Dumas, ou o ato de escrever e o amor a quatro mãos

por max 3. março 2012 02:27

 

Há quem adore um mistério, uma conspiração, e há quem fique fascinado ao ver um ídolo cair. Somos humanos, queremos ter a "verdadeira história" nas nossas mãos e queremos que a verdade tenha fraquezas humanas. Talvez a soberba acadêmica, a prepotência do eleito, faça com que muitos tenham a necessidade de fugir em busca de outros argumentos, outras histórias. No fundo, a teoria da conspiração ou a alegria da queda do herói são reações do oprimido diante da ditadura dos poderes. Não é por acaso que o mais recente filme de Roland Emmerich se chama Anonymous (2011), sendo "Anonymous" o nome do grupo de hackers que tomou para si a bandeira da luta contra os poderes corporativos e do estado. Anonymous é o filme que pretende colocar em dúvida a autoria de William Shakespeare e dá-la a outro, mais educado e interessante, que trabalhava nas sombras. Isto, claro, é o extremo de uma teoria. Em outros casos, o que se tem dito é que Shakespeare era um plagiador que roubava histórias dos outros e as apresentava como suas. Quem disse essas coisas, talvez ignore que o conceito de autoria tem variado ao longo dos séculos. Nos tempos de Shakespeare, as mesmas histórias viajavam de caneta-tinteiro para caneta-tinteiro, e o que tinha sido escrito por um antes, era retomado por outro, sem que isso significasse falta de originalidade ou plágio; digamos que havia, contudo, uma mescla entre a história de origem popular e a autoria individual. Por outro lado, o texto de teatro em si não era considerado, naquele momento, um trabalho exatamente literário, mas sim um roteiro autoral. No caso de Shakespeare se diz que peças como Romeu e Julieta ou Hamlet foram tiradas de obras anteriores e possivelmente tenha sido assim mesmo; o único problema é que não podemos julgar um autor de quase 400 anos com os mesmos parâmetros de hoje em dia. Se bem que Shakespeare, supondo que tenha sido assim, pegou outros textos anteriores para escrever suas histórias, devemos também admitir que, ao fazê-lo, acabou transformando estas mesmas histórias em algo muito maior, de melhor qualidade.

O fundamental aqui, voltando um pouco, é que a necessidade de tirar o poder do seu pedestal sempre está presente. Também, ressalto, existe a resistência do ser humano em acreditar no gênio sem medida, no talento perpétuo. É difícil acreditar que alguém realmente possa produzir tanto e com tanta qualidade.

