Juan dos Mortos, ou a ilha dos malandros e dos zumbis revolucionários

por max 31. outubro 2013 11:27

 

Pode-se dizer, pois bem, aqui está o herói revolucionário cubano, matando dissidentes, matando os capitalistas americanos. Mas em Juan dos Mortos (Juan de los Muertos, 2011) de Alejandro Brugués, estamos diante de uma sátira. Juan, o suposto herói, e Lázaro, seu amigo, são dois vigaristas, os cubanos mais aproveitadores de todos os cubanos, aqueles que prosperam à sombra da revolução. Juan e Lázaro são dois exemplares de malandros latino-americanos, aqueles que, diante da impossibilidade de saída existencial, diante do isolamento material e espiritual imposto na ilha, terminam vivendo das armadilhas, das astúcias e dos movimentos rasteiros. São, como disse em algum momento o próprio Juan, sobreviventes, os melhores exemplos do novo homem socialista. Assim, com todos os direitos, eles vêm levando a vida cotidiana como aproveitadores das circunstâncias dentro de um regime que pretende ditar cada momento da vida coletiva.

E no filme em questão, esse regime, essa estrutura de poder termina criando dois personagens diferentes: por um lado, e não metaforicamente, zumbis, massas estáticas que contradizem o princípio do novo homem: o movimento revolucionário. A revolução, se supõe, é um movimento constante, uma velocidade, um vai para frente, diretamente para o futuro. Mas estes homens que a revolução produziu não pensam, se mobilizam em grupos guiados pela inércia, não avançam, vagam. O perambular, reforço, nega o futuro. Assim, temos os produtos da Cuba contemporânea: o malandro e o zumbi. Alejandro Brugués leva esta ideia ao roteiro, à realização cinematográfica, e opõe estes dois personagens em um jogo narrativo que, à sua maneira, oferece um olhar crítico, sarcástico, à ilha revolucionária. Não só o capitalismo cria zumbis, o socialismo também. E para piorar, o socialismo cria seus próprios capitalistas, porque Juan dos mortos e seus companheiros montaram seu negócio diante da explosão de zumbis, que resulta, segundo o governo cubano, em um grupo de dissidentes enviado pelo império americano. Porque é assim, os de fora sempre terão a culpa, os de fora sempre serão os culpados da revolução não caminhar com um sentido claro até o futuro, os de fora sempre serão culpados por perambular, pelo vagar da revolução. No fundo, poderíamos dizer, este filme de Brugués é uma proposta sobre a verdade da cinética revolucionária, mas também – e voltamos ao tema – é a revelação de outra grande verdade: o malandro latino-americano é o mais capitalista de todos. O revolucionário malandro está sempre pronto a fazer um negócio que lhe dê ganhos pessoais. Juan dos mortos é um herói que não é herói por ânimo justiceiro, mas sim por conveniência, por dinheiro. Juan dos mortos organizou um negócio ideal: ele e seus companheiros prestam serviços a todos que querem matar seus entes queridos. Está sobre esta frase o significado de traição revolucionária: todo aquele que seja suspeito de algo (de dissidente, de zumbi gringo, nunca revolucionário) deve ser entregue pelo amigo, pelo vizinho, pelo familiar próximo. Juan dos mortos está ali para se encarregar do dissidente que virou zumbi, e faz sem escrúpulos, porque Juan só acredita no capital. Sua alma vive no capital. Juan dos Mortos, o filme, é uma maravilhosa sátira política e ao mesmo tempo uma comédia zumbi com todos os seus efeitos, suas virtudes e também defeitos. Uma comédia divertida e excessiva, uma sanguinária crítica que joga verdades na cara e faz dar gargalhadas escandalosas e cruéis.

Juan dos Mortos, sábado, 2 de novembro, no Max… Neste mês, o Max está às ordens para zumbis, porque também teremos Les Revenants.

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