Norwegian Wood, a vida e o suicídio no Japão

por max 31. agosto 2012 13:47

 

Na entrada da floresta Aokigahara, ao pé do monte Fuji, a oeste de Tóquio, há um cartaz que diz: "Um momento, por favor. A vida é um precioso presente que seus pais lhe deram. Não guarde suas preocupações só para você, busque ajuda". O cartaz não está colocado à toa. Esta enorme floresta de cerca de 3 mil hectares, conhecida também como Jukai (mar de árvores), é um dos lugares preferidos pelos japoneses para cometer suicídio. Em 2001 foram recuperados 59 corpos; em 2002, foram 78 e, em 2004, o governo do Japão deixou de publicar as cifras, como mais uma medida desesperada para baixar a taxa de suicídios no país. A fama dessa floresta como lugar de morte tem séculos. Dizem que, na antiguidade, em tempos de fome, os pais levavam seus filhos lá para morrer. Também diziam que as famílias deixavam ali os seus anciãos para que terminassem seus dias em paz. Já no século XX, especificamente em 1993, Wataro Tsurimi escreveu um livro que rapidamente gerou polêmica, O completo manual do suicídio, 198 páginas de um guia muito asséptico que mostra os diversos modos para morrer de forma voluntária. A primeira edição vendeu mais de um milhão de cópias, um sucesso total de vendas que já vai pelos três milhões. Neste livro, Wataro Tsurimi aponta o Jukai como o melhor lugar para morrer. Nos anos 60, Seichô Matsumoto escreveu um drama de televisão conhecido como Towering Waves (Nami No Tô), no qual conta a história de uma jovem garota, com um amor infeliz, que se suicida nesta floresta. A história foi muito popular e os suicídios no Aokigahara não menos populares.

A verdade é que o suicídio não é qualquer coisa no Japão. E, em 2011, pelo décimo quarto ano consecutivo, o país superou os 30 mil suicídios. Embora não ocupe o primeiro lugar no mundo, ocupou nesse ano o sétimo, o que não é pouco.

Muitas são as razões pelas quais o suicídio é um problema fundamental no Japão. Pode-se até referir a razões históricas. Lembremos dos samurais e seu conceito de honra e desonra que leva ao famoso haraquiri. Na Segunda Guerra Mundial, muitos oficiais japoneses praticaram o haraquiri ante a derrota. As imagens de Cartas de Iwo Jima (2006), de Clint Eastwood, são bastante eloquentes a respeito.

As causas do suicídio contemporâneo talvez tenham alguma relação com esses conceitos de honra. Por um lado, a depressão pelo trabalho excessivo é uma das primeiras razões. Em 2008, a fadiga por causa do trabalho foi causa de 47% dos suicídios. A ética do trabalho dos japoneses tem uma forte raiz em tradições antigas. A relação do empregado com o chefe é estabelecida por uma dura hierarquia quase medieval. Em Temor e Tremor, Amèlie Nothomb mostra a dureza que pode ser o mundo empresarial japonês da perspectiva de um estrangeiro; neste caso, a partir da jovem Amèlie de 22 anos, que começa a trabalhar em uma multinacional nipônica. No Japão, se deve trabalhar duro, e esse trabalho duro produz fortes depressões e suicídios. Por outro lado, o desemprego também é uma causa de suicídio. Décadas atrás, uma pessoa no Japão se empregava em uma empresa e permanecia nela toda sua vida. Podia começar em uma posição muito baixa e chegar a ser, se dedicado, um executivo importante. A vida dessa pessoa era a empresa, seus amigos, até mesmo o bairro onde vivia era da empresa. Com a crise, os demitidos se tornaram cada vez mais frequentes. Se considerarmos a importância que tem o trabalho e ser parte de uma empresa para um japonês, vemos claramente porque o desemprego também se transformou em motivo de suicídio.

