MicMacs – Um Plano Complicado, ou Jeunet e o seu estilo inconfundível

por max 6. outubro 2011 15:07

 

Meu pai saiu de viagem um dia e voltou com um filme. Tratava-se de Delicatessen (1991), em VHS, claro que em VHS. Eu não podia acreditar, que maravilha. Estava desfrutando do filme mais grato e original que tinha assistido na minha vida, uma obra de arte que falava para mim, que era como eu. Este jovem de vinte anos queria viver no mundo de Delicatessen, queria escrever assim, fazer cinema desse jeito. Lembram-se da cama chiando com ritmo musical? Lembram-se do genial palhaço de Dominique Pinon? Lembram-se dos trogloditas saindo do esgoto? Lembram-se dessa maravilhosa comédia negra? Seu diretor era um tal Jeunet et Caro. Na realidade não era só um, isso eu descobri logo. Eram dois: Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Um par de franceses nascidos nos anos cinquenta, Jean-Pierre no 53, Caro no 56. Mas para mim eram tão jovens como eu. Nesse mesmo VHS havia um curta-metragem. Assisti logo depois do filme e terminei de me deslumbrar. Tratava-se de Foutaises (1989), um curta-metragem onde Dominique Pinon falava das coisas que gostava e das que não. Por sempre lembrarei que uma das fobias do enumerador de gostos eram as barbas sem bigodes. Desde esse dia, quando vejo uma barba sem bigodes, só posso rir. Certo que uma barba sem bigodes é coisa feia.

Depois, em 1995, veio The City of Lost Children, outra obra maestra, apocalíptica, dirigida por ambos. De novo essas cores, o amarelo, o marrom e o sépia rasgado (não sei o que é um sépia rasgado, mas eu gosto) contribuindo à atmosfera, aos cenários alucinantes, aos enquadramentos incríveis que com tudo não pareciam pretensiosos. E a história, uma história cheia de ação, ternura, assombro. Tudo baixo a batuta do forçudo e lacônico One, interpretado pelo grande Ron Perlman, ator de culto, o inesquecível e inobjetável Salvatore em The Name of the Rose (1986) e o único e original Hellboy (por lembrar somente os seus papeis substanciais).

Já em 1997 a dupla de criadores decide se separar e Junet aparece em Hollywood fazendo Alien: Resurrection. Digamos que não foi o melhor, mas também não esteve mal. O certo é que em 2001 volta às suas raízes francesas com Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, uma história de amor carregada de ternura, cheia de magia, detalhes, humor e fragilidades. Audrey Tautou não podia ficar melhor nesse papel, e Jeunet, já um pouco mais separado dos grandes cenários de Caro, põe seus pés em Paris para recriar esta história insígnia da juventude daquele tempo. Amar Paris, amar o amor, amar a Tautou, amar a Jeunet. Ao Jeunet que voltava como um dos diretores mais interessantes do panorama internacional.

E claro é que, se conseguiu se dar tão bem com Tautou, e no passado tão bem com Pinon, então por que não uni-los, por que não fazer outra original história de amor.

Un long dimanche de fiançailles (2004) foi o nome daquela nova experiência. O resultado foi satisfatório e ao mesmo tempo similar, demarcado na linha e estilo do cineasta. Humor combinado com ternura e aventuras, personagens únicos, cenas inusitadas e cores contrastantes.

Cinco anos depois, Jeunet estreia novo filme. Dessa vez trata-se de MicMacs – Um Plano Complicado (Micmacs à tire-larigot). Estamos falando do ano 2009, e de uma obra de caráter coletivo, tipo Delicatessen, cheia de personagens fascinantes, cada um mais estranho e mais maníaco do que o outro, com um tal Bazil à cabeça, interpretado pelo ator Dany Boon (Bienvenue chez les Ch'tis). O assunto é que Bazil ficou órfão por causa de uma mina, e, além disso, tem uma bala alojada na cabeça. Quer dizer, as armas e o Bazil não se dão muito bem, e este detalhe será muito importante na história, pois é o que levará ao nosso protagonista a se aliar com um bando de indivíduos que, juntos, acabarão tentando um boicote contra a indústria armamentista.

Assim Micmacs acaba sendo uma excelente comédia satírica, de alguma forma uma volta a Delicatessen, uma joia da fantasia carregada de humor negro, com tema social marcado e, disso que ninguém fique com a dúvida, marcado também com o já muito definido estilo de Jean-Pierre Jeunet.

MicMacs – Um Plano Complicado, nesta segunda-feira 10 de outubro, na Max.

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