Ricky, ou a erupção do fantástico

por max 14. dezembro 2011 13:25

 

Uma das regras do gênero fantástico é que, precisamente, o feito, a ação que chamamos fantástica, nasce na medula da realidade. O fantástico, dizia Julio Cortázar, é uma maneira quase filosófica, antológica, de entender a realidade. Dizia que o fantástico, para ele, era aquilo que se opunha ao falso realismo. Em "Alguns aspectos do conto", ele diz que esse falso realismo "consiste em acreditar que todas as coisas podem ser descritas e explicadas da mesma forma como era embasado o otimismo filosófico e científico do século XVIII, é o mesmo que dizer que isso acontece dentro de um mundo regido mais ou menos harmoniosamente por um sistema de leis, de princípios, de relações de causa e efeito, de psicologias definidas, de geografias bem desenhadas nos mapas." De fato, aquele racionalismo da modernidade enfrenta as críticas românticas, das vanguardas e da mesma pós-modernidade e ali, nesse choque, entendemos novas formas de compreender a realidade. Os sonhos, a loucura, a obscuridade, o misticismo, a religião, as exceções. A realidade também pode ser explicada pela erupção da exceção. Continuamos com Cortázar: "No meu caso, a suspeita de outra ordem mais secreta e menos comunicável, e a fecunda descoberta de Alfred Jarry, para quem o verdadeiro estudo da realidade não residia nas leis senão nas exceções dessas leis, que foram alguns dos princípios indicadores da minha busca pessoal de uma literatura à margem de todo o realismo demasiadamente ingênuo." O sentimento do fantástico, segundo o mesmo Cortázar, é esse acreditar, esse intuir que o mundo no qual vivemos é tão somente uma parte, ou melhor dizendo, que a realidade que conhecemos é somente uma parte da realidade absoluta. Para conhecer o outro lado da realidade, temos que transpor, e a única forma de fazer isso é fixando-se, conhecendo, buscando as exceções. Essas exceções se encontram fortuitamente, se buscam ou inclusive se forçam, como faz a arte, que modifica, com suas histórias, a realidade para descobrir novas faces da realidade.

O cineasta francês François Ozon se caracterizou, não sei se por incluir o fantástico em sua obra, mas sim por essa capacidade para estranhar o mundo. É o mesmo que dizer que Ozon, com seu olhar, transforma a realidade em estranha. Ozon gosta das exceções, que não necessariamente são fantásticas. Porém, no filme Ricky (2009), o diretor lança mão do fantástico para mostrar a realidade, para descobri-la. Ali, no sonho de uma sociedade de classe operária, ali, em meio aos tormentos e lutas de um casal de pouca grana, ali de onde não se alcança o sonho e as esperanças. Ozon faz nascer um filho que irá criar asas. A intromissão do fantástico transforma-se em uma oportunidade para aprofundar a psicologia dos personagens, para explorar os medos e as alegrias, para iluminar as obscuridades. Ozon, no meio de um universo cinematográfico como o francês, que tende ao ritual realista da representação em torno da vida burguesa, em meio de um cinema que também, em algumas ocasiões, pecou de sério por autoral, se mostra como um autor que, paradoxalmente, assinala a realidade apesar de usar a alienação e o fantástico, e que acabou se constituindo em um autor sério, ainda que use constantemente o humor. Assim é Ozon, assim é Ricky.

Ricky, nesta quinta-feira, 15 de dezembro, no Max.

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