Fome de Viver, mulher, estética e erotismo nas histórias de vampiros

por max 9. fevereiro 2012 11:02

 

A mulher vampira tem raízes profundas, talvez muito mais profundas que homens vampiros. Se lemos a introdução do livro Vampiros, do conde Jacobo Siruela, vemos que, desde a antiguidade, há referências a seres femininos e demoníacos que se alimentavam de sangue. Siruela cita Lilith, demônio da cabala hebraica, que foi a primeira mulher criada por Deus, do próprio barro, como Adão, e antes que Eva. Mas Lilith, ao descobrir que foi criada com a mesma matéria que Adão, reclamou seus direitos. Negou-se a servir ao homem, negou-se a estar debaixo dele durante o coito, invocou o nome de Deus, foi expulsa do Paraíso, e assim foi condenada a viver para sempre como um demônio. Lilith, apesar de condenada, conserva uma bela figura feminina, engana os homens, rouba o sêmen deles para fazer novos demônios femininos e também se alimenta do sangue de crianças. O gênio da mitologia árabe djinn, gul, ou algola, também se alimenta dos pequenos. Entre os gregos, dizia-se que a empusa, uma derivação da divindade Hécate, tomava forma de mulher atraente e enganava os homens. Filóstrato, em Vida de Apolônio de Tiana, conta a história de Menipo, jovem enganado por uma empusa. Menipo, até a noite de seu casamento, acreditava amar uma maravilhosa estrangeira. Se não fosse pela intervenção de Apolônio, Menipo teria deitado no leito da empusa, e ela teria sugado seu sangue. Na antiguidade romana, havia a lâmia, estreitamente relacionada com a empusa. Vampiras, às vezes horrendas, às vezes belas, fascinam da mesma forma que o prazer fascina, que o sexo fascina, que a morte fascina. Diferente do homem vampiro, que no início é abertamente animal e que depois, com os escritores John William Polidori e Bram Stoker, vai incorporando certa elegância, nobreza e atrativo humano, o vampiro feminino, desde o começo, enfeitiça com esses poderes que a destacam como sedutora. Assim vemos, por exemplo, no conto de Johann Ludwig Tieck: "Não Desperteis aos Mortos", de 1800, no qual Walter ressuscita Brunhilda, sua esposa morta, uma belíssima mulher que é descrita da seguinte maneira:

"Seus cabelos escuros como o rosto negro da noite, derramados sobre os ombros, realçavam, sobremaneira, o esplendor de sua figura esbelta e a rica cor de suas bochechas, cujos matizes eram como o céu vivo e brilhante ao poente. Seus olhos não se pareciam com essas orbes de pálido brilho que adornam a abóbada da noite e cuja distância imensurável nos enche a alma de profundos pensamentos de eternidade, mas sim aos sóbrios raios que alegram este mundo sob a lua e que iluminam, inflamam de alegria e de amor os filhos da terra."

Em 1872, Joseph Sheridan Le Fanu publica "Carmilla", relato mais conhecido que o de Tieck, onde também vemos a figura do vampiro representada por uma bela mulher, fogosa e terna ao mesmo tempo. Carmilla é descrita, por vezes, como uma moça esbelta. Seu rosto é gracioso, "até mesmo belo". Com sua beleza, Carmilla seduz Laura, a protagonista do relato. O tema lésbico aparece aqui marcado com força inusitada. Assim conta Laura:

"Às vezes, depois de um período de indiferença, minha saudosa e bela companheira pegava minha mão, segurava e a apertava carinhosamente de vez em quando, e finalmente ficava levemente ruborizada, olhando-me com olhos lânguidos e ardentes, e tão ofegante que seu vestido subia e baixava por causa de sua respiração tumultuada. Era como a paixão de um namorado, me perturbava, era algo odioso e, não obstante, também irresistível. Por isso ela me atraía, apenas com seu olhar, e seus cálidos lábios percorriam minhas bochechas, enchendo-me de beijos, enquanto sussurrava, quase soluçando: - És minha, serás minha, tu e eu teremos que ser uma só pessoa, e para sempre."

