Lado a Lado, ou Neo perguntado pelos artesãos

por max 10. dezembro 2013 14:42

 

É curioso: aquele ator que interpretou Neo na trilogia Matrix algum dia se perguntou pelo futuro do cinema analógico. Ou melhor, do filme, do formato 35mm e de todos os outros formatos que vêm em rolos. Keanu Reeves, um dos atores que melhor representam no mundo a metáfora de ser digital, de ser virtual, foi quem se preocupou. Neo quis saber e perguntou.

O filme vai acabar? O cinema, a película do cinema morreram? Assim pensou e saiu perguntando a todos e depois montou um documentário chamado Lado a Lado (Side by Side, 2012). Reeves foi o produtor e o entrevistador e Christopher Kenneally dirigiu.

Os entrevistados foram David Lynch, Martin Scorsese, Steven Soderbergh, David Fincher, Robert Rodríguez, James Cameron, Danny Boyle, entre outros.

O que responderam? Assim como indica o nome do documentário, parece haver um pensamento paralelo. Certa resistência, mas também uma total aceitação dos novos formatos, das suas possibilidades e de suas novas portas. Também a nostalgia se soma e a palavra "arte" abre suas portas. Como sabemos, a arte sempre tem uma vertente de significados que se detém na ideia do artesanal. É desse trabalho dedicado, detalhista e sereno que resultou algo feito a mão. Em Lado a Lado esse tema "artesanal" está ali e se confronta com os cineastas para gerar neles uma espécie de consciência de culpa, digamos, uma espécie de nostalgia do paraíso perdido que perturba suas mentes, apesar de eles terem se aberto completamente para o cinema digital. Neo veio do futuro e trouxe suas perguntas e os artistas responderam. Neste documentário, estão suas respostas.

Lado a Lado, terça, 10 de dezembro.

O que você vê quando vê o Max?

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Top of the Lake, nova série no Max

por max 10. setembro 2013 13:42

 

Uma pequena cidade, tranquila, perfeita, uma cidade daquelas para ficar entediado. Essa cidade se chama Twin Peaks e fica a nordeste do estado americano de Washington. David Lynch há tempos desperta esses demônios. Ele fez isso com Veludo Azul (Blue Velvet, 1986) e depois levou o estilo para a televisão, com a famosa série onde Laura Palmer era o objeto das investigações do detetive particular Dale Cooper. O cineasta introduziu na televisão dois elementos fundamentais de sua cinematografia: a podridão que se esconde atrás do que é aparentemente sereno e o grandioso, o sublime, a paisagem fantástica. Ao contrário das visões New Age de hoje em dia, e daquelas que falam da Mãe Natureza e todo esse monte de coisas cheias de luz, Lynch nos aproxima de uma ideia mais obscura da terra e da paisagem. Digamos que ele nos confronta com a natureza que nos aproxima do dionisíaco, de uma imagem da terra profunda, misteriosa. A natureza como o lugar onde se movem forças desconhecidas que o ser humano nunca compreenderá. Essa obscuridade da terra se equipara à obscuridade desta alma, essa outra floresta desconhecida.