Entre os jovens, se gerou um nível de angústia muito profundo ante o choque com a férrea cultura trabalhista e até mesmo com as exigentes metas que a nação se impôs a partir da Segunda Guerra Mundial, e que alcançaram suas máximas tensões nos finais dos anos 60, quando a gestão econômica e o desenvolvimento industrial começaram a acelerar-se subitamente. Os jovens se viam obrigados a escolher entre o querer ser e o dever, entre suas inclinações individuais e o ideal ou as necessidades da nação. A partir de 1960, cabe destacar, as grandes empresas expandiram o sistema de emprego vitalício. O país tinha uma grande meta e os jovens de então tinham um compromisso que, em muitos casos, era mais que uma obrigação, quase um castigo imposto. Não é de estranhar que as tensões abalaram a alma da juventude. Em 25 de novembro de 1970, o grande escritor Yukio Mishima tomou um quartel do exército e fez um discurso proclamando a decadência de seu país. Todo aquele progresso não estava servindo para nada, o Japão da tradição, o Japão de passado glorioso e digno estava em processo de desaparecer sob a esmagadora máquina do capital. Depois de suas palavras, Mishima praticou o haraquiri. No final dos anos 60 e início dos 70, fortes críticas sacudiram o Estado japonês. Os estudantes protestavam e homens como Mishima defenderam tais movimentos. Era uma época, em geral, de questionamentos e crises mundiais, de hippies e juventudes que levantavam sua voz crítica.

Hoje em dia, talvez as razões não sejam diferentes, embora autores como Ryu Murakami digam que não se alcançou aquele ideal nacional japonês, e o que resta agora é um vazio. No entanto, poderíamos dizer que, nesse vazio geracional, também se aninha o suicídio. De fato, em Azul Quase Transparente (Almost Transparent Blue), o suicídio entre seus personagens jovens está presente.  

Neste mês, o Max apresenta Norwegian Wood (Noruwei no mori, 2010), do premiado diretor de origem vietnamita Tran Anh Hung (O Cheiro do Papaia Verde/The Scent of Green Papaya, Entre a Inocência e o Crime/Cyclo, Fugindo do Inferno/I Come with the Rain), um filme inspirado no romance Norwegian Wood (1987), de outro Murakami, Haruki Murakami, um dos escritores japoneses contemporâneos de maior projeção internacional.

Norwegian Wood parte de uma lembrança. Toru Watanabe escuta a canção dos Beatles Norwegian Wood e isso o leva a rever sua vida de anos atrás, no final dos anos 60, quando era um estudante universitário. Toru, seu companheiro de classe Kizuki e a namorada dele, Naoko, são amigos inseparáveis, mas o suicídio inesperado de Kizuki, no dia que completa 17 anos, afeta a vida dos sobreviventes durante muito tempo. A partir desse fato, Naoko e Toru estreitarão laços e terminarão se amando. Depois vão se separar e virão outros personagens femininos na vida de Toru, também outras crises de identidade e outros suicídios. Como pano de fundo, sempre estarão aqueles anos de revoltas estudantis, que Murakami retrata com olhar questionador. Escrito em 1987, depois de um romance de estilo marcadamente fantástico como Hard Boiled Wonderland and the End of the World (1985), Murakami cria aqui uma história realista sobre crescimento, amadurecimento e enfrentamento da morte (por meio do suicídio), a loucura, o amor e o sexo em uma etapa juvenil. Certa vez, o autor declarou que não tinha interesse em escrever romances de cunho realista, mas que decidiu, ainda que fosse desta vez, escrever um. Declarou que Norwegian Wood "foi um simples experimento". Chegou a dizer que não se interessava pelo estilo realista porque, sim escreve assim, acabava se entediando. Apesar disso, Norwegian Wood é um de seus romances mais lidos. A versão de Tran Anh Hung, diretor que sabe dar um toque delicado, sereno e altamente estético a seu trabalho, capta com sutileza esse certo tom proustiano da obra, carregando-o de poder visual e luz, de onde os personagens entram e saem de suas obscuridades em uma busca desesperada de felicidade ou de sentido de vida, enfrentando a dor que os assedia e a morte que está por trás de tudo, presente em toda a obra.