No Drácula, de Bram Stoker, Jonathan Harker vivencia uma orgia de vampiras. Na cama, em frente a ele, à luz da lua cheia, estavam três mulheres jovens. "Duas delas eram morenas, de nariz comprido e aquilino, como o do conde, olhos negros e penetrantes que pareciam quase vermelhos por contraste com a pálida lua amarela. A outra era bela, muito bela, com uma espessa cabeleira ondulada, de fios dourados e olhos como pálidas safiras."Elas se mantêm ali, na frente dele, cochichando e, antes de se lançarem definitivamente sobre o pescoço dele, soltam risos agudos, musicais. "Era como a doçura intolerável e estremecedora de taças de cristal nas mãos hábeis de quem brinca com elas". Doce e intolerável, duas palavras que se unem para expressar o que é a vampira: beleza e espanto, prazer e morte.

Tony Scott, irmão de Ridley Scott, realizou seu primeiro filme comercial, sua primeira peça profissional para o cinema em 1983. Trata-se de um filme de vampiros, Fome de Viver, uma peça muito estilizada, com estilo muito "publicitário" (Scott vinha de trabalhos anteriores em comerciais para televisão), que gira em torno de uma vampira na Nova York dos anos 80. Esta vampira, Miriam Blaylokc, interpretada por Catherine Deneuve, tem mais de 2 mil anos, vive em uma luxuosa mansão em Manhattan e tem um namorado chamado John, a quem converteu em vampiro no século XVIII, vivido por David Bowie. Miriam, claro, é bela, sedutora, elegante, digna herdeira daquelas primeiras vampiras que dominavam a todos com seu poder além-morte. John, por sua vez, começa a envelhecer. Os poderes de Miriam não são absolutos. Seus amantes não podem morrer, ela os transforma em vampiros, em amantes que duram séculos, mas há um problema: a beleza deles não é eterna; em certo momento começam a envelhecer aceleradamente, sem poder morrer, como já disse. Cabe destacar que este processo de envelhecimento dos vampiros é desenvolvido por Anne Rice em Entrevista com o Vampiro, livro publicado em 1976. Ao final da obra, vemos o vampiro Lestat envelhecido, preso em casa, incapaz de compreender os novos tempos, doente, perdido, mas imortal. De fato, diz-se que originalmente Tony Scott queria fazer a versão cinematográfica do livro de Rice. Como se vê, não pôde; ao contrário de Neil Jordan que, em 1994, pode estrear a produção com Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas e Kirsten Dunst nos papéis principais.

Scott, sem acovardar-se pelo impedimento, concebeu Fome de Viver, um trabalho que, sem dúvida, faz um tributo a Anne Rice e, claro, a toda a tradição vampiresca. Mas, de Rice, ele pega emprestado especificamente o tema do envelhecimento, apesar da variante particular. Em Lestat, como já disse, este é um tema mais metafísico, por causa da incapacidade do vampiro para entender os tempos em que vive, enquanto que para John, de Fome de Viver, trata-se de algo parecido com uma injeção cujo efeito vai passando com o tempo. Assim, na busca de uma possível solução para este envelhecimento, os vampiros encontram a doutora Sarah Roberts, interpretada por Susan Sarandon. No processo, Miriam começa a sentir-se atraída por Sarah, e tal atração se mostra em um ritual de seduções e artimanhas que terminam em uma das cenas lésbicas mais famosas do cinema americano (ou talvez seja bom dizer, de vampiras) entre Susan Sarandon e Catherine Deneuve.

Fome de Viver, como se vê, tem um peso importante dentro da genealogia do mito vampiresco no cinema. Por um lado, tem toda aquela sofisticação, elegância e beleza da imagem que o vampiro acumulou durante anos e deixa ali impresso, em plenos anos 80, numa época decadente, sofisticada e niilista. Por outro lado, essa estética cheia de preciosismo se une, com obviedade quase que genial, ao ramo feminino do vampirismo, representado por Catherine Deneuve, bela vampira, fina, fascinante e ao mesmo tempo impiedosa. E, finalmente, o erotismo da tradição explode aqui na figura daquelas duas mulheres magníficas amando-se na tela. Sem dúvida, Tony Scott fez um excelente primeiro trabalho. Ele, que depois fez, entre outros, Top Gun - Ases Indomáveis (Top Gun, 1986), Um Tira da Pesada II (Beverly Hills Cop II, 1987) e Dias de Trovão (Days of Thunder, 1990). A ele também devemos agradecer por ter feito Amor à Queima-roupa (True Romance, 1993), com roteiro de Tarantino. O certo é que Fome de Viver é um desses filmes raros que, até mesmo em um primeiro momento, passam despercebidos, mas que, com o passar dos anos, vão se convertendo em cult.

Fome de Viver, de Tony Scott, nesta sexta-feira, 10 de fevereiro.

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