Seguindo com essa herança, surge a série de sete episódios Top Of The Lake (2013) da diretora neozelandesa Jane Campion (O Piano – The Piano; O Brilho de Uma Paixão – Bright Star). Assim como em Twin Peaks, a série começa com uma ruptura no meio de uma paisagem. Enquanto Laura Palmer aparece flutuando em um rio, em Top Of The Lake uma garota de 12 anos chamada Tui (Jacqueline Joe) aparece caminhando perdida pelos arredores de um lago que fica ao redor de uma cidade chamada Paradise. Como se vê, a água, em ambas as séries, é o ponto de partida. A água, o grande olho da natureza, a grande testemunha da atrocidade. O nome do lugar, Paradise (paraíso), também nos faz pensar nesse paraíso natural que era a cidade de Twin Peaks, lugares que aparentemente têm sidos tocados pelo mal. Mas já sabemos o que aconteceu com Adão e Eva, já sabemos da serpente. Mas voltemos à série: Tui tentou se afogar neste lago ao sul da Nova Zelândia; Tui foi estuprada. Assim começa o mistério e então aparece a figura da lei: no caso da série de Jane Campion, é a detetive relativamente inexperiente e novata, Robin Griffin (Elisabeth Moss, de Mad Men). Também há outra personagem que não parece ter grandes funções na trama, mas nem por isso é menor: falamos de GJ, interpretada por Holly Hunter, a atriz com a qual Campion conheceu as alturas da fama em O Piano (The Piano). GJ é uma mulher enigmática que sai por aí dizendo que está morta, fumando sem parar e acompanhada de um grupo de mulheres que afirma estar lá para encontrar a reabilitação após serem abusadas ou abandonadas. GJ e suas mulheres não são fáceis e logo entram em choque com o traficante da região, o terrível Matt Mitcham (Peter Mullan). Claro, não será fácil. A detetive, entretanto, não tem muito futuro. Em uma reviravolta, ela descobre que Tui é filha de Mitcham, o traficante. A droga e seu poder estão em toda parte. A droga como um elemento profano, corruptor. A droga, cabe dizer, em algum momento da cultura foi um elemento sagrado para entrar em contato com os deuses, com os deuses que estavam na floresta, na selva, na natureza. Ainda hoje é assim para algumas tribos do interior da Amazônia. Mas, neste caso, a droga é o contrário, uma perversão. Mitcham é um cara perigoso, um homem que chegou há tempos no paraíso e se dedica a destruí-lo. Não se deixe enganar. A paisagem é serena, mas também fria... como certas versões do inferno. A detetive não só vai encontrar um importante detalhe, como também acontecerá um novo fato: Tui vai fugir das mulheres furiosas e, durante uma manhã, desaparecerá sem deixar vestígios. Em seguida, finalmente, tudo se tornará mais complicado. Ou melhor, tudo irá para o inferno.

Quer saber mais, quer mergulhar na história desta série? Então não perca quarta-feira, 11 de Setembro, a estreia exclusiva de Top Of The Lake. Manias, sem contra-indicações. As melhores séries de todas as partes do mundo estão no Max.

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Beleza Adormecida, ou a sorte de Julia Leigh

por max 15. março 2013 13:17

 

Julia Leigh, diretora de Beleza Adormecida (Sleeping Beauty – 2011), é uma mulher de sorte. Tem 42 anos, é australiana (o que pode não ter a ver com sorte, mas é preciso dizer), uma reconhecida romancista e também diretora de cinema. É jovem, mas antes de ser a jovem que é hoje, antes, quando era ainda mais jovem, ganhou o Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative, uma espécie de bolsa de estudos das letras que é realizada sob a orientação de um escritor renomado; e no caso de Julia, ela teve a assessoria do romancista ganhador do prêmio Nobel, Toni Morrison. Seu primeiro romance, O Caçador (The Hunter), foi traduzido para nove idiomas, e também transformado em filme por Daniel Nettheim (com Willem Dafoe e Sam Neill nos papéis principais).

Julia Leigh contou que a partir do sucesso de O Caçador, começou a sonhar com alguém, uma espécie de demônio, observando-a enquanto dormia. O sonho lembra o filme A Estrada Perdida (Lost Highway) de David Lynch. Em A Estrada Perdida, os personagens protagonistas (Patricia Arquette e Bill Pullman) recebem um vídeo onde descobrem que são gravados enquanto dormem. E também podemos lembrar Caché (2005) de Michael Haneke, onde Juliette Binoche e Daniel Auteuil também recebem um vídeo onde descobrem que a parte de fora de sua casa é constantemente gravada. Ser vigiado, observado dessa maneira nos lembra nossa impotência. Somos vulneráveis diante de olhares espiões. Esses olhares têm poder sobre nós. É um poder, é o poder.

Julia Leigh ficou com a ideia desse sonho-demônio em sua cabeça e, um tempo depois, fez seu primeiro filme: Beleza Adormecida (Sleeping Beauty), título que, sem dúvida, nos remete aos contos de fadas, como A Bela Adormecida, mas também a assuntos muito mais perversos (um conto de fadas já é perverso).

