista da ficção científica. Aqui o dublê abre caminho para o clone e um profundo drama moral nos lembra Blade Runner – O Caçador de Androides (Blade Runner - 1982), a ansiedade dos replicantes de Blade Runner, a busca pelo que somos. Tanto Blade Runner como Lunar giram em torno dessa pergunta. Por que somos seres humanos, o que nos faz seres humanos? Estas perguntas, claro, são extensivas ao clone, à réplica. Será que o clone não é um ser humano? Porque foi criado a partir de outro e tem uma vida limitada e falsas recordações, deve ser tratado como um objeto, como um simples signo reproduzido? Um signo que nasceu de um original, não é um signo independente, com vida própria, uma constituição espiritual nova e distinta? Isso que nos faz distintos, cheios de sentimentos e de vozes próprias, não é o que nos torna humanos?

Lunar bebe da grande tradição da ficção científica cinematográfica, e por que não, literária, mas permanece no traçado único (não clone). Duncan Jones conhece essa tradição, beber dela é fazer uma homenagem e criar seu próprio mundo, sua própria história, seu próprio complexo de signos. Para Duncan Jones, filho do grande David Bowie, não é estranha a bagagem cultural da alucinação interestelar. Bowie interpretou em 1969 o eterno réquiem de Major Tom em "Space Oddity", Duncan Jones apresenta uma peça inteligente, de um só ator que brilha em seu papel, e construiu essa história solitária e obscura de referências cinematográficas e temática do próprio gênero. Em seu primeiro filme, não é um novato fazendo o que dá com a ficção científica.

Lunar é uma peça culta, mas com um toque adequado de intriga, que nos mantém firmes na cadeira, presos com força e não seremos lançados no espaço, perdidos, como Major Tom.

Lunar, de Duncan Jones, quinta, 7 de março. Ficção científica, clones, referências culturais, intriga, suspense. O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

arquivos
 

nuvem