Cirkus Columbia, ou o báltico e o caos da liberdade

por max 9. abril 2012 12:56

 

Em alguma parte do livro The Dogs of Riga, de Henning Mankell, um personagem diz que a situação dos países bálticos sempre foi muito complicada. Desde a Segunda Guerra até os tempos da queda da URSS, estes países sempre miraram a prosperidade do Ocidente, as coisas da modernidade, os bens, os serviços, a liberdade. Tudo isto estava ali, mas não puderam tê-lo. O personagem coronel Murniers diz: "Diante disso tudo, deve-se entender que este é um país pobre, tão pobre e arruinado como nossos vizinhos. Durante anos, vivemos fechados em uma jaula, e a partir dela contemplávamos as riquezas do Ocidente como algo distante." Com a paulatina demolição do bloco soviético, a principal ordem foi reconquistar a liberdade. "A liberdade nasce do caos, senhor Wallander, e monstros atrozes espreitam nas sombras", disse outro personagem chamado Upitis. "Crer que somente se pode estar a favor ou contra a liberdade é um grave erro, porque ela tem várias faces." Diz-se que a liberdade é algo que atrai, como uma bela mulher, enquanto que, para outros, constitui uma ameaça. O político pode abrir espaço para uma guerra civil, para a raiva, para a vingança, para um ódio acumulado durante anos. "O afã da liberdade pode converter-se em um inferno de dimensões imprevisíveis. Os monstros espreitam e as navalhas são afiadas na noite."

Ao ver o filme Cirkus Columbia (2010), pode-se pensar em tudo o que lemos em The Dogs of Riga, a situação de pobreza, de impossibilidade, a tensa relação com o dinheiro do Ocidente e com tudo o que estava por baixo do pano, a ponto de explodir ante as possibilidades que a liberdade oferecia às portas dos países bálticos. Neste caso, não falamos da Letônia, mas sim da antiga Iugoslávia. Na história, o diretor Danis Tanovic nos situa em pleno processo de glasnost por todos os lados na Bósnia e na Herzegovina. Ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2002 pelo filme Terra de Ninguém (No Man´s Land), Tanovic volta com Cirkus Columbia para sua terra natal. Se bem que Terra de Ninguém se desenvolve em 1993, ou seja, na metade do conflito; agora, com Cirkus Columbia, nos encontramos em 1991, no início tenso da comoção geral. O momento, é claro, é diferente. Aqui, nos encontramos com o personagem Divko voltando para casa, depois de um exílio de 20 anos na Alemanha. Chega com um Mercedes vermelho, com a jovem e atraente Azra, a bolsa cheia de marcos e com sua gata Bonny, uma gata negra da sorte. Divko chega bem sucedido, ocidentalizado, para repudiar sua antiga mulher, divorciar-se e tirar dela a casa. Ódios, amores, apoios políticos, interesses, ternura, loucura, drama, risos, comédias. Lembra um pouco o excessivo e genial Kusturica, pois é inevitável a influência do mestre. Divko chega com todo seu poder ocidental, acreditando que o mundo mudou, acreditando que seu destino já não pode ser modificado por nada, acreditando que é o absoluto dono de sua vida, porque vem daquele lado do mundo onde o futuro é uma imagem certa, assegurada. Mas, enquanto o amor, a comédia e os ódios vão e vem como pano de fundo, os inesperados movimentos do caos e a liberdade se aproximam. Como disse o escritor sueco Henning Mankell, os monstros se aproximam quando o caos da liberdade está próximo.

Cirkus Columbia, este mês no Max.

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