Back to back de 2001: Uma Odisseia no Espaço para Laranja Mecânica

por max 11. setembro 2012 07:23

 

Back to back de semelhanças

Como muitos filmes de Stanley Kubrick, esses dois são baseados em textos de escritores. Laranja Mecânica, no romance do mesmo nome de Anthony Burgess, especificamente a versão publicada nos Estados Unidos, sem o capítulo 21, no qual o personagem Alex decide reformar-se, mudar completamente. No filme, Alex não deixa a violência. 2001: Uma Odisseia no Espaço é um caso mais particular: mais do que em um romance, é baseado em um dos contos curtos de Arthur C. Clarke, que posteriormente se transformariam em um romance e, paralelamente, em um roteiro para o cinema. O caso foi assim: Kubrick se aproximou de Clarke, pois queria fazer uma obra de arte com o gênero de ficção científica. Clarke gostou da ideia e começaram a trabalhar em propostas. No final, escolheram dois contos de Clarke (especialmente A Sentinela), e decidiram ampliá-los, convertê-los em romances e depois fazer o roteiro. Essa maneira particular de trabalhar resultou que o romance e o roteiro foram sendo escritos paralelamente. Kubrick ocupando-se mais do roteiro e Clarke do romance, mas sempre num proceso de retroalimentação.

 

Ambos os filmes começam sem os créditos iniciais, algo que não era normal no final dos anos 60 e que se tornaria uma marca de Kubrick. Os dois filmes começam com uma apresentação dos estúdios produtores (a Metro em 2001, a Warner em Laranja), a seguir vem o crédito para Kubrick (como produtor em ambos os casos) e logo o título do filme. Nada mais, nada de atores, nada de outros produtores, nem de escritores. Aquí, o início de Laranja Mecânica e aqui o de 2001: Uma Odisseia no Espaço.

 

 

Os dois filmes usam música clássica ou acadêmica, o que, sem dúvida, também se transformou numa marca do diretor. Dois dos temas mais conhecidos foram: Assim falava Zarathustra, de Richard Strauss, em 2001: Uma Odisseia no Espaço, e a Sinfonia Nº 9 (segundo e quarto movimentos), de Beethoven. Nunca uma música que não foi planejada para tais imagens resultou tão apropriada, tão ideal, tão como se tivesse sido composta para, como estes dois temas que fluem sobre as respectivas cenas de cada filme. Como recordarão, a peça de Strauss é utilizada no início de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Em Laranja Mecânica, a Nona de Beethoven é uma das músicas preferidas de Alex e também é utilizada até que o enlouquece (literalmente), no tratamento que é aplicado ao jovem violento para transformá-lo em um cordeirinho. Também o sintetizador Moog de Walter Carlos (depois Wendy Carlos) serve para acrescentar um tom moderno, tecnológico, juvenil e, ao mesmo tempo, decadente, obscuro e psicodélico às peças clássicas que são ouvidas em determinado momento. Recordemos que Laranja Mecânica se passa no futuro, num futuro indeterminado. Aqui um link interessante com relação ao tema da música nos filmes de Kubrick, e um dado extra: Walter ou Wendy era muito amigo de Robert Moog que foi o físico e engenheiro eletrônico que inventou, em 1963, o sintetizador Moog, um equipamento monofônico baseado em osciladores e amplificadores controlados por voltagem.


Laranja Mecânica e 2001: Uma Odisseia no Espaço são filmes futuristas. O primeiro é entendido como uma distorção de uma Inglaterra afundada, mergulhada numa espécie de perversidade da modernidade, onde a tecnologia espacial não é o tema principal, mas os sonhos da razão que produzem monstros psicológicos. Em Laranja Mecânica interessa mais a radicalização do controle entre os mesmos humanos (um digno herdeiro de 1984, de Orwell), enquanto em 2001: Uma Odisseia no Espaço reina todo um aparato tecnológico, trabalhado minuciosamente por Kubrick sob a supervisão de Fred Ordway e Harry Lange, dois especialistas em tecnologia de ponta que haviam trabalhado na NASA. Assim, embora bem distintos em seu tratamento visual, ambos os filmes tratam do futuro.