Algo parecido aconteceu com Alexandre Dumas, pai. No caso do grande autor francês, sabe-se, inclusive por seu próprio testemunho, que teve de sobra o que, em inglês, conhece-se como "ghost writer", escritor-fantasma ou um escritor que fica nas sombras. Um ghost writer é, geralmente, aquele que escreve anonimamente um livro que será assinado por outra pessoa. Hoje em dia, por exemplo, as biografias dos políticos ou dos atores estão assinadas pelo respectivo político ou ator mas, na realidade, foram escritas por um profissional contratado pela editora, que nunca terá seu nome conhecido. Lembremos, por exemplo, O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, 2010), de Roman Polanski, no qual Ewan McGregor é o ghost writer e Pierce Brosnan é o ex-primeiro ministro da Inglaterra. Alexandre Dumas chegou a ter mais de 60 "secretários" que, na realidade, ajudavam o autor em sua interminável produção. Dumas publicou mais de 500 textos, entre artigos, peças de teatro e novelas; porém, hoje, sabe-se lá quantos escreveu realmente. Seus romances foram publicados como folhetins em jornais e as pessoas seguiam as histórias com paixão. Uma história de Dumas significava vendas, muitas vendas para o jornal e também muito dinheiro para Dumas. Assim, acabou sendo uma espécie de rockstar da literatura francesa do século XIX mas, ao mesmo tempo, se viu obrigado a contratar ajudantes para, com ele, escrever as histórias. Um desses escritores não tão fantasmas (referindo-se à expressão em inglês) – o próprio Dumas chegou a dar-lhe crédito verbalmente, nunca por escrito – foi Auguste Maquet, professor de história muito disciplinado, que trabalhou com Dumas na série de romances sobre Os Três Mosqueteiros, O Conde de Montecristo, A Rainha Margot, O Castelo de Cagliostro, entre outras também muito conhecidas. Aparentemente, a amizade e a associação entre eles duraram sete anos e tiveram seu início quando Maquet, em 1844 por intermédio de seu amigo, o poeta Gérard de Nerval, fez chegar às mãos de Dumas uma peça de teatro, A Noite de Mardi-Gras, que logo o famoso escritor melhoraria e que terminaria sendo publicada com a assinatura dos dois abaixo do nome de Bathilde. Pouco depois aconteceu o mesmo com um romance de Maquet que estava em fase de esboço. Dumas revisou o texto, melhorou-o e quando estava pronto, o editor de ambos decidiu que esse romance, assinado exclusivamente por Dumas, teria mais vendas do que aquele assinado pelos dois. Maquet aceitou, o romance O Cavaleiro de Harmenthal foi publicado e, desde então, Maquet, com sua excelente capacidade para recriar momentos históricos, transformou-se no colaborador mais qualificado de Dumas. Acredita-se que Maquet, depois de planejar o esqueleto com seu parceiro, fazia os primeiros rascunhos dos romances, centrando-se principalmente nos detalhes históricos. Depois, Dumas acrescentava o que faltava a Maquet, esse talento indescritível para fazer da obra uma história realmente apaixonante. Com o passar dos anos, Maquet foi se cansando do papel menor e decidiu abandonar Dumas. Isto aconteceu em 1851. Porém, em 1845, apenas um ano depois de se conhecerem, apareceria o panfleto Casa de Alexandre Dumas e Cia.: Fábrica de Novelas, no qual Eugene De Mirecourt acusava Dumas de publicar o trabalho de outros assinando com seu nome. O escritor ganhou o caso naquela ocasião; Maquet, porém, não teve uma sorte tão grande. O juiz determinou que Dumas era o autor de seus livros (ainda que, em seu testamento, Maquet tenha declarado que as obras eram suas), mas também impôs um pagamento, por 10 anos, de uma certa quantia de dinheiro ao demandante (Dumas havia declarado que estava em falência, e estava realmente, pois gastava tudo na boa vida).

Estrelado por Gérad Depardieu como Alexandre Dumas e pelo belga Benoît Poelvoorde como Maquet, Dumas (L'Autre Dumas, 2010), de Safy Nebbou, resgata a figura deste esquecido autor, em uma mescla de realidade com ficção, muito bem administrada e ambientada. Maquet é apresentado como um trabalhador árduo, um homem organizado que põe os pontos nos is no caótico mundo literário. Porém, deixa claro que sua dimensão como autor é muito menor que a do outro. Safy Nebbou declarou: "Maquet não tinha a genialidade de Dumas; podia passar horas e horas escrevendo, mas não seria melhor. A genialidade não se aprende." Contudo, o cineasta trabalha sobre a ideia de que ambos precisavam um do outro. Havia química entre eles, e Dumas, desordenado e alçado à fama, precisava que alguém colocasse seus pés no chão, o disciplinasse e oferecesse temas a ele. E, claro, com a ficção sempre em jogo, o conflito surge quando aparece a jovem Charlotte (Mélanie Thierry). Charlotte, admiradora de Dumas, primeiro tropeça em Maquet e o confunde com seu ídolo. Maquet aproveita a situação, não esclarece a confusão e alimenta a ilusão da moça ainda mais. A partir deste momento, a relação entre estes dois homens não será mais a mesma.

O amor, o orgulho, a verdade, a justiça, a liberdade e a rebeldia estão em Dumas, neste sábado, 3 de março. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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