Continuação do especial do livro à tela, agora com “2001 – Uma Odisseia no Espaço”

por max 10. abril 2013 15:39

 

Muitos filmes de Stanley Kubrick são baseados em romances anteriores. 2011: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey – 1968) é um caso especial no que diz respeito à referida característica. Mais que em um livro, o filme tem sua origem em dois contos curtos de Arthur C. Clarke, que posteriormente foram transformados em um romance e, paralelamente, em um roteiro para o cinema. Originalmente Kubrick se aproximou de Clarke, pois queria fazer um filme de ficção científica. Clarke gostou da ideia e começaram a trabalhar nas propostas. No final, tinham dois contos de Clarke (especialmente A Sentinela) e decidiram ampliar, transformando em romance e depois em roteiro. Essa maneira particular de trabalho teve como resultado o livro e o roteiro, que foi escrito em paralelo; Kubrick ficou mais ocupado com o roteiro, e Clarke se ocupou com o romance, mas sempre em processo de feedback.

Como os outros filmes de Kubrick, 2001: Uma Odisseia no Espaço começa sem os créditos iniciais, o que não era normal no final dos anos sessenta, e que se tornou uma marca do autor. Tem a apresentação da produtora, que no caso de 2001 é a Metro, depois vem o crédito de Kubrick como produtor e o título do filme. Nada mais, nenhum crédito dos atores, nenhum dos outros produtores, nem dos escritores.

Kubrick, como sabemos, foi um inovador no cinema em muitos sentidos. Em 2001: Uma Odisseia no Espaço, a utilização da música extra diegética (aquela que não foi criada exclusivamente para o filme), experimenta uma mudança importante, especialmente porque Kubrick utiliza música clássica ou acadêmica para algumas cenas chaves. Uma das mais conhecidas é Assim Falou Zaratustra (Also Sprach Zarathusta) de Richard Strauss. Como já falamos, a peça de Strauss é utilizada no início do filme, e proporciona uma excelente abertura, é um clássico do cinema. Nunca uma música que não foi produzida para tal imagem foi tão consciente, tão perfeita, como se tivesse sido feita para isso. Esta abertura, cabe dizer, nos leva logo a uma história pensada a fundo e trabalhada com rigor e muita calma. No entanto, Kubrick não deixou de lado o desenvolvimento tecnológico, ou seja, os efeitos especiais. O filme é todo um conjunto imaginário tecnológico, trabalhado pelo cineasta com a supervisão de Fred Ordway e Harry Lange, dois especialistas em tecnologia avançada e que trabalharam na NASA. Foi realizada uma exaustiva investigação de novas tecnologias e de possibilidades no futuro. Foi como eu disse, o conselho de dois especialistas além do especialista em modelagem para o cinema, Anthony Masters. Tudo foi projetado com muito cuidado, tanto que nem um botão poderia aparecer sobre um console sem ter uma função; tudo devia ser absolutamente justificado, ter uma função "real". O nível de exigências e mudanças passou a criar sérios conflitos entre Kubrick, os especialistas e a equipe de construção dos projetos.

O diretor de fotografia foi o veterano Geoffrey Unsworth, que deixou o filme por outros compromissos profissionais (apesar de ter se dado muito bem com Kubrick). Em seu lugar entrou Alcott, com quem Kubrick também se deu muito bem. Usaram muitos planos abertos, e na fotografia, nítida e detalhada, as cores foram apresentadas sem muita satuaração, um cenário sútil e limpo, com muitas curvas polidas e brilhantes, e com fontes de luz suaves e que não estavam o tempo todo determinadas. Se buscava que a luz ocupasse todos os espaços. Em outro momentos, há uma forte presença do vermelho, para dar uma sensação de perigo, de alarme tecnológico.

E isso nos leva de volta para a trama. 2001: Uma Odisseia no Espaço é um filme com poucas palavras, de desenvolvimento lento. Um capítulo é protagonizado por primatas que estão longe da língua humana. Então, em naves e estações espaciais tem poucos tripulantes, com vida monótona e tempo limitado para o diálogo. No entanto, o ato comunicativo é fundamental. O monólito que gera toda a trama emite um sinal, de alguma maneira se comunica, ou finge se comunicar, talvez afim de atrair e depois de perder aqueles que se aproximam. O HAL 9000, o computador, fala, se "comunica". Mas com o HAL não há garantia que a comunicação seja recíproca, que as palavras servirão para alguma coisa. HAL não quer uma troca, sua vontade é imposta, quer cumprir sua missão: suas palavras escondem um silêncio. A comunicação humana, a comunicação com as máquinas, o discurso. Somos palavras, mas também somos silêncios profundos, áreas desconhecidas de nós mesmos que podem nos elevar ou nos afundar em um abismo. Essa necessidade, essa busca para encontrar nossas origens, surge talvez da capacidade de falar. Mas essa capacidade de falar, talvez faça nos perder nas respostas.

Não esqueça, 2001: Uma Odisseia no Espaço, no ciclo especial do livroa à tela, que o Max apresenta em todas as quintas de abril.

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