Ano Bissexto, ou o experimento dos nossos instintos

por max 28. fevereiro 2012 12:56

 

Vejamos: coloque duas pessoas em um apartamento pequeno, feche os dois ali e deixe que explorem a intimidade entre eles. A isso, agregamos uma câmera cinematográfica, uma câmera principalmente fixa, discreta, que não se altere, que não julgue nada, que não faça nada além de olhar. Estas duas pessoas devem ser as mais reais possíveis. Ou seja, nada de Brad Pitt nem Angelina Jolie. Gente comum e rotineira, gente que não está na frente da câmera para mostrar a beleza de seus corpos, sua perfeição, sua arte erótica. Aqui o que importa é sentir-se próximo da realidade. Ela, a moça, não será atraente nem sequer muito conhecida. Com ele, será o mesmo. As cenas de sexo, muito explícitas (aqueles que forem muito sensíveis para este tipo de imagens, melhor não se aproximarem). Porque, além de tudo, haverá sadomasoquismo, porque iremos longe. E por quê? Porque dentro de nós estão latentes desejos profundos, infinitos: dentro de nós pulsa a necessidade do prazer, a necessidade da morte, esse lugar, a morte, onde todo o sofrimento termina. Morrer, se observarmos do ponto de vista de Freud, é um prazer, é o maior dos prazeres, porque todas as necessidades, todos os desejos a serem satisfeitos estão reprimidos, controlados pela cultura. Isso quer dizer que a sociedade predomina sobre a liberdade. Já sabemos disso, pois desde Rousseau se fala do contrato social. Esse contrato social, necessariamente, nos restringe. Não podemos deixar todos os nossos desejos com rédea solta. Nosso corpo deve ser controlado. Assim, nossos dois personagens, ali trancados, cruzarão as fronteiras, irão além do que o contrato social estipula e começarão a descobrir-se. Sim, de alguma forma, isso nos lembra O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci, mas ao invés de Marlon Brando, ao invés de Maria Schneider, teremos Mónica del Carmen e Gustavo Sánchez Parra e, no lugar de Bertolucci, está o canadense nacionalizado mexicano Michael Lowe. Contudo, apesar das semelhanças, Lowe centra sua atenção em Laura (Mónica del Carmen), no silêncio dessa moça de 25 anos, jornalista, nascida no estado mexicano de Oaxaca e que foi viver, totalmente sozinha, na Cidade do México. Presenciamos assim o rosto do isolamento, da falta de comunicação, da clausura. O rosto que foge das máscaras e, certas vezes, vai em busca de encontros casuais, de uma noite só. Mas, ainda assim, ela continua adormecida e ficará assim até que encontre Arturo (Gustavo Sánchez). Ele, em seus gestos, em sua profunda melancolia, despertará a moça e a fará começar a colocar o dedo na ferida em seu passado, em sua história (relacionada com a data de 29 de fevereiro), com suas culpas e dores mas, sobretudo, com seus profundos instintos, ali, onde somos bestiais, onde somos tristezas de morte, onde somos prazer puro. Pronto, o experimento começa.

Assim é Ano Bissexto (Año Bisiexto, 2010), de Michael Lowe. Delicie-se com ele, nesta quarta-feira, 29 de fevereiro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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