Leigh confessou em uma nota sobre o filme que já conhecia Memória de Minhas Putas Tristes (Memoria de Mis Putas Tristes – 2004), romance de Gabriel García Márquez em que um jornalista decide celebrar seu aniversário de noventa anos dormindo com uma prostituta menor de idade. No romance, a jovem Delgadina dorme para que o idoso possa contemplá-la, só isso. Sem dúvida, existe uma influência direta e confessa.

Pelos lados da prostituição, vemos outras referências. Leigh fala da história de Salomão, que mandava trazer jovens prostitutas para sua cama. No cinema (disso Leigh não falou), contamos com A Bela da Tarde, de Buñuel. Do mesmo modo podemos ir a mundos mais sórdidos, onde a prostituição e a luxúria dos poderosos se misturam. Temos Réquiem Para Um Sonho (Requiem for a Dream – 2000) de Darren Aronofsky e De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut), último filme do grande Stanley Kubrick.

Julia Leigh apresenta uma combinação de todos estes elementos em Beleza Adormecida, a história de uma linda garota com um lado obscuro que nunca fica claro, porque não importa. Esta linda garota é Emily Browning (Desventuras em Série - Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events), que desde seus primeiros filmes se revelou como um rosto exótico, que no futuro poderia aprofundar essa perfeição em filmes de tom mais sensual. Sua participação em Beleza Adormecida é perfeita. Em seu rosto, em seu olhar, em sua delicadeza selvagem tem algo de obscuro, da noite que cai, da tentação de uma serpente interior. Por isso, não é estranho quando sua personagem Lucy aceita um trabalho particular: em troca de um bom dinheiro, ela se deitará para dormir e enquanto dorme, idosos burgueses, cheios de dinheiro, se deitam com ela e fazem o que quiserem com o seu corpo... tudo, menos penetração. Sua virilha é um templo proibido. O olhar espião está ali presente, aquele olhar que, como já disse, é poderoso.

Mas tem mais. Uma vertente dos significados do poder está relacionada com a velhice. Os idosos acumulam, ao longo do tempo, influências, dinheiro, conhecimento. O diabo sabe mais que o velho diabo. E o idoso com dinheiro é, com certeza, uma metáfora da corrupção da alma humana. Mas a esse idoso que tem tudo, algo lhe foi negado: a juventude, o corpo da juventude. Suas ânsias, nostalgias, seu desejo por aquilo que não poderá ser nunca mais, se traduz em mãos que buscam tocar a suavidade perdida. O corpo tocado se transforma em espelho do desejo. A imagem refletida.

Beleza Adormecida, domingo, 17 de março. Juventude, desejo, velhice, poder. O que você vê quando vê o Max?

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Kaboom, ou uma lista explosiva e pós-moderna

por max 14. novembro 2012 04:04

 

Niilismo

Carpe Diem

Juventude

Universidade

Sexo

Bissexualidade

Pansexualidade

David Lynch

Luis Buñuel

John Waters

Bret Easton Ellis

Ficção científica

Comédia

Gore

Cinismo

Magia negra

Conspiração

Fim do mundo

Sexo explícito (ou quase)

Surfista chamado Thor mais gay que um gay sem ser gay

Máscaras de porcos

Desaparecimentos, assassinatos

Experimentação com drogas

Mais sexo

Sexo outra vez

Cores explosivas, azul e rosa bem fortes

Transmodernidade, pós-modernidade

O universo inteiro

Explosão

Kaboom, de Gregg Araki, nesta quinta-feira, 16 de novembro.

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A Minha Alegria, ou os rastros do mal

por max 9. agosto 2012 07:56

 

Não se erradica a presença do mal da noite para o dia, muito menos se o mal esteve presente por décadas, impregnando, manchando os espíritos. O que fica, uma vez que a estrutura do mal se vai, é sua presença sutil no fundo da alma dos feridos. Um país não se recupera da noite para o dia da loucura do poder, porque em cada um dos cidadãos ficam as feridas, a desconfiança, a miséria.

O diretor ucraniano Sergei Loznitsa apresenta A Minha Alegria (My Joy, 2010), filme em que se mostram as mazelas do mal soviético, que corroeu (e que continua corroendo) a alma dos homens; uma crítica aos poderes, aos sistemas de governo submersos em suas próprias misérias. A Minha Alegria, acredito nisso, é mais um espelho do que sobrou de uma etapa fortemente opressora do que uma crítica ao sistema capitalista, mas, mesmo assim, também faz críticas ao capitalismo, pois deixa muito claro que, no presente, estão vivendo uma experiência igual, ou até pior.

