Daniel Day-Lewis, um ícone de cinema que é como um camaleão cool

por max 16. novembro 2011 13:52

 

Daniel Day-Lewis vendeu muito bem a imagem de ator que leva, com calma, a atuação. Ou melhor, como um ator que, quando lhe interessa, quando lhe parece apropriado, quando encontra o papel ideal, quando não tem outra coisa pra fazer, então é quando atua. Daniel Day-Lewis é, definitivamente, um mistério totalmente cool. Como sabemos, Daniel tem mais serragem na cabeça do que qualquer outra coisa. Digo isso, porque a carpintaria é sua paixão. De fato, chegou a pensar, em um momento de sua vida, que se entregaria plenamente ao ofício de carpinteiro, mas a arte da atuação não deixou. Ah, esse mundo de gambiarras chato e insistente.

Mas como foi que Daniel começou a estudar atuação? Digamos que por razões alheias à fama e essas coisas, segundo ele mesmo disse. Seu pai, um poeta comunista conhecido (Cecil Day-Lewis) colocou-o em um colégio público, onde Daniel aproximou-se perigosamente da delinquência. Preocupado, comunista mas com dinheiro de sobra, o pai mandou-o ao sombrio internato inglês de Sevenoacks, o mais antigo e conservador no Reino Unido. Ali, nesse lugar que Daniel chegou a odiar, ele se pôs a estudar atuação como válvula de escape. Não era bom nos estudos, mas sim na carpintaria e na atuação. Mas não foi tudo sem explicação, de forma fortuita. Aconteceu como reação à rigidez do internato. Seu avô Sir Michael Balcon, tinha sido um importante produtor de cinema inglês, e sua mãe tinha sido atriz. O pai poeta não tinha motivos para queixar-se, já que havia escrito um poema para Daniel quando era recém-nascido, no qual admirava seu potencial, sua força. Tais energias previstas desde o nascimento deviam fluir necessariamente em alguma forma de expressão, e a arte da atuação esteve ali para servir como condutora.

O fato é que Daniel, mesmo sem querer, acaba sendo ator e não carpinteiro. Em 1985, trabalhava em dois filmes que o destacariam: Minha Adorável Lavanderia (My Beautiful Laundry), de Stephen Frears, e Uma Janela para o Amor (A Room with a View), de James Ivory. Em ambos, Day-Lewis demonstra seu talento para a diversidade de interpretação. No primeiro, é um rude personagem homofóbico que, ao mesmo tempo, gosta dos homens, e no outro é um jovem cavalheiro que, dentro de seu temperamento inglês, sofrerá os tomentos de um amor impossível.

Daniel Day-Lewis se aprofunda tanto nos papéis, se apaixona de tal maneira, que deixou inclusive de fazer teatro porque mergulhar muito tempo em um personagem parecia lhe fazer mal. Em 1989, saiu correndo dos palcos e não voltou mais. O que aconteceu? Fazendo Hamlet, sofreu um terrível colapso nervoso, pois na cena em que Hamlet fala com o fantasma de seu pai, Daniel acreditou que estava falando com seu pai morto, o já mencionado poeta Cecil Day-Lewis.

Então, Daniel acaba sendo esse tipo de ator que não atua muito, não porque a atuação não o apaixone, mas pelo contrário, porque a encara com intensidade demais. E, para completar, escolhe cuidadosamente cada papel. Daniel não aceita qualquer coisa, nem passa todo o tempo lendo roteiros. Diz que se lesse todos os roteiros que chegam a ele, ficaria louco. Ele prefere ler literatura, poesia, e cuidar dos seus assuntos de carpintaria. Mas, sem dúvida, Day-Lewis (para não ficar dizendo Daniel o tempo todo) escolhe com muito cuidado seus papéis (e seus diretores), e não tem nenhuma mancha em sua carreira de atuação (com exceção daquela do teatro). Os papéis que seleciona, isso sim, são sempre impecáveis. Em 1989 (o mesmo ano do problema com Hamlet), interpretou Christy Brown, um artista irlandês tetraplégico no filme Meu Pé Esquerdo (My Left Foot), papel com o qual ganharia seu primeiro Oscar de Melhor Ator. E aí começa parte da fama de Day-Lewis. Diz-se –ou sabe-se– que para incorporar o personagem do artista tetraplégico, ele passou meses estudando os pacientes de um centro médico para pessoas com deficiências físicas em Dublin. Além disso, aprendeu a pintar com um pincel colocado entre os dedos do seu pé, e durante a filmagem, não se levantava da cadeira de rodas; os membros da equipe levantavam-no e davam de comer na boca. Querem mais? Para fazer Hawkeye em O Último dos Moicanos (The Last of the Mohicans, 1992), aprendeu a pescar com lança, a tirar a pele dos animais e a construir uma canoa. Para rodar Em Nome do Pai (In The Name of the Father, 1993), perdeu 15 quilos, comendo somente comida de prisão. Para As Bruxas de Salem (The Crucible, 1996), foi viver em um bosque e construiu, com suas mãos, a cabana que seria usada como sua casa nas filmagens. Em O Lutador (The Boxer, também de 1996), aprendeu a lutar boxe e terminou com o nariz quebrado e uma hérnia de disco. Para Gangues de Nova York (Gangs of New York, 2002), aprendeu a ser açougueiro e arremessar canivetes com maestria.

Sim, Daniel Day-Lewis é um ator que não é desesperado pela atuação, que dá para si mesmo longos períodos entre um filme e outro, mas também é muito seletivo e muito exigente em seus papéis. Digamos que, com respeito aos atores do Actors Studio, Daniel tenha ido muito, mas muito além da preparação de seus personagens. É um tipo excêntrico, mas sério, que tudo que faz, faz bem, e que despreza o supérfluo (ele nunca é visto nas farras; e até nem vive em Los Angeles, mas sim na Irlanda). Daniel Day-Lewis passou para a história da cultura cinematográfica e ele, simplesmente, anda vivendo sua vida, aprendendo a ser sapateiro aqui, separando um pouco de serragem ali, lendo, às vezes algum roteiro, prestando atenção sobretudo em quem dirigirá o filme, levando as coisas tranquilamente. Pode parecer que algo de obscuro está por trás disso tudo, imaginamos uma alma atormentada e plenamente sensível. Mas, no caso de Daniel, isto não é problema. Ele não caiu nos abismos de Brando ou de Dean. Daniel é, simples e claramente, um atormentado cool que leva seus tormentos com calma, e mais nada. Eu também quero ser assim. Quem não quer?

Nesta quarta-feira, 16 de novembro, assista ao camaleão cool Daniel Day-Lewis em um papel de época e sob a batuta do grande Martin Scorsese em A Época da Inocência (The Age of Innocence), no Max.    

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