Elena, ou a impossibilidade de redenção

por max 26. setembro 2013 12:45

 

Quem sabe o que os uniu. Quem sabe se ele achava que iria resgatá-la. Quem sabe se ela acreditava numa segunda chance. O certo é que Elena (2011), do renomado diretor russo Andrey Zvyagintsev, começa em outro momento, começa com outro foco. Uma casa, um corvo, uma casa vazia, uma mulher, Elena (Nadezhda Markina), que se move pela casa e desperta um homem, Vladimir (Andrey Smirnov). Ela parece ser sua criada, ele o amo; na realidade são marido e mulher. A relação parece ser de outra época histórica, patriarcal, absolutamente estranha ao amor. Vladimir é rico, frio; Elena submissa, de origem humilde. Conheceram-se quando ele esteve hospitalizado e ela cuidava dele. O hospital provavelmente funcionou no passado como um lugar de redenções. Na verdade, muitas vezes representado dentro da semântica narrativa, o hospital, como epicentro da doença e da morte, geralmente desperta emergências transcedentais, purificadoras, ressuscitadoras da vida. Talvez, neste passado que vemos no filme, Vladimir buscou ali, no hospital, salvar o vazio de sua vida, movida à base do dinheiro. Talvez acreditou que, ao tentar amá-la, seria um homem melhor. Mas não, muito tempo depois e ainda vivendo dentro da mesma casa, é como se eles vivessem vidas separadas, como se ela fosse sua empregada doméstica. Ele continua sendo um homem rico, ela continua sendo uma mulher pobre, com um filho desempregado, desesperado por dinheiro. É como se Elena tivesse deixado sua vida no hospital para ter a mesma vida pequena e estreita dentro de uma mansão que não pertence a ela.

Mas continuamos com a imagem desse hospital. No presente da história, ele voltará a aparecer e Vladimir, ali internado, voltará a ter outra epifania, outra visão de uma nova possibilidade de redenção; decidirá que seu dinheiro não será para Elena, mas sim para sua filha, como quem tem uma relação distante, completamente destruída. Elena não serviu, Elena foi um capricho, mais um jogo, uma peça a mais em sua vida protegida pelo dinheiro. Poderíamos vê-lo assim: Vladimir é tão só, um homem tão vazio que de vez em quando joga para ganhar o céu. Que de vez em quando, como já disse, joga para buscar a redenção. Mas este maravilhoso drama de Zvyagintsev não traz redenções típicas de Hollywood, muito menos finais felizes. Este é um filme profundamente humano e cheio de contradições, ou de cores cinza, como tudo que é humano. Quando vamos ao fundo da vida destes personagens sem grandes patamares históricos, percebemos que não existe o bem, que não existe o mal e muito menos a redenção, mas sim a dor e a necessidade. Existem as razões de cada um e o que cada um considera que é justo para si próprio. O que cada um, dentro de seu imenso sofrimento existencial, considera que merece. Nos terrenos da dor, as vítimas são os agressores e os agressores também são vítimas. No fundo, por trás de toda essa angústia existencial, aparecerá a possibilidade do crime, não como uma redenção, e sim como uma saída, uma solução, um ato justiceiro contra a arbitrariedade da existência.

Elena, domingo, 29 de setembro. Dor, redenção, injustiça, crime, drama, cinema russo. O que você vê quando vê o Max?

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