O Sushi dos Sonhos de Jiro, ou a arte do shokunin

por max 30. setembro 2013 08:35

 

Os japoneses são humildes. O shokunin não é um artista. Não é o artista. O shokunin é o artesão, aquele que repete várias vezes o mesmo gesto até aperfeiçoá-lo, até se aperfeiçoar, o que significa uma atividade claramente espiritual. Isso é o shokunin mecânico, carpiteiro, sapateiro, jardineiro ou cozinheiro. Alguém que, durante anos, após um enorme número de repetições chega a alcançar a perfeição de seu trabalho e de seu espírito. No mundo ocidental queremos ser artistas, o que não implica, necessariamente, que nossa arte seja perfeita. Os vanguardistas atacaram a perfeição. A arte deve ser para todos, feita por qualquer um. Devia acabar com a técnica porque a técnica, em primeiro lugar, limita a imaginação, a possibilidade do novo e, em segundo lugar, a técnica, seu segredo, seu aprendizado, tornou a arte um reduto dos que só conheciam o escritório. Contra tudo isso, a vanguarda se levantou. Levantou-se contra a tradição. No Japão, pelo contrário, a tradição é uma máquina viva, uma máquina ética e de perfeição. E digo máquina ética – e portanto espiritual -, porque o shokunin não é somente um mestre que segue os passos da tradição e busca melhorar esta arte cada vez mais, mas tudo está ligado à ideia humana de bem geral. Para o shokunin, o trabalho não é um meio de conseguir dinheiro (é possível que se torne próspero), mas o trabalho é a razão de sua existência e constitui também um impulso moral: quem realiza bem o seu trabalho o faz por um bem social, e como um exemplo para os outros.

Exatamente, o documentário O Sushi dos Sonhos de Jiro (Jiro Dream of Sushi, 2011) mostra um shokunin, Jiro Ono, dono de um pequeno restaurante de sushi localizado nos corredores do metrô de Tóquio. O diretor David Gelb mostra neste trabalho de corte simples, digamos minimalista, a vida do mestre, que é o mesmo que diz seu trabalho. Jiro só vive para trabalhar, para aprender. Depois de 78 anos fazendo sushi, confirma que continua aprendendo, que segue melhorando. Para Jiro, sempre pode melhorar, pois o aprendizado não tem meta. O aprendizado é puro movimento, prática constante. Quem acredita que já aprendeu tudo e para, está equivocado.

Com tudo o que foi dito no início, o meste do sushi representa o passado japonês, que é contrastado no documentário com o filho, que apesar de seguir a tradição do pai, também tem suas próprias ideias sobre o negócio e os tempos atuais. Não é facil ser a sombra de um grande mestre.

A dignidade, a ética, o amor ao trabalho, que é o mesmo que o amor à arte, a busca constante do aprendizado, o trabalho versus o dinheiro, a paternidade; tudo está neste documentário que vai para os meandros do metrô, para encontrar este restaurante, onde para conseguir uma mesa, pode demorar mais de três meses. Sim, três meses para se sentar ali, entre os dez privilegiados por sessão que comerão as vinte variedades de sushi que Jiro Ono e sua equipe prepararam. Jiro, ou melhor, o restaurante de Jiro, é um dos poucos restaurantes que tem três estrelas no guia Michelin. E ele sempre pode ser melhor, o que significa para Jiro, que o sushi perfeito... não existe, e portanto, sempre terá um melhor.

O Sushi dos Sonhos de Jiro, terça, 1, iniciando o mês de outubro, no Max.

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