Miniciclo de terror asiático no Max

por max 15. junho 2012 08:10

 

O cinema asiático de terror é belo... Afirmação estranha? Não sei. Podemos dizer que o cinema asiático de terror é duro, muito duro, e que, definitivamente, não se deixa levar pelas facilidades do gênero, sobretudo pela escola norte-americana, tão cheia de seres horrendos, deformados, sobrenaturais e sanguinários. O cinema norte-americano de terror é cheio de clichês, de conceitos fáceis sobre o mal e o horrendo. Em compensação, na Ásia a tradição é outra. Lembro, por exemplo, de um conto da cultura popular japonesa onde o terror é representado por seres sem rosto. Porque é assim, o terror também pode ser desprovido de rosto, ter a estranha beleza do vazio. É a partir dessa herança ancestral que o cinema asiático de terror se movimenta. Para o cineasta daqueles lados, o cinema de terror é outro meio de expressão, é também arte, não uma simples ferramenta de entretenimento. Kubrick, um ocidental, talvez tenha sido um dos poucos que entendeu assim. Na Ásia, sem dúvida, o entendimento estético e humano do terror é bem enraizado. Voltemos ao Japão com Kwaidan, originalmente um livro de contos populares de terror japoneses recompilados por um dos grandes divulgadores da cultura nipônica, Patrick Lafcadio Hearn. Kwaidan foi lançado nos cinemas em 1964, pelo diretor Masaki Kobayashi. O filme conquistou menção especial em Cannes e indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro. E do que estamos falando? Pois, estamos falando do terror, do cinema de terror. Mas já foi dito que, para os asiáticos, o gênero é visto de outra maneira, e ali estão colocadas suas preocupações estéticas e humanas. O terror serve, muito especialmente, para o drama, para apresentar situações humanas no limite, que tenham causado trauma nas pessoas. Por baixo do terror do cinema asiático, existe um drama oculto, uma segunda história carregada de dor, infidelidade, violência familiar, suicídio, até mesmo reflexão metafísica. Em raras ocasiões, o terror asiático é claramente terror. Os filmes transitam em uma linha fronteiriça, que permite aos cineastas fazer propostas estéticas carregas de imagens interessantes, delicadas, até diria belas. O cinema asiático de terror não se sente menos nem se deixa ser menos. Até mesmo Akira Kurosawa explorou as possibilidades da estética e do terror em filmes como Sonhos (Dreams, 1990) ou até em Rashomon (1990). Assim, o bom cinema de terror oriental nos deixa essa sensação: a de que o mundo é um lugar belo e terrível ao mesmo tempo, que a beleza é triste, e que o sublime aterroriza. Freud disse: sublime é a troca de rosto de quem é familiar por algo profundamente inquietante. No cinema asiático de terror, o mundo, nosso mundo, se transforma através da beleza e do drama para dar lugar ao sobrenatural. A beleza, poderíamos dizer então, também é capaz de gerar medo. O drama e a tristeza nos levam à melancolia: e, no fundo da melancolia, reside a loucura, seu medo, o medo.

Neste sábado, 16 de junho, o Max apresenta uma pequena maratona de cinema asiático de terror, com três filmes de primeira: Shock Labyrinth 2D, Herança Amaldiçoada (J-Horror 6) e Olhos de Criança (The Child's Eyes).


 

 

Shock Labyrinth 2D (2009), do grande Takashi Shimizu, criador da série Ju-on, também conhecida como The Grudge no circuito americano (O Grito no Brasil). Shimizu faz um filme com dinâmica um pouco mais próxima do cinema norte-americano, inclusive poderíamos dizer que juvenil, mas sem abandonar a estética, o trabalho das imagens e dos símbolos. Aqui temos um hospital como centro das situações de terror, e o hospital, por sua vez, é um labirinto e também a Casa do Terror de um parque de diversões. A viagem no tempo, a memória perdida, a volta do inferno, tudo está ali, latente nas obscuras esquinas das bases do gênero terror.

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Herança Amaldiçoada (J-Horror 6 / Kyôfu, 2010), de Hiroshi Takahashi, conhecido como roteirista dos clássicos filmes da série O Chamado (Ringu). Trata-se, desta vez, do filme de número 6 da série J-Horror Theater, produzida por Takashige Ichise. Eles são: Infecção (Infection, 2004) de Masayuki Ochiai, Premonição (Premonition, 2004) de Tsuruta Norio, Reencarnação (Reincarnation / Rine, 2006) de Takashi Shimizu, Crimes Obscuros (Retribution, 2007) de Kiyoshi Kurosawa, História de Terror (Kaidan, 2007) de Hideo Nakata, e finalmente Herança Maldita de Hiroshi Takahashi. Neste caso, voltamos às "profundezas" de um hospital, onde um médico e uma médica fazem experiências com implantes de dispositivos em um grupo de jovens, que fazem com que eles tenham experiências de vida após a morte. Com personagens marcados, torturados, enlouquecidos pelas visões, este filme é uma viagem de imagens alucinantes e de terror metafísico.

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Olhos de Criança (The Child's Eyes, 2010), escrito e dirigido pela dupla Oxide e Danny Pang, mais conhecidos como os irmãos Pang, diretores da série de filmes de sucesso, conhecidos como The Eye, voltam-se para o tema da visão como geradora de lembranças e imagens sobrenaturais e perturbadoras, mas, desta vez, a ação tem lugar em um velho hotel onde vai parar um grupo de jovens que não podem sair de Bangkok por causa de uma greve nos aeroportos. Assim, levados para este velho hotel, eles começam a viver uma série de estranhas e aterrorizantes experiências. Alguns deles desapareceram e é em um cão que recai a visão do mundo sobrenatural.

