Coco Antes de Chanel, ou a simplicidade da elegância

por max 11. setembro 2012 08:08

 

Para Coco Chanel, a elegância era vital. E a elegância, para ela, estava baseada na simplicidade. "As mulheres estão sempre muito vestidas e nunca bastante elegantes", disse certa vez. Outra dela: "A simplicidade é a chave da elegância". Chanel mudou para sempre o mundo da moda, com ela fez-se um divisor de águas entre a empetecada, carregada e opulenta Belle Époque e os novos tempos da moda. Vestidos com espartilho, forros, enfeites demais, complexos, pesados, caracterizavam as roupas das mulheres dos tempos anteriores. Gabrielle Chanel acabou com tudo aquilo e criou sua moda, inspirada no simples, no preto (não se usava até então e nem se relacionava a cor com a elegância na mulher) e na comodidade. Em 1913, quando abriu sua primeira loja Deauville, toda sua elegância e simplicidade já estavam ali. "Recorto, alivio e suprimo tudo o que incomoda o corpo e o que freia o gesto". Suas primeiras clientes: nada mais, nada menos que senhoras requintadas da alta sociedade. Essa simplicidade da qual falava Chanel, no princípio dos anos 20, é hoje em dia um valor aliado à produção de mercadorias de alta tecnologia, por exemplo.

John Maeda, designer gráfico e estudioso da computação, diretor do Media Lab do MIT, relacionado entre as 21 pessoas mais importantes do século 21 pela revista Esquire e ganhador da medalha AIGA em 2011, é também o autor de um livro que deixou marcas na história do design: Laws of Simplicity, publicado em 2006.

Maeda fala de dez princípios que regem a simplicidade e começa assegurando que simplicidade é sanidade. A simplicidade, diz, faz a vida melhor. Mas, além disso, não vê o tema da perspectiva do cliente; de fato, Maeda escreve o livro como um análise de mercado baseada na simplicidade do design. A venda é o alvo, o objetivo e atingi-la vem graças à compreensão da simplicidade no design. "As pessoas não apenas compram mas, o mais importante, amam o design que torna suas vidas mais simples". Maeda disse também que a simplicidade envolve lealdade pelo design do produto.

Os princípios aos quais Maeda se refere são Reduzir (a maneira mais simples de alcançar a simplicidade é mediante a redução bem pensada); Organizar (a organização permite que um sistema complexo pareça simples); Tempo (economizar tempo faz com que as coisas pareçam mais simples); Aprender (o conhecimento simplifica tudo); Diferenças (a simplicidade e a complexidade necessitam uma da outra); Contexto (o que se encontra na periferia da simplicidade não é nada periférico, mas sim muito relevante); Emoção (mais emoções é melhor que menos emoções); Confiança (confiamos na simplicidade, a simplicidade é um caminho seguro para a comunicação); Fracasso (não é possível fazer algumas coisas de maneira simples, às vezes o erro é um ingrediente necessário para a vitória ou para obter a beleza); A direção (a simplicidade consiste em deixar aquilo que é óbvio e adicionar o importante).

Se considerarmos estes dez elementos com relação a Coco Chanel, perceberemos que a estilista havia entendido, muito antes que este livro fosse publicado, os princípios e as leis que aparecem nele. Chanel reduziu, literalmente, o aparato da moda de então, diminuiu o que sobrava. Organizou em materiais (algodão leve, por exemplo), linhas de produtos e imagens simples toda sua proposta. Fez com que sua roupa fosse mais cômoda, confortável, mais fácil de usar, o que deu à mulher maior liberdade, leveza de movimentos, o que se traduz em um ganho de tempo no vestir e no translado. Chanel usou suas experiências no orfanato onde cresceu (lembremos do preto e dos hábitos e naquilo que chegou a dizer: "prefiro o preto rigoroso com o qual se vestem as freiras de Aubazine à miscelânea em tons pasteis"), seus contatos e visões com os mundos de um nobre e de um cavalheiro milionário com quem se relacionou sentimentalmente, e fez, com tudo isso, o que poderíamos chamar de um resumo estético que se expressou na elegante simplicidade de sua proposta. E, claro, Chanel criou um contexto e encheu de emoção seu trabalho; ela mesma foi o ícone desse contexto e dessa emoção. Lembremos que a mesma Coco era magra, não tinha seios nem cintura, e usava o cabelo à la garçonne. Usar Chanel era ser como ela: sofisticada, cosmopolita, contemporânea, inteligente. Chanel criou um mundo referencial onde se moviam seus modelos, e também criou um receptor de suas mensagens: aquela cliente requintada e "merecedora" da simples elegância de Chanel. Chanel sempre foi criativa, nunca temeu a experimentação, nunca temeu o erro criativo, buscando, isso sim, processar o complexo mundo da moda a partir da simplicidade que ela desejava. Porque ela, mais que criar moda, criou um estilo. E ela mesma disse: "as modas passam, o estilo permanece".

Coco Chanel criou o conjunto de lã composto por um blazer reto e uma saia de corte reto, calças para mulheres, o perfume Chanel número 5 (foi a primeira estilista a lançar sua própria fragrância), os suéteres de decote canoa, saia plissada, sapatos de dois tons, os punhos e os frisos do colarinho brancos e muito de tudo aquilo que hoje em dia faz parte de um estilo clássico, elegante e simples que nunca morre.

Este mês, o Max nos apresenta Coco Antes de Chanel (Coco Avant Chanel, 2009), dirigido por Anne Fontaine e magnificamente interpretado por Audrey Tautou, no papel de Coco Chanel, claro. Um filme biográfico que nos mostra, tal como seu título anuncia, o processo de crescimento e formação da grande estilista. Uma construção delicada que vai passando pelos diferentes momentos da vida de Chanel, sem converter a paisagem em uma exibição de postais e momentos sem maior interesse no geral, como acaba acontecendo na maioria das biografias cinematográficas. Com estilo delicado, elegante e gracioso, o filme se interessa pela alma da artista, e em retratar esse processo de crescimento, observação e conjunção de todos aqueles elementos que a levaram a ser uma das estilistas, designers de moda mais importantes do século XX.

Coco Antes de Chanel, delicie-se com o filme neste domingo, 23 de setembro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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