A Minha Alegria é um filme com fortes referências de road movie, que desemboca em uma história própria das alucinações radicais de David Lynch. O pior é que não são alucinações, pois estamos diante de uma representação do estado das coisas.

Um homem, Georgy (Viktor Nemets), se lança na estrada conduzindo um caminhão. No caminho, o personagem se encontra com a obscuridade, a corrupção e a miséria humana; policiais corruptos, camponeses cruéis, uma prostituta menor de idade. A isto se somará a perda de memória do personagem, de quem conhecemos muito pouco, tão pouco como ele se conhecerá, e ficará somente com a estranha certeza de haver matado alguém, talvez, quem sabe.

O tema da memória é fundamental. À memória se contrapõe o esquecimento; esse esquecimento, o cineasta parece dizer, condena os seres humanos, os seus conterrâneos. O esquecimento do passado nos faz permanecer parados, e nos leva a continuar vivendo os mesmos horrores do mal, desse mal que é como uma ferida que nunca termina de fechar e que não fechará se não fizermos da memória uma ferramenta útil para o futuro.

A Minha Alegria, domingo, 12 de agosto. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Retornos, ou mais do thriller provinciano

por max 7. junho 2012 03:33

 

Retornos (2010), de Luis Avilés Baquero, me leva a pensar em David Lynch. No Lynch que se aprofunda na vida de um tranquilo povoado e que, ali, descobre a fonte do mal. Lynch em Veludo Azul (Blue Velvet, 1986), Lynch em Twin Peaks (1990-1991), Lynch em Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (Fire Walk With Me, 1992). O cineasta americano, que nasceu em uma pequena cidade do estado de Montana, cutucou tanto que encontrou uma orelha, um morto, um prostíbulo, satanismo, uma garota morta que tinha a ver com o bordel e, sobretudo, bocas que se calam entre as árvores, com os lábios bem apertados, porque guardam terríveis segredos. Lynch é um dos grandes mestres do noir do interior. Luis Avilés Baquero, da Colômbia à Galícia espanhola, trilhou esses caminhos verdes e nos apresentou Retornos, um thriller intimista (no fundo, não há nada mais íntimo que um crime) que acontece nas terras provincianas da Galícia (o filme foi rodado em Noia e em outras localidades da Corunha), um mundo fechado, pequeno, onde o passado nunca se apaga, onde a marca é imediata e onde, além disso, as pessoas preferem se calar, esconder os horrores do presente, talvez até para evitar as mesmas marcas que Caim ganhou de Abel, e ficar tranquilas, enquanto tudo, por dentro, desmorona. Não erra quem faz o mal, erra quem faz pública a sua maldade, ou seu erro com reflexos de maldade. Condena-se quem expia seus pecados, não quem comete o pecado. Isso, Álvaro (Xavier Estévez) descobrirá quando voltar a sua terra natal depois de 10 anos e descobrir que seus erros continuam vivos na mente dos outros e que, no entanto, junto com os mais breves silêncios se escondem obscuridades inconfessáveis. A volta ao inferno não será outra senão a volta à intimidade, à família, esse lugar que dá origem a todos os infernos possíveis e onde se escondem os segredos mais penosos. Pelo caminho dos romances do escritor norte-americano Ross McDonald — especialista em pecados familiares escondidos— e com este ingrediente muito lynchniano, Avilés Baquero busca a instauração da verdade por trás da violência silenciosa da prostituição imigrante, a visão tacanha, estreita, o drama familiar adúltero, o vício e a morte. Não são poucos os elementos que fazem o jogo de sombras, de espelhos e reflexos no filme de Avilés Baquero. Contudo, neste seu filme de estreia, o diretor administra com cuidado, com bom senso e respeito como fazem os grandes mestres, o que resulta em pontos a seu favor. E também, a inesquecível chuva. A chuva sempre lavando aquele que já não pode ser lavado, forjando uma redenção talvez impossível.

Retornos, neste sábado, 9 de junho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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