O Que Resta do Tempo, ou o sentimento da periferia

por max 25. julho 2011 03:00


Não ser daqui, não ser de lá. As fronteiras mudam de lugar, e ninguém sabe onde vão permanecer. Como K., o agrimensor de O Castelo, que vai medir a terra, mas dizem para ele que não é necessário, é rejeitado e não consegue iniciar seu trabalho. Ele não tem um lugar no mundo, indo daqui para lá, não sabe onde é sua casa nem o lugar que lhe foi atribuído. Em O barco da morte de B. Traven, Gerard Wales não pertence a lugar nenhum, não é aceito em lugar nenhum, porque ele perdeu seu passaporte. Gerard Wales é lançado de uma fronteira para a outra com absoluta facilidade, e, finalmente, acaba a bordo de um navio que vai direto para a sua derrota, até a morte. A falta de um passaporte é uma metáfora para o sentimento de não pertencer, de não ser. Ambos, tanto o agrimensor K. como Wales podem representar um grupo de homens, uma minoria humana espiritualmente desorientada por não ter um lugar para dar-lhes as raízes, e aqui falamos de geografia, cultura, raça, crenças. Na realidade, tais situações se refletem, por exemplo, nas mudanças sócio-políticas vividas por alguns territórios. Em 1948, o estabelecimento do Estado de Israel sobre as terras que naquela época eram conhecidas como Palestina, alguns palestinos decidiram ficar e tomar esse estado da alma que os tornou uma minoria. A partir desse momento, eles foram chamados de "árabes-israelenses" por ter o árabe como língua nativa, e por ser muçulmanos. Hoje, em Israel, estas minorias têm obrigações e direitos que são iguais no papel, mas em muitos casos, sofrem de limitações inevitáveis, para não mencionar a discriminação. O Que Resta do Tempo de Elia Suleiman, reflete o drama de uma família que escolhe ser uma minoria no meio da criação e crescimento do novo Estado de Israel, um processo que também tem as suas próprias confusões, retrocessos e avanços. Sueliman, num trabalho feito com muita honestidade, procura no seu próprio interior, inspirada nos livros biográficos de resistencia que o seu pai escreveu e nos diários de sua mãe para abranger um grande período histórico que vai desde a fundação de Israel até o presente. Com um fino toque de humor, ironia, tristeza, e cheio de compaixão, Suleiman apresenta o drama de uma família que se move ao longo da história, do fora de foco que é ser uma minoria, do movimento da alma pelo fato de ser diferentes, que faz deles cidadãos de lugar nenhum. E aqui paro um pouco e deixo um final. Falando de um cidadão de lugar nenhum, eu digo a mim mesmo que, talvez, aí reside a arte, e talvez Sueliman entendeu isso: a consciência do artista é a do não pertencimento, a de manter distância, a de ser exilado. Só então, a partir do olhar triste e sem raízes, o artista pode ver o mundo de forma diferente, e só então, pode fazer arte. Quando isto é compreendido, se faz arte, se sofre e talvez alguém é salvo, quando não é compreendido, ou não se sabe ser um artista, então é só sofrer.

O Que Resta do Tempo, na Max.

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