Still Walking, ou a caminhata do silêncio

por max 11. julho 2011 15:25

 

Um filme que conta a partir do silêncio, porque o silêncio, para quem sabe, para quem compreende a arte, o silêncio sempre fala. O silêncio torna-se arte, torna-se poesia. Diz Octavio Paz, em O Arco e a Lira, falando de poesia e claro, de silêncio: "Súplica ao vazio, diálogo com a ausência". Cada coisa vivida é uma ausência, é um fantasma que vive dentro de nós. A arte tenta recuperar esses fantasmas, encher essas ausências, falando do silêncio. A linguagem é uma estrutura porosa. As palavras não são suficientes para explicar o mundo. A imagem também não. Uma única imagem pode ter um monte de significados. Assim como um momento vivido. O presente combina o passado e o passado a partir do presente vivido, tem várias leituras em várias pessoas. E assim, não apenas o passado é só um, porém o presente muda também. Nada é estável na vida ou na arte. O que aconteceu pode ter acontecido de maneiras diferentes da pluralidade dos olhos. Lembre-se, por exemplo, a história "Na floresta", de Ryonosuke Akutagawa onde o assassinato é visto a partir de diferentes perspectivas por vários testemunhas. Deixe-me trazer aqui outra asiática, Chuang Tzu e seu "Sonho de Borboleta". O texto diz: "Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta. Quando acordou não sabia se era Tzu que sonhou que era uma borboleta ou era uma borboleta sonhando que era Tzu." Não só a realidade é percebida a partir de perspectivas diferentes, podemos até duvidar da realidade. Diante de tal perplexidade, fala-se pouco (como faz Chuang Tzu) ou ficamos em silêncio. Alguns dizem que os sábios escolhem o silêncio. E que de alguma forma isso faz Hirokazu Koreeda em Still Walking (Aruitemo Aruitemo, 2008), um filme, que como o próprio título diz, caminha sem muitas palavras, através de uma reunião de família. Como quando se fala de caminhar, de andar, de atravessar a vida, este filme vai encontrando os diferentes momentos desta reunião de família, como por acaso, e os pega, sem julgamentos, sem padrões. Estão, os vivos, os sonhados, sem interpretações, mostrando suas diferentes camadas, seus vários significados. Neles são encontrados o silêncio, a negligência, o carinho e o ressentimento, a tristeza e o amor. Está tudo lá no magnífico filme feito pelo cineasta japonês de renome, sua versão da família, com base em suas experiências pessoais. Uma homenagem às crianças do passado, ao presente, aos filhos, mas especialmente aos pais que ainda estão entre nós, vivendo em seu silêncio que fala.

Still Walking, terça-feira 12 de julho, na Max.

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