Impardonnables, ou o simulacro imperdoável

por max 4. janeiro 2013 10:37

 

Em Impardonnables (2011), do famoso diretor André Techiné, um escritor de livros policiais (André Dussollier) vai para Veneza com o objetivo de escrever sua nova história. Ele se chama Francis e, como nos livros românticos, joga e acredita no amor à primeira vista. Assim que conhece a corretora que procura sua futura casa na cidade, se apaixona por ela e a pede em casamento. Sim, tudo bem novelesco, e também idílico – logo ele estará vivendo em uma casa no campo, feliz no casamento. Mas não, Francis não pode estar tão tranquilo assim. Talvez esteja acostumado demais a lidar com crimes obscuros, com traições da alma, com vidas duplas. E também, claramente neste caso, demasiadamente acostumado a ser o deus de seus mundos, o ditador de seus mundos. E é assim que, levado pelo tédio existencial, Francis começa a projetar suas obsessões de escritor, mas não naquilo que escreve e sim, na vida. Fica parecendo que a palavra já não lhe serve, que já não é suficiente se exorcizar no papel. Miguel de Unamuno, escritor, poeta e filósofo espanhol, dizia que o tédio é o fundo da vida, que o tédio fez com que inventassem os jogos, os livros e o amor. Mas o que acontece quando o tédio não vai para onde deve ir? O que acontece quando esse tédio deixa de ser um motor da arte?

Francis começa a suspeitar da esposa, acredita que ela está lhe traindo. Contrata dois detetives, um para investigar a filha e outro para vigiar a esposa. A fantasia começa a se misturar com a realidade. Nos tempos atuais, mais que loucura, isto parece ser uma constante na vida. Nossa existência é uma invasão de realidades virtuais, inventadas, midiáticas. Somos publicidade, ficção para o entretenimento, somos o que se vende e não o que somos verdadeiramente. No lugar mais isolado do mundo está a mecânica do controle que diz como devemos nos comportar. Ciúme real não é a mesma coisa que ciúme midiático. Ou é? Aqui entram todas as perguntas. Por que vivemos tanto os modelos da ficção na nossa vida real? Quão irreais somos em nossa realidade? Estamos já tão dominados pelos meios de comunicação, tão marcados por eles, que nossas vidas não são mais que simulacros dos simulacros dessas ficções que os meios nos apresentam? E, finalmente, a respeito do filme: O que é o imperdoável? Nossa falta de vontade diante da sedução destes poderes? Nossa superficialidade? Nossa incapacidade para distinguir a ficção barata da realidade? Do que somos culpados? Do tédio? Da irrealidade?

Unforgivable, de André Techiné, começando o ano de 2013, neste domingo, 6 de janeiro. O que você vê, quando vê o Max?

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