Turistas, ou nada mais real que o humor negro

por max 7. fevereiro 2014 13:55

 

Você diz a um inglês que um road movie é, geralmente, uma viagem de descoberta espiritual e, certamente, ele vai vir com uma boa piada sobre isso, dirá alguma ironia, algo de duplo sentido e te derrotará. Assim é o humor inglês, ou como dizem: não acredito em nada. A realidade é a realidade, e nada de ficar romântico, pelo menos não quando se trata de um comentário sarcástico inglês, cujo fundamento é dado por uma incontestável realidade. Não sem razão, Augusto Monterroso dizia que o humor é o realismo levado à sua última consequência. Talvez no Free Cinema e no British New Wave faltou um pouco mais desse humor para chegar a outros estados de realidade que também existem e que seus cineastas não alcançaram. Porque, digamos de uma vez, a realidade nem sempre é tão séria como alguns artistas a representam. A realidade se move entre tons de cinza e não entre o preto e o branco. Nessa mistura cabe o que chamamos de humor negro, o lugar onde se cruzam o drama, a tragédia, o miserável, o grotesco e o absurdo. Ben Wheatley, diretor de Lista Para Matar (Kill List, 2010) e de Turistas (Sightseers, 2012) é desses novos cineastas que, sem chegar aos extremos como a equipe de Monty Python e sem dar facadas de seriedade, ainda permanece no realismo, pois ele trabalha com humor negro para expressar seu olhar sobre a sociedade.

No caso de Turistas, estamos, sem dúvidas, diante de um road movie, com uma suposta viagem de descobrimento espiritual, como essas que Hollywood gosta de contar. Mas o que acontece quando essa viagem de descobrimento traz algumas pessoas perturbadas que montam toda uma história de amor para depois ir descobrindo – se revelando - até mostrar o que realmente são: psicopatas assassinos? Wheatley é britânico, Steve Oram e Alice Lowe, os roteiristas, humoristas e também atores do filme são, claro, britânicos; então nada escapa nem acreditam em gêneros ortodoxos ou em seriedades ideológicas ou acadêmicas.

Agora, em Assassinos Por Natureza (Natural Born Killers, 1994), de Oliver Stone, é uma viagem alucinada em si, de um casal de assassinos em massa ou em série, mas absolutamente irreal... E de humor tem muito pouco, embora fosse o pretendido. Por fim, o filme de Stone acaba sendo uma história de amor melosa cheia de uma cinematografia requintada e experimental, e a busca pelas razões ou falta de razões dos personagens se transforma em uma mera propaganda ou uma simples crítica de esquerda (à mídia, ao consumismo, ao fast food, etc) que não chega a lugar nenhum. A pirotecnia pura de Stone emocionou pessoas de 20 a 30 anos (me incluo), mas que no final, não era nada. Em vez disso, com Turistas estamos em outra parte, nos colocamos, graças ao humor negro, a fundo na vida de Tina e Chris, um casal balzaquiano que começa um romance e que, para finalmente se casarem, fazem uma viagem de descobertas em excursão por locais de Yorkshire.

Ela é uma mulher tímida que vive com sua mãe e ele, um homem cheio de energia, de carisma. Estamos diante do típico e verdadeiro perfil que está em conformidade aos casais de assassinos em série, esses que montam sua história de amor e saem e percorrer o mundo. Ela, submissa, ele proponente. A abertura do caminho, o ócio da vadiagem, essa liberdade que tem na viagem sem destino, os engana, faz com que eles se sintam e pensem que também são livres das normas sociais, livres das correntes normativas. Com o excesso de prazer e de despreocupação, eles parecem sair do chão e ir onde tem os desejos mais incógnitos, onde tem os segredos mais sombrios. Em algum momento ocorre o primeiro assassinato, e então a conexão entre ambos se estreita. Aquela garota tímida, que não quebrava um prato, começa a se libertar. Não estamos diante de uma historia de descoberta espiritual? Ele se mostra tal como é, e ao cair sua máscara ele se liberta e já liberta ela também. Todas as frustrações de ambos vêm à tona, são projetadas sobre suas vítimas. Estão apaixonados e se sentem livres, então podem ser o que são, finalmente encontraram um caminho interior nessa viagem pelo interior da Inglaterra, cheia de maravilhosas paisagens que os apaixonados nunca deixarão de aproveitar. E por que deixar de fazer, se são apenas isso, apaixonados?

Momento romântico e aterrorizante? Pode ser. Miserável e humorístico? Também. Sempre real, isso sim, sempre chegando ao fundo dos personagens que vão se descobrindo ao longo da viagem, e que alcançam seu ponto máximo de foco, na capacitação de Tina. Não sem razão, no festival de Cinema Fantástico de Sitges, Alice Lowe ganhou o prêmio de melhor atriz. Mas claro, não teria sido possível sem um roteiro que lhe permitisse explorar as possibilidades do personagem. De fato, o filme também ganhou o prêmio de melhor roteiro. Eles não são Mickey e Mallory Knox, não são metáforas, alegorias, não são nem espantalhos de Hollywood; eles são seres humanos jogados no turbilhão de suas frustrações, de seus ciúmes, de suas limitações e por fim, de sua própria loucura.

Turistas, sábado 8 de fevereiro, no Max.

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