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Lembre-se, neste sábado, 16 de junho, miniciclo de terror asiático no Max. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

Sonhos, de Akira Kurosawa, ou o homem contra a natureza

por max 16. março 2012 07:33

 

Este mês, o Max orgulhosamente apresenta Sonhos (Akira Kurosawa´s Dreams, 1990), um dos últimos longas-metragens de um dos grandes mestres do cinema japonês, talvez o mais internacional de todos.

Kurosawa já estava com 80 anos (morreria em 1998, aos 88 anos de idade), quando nos deu de presente esta obra-prima constituída por oito curtas-metragens inspirados em sonhos que teve durante sua vida. Estas oito peças refletem uma preocupação muito própria, particular da sensibilidade artística japonesa. Se nos remetemos, por exemplo, a Hayao Miyasaki, um dos diretores contemporâneos mais importantes do Japão, encontramos temáticas similares: a tecnologia, o abuso da energia e a guerra em contraposição às forças da natureza e, no caso de Kurosawa, também encontraremos a força da arte em união com o mundo.

Nestes curtas-metragens há uma variedade de argumentos, que vão desde a atração pelo mundo através do pensamento mágico próprio do universo do sagrado, até a atração pelo espaço e tempo profanos, onde o medo e o respeito pelos mistérios foram substituídos pela loucura racional do homem, levando à destruição da natureza e do próprio homem. A visão inicial do tempo sagrado se dá através dos olhos das crianças nos curtas "A luz do sol através da chuva" e "A horta de pêssego e a festa da estopa". Ali, a natureza é percebida como um lugar fascinante, muito próximo dos deuses e que se apresenta estranho, terrível e ao mesmo tempo belo. A natureza e o tempo interior da natureza pertencem ao medo primitivo, mas também à convivência, ao respeito, à reverência, ao ritual que nos aproxima, por momentos, dos deuses já perdidos. Assim, da visão infantil, Kurosawa dá um salto ao mundo adulto, mas também para uma maneira de relacionar-se com a natureza que, contudo, não é totalmente profana, que continua com alguma religiosidade. Trata-se do curta "A tempestade de neve". Diante do desafio da montanha, o homem percebe o natural de maneira dupla: é um esportista, um vencedor, um desafiante daquilo que temeu durante séculos. Mas, apesar de seu ego, ainda não se transforma em um destruidor. Há algo místico e religioso no montanhismo, um cara a cara ainda cheio de amor. Tanto é assim que a morte, nesta disputa de altura, espreita mais o homem que a natureza.

A morte também está na guerra, na solidão do soldado em "O túnel". Aqui, a guerra (ausente mas com uma presença inegável) mostra-se como a mais clara imagem da ânsia do homem por controlar e ser o senhor supremo do mundo. A guerra, paradoxalmente, é a máxima expressão da razão que somente na razão se recria. A razão que se livra de todo o pensamento mágico, sagrado, que se livra do medo e até do respeito à natureza. Mas a guerra, o pensamento da guerra, a possibilidade da guerra, mata o homem muito antes que ele esteja morto de verdade. Entre a morte, a vida e a guerra, não parece existir diferença. Neste ponto, Kurosawa sai em defesa da arte, e na metade do longa-metragem coloca "Corvos", onde Van Gogh (interpretado por Martin Scorsese), tem um significado fundamental. A arte em fusão com a natureza. Van Gogh recebeu um tiro, sim, certamente, seu contato com a arte e os campos não foi suficiente para evitar a morte. Mas também é verdade que somente nessa relação arte-natureza, ele encontrava seu refúgio, o pouco que podia ter. Depois, Kurosawa também oferece algo mais: ainda que o final de Van Gogh tenha sido trágico, sua obra, baseada em sua visão dos campos, das plantas, dos céus e das plantações, inspira a muitos outros; dá paz e beleza a eles. Ali, dentro dessa visão, parecia haver um ponto de equilíbrio entre o homem e a natureza. A arte como uma forma de religião conciliadora.

Nos curtas-metragens seguintes: "O monte Fuji Vermelho" e "O demônio lastimoso", Kurosawa nos mostra as consequências da soberba da razão: destruição da natureza, morte do homem, caos. A razão como máxima destruidora, a razão como loucura. E, finalmente, o último curta-metragem, "O povo dos moinhos de água", que nos apresenta uma imagem poética desta relação entre o homem e a natureza, um estado ideal, um equilíbrio, uma utopia ecológica, uma ecologia onde a saúde espiritual é a ordem. Não é fácil falar destas ideias e não fazer propaganda exagerada. Kurosawa, um mestre por inteiro, consegue, no entanto, tratar destas complexas relações e fazer arte. Um de seus últimos legados é um chamado à humanidade, a seu desespero pelo poder, é uma mensagem de sabedoria e, ao mesmo tempo, uma expressão de arte magnífica. Do temor do tempo primitivo, passando pelo desafio espiritual e os batismos da arte, a ilógica guerra e a contaminação dos tempos profanos, e daqui à sabedoria ecológica final, Sonhos é um passeio pela mente do homem e sua relação com sua morada, com este mundo onde sonha, mas também, onde constrói pesadelos.

Sonhos, nesta sexta-feira, 16 de março. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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