As Acácias, ou crescer na estrada

por max 13. julho 2012 14:13

 

A estrada é, na verdade, uma metáfora de experiência de vida. Aquela que, certa vez, foi o mar de Ulisses, o caminho dos peregrinos, do Quixote de la Mancha, ou a falta de rumo do Louco do Tarô, é hoje uma estrada asfaltada. Jack Kerouac fez da estrada uma experiência existencial e literária. O cinema de Hollywood desenhou o roadmovie e Dennis Hopper, Jack Nicholson e Peter Fonda foram lançados em uma viagem de loucura juvenil. Também aconteceu com Warren Beatty e Fay Dunnaway interpretando Bonnie e Clyde, e Susan Sarandon e Geena Davis em seus papeis em Thelma e Louise, duas garotas que, literalmente, se jogaram na estrada em um filme de Ridley Scott. Uma das histórias de estrada mais comoventes e assustadoras dos últimos anos é, exatamente, La Carretera, de Cormac McCarthy, romance com o qual o autor obteve o prêmio Pulitzer. No mundo de McCarthy não há carros, ou se há, estão estacionados na grande rodovia do mundo. Pai e filho percorrem a estrada, fugindo da desolação e dos humanos que, mortos de fome no pós-apocalipse, comem-se uns aos outros. Um romance sobre o fim do mundo, uma obra de crescimento ou bildungsroman, como dizem os alemães. E é bem isso, na estrada crescemos, na estrada somos nós, nos descobrimos. A estrada nos desnuda e nos confronta com quem somos.

As Acácias (Las Acacias, 2011), primeiro longa-metragem de Pablo Giorgelli, também utiliza a estrada para contar uma história de crescimento interior. Sem estridência, sem grandes movimentos de câmera, com silêncios, gestos e expressões de rosto, Giorgelli apresenta um calado motorista de caminhão (Germán de Silva), que saiu do Paraguai e chegou à Argentina, levando uma mulher e sua filha (Hebe Duarte e o bebê Nayra Calle Mamani). Neste pequeno cenário centra-se Giorgelli para confrontar, sem pirotecnias, os mundos de seus personagens. A mulher que abre o homem, o homem que se abre diante da mulher, a estrada como balão de ensaio, o por do sol, a paisagem, o caminho sem fim. Giorgelli conta que trabalhou no roteiro por mais de dois anos e na montagem por sete meses. Foi um trabalho de depuração, um trabalho de essências. O personagem cresce e se desfaz de preconceitos, de rudezas, de crostas, o personagem feminino também mostra seu lado escondido, e o diretor faz tudo com respeito, com tamanha delicadeza, que o resultado final é a pura alma, sem sentimentalismo.

As Acácias recebeu o prêmio Camera D´Or em Cannes. Domingo, 15 de julho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Jack Nicholson, ou um cara diabólico

por max 10. novembro 2011 05:03

 

Se fizéssemos cartas de Tarô com atores de Hollywood, certamente Jack Nicholson seria O Diabo. Mas claro, seria um diabo com sorriso dissimulado, brincalhão, simpático, sedutor, herdeiro desse Satanás que começou a configurar-se, pode-se dizer, desde o Renascimento, quando o homem começa a tomar consciência de si mesmo, de sua individualidade, pelo menos no que refere-se à arte. Tal como disse Rüdiger Safranski em Le Mal, o homem do Renascimento continua sua reflexão sobre Deus, que agora se acentua com orgulho consciente na "criação e liberdade que gritam nele". Safranski disse que era esse criacionismo, essa necessidade de criar mundos do nada, do sem forma, esse colocar-se à altura de Deus, "não podia ser considerada menos do que uma suspeita de heresia." O homem, necessitado de liberdade e criação, resultava maligno. Não é de se estranhar, então, que começara a configurar-se uma ideia distinta do mal, e por isso mesmo, do demônio. Os românticos também acreditam no descenso e vivem com o olhar vidrado no mistério. Esse caminho, obviamente, é obscuro. Por volta de 1800, as visões do mal já são outras. A visão do diabo também. No entanto, tal como disse Umberto Eco em A História da Beleza, já em 1667 John Milton redime Satanás, identificando-o como um modelo de rebelião contra o poder. Percy Bysshe Shelley, em 1882, por sua vez, diz em seu Defesa da Poesia que o demônio de Milton é superior ao Deus que ele enfrenta. Escreve Eco: "Satanás não se arrepende no sentido da honra, não aceita submeter-se a quem ele tenha vencido, e se nega a pedir perdão: "Melhor reinar no inferno do que servir nos céus". Estamos falando de um ser que nega entregar-se à escravidão, da energia de rebelião, um ser livre, um ser profundamente humano. Como não identificar-se com o anjo caído, com o libertário? Não esqueçamos que a mesma ideia do Iluminismo trai a semente da obscuridade. Ali está o homem culto, que enaltece sua inteligência, sua razão, ele que vai contra os poderes estabelecidos, do Estado monárquico. O demônio simpático se esgueira por baixo da porta. Com Jacques Cazotte e O Diabo Enamorado, a criatura do mal é uma mulher sedutora, apaixonada. Em Goethe, tal como apresentava Eco, mostra-se como um homem corretamente vestido, clérigo errante, intelectual. É um diabo dialético e convincente que atua sobre Fausto "como o gato com o rato". No século XX, Eco continua, esse diabo será completamente "laico". Em Os Irmãos Karamazov, é um gentleman russo. Para Giovanni Papini, é alto e magro, para Anthony Mann veste um boné inglês e parece um vagabundo com a voz e a dicção de um ator... Percebeu? Mann nos fala de um ator.

