Kabuli Kid, ou os dias de humor

por max 4. agosto 2011 08:18

 

Os teóricos dizem que o humor sempre foi controlado pelas leis que regem a sociedade. Ontem e hoje, comédia e riso são restritos, a fim de evitar críticas aos poderes. Atualmente, existe também, digamos, uma espécie de humor oficial. O da comédia light, o da publicidade, altamente benigno, sem críticas importantes, sem estágios do grotesco, um humor solidário, que controla o indivíduo, o satisfaz e não o torna rebelde. Nos teatros a comédia é divertida, não humorística. Há risos, e atrás do riso só há riso. Tudo é transparente, diria Baudrillard, diria Lipovetsky. Esta transparência não tem mensagem de fundo, de representação: o que você vê é o que é.

No entanto, eu não acho que tudo deva ser pessimista. Eu acho que os nossos tempos também oferecem espaço para outras variantes do humor. Os seres humanos são múltiplos e podem ter sutilezas, níveis, variações, complexidades no próprio sabor de sua época. Pode haver humor empático, um humor que apela para uma certa ternura e aparente leveza, um humor que mostra uma certa beleza no caos, e ainda pode ser um humor sério, e ao mesmo tempo comovente e esperançador. O Bebê de Kabul (Kabuli Kid, 2008), primeiro filme de Barmak Akram é um tipo de épica bem humorada, picaresca e que está em conformidade com estes objectivos, para explorar e aprofundar as ruas de Kabul, uma cidade que a maioria de nós só conhecemos através do olho da câmera de jornalismo. Isto, em si mesmo, torna-se o valor fundamental do filme, mas também está lá como um elemento fundamental, o olhar que busca decifrar o papel das mulheres na sociedade afegã, após o governo do Talibã. Assim, tanto a visão complexa da cidade e seus personagens e o drama das mulheres se inserem no amplo quadro de humor, um humor que, deveríamos dizer, talvez só é possível dentro da sociedade afegã que começa (parece ser a visão do cineasta), que tenta romper com o radicalismo e abrir um mundo de democracia liberal. Os talibãs da alma não gostam de risadas. Os revolucionários vivem em eterna raiva, enfiados na ira divina. Os revolucionários, que dizem que têm toda a razão do espírito, não sabem rir: sua missão é eterna, seu trabalho é interminável. Ninguém pode estar rindo se está tão ocupado. No entanto, nesta cidade, neste país de volta à civilização, o riso vem como um sinal civilizador. Não só é o nosso dever lançar um olhar crítico sobre a sociedade através do humor, mas também temos o direito de rir de nós mesmos. Este motorista de táxi é feliz em seu táxi falando sobre as vantagens do seu novo mundo, este motorista de táxi que de repente vê uma criança abandonada na parte de trás do táxi, este motorista de táxi que sai procurando a mãe, este motorista de táxi termina adotando papéis próprios das posições dessas mulheres anónimas, que são obrigadas a esconder o rosto pela religião, este motorista é o ponto ficcional onde se confrontam a cultura que está morrendo e a cultura que busca nascer. Talvez o diretor está dizendo: se nós queremos crescer, temos de mudar completamente, não apenas no que queremos.

O Bebê de Kabulé uma peça única, pequena, mas enorme, que ao mesmo tempo nos conecta com outra cultura, com outros pontos de vista, e com o mesmo humor universal, que continua fazendo a alma dos homens.

O Bebê de Kabul, sexta-feira 05 de agosto, na Max.

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