 

 

Back to back de uma diferença linguística e outra de desenho de produção

2001: Uma Odisseia no Espaço é um filme com poucas palavras. Um dos capítulos é protagonizado por macacos distantes da língua humana. Depois, nas naves e nas estações espaciais há poucos tripulantes, vida monótona e tempo limitado para o diálogo. A pesar disso, o ato comunicacional é fundamental. O monolito que gera toda a trama emite um sinal, se comunica de alguma forma, ou faz como que se comunica, talvez com a finalidade de atrair e logo perder aos que se aproximam; como aquela beleza colorida de certas plantas, que no final acaba sendo uma armadilha letal. Também HAL 9000, o computador, fala, se "comunica". Com HAL tampouco há garantia de que a comunicação seja recíproca, que as palavras sirvam para alguma coisa. HAL não deseja um intercâmbio, sua vontade é impor-se, fazer cumprir uma missão: suas palavras escondem um silêncio. Laranja Mecânica, por seu lado, é um filme em que as palavras transbordam, até mesmo as de um jargão conhecido como Nasdat, e que foi inventado por Anthony Burgess, profundo admirador da obra de James Joyce, e de quem tomara a técnica de pegar palavras de outras línguas para uni-las com os vocábulos e assim criar novas palavras. Alex e seus companheiros de gangue, como sabemos, falam aquela língua que no filme aparece com menos abundância do que no livro. Esse jargão inventado por Burgess (principalmente com palavras retiradas do idioma ruso) dá ao filme e ao romance uma sensação de atemporalidade apropriada

 

Ainda que ambos os filmes se passem no futuro, as propostas visuais de ambos são totalmente diferentes. A visão de Laranja Mecânica é delirante e absolutamente lúdica. O filme foi rodado principalmente em externas. Foram construídos somente quatro cenários: o bar Korova, o banheiro do escritor, a ante-sala da prisão e o salão de entrada da casa do escritor. De resto, tudo foi filmado fora dos estúdios. Porém, Kubrick e John Barry (o designer de produção) queriam dar ao filme um tom futurista, e a partir dali foram buscar locações interesantes em revistas de arquitetura. E a direção de fotografia, a cargo de John Alcott, veio este toque que se procurava. Alcott, que repetia a experiência fotográfica com Kubrick (a anterior havia sido, certamente, com Laranja Mecânica, o que resulta outra semelhança), propôs fontes de luz natural (janelas, telas iluminadas, tudo buscando sempre saturação de cores), mais uma atmosfera azulada que contribuía para dar a sensação de distancia e frieza ao conjunto. Jogou-se muito com a lente grande angular, usou-se a câmera lenta e o zoom violento. Em 2001: Uma Odisseia no Espaço, foi realizada uma investigação apurada das novas tecnologias e as possíveis do futuro. Houve, como já disse, a assessoria de especialistas que trabalharam na NASA, Fred Ordway e Harry Lange, mais o especialista em construção de modelos, maquetes para o cinema, Anthony Masters. Tudo foi desenhado com extremo cuidado, tanto que nenhum botão que aparecesse sobre o console podia estar sobrando; tudo devia ser absolutamente justificado, ter uma função "real". O nível de exigências e trocas chegou a criar sérios conflitos entre Kubrick, os especialistas e a equipe de construção dos desenhos. O diretor de fotografia foi o veterano Geoffrey Unsworth, que deixou o filme por causa de outros compromisos de trabalho (deu-se bem com Kubrick). Em seu lugar entrou Alcott, com quem Kubrick também trabalhou muito bem. Usou-se muito a grande angular, e na fotografia, nítida e detalhada, as cores apresentam-se sem maior saturação, muito sutis e muito limpas sobre cenários com muitas curvas, muito polidos e com fontes de luz suave que, durante todo o tempo, estavam claramente determinadas. Sempre buscava-se que a luz ocupasse todos os espaços. Em outros momentos, há uma forte presença do vermelho, para dar sensação de perigo, de alarme tecnológico.

 

 

De volta à simples curiosidade

Em Laranja Mecânica, o bar preferido de Alex e seus companheiros de gangue se chama Korova, que quer dizer vaca, em ruso. Em 2001: Uma Odisseia no Espaço, o computador "que fala" chama-se HAL 9000. HAL quer dizer Heuristically programmed ALgorithmic computer. Há quem diga que o nome também corresponde ao corrimento, à sombra que deixa cada uma das letras da sigla da marca IBM: é o mesmo que dizer a I antecede o H, ao B antecede o A, e ao M antecede o M. Não é certeza, mas é interesante.

 

Back to back, a data

Delicie-se nesta quinta-feira, 20 de setembro de um poderoso back to back de duas obras-primas de Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisseia no Espaço e Laranja Mecânica, um filme seguido do outro, sem perder tempo, sem despedício. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

arquivos
 

nuvem