Nicholson, sem dúvida, acabou sendo o herdeiro, esse magnífico ator diabo. Com mais ou menos poder, com mais ou menos véus, Nicholson sempre interpretará, dará à luz aquele demônio que também grita na escuridão, com seus olhos. Inclusive, ele foi o diabo em pessoa em As Bruxas de Eastwick (1987), encantador, orgíaco, mas também um demônio cheio de maldade. No entanto, sua obscuridade mais demoníaca ele deixa brotar em O Iluminado (1980). O demônio da abstinência e o demônio da loucura possuem-no nesse filme de Kubrick, e levam-no a circular pelos salões do hotel Overlook com abertas conversas com seres condenados, malditos, diabólicos. Mesmo quando fez o astronauta aposentado em um drama, ele tinha algo de demoníaco. Sem falar de seu Coringa em Batman, de Tim Burton. Esse Coringa é um diabo que ri, e o riso, já havia dito Baudelaire, sempre teve algo de demoníaco, de espírito livre. A maldade de Nicholson fascina. É uma maldade que estava nele e que ele aprendeu a explorar desde seus primeiros filmes B com Roger Corman. Ali esteve durante quase uma década fazendo filmes de baixo orçamento. No momento em que começa a pensar em Sem Destino (Easy Rider), Jack não tinha grandes esperanças de sair daquele buraco existencial. Muito menos se esperava que Sem Destino se convertesse em um enorme sucesso de bilheteria. Era um filme de contracultura, concebido por um dos loucos cabeludos, com barbas e roupas encardidas, que bebiam sem parar, que fumavam maconha de montão e que usavam todo o tipo de droga. Para Peter Fonda nada importava, além de estar sobre sua nuvem de psicotrópicos, e Dennis Hopper estava "muito chapado", andava com duas armas e achando-se o diretor mais talentoso do universo. Conta-se que as filmagens durante o Mardi Gras foram um desastre. Toda a equipe abandonou Fonda e Hopper, e no final, totalmente drogados, ambos acabaram brigando no cemitério. Aquela desavença duraria somente até que as filmagens terminassem. Nicholson, por sua vez, conta que passou todo o filme fumando maconha. Na famosa cena do fogaréu, garante que estava absolutamente drogado.

A montagem não foi menos desastrosa. Hopper pensava que havia feito uma obra magnânima, queria uma edição de quatro horas. Fonda se queixava dos montadores também. Mas, no final, as coisas se encaixaram e o filme deles tinha feito história. Estava nascendo a nova Hollywood, a contracultura atacava, as pessoas queriam uma nova arte. Sem Destino foi um grande sucesso comercial e cultural. Havia custado 500 mil dólares e terminou faturando 19 milhões de dólares, mais o prêmio de Melhor Filme de Diretor Estreante em Cannes. Cada um teve seu quinhão: Hopper transformou-se em grande diretor, Fonda no ator roteirista, e Nicholson, que no filme aparecia em um primeiro momento como um homem diminuído, nada interessante, demonstrou do que era capaz quando explodiu, com toda sua obscuridade demoníaca. Desde então, continuou surpreendendo como em Chinatown, Cada Um Vive Como Quer (Five Easy Pieces), Um Estranho no Ninho, entre outros tantos que fizeram dele um dos atores mais importantes do cinema norte-americano. Como bom filho do Actors Studio, Jack Nicholson soube tirar proveito de suas obscuridades e de seus medos, mas sempre mostrando, no rosto, esse ar mefistofélico muito particular e, com isso, tem nos mantido hipnotizados, até hoje.

