Call girl, ou as alturas abissais do poder

por max 31. agosto 2013 03:06

 

O sueco Stieg Larsson virou moda. Sua personagem Lisbeth Salander encantou a todos. Larsson mostrou a cara podre da alta sociedade sueca dos tempos atuais. Nazismo, perversidade sexual, corrupção do alto escalão. Larsson é, sem dúvida, herdeiro de uma literatura que mistura ficção com denúncia social. Henning Mankell, através de seu personagem Kurt Wallander, expressou suas preocupações sobre a sociedade dos anos noventa. Há também, em variadas ocasiões, os crimes mais hediondos intercalados com o abuso do poder. Ou o abuso da liberdade, ou a distorção da liberdade. Porque no final o mal começa na liberdade, no uso feito da liberdade. O poder, que tem um vasto campo para se mover, geralmente é uma fonte segura para o surgimento do mal. É onde a arte ataca e é onde estes escritores suecos se estabeleceram com os romances policiais. Ou seja, não são somente produtos de entretenimento dentro do gênero policial; atrás de suas histórias também tem o reflexo de uma sociedade, os males, a corrupção e é o que une estes autores europeus com autores americanos como Dashiell Hamett e Raymond Chandler, que foram os precursores em mostrar dentro do policial a podridão social de sua época.

O filme Call Girl (2012), do sueco Mikael Marcimais, se mete nessas entranhas retorcidas do poder do alto escalão. Neste caso, está no negócio da prostituição e isso em plenos anos setenta. O tempo em que ocorrem esses eventos não é casual. Por quê? Porque nos colocamos precisamente em uma época de liberdades, de luta pela liberdade da mulher, dos direitos civis, mas também em uma época importante da Guerra Fria, onde os poderes, cada um no seu âmbito ideológico, lutavam pelo que acreditavam ser a verdadeira liberdade. Assim, entre estas duas águas turbulentas e inspirado em histórias reais (o famoso caso de moral política Bordellhärvan, do ano de 1977), Marcimais nos conduz ao longo de uma história que começa nos porões, na pobreza de duas meninas que logo são "resgatadas" do buraco, e que depois chegam às alturas do poder. Esta ascensão, podemos dizer, é paradoxal, pois sem dúvida me parece mais um descenso, uma descida às profundezas do inferno, onde as máscaras estão tomando cada vez mais a consistência de aço e onde nada pode ser revelado, porque se for, a consequência poderia ser a morte do mais fraco envolvido.

Embora começamos falando de autores de romance policial, não cabe aqui esperar um filme neste estilo. Call Girl é mais parecido com os filmes de suspense político de Sydney Lumet, ou com Sobre o Domínio do Mal (The Manchurian Candidate), de John Frankenheimer, ou mais recentemente O Espião Que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy, 2011), de Tomas Alfredson. Trata-se de um thriller político, mas com um tom mais obscuro, que nos remete também a filmes como Réquiem Para Um Sonho (Requiem For a Dream, 2000), de Darren Aronofsky. No centro disso tudo há a figura da mulher, a mulher e sua liberdade, e como essa mesma ideia de liberdade é usada em muitos casos para distorcer as almas, para perverter, para sujar, para humilhar, para satisfazer egoísmos, interesses próprios.

Call Girl, domingo, dia 1º, começando o mês de setembro. Poder, liberdade, sexo, corrupção. O que você vê quando vê o Max?

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