Eu tu eles ou a mulher que já não está sozinha

por max 17. abril 2011 19:52

 

 

Uma mulher latino-americana —sozinha, sempre sozinha— que já ficou com vários homens e deles teve vários filhos. Não é estranho, não é uma situação que surpreenda um cidadão deste continente. Mulheres do interior ou das grandes cidades, que vivem como podem, repetem este argumento dia a dia. As mulheres são as que sustentam a sociedade. Elas são o pai e a mãe, as guerreiras. Embora a mulher de maiores recursos deva se casar, ter filhos e cuidar do seu lar; deve estudar, ter sucesso no seu trabalho e também se casar e ter filhos, nestes outros estamentos, a mulher já conhece de antemão o seu espaço dentro da sociedade em que deve viver: apaixonar-se, ter filhos e perder o marido. Assim cremos que o dita, tal como nos diz Roland Barthes, «a natureza das coisas». Mas se continuamos com Barthes, entendemos que não existe isso de «a natureza das coisas». Não existe nada que seja natural. Não há nada natural na religião que seguimos, nem no estado civil, nem nas conquistas acadêmicas. As construções sociais são signos e os signos não têm conteúdo real. Os signos se formam no acordo entre indivíduos. Não há nada natural nas construções sociais. Em Mitologias, Barthes nos apresenta o exemplo da luta livre. A luta livre não é real, esses caras que estão sobre o cenário não lutam de verdade; sua luta é uma representação, uma dança. O público sabe isso, mas está de acordo com a representação. Preste atenção: está de acordo. Todos, lutadores e público, entram dentro de uma estrutura, dentro de um código, dentro de uma linguagem de signos. O que parece natural, não é. É tudo falso, é tudo uma montagem, é tudo representação na luta livre. Isso mesmo acontece na sociedade em geral. O que parece natural, não é. Quer dizer, uma mulher pobre não está obrigada ao filho e a perder seu marido em algum momento deste processo. E geralmente, uma mulher não é obrigada a ter um só homem ao mesmo tempo (ou um homem nao é obrigado a ter só uma mulher ao mesmo tempo). É natural tudo o que foi dito antes? Assim o assumimos, somente assim o assumimos. O roteiro, a história, poderia ter sido outra. Uma história começa onde a convenção social se rompe. Isso o sabem ou o intuem, os criadores de histórias. Isso fez o diretor brasileiro Andrucha Waddington quando escreveu a história do seu filme Eu Tu Eles, 2000. Uma mulher do campo, uma mulher rural, em uma paisagem imensa, árida e de pouca gente, onde essa pouquíssima gente mantém olho avizor sobre as convenções. Quanto maior for o espaço, quanto mais longe estiver a civilização, mais guardiões da ordem parecem existir. Mas aqui, nesta história, alguém decide se rebelar: uma mulher, uma mulher feia mas estranhamente sensual, inteligente, atraente. Uma mulher que decide não ter só um homem, mas sim três, e não os três separadamente, como manda o roteiro do abandono, mas sim três ao mesmo tempo, três em casamento. Essa é Darlene (Regina Casé), uma destruidora de construções sociais que foi esmagada por estas e então decidiu começar a ver —e a desejar— o mundo de outra manera. Uma rebelde, uma esquizo talvez assim a chamariam Deleuze e Gauttari, uma agente do desejo, da máquina que deseja, essa máquina que produz uma realidade onde se pretende derrubar a construção social, onde se pretende criar outros signos para crescer espiritualmente dentro deles. A história de Darlene em Eu Tu Eles é a história de uma rebelde, de uma construtora de outras realidades que deveriam servir como exemplo para melhorar esta realidade. Esta lamentável realidade que devemos viver.

Eu Tu Eles, sábado,14 de maio, no especial de cinema dedicado ao Festival de Cannes.

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