Não precisamos dizer mais nada; nesta quinta-feira, 10 de novembro, dentro do ciclo Ícones do Cinema, teremos, claro, Jack Nicholson em... Sem Destino. Não perca.

Descubra seus ícones do cinema, descubra Max.

Chelsea On The Rocks, o hotel dos furacões da alma

por max 24. setembro 2011 04:36

    

Abel Ferrara nasceu no Bronx, é um nova-iorquino com todos da lei. De nascimento, herança de sangue, correndo em suas veias italiana e irlandesa (é possível ser mais Yorker?).

Roteirista, diretor, ator, produtor, Ferrara é um dos diretores-chave na história do cinema americano na década de oitenta e noventa, herdeiro, por assim dizer, do chamado novo cinema americano dos anos setenta, cheio de realismo e violência. Ferrara é a violência dramática ao extremo, filho de Scorsese, de alguma forma. Os dois unem o tema da violência com os temas da cidade de Nova York. Ferrara ficou conhecido no final dos anos setenta (em 1979) com o filme The Driller Killer. Sua personagem era um pintor louco pelo peso da realidade, que saia à noite para encher as mãos de sangue nas ruas de Nova York. Note que este, seu primeiro filme, foi dirigido pelo mesmo Ferrara. Em seguida, vêm Ms. 45 (1981) e Fear City (1986), dois filmes onde a violência da cidade gira em torno das mulheres. No primeiro, uma jovem muda é estuprada duas vezes no mesmo dia e decide tomar a lei nas suas mãos. No segundo, um psicopata anda solto matando nudistas. A rua, à noite, a violência, a loucura, Nova York. Ferrara entra no submundo, nos esgotos, nos becos escuros, olhando para as pessoas: o cafetão, a prostituta, a viciada em drogas, a polícia decadente. A rua é um lugar difícil, e Ferrara sabe retratar isso. Nos anos noventa, atingiu pontos altos em King of New York (1990) e Bad Lieutenant (1992). No primeiro com Christopher Walken, no segundo com Harvey Keitel. Ambos são considerados seus melhores filmes, especialmente Bad Lieutenant.

Em 1996, Ferrera se reúne com Walken em um de seus filmes mais representativos, The Funeral. Então, em 1998, faz um dos filmes de ficção mais estranhos: New Rose Hotel, um filme baseado em uma história do autor de ficção científica William Gibson, também estrelado por Walken, e Willem Dafoe. Em 2008, Ferrara empreende no gênero documentário. Seu primeiro trabalho é um grande sucesso. Com Chelsea on the Rocks, o cineasta volta a Nova York, seu eterno Nova York. Volta da mesma maneira, aos começos da exploração da personalidade artística. Que melhor lugar para falar de Nova York, que aquele onde passaram pela cidade, grandes artistas, glórias e sombras que o Chelsea Hotel? Este lendário hotel, localizado na 222 West 23rd Street, entre Seventh e Eighth Avenue. O hotel tinha quartos de longa duração, onde as pessoas podiam morar com seus livros, panelas, máquinas de escrever e instrumentos musicais. Nos quartos de curta e longa, estiveram uma série de artistas que passaram à história: Leonard Cohen, Dylan Thomas, Bob Dylan, Janis Joplin, Arthur C. Clark, Patti Smith, Robert Mapplethorpe, Andy Warhol, entre outros, foram os inquilinos de Chelsea. Lá amaram, discutiram, beberam, usaram drogas, criaram arte e houve assassinatos. O Hotel Chelsea era uma espécie de vórtice, de furacão de arte, um lugar que para alguns pode ser escuro, para outros brilhante, depende dos olhos de quem vê. Ferrara, em Chelsea on the Rocks utiliza uma grande quantidade de material de arquivo, o que naturalmente é abundante, sendo um lugar tão famoso, mas também explora os trabalhadores e ex-trabalhadores do hotel, os atuais moradores, os peritos, olhando anedotas famosas e íntimas daqueles que trabalharam lá, pessoas sem muita fama, mas com algo interessante a dizer. Entre os entrevistados estão Dennis Hopper, Milos Forman, Robert Crumb, Ethan Hawke, e Grace Jones.