Norwegian Wood, domingo, 2 de setembro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Clint Eastwood, ou o amigo íntimo que queríamos ter

por max 22. novembro 2011 12:52

 

Clint Eastwood é um ícone do cinema porque os ícones do cinema estão perto da gente, porque dá para sentir que esse ícone se identifica com a gente, entende a gente. Clint Eastwood seria algo como seu melhor amigo. Mas também, ao mesmo tempo, seria como seu pai. Clint Eastwood é como um amigo íntimo mais velho. Claro, nos últimos anos. Porque quando você o vê em seus primeiros filmes, fazendo cowboys ou policiais durões, Clint volta a ser jovem, e volta a ser nosso amigo contemporâneo. Quem poderia pensar que aquele cara alto, de rosto inexpressivo, ia se transformar em um diretor de cinema ganhador de Oscars, em um dos que melhor expressaria suas preocupações e os males da sua sociedade? Era um cowboy, um perfeito cowboy vingador que sabia atuar com silêncios e com o corpo, era um perfeito protagonista dos western spaghetti, tão europeus, tão italianos, tão anos 70. Assim o temos em 1964, em Por um Punhado de Dólares (A Fistfull of Dollars), fazendo um personagem sem nome que chega a uma cidade onde duas famílias violentas se enfrentam. O personagem, o Estranho, o Estrangeiro, estará no meio do conflito tirando o melhor proveito possível da desavença. Apesar do orçamento ser muito baixo (o próprio Eastwood comprou o célebre poncho que o caracterizava), o filme converteu-se em uma das obras fundamentais do gênero western, junto com os dois filmes que o seguiram, também protagonizados por ele. O ator, que desde o princípio tinha suas ideias muito claras sobre o negócio e a independência financeira, fundou sua já famosa produtora Malpaso, e não demorou a começar a dirigir e produzir seus próprios filmes. Um dos mais importantes do início é Perversa Paixão (Play Misty for Me, 1971), um filme de suspense sobre uma obsessão fatal que preconizaria outras obsessões fatais dos anos 80. Porém, Eastwood sempre voltará aos filmes de cowboys, onde transita confortavelmente. O Cavaleiro Solitário (Pale Rider, 1985) foi dirigido por ele, assim como Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992), com o qual levou quatro Oscars, incluindo Melhor Diretor e Melhor Filme (Eastwood também recebeu esse prêmio como produtor). Claro, ele se sentia igualmente confortável com a ação, tanto que fez o famoso e explosivo Dirty Harry, aquele policial sem lei que carregava, com orgulho, seu revólver Magnun 44. Também trabalhou nessa vertente nos anos posteriores a Os Imperdoáveis, tendendo mais para a política e para o suspense, mas nunca deixando de ser um personagem rude e viril. Atuará para outros diretores e também se dirigirá e nos surpreenderá com As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, 1995), uma história de amor na qual ele atua ao lado de Meryl Streep, que abre seus filmes que poderíamos chamar de reflexão em torno da velhice, e entre os quais se encontram Cowboys do Espaço (Space Cowboys, 2000), Dívida de Sangue (Blood Work, 2002) e Gran Torino (2008). Para Eastwood, o passar do tempo é um tema importante. O tempo enfrentado com honra, com dignidade e o orgulho de seus personagens. Sobre Meninos e Lobos (Mystic River, 2003) é uma confrontação com os horrores do passado e a idade adulta, enquanto Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima) e A Conquista da Honra (Flags of Our Fathers, 2006) também são uma exploração do passado histórico em um contexto de luta, de desafios, de honra patriótica e dignidades individuais. Eastwood é um lutador, luta contra o tempo e contra os males do homem com seus ideais cavalheirescos, tradicionais. Toma as armas e as usa com valentia. Armas que, quando físicas, são sua forma de fazer sua declaração de princípios. Eastwood é, sem dúvida, um homem que seria nosso amigo, nosso amigo íntimo de muito tempo, de quem nos sentiríamos muito orgulhosos.

Nesta quarta-feira, 23 de novembro, Clint Eastwood estará conosco em Sobre Meninos e Lobos, dentro do ciclo Ícones do cinema, no Max.

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