Bonsai, ou a leveza contra o mundo

por max 11. janeiro 2013 12:13

 

Alejandro Zambra é um jovem autor chileno que, em 2007, foi eleito pelo Hay Festival como um dos 39 autores latino americanos abaixo de 39 anos. Até agora, tem três livros: Bonsai (2006), La vida privada de los árboles (2007) e Formas de volver a casa (2011). Por enquanto, apenas Bonsai foi publicado no Brasil, pela Cosac Naify. Seus livros são curtos, intimistas e deixam o leitor com uma sensação de ter segurado com as mãos um delicado artefato feito com palavras iluminadas. São histórias sutis centradas em um mundo pequeno, miniatura de um mundo muito maior, uma cela que funciona como um lugar para ficar protegido, mas que, ao mesmo tempo, foi quebrada pelo peso da realidade, esse distante ruído, distante sim, mas muito pesado. Ali, nesse espaço protegido, convivem a ficção e a realidade. Porque a ficção, no fim das contas, é uma forma de resguardo. Notas, livretos, rascunhos, contos pequenos, diários, o analógico, o escrito a mão, o que nos leva, inclusive, à idade de ouro da infância, se convertem nos recursos que servem para ler e para dar forma à essa cápsula que visa a iminência do que vem de cima. Há, na literatura de Zambra, uma espécie de dignidade, de orgulho, de ascetismo inclusive, que se opõe ao patético, ao sentimentalismo, ao clichê ou ao lugar comum da telenovela no que poderiam derivar certas situações humanas que surgem, por exemplo, do amor e suas feridas. Sabe-se que escrever sobre o amor é uma das coisas mais difíceis na arte literária. Alejandro Zambra trilhou esse caminho com delicadeza, bom gosto e leveza, e essa leveza dá a sensação que Ítalo Calvino reclamava para a literatura. Vale, portanto, aproximar-se um pouco daquilo que o autor italiano definia como leveza naquelas famosas palestras: "Nos momentos em que o reino do humano me parece condenado à chatice, acho que deveria voar como Perseu para outro espaço. Não falo de fugir para o sonho ou para o irracional. Quero dizer trocar meu enfoque, olhar o mundo sob outra ótica, outra lógica, outros métodos de conhecimento e verificação." Calvino fala das "imagens de leveza que surgem dessa exploração das outras vias novíssimas, fala inclusive das antigas; fala de uma busca de linguagem e de ponto de vista, de um salto repentino "que se alça sobre a chatice do mundo, demonstrando que sua gravidade contém o segredo da leveza, enquanto que o que muitos consideram a vitalidade dos tempos, ruidosa, agressiva e estrondosa, pertence ao reino da morte." Não sem motivo, Calvino chama este escritor de leve, de "poeta filósofo". Já dissemos, inclusive, que existe algo de estóico na literatura de Zambra. Muito de poesia, sem dúvida, pois Zambra é um criador de imagens poderosas, um animador das coisas do mundo, um animador das árvores e miniaturas das árvores. Mais para a frente em sua palestra sobre a leveza, Calvino aponta que nessa leveza há melancolia e que "a melancolia é a tristeza que se apressa". A literatura de Zambra tem esse ar de miniatura que comove, mas que está carregada, ao mesmo tempo, de tristeza, mas que, se seguimos Calvino, mais que tristeza, seria mesmo melancolia. E também, em Zambra, há certo humor, ou como destaca Calvino, humour, entendido aqui como o cômico que perdeu a chatice corpórea.

Bonsai, segundo filme do chileno Cristián Jiménez, é a recriação cinematográfica do livro de estreia de Zambra. Com roteiro de Jiménez e Zambra, o filme busca apegar-se ao livro, à sua história, à sua atmosfera de lugar mínimo, íntimo e leve. Trata-se de um delicado artefato que segue suavemente a história deste escritor, Julio, que inventa um livro de outro escritor (o velho Gazmuri, um autor de sucesso) que nunca pôde transcrever, e que, por sua vez, vai percorrendo dois momentos de sua vida, uma relação amorosa do passado e o presente solto e fugidio que, todavia, é latente. Jiménez vai contando esta história com o valor de sua aparente rapidez, de modo impressionista, com seu humor ou sua tristeza melancólica, com sua mão invisível que vai deixando que as coisas sigam atrás de sua fresca e aparente deriva. É, exatamente, como um bonsai, polido, mínimo, essencialista. De fato, Zambra escreveu com relação ao seu livro: "Acho agora que escrever é como cuidar de um bonsai: escrever é podar a ramagem até que deixe visível a forma que estava ali, entocada; escrever é aramar a linguagem para que as palavras falem, de uma vez, o que queremos dizer." Assim também é o filme de Jiménez: uma peça pequena que o diretor vai cuidando de perto, mas sem intervir de maneira abrupta, deixando que circule entre seus tempos, entre seus diferentes saltos de tempo, para ir contando um amor, um fracasso, para ir contando aquilo que vive entre a ficção e o real.

Bonsai, nesta segunda-feira, 14 de janeiro.

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