Target, a realidade virtual e a eterna juventude

por max 19. março 2013 14:15

 

A realidade virtual é uma vida onde tudo é exagerado. A série de filmes Matrix (The Matrix) mostra o combate do corpo a corpo exagerado, a capacidade inenarrável de saltar, de dar golpes velozes, de dar mil socos em alta velocidade. Em um jogo de realidade virtual pode-se voar até uma boate (voar literalmente, exageradamente), entrar, conseguir alguém para dançar em cinco segundos, dançar charmosamente (mesmo sem saber dançar), conquistar uma mulher e transar com ela quase que imediatamente. Em outro jogo, você pode assassinar centenas de monstros, centenas de zumbis. A aventura sensacionalista, exagerada, a vida recarregada, aprimorada. A realidade virtual é uma utopia, um lugar para fugir de nossos corpos e levar uma vida melhor. Isso nos lembra Michel Foucault em O Corpo Utópico:

 

"O prestígio da utopia, a beleza, a maravilha da utopia a que se devem? A utopia é um lugar fora de todos os lugares, mas é um lugar onde eu terei um corpo sem corpo, um corpo que será belo, límpido, transparente, luminoso, rápido, colossal em sua potência, infinito em sua duração, desligado, invisível, protegido, sempre transfigurado." (Foucault, p.8)

 

A realidade virtual como forma de utopia também se refere à busca da eterna juventude. Aquele corpo virtual deve ser perfeito em sua aparência mais jovem. Em nossos tempos, a juventude, o aspecto juvenil, mais parece ser a utopia daqueles que já não são mais jovens. O fenômeno parece se acumular, especialmente naqueles que têm todo o material ao seu alcance. Na ânsia de ter mais, também se esforçam para se tornar uma juventude plástica, na moda, desesperada.

Target (The Target – 2011), dirigido pelo veterano russo Alexander Zeldovich (que em 27 anos de carreira teve apenas quatro filmes), com roteiro do polêmico (que causou problemas a Putin e seu partido) romancista Vladimir Sorokin, nos mostra uma história que acontece dentro de uma sociedade utópica aparentemente perfeita, por trás da qual se move a mediocridade de raças mais prósperas. Porque, sem dúvida, parece que nos encontramos diante de uma sociedade medíocre, uma sociedade que chegou com facilidade ao seu estado de perfeição. A Rússia, que aqui é apresentada linda e futurista, chegou onde chegou por ser um lugar de passagem, um enorme escritório entre dois grandes espaços de comércio internacional. Nada parece ter ocorrido sem esforço. No filme, a Rússia é um lugar de obrigação, um lugar que se enriquece por si mesmo; um país virtual, porque tudo acontece na velocidade do virtual, porque tudo é exagerado na riqueza, porque tudo parece ser muito perfeito... menos a velhice. Nesta Rússia, como já dito, surgiu um sistema de castas e os protagonistas de Target são os de mais alto nível. Um Ministro de Recursos Energéticos, sua esposa, uma atriz da Televisão russa e um coronel encarregado da segurança no trânsito entre as fronteiras. Todos estão ansiosos e confiantes, em uma viagem para uma região distante, próximo à Mongólia, em busca de uma fonte da eterna juventude que, supostamente existe, pois é resultado de alguma estranha irrigação de um antigo laboratório de astrofísica. Logo, os privilegiados descobriram a deusa da cura, mas também encontraram com os exageros de suas virtudes e defeitos. Tudo por causa deste benefício da juventude exagerada, ficará exagerada neles. Viverão a utopia de seus corpos e, esta utopia vivida, mais que um presente dos deuses, será uma queda no abismo. Assim deve ser para aqueles que só conhecem o egoísmo, miséria e mediocridades, tudo aquilo que é obscuro no homem, tudo aquilo que em si não é virtual, que em si é muito, muito humano.

Uma produção russa muito cuidadosa, muito bem pensada, clara, nítida em seu objetivo e em sua produção; um drama profundo sobre utopia, mesquinharia, desejo, poder político, sobre a sociedade contemporânea em geral, tão perto de seus desejos de virtualidade, que só vive no egoísmo.

Target (The Target), quinta-feira 21 de março. Realidade virtual, distopia, eterna juventude, miséria humana. O que você vê quando vê o Max?

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