Um filme, sem dúvida, perfeito para Abel Ferrara, o artista das profundezas da alma e as obscuridades e as luzes de uma Nova York que se transforma e não sabemos quantas mutações mais terá. Na verdade, o filme serve para lembrar que hoje o hotel fechou suas portas, e seu futuro é totalmente incerto.

Chelsea on the Rocks, este domingo, 25 de setembro, na Max.

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Ciclo de Filmes B de Terror, segunda quinta-feira com A Pequena Loja Dos Horrores

por max 7. setembro 2011 11:18

 

À meia-noite, quando aparecem os fantasmas, monstros, vampiros e bruxas, à meia-noite, quando as portas ficam abertas para o além, para a dimensão desconhecida, Max continua a sua série especial de Filmes B e desta vez nós traz o filme A Pequena Loja dos Horrores (The Little Shop Of Horrors, 1960), um clássico, um filme de terror, temperado com humor pelo mestre do cinema B, o grande director Roger Corman.

Corman atingiu uma categoria que muitos querem e poucos conseguem: diretor de cinema cult. Porque ele é isso definitivamente, um diretor cult. Um homem teimoso, que tem estado apaixonado pelo cinema de horror, ficção científica, westerns, filmes eróticos e mais, por muitas décadas, e sempre com um toque pessoal que o posiciona acima de toda a mediocridade. Com Corman também começaram diretores e atores de talento reconhecido. Entre os diretores estão Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Ron Howard, Peter Bogdanovich, e entre os atores Jack Nicholson, Peter Fonda, Dennis Hopper e Robert De Niro, entre outros. Corman também trabalhou com Vincent Price e Boris Karloff quando a sua carreira não estava no melhor momento (assim o produtor diretor tinha um grande ator por baixo custo). Corman é o mágico dos baixos orçamentos, que se aproveitava e usava os estúdios vazios dos outros filmes para fazer o filme dele, foi o diretor que fez filmes em um piscar de olhos.

Corman começou como mensageiro, então se tornou um analista de roteiros e finalmente em 1955 começou a fazer filmes. Se você visitor a IMDB, você verá o listado onde ele aparece como produtor de 396 filmes e diretor de 56. Supostamente se aposentou no início dos anos setenta, mas não é verdade, Corman continuou produzindo e em 1990 dirigiu Frankenstein Unbound. Roger Corman fazia filmes a toda velocidade, não parava. Um de seus filmes de maior sucesso, na verdade, foi filmado em dois dias e uma noite. Corman e o roteirista escreveram o roteiro em uma sessão e depois, o filme foi ensaiado durante três dias e finalmente, foi feito no tempo determinado, com um ou outro material extra duas semanas depois. Sabe-se que Corman filmou com três câmeras de uma só vez, sem repetir tomadas (naquels dois dias, mas depois teve que repetir e filmar algo a mais) e não prestando muita atenção à iluminação. O cenário utilizado foi o de um filme que estava prestes a começar a ser filmado; Corman fez algumas mudanças no cenário e assim ficou pronto para filmar. O filme custou entre 20 mil e 30 mil dólares. Como informação adicional a esta lista de curiosidades, o filme foi o quarto do ator Jack Nicholson e o primeiro como ator de Roger Corman.

A Pequena Loja dos Horrores é considerado o clássico dos clássicos do cinema B. Em 1986 foi feita uma versão do filme com os atores cômicos daquele momento (Rick Moranis, Steve Martin, James Belushi, John Candy, Christopher Guest, entre outros) e ainda passou por uma versão da Broadway que foi um sucesso. Aparentemente, há uma outra versão para o cinema em caminho.

A Pequena Loja dos Horrores, não perca a série de filmes B, meia-noite, quinta-feira, 8 de setembro na Max.

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