Escuridão, filme de Agnieszka Holland que encerra o ciclo Na Mira do Oscar

por max 1. março 2014 03:18

 

Escuridão (In Darkness, 2012) é um filme da diretora polonesa Agnieszka Holland, cujo trabalho sempre aborda fortes temas sociais. Filmes como Filhos da Guerra (1990), Olivier, Olivier (1992), O Jardim Secreto (1993) e Complô Contra a Liberdade (1998) a levaram a terrenos internacionais e a transformaram em uma das cineastas mais importantes da Polônia. De fato, com Filhos da Guerra recebeu sua primeira indicação ao Oscar como Melhor Filme Estrangeiro. E Escuridão foi sua segunda indicação na mesma categoria no ano de 2012. No Max não só teremos a honra de ver Holland dentro do ciclo Na Mira do Oscar, como também –neste mês e no próximo – em Burning Bush, a minissérie produzida pela HBO Europa.

Em Escuridão, seu mais recente longa-metragem, a diretora pegou um fato da vida real, cuja história é baseada no livro In the Sewers of Lvov (1990), de Robert Marshall (fato que é confirmado como verídico pelas memórias de Krystyna Chiger, em The Girl in the Green Sweater: A Life in Holocaust's Shadow, de 2008). O filme recria os dilemas de Leopold Socha (Robert Wieckiewicz, que ganharia a Águia de Melhor Ator nos prêmios da Academia Polonesa de Cinema), residente de Lvov, a terceira comunidade judaica mais importante da Polônia nos tempos anteriores à Segunda Guerra Mundial, e de um grupo de judeus que ficou sob sua proteção. Socha era funcionário público e trabalhava no esgoto da cidade. Em 1941, a cidade se transformou em um gueto, e logo os judeus começaram a ser eliminados e levados a campos de concentração, mas Socha começou a resgatá-los e escondê-los, claro, nos esgotos. O drama das famílias ali escondidas, o medo constante de serem descobertas, a possibilidade de que a qualquer momento Socha poderá traí-las, está tudo no filme. E a tudo isso se soma a escuridão dos esgotos, o mau cheiro sufocante, os ratos, as dificuldades para comer, as relações muito próximas e tensas entre eles, e até mesmo uma gravidez.

Com conhecimento supremo de seu ofício, Holland sabe criar a tensão própria do cinema de entretenimento e, ao mesmo tempo, apresentar um drama profundo e doloroso, mas esperançoso.

Escuridão, indicado ao Oscar como Melhor Filme Estrangeiro em 2012, fechará o ciclo Na Mira do Oscar, sábado, 1 de março, no Max.

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Homem em Chamas, ou o arbusto do herói

por max 11. fevereiro 2014 10:36

 

Um arbusto que arde, como aquele arbusto ou aquele espinheiro que apareceu para Moisés, é a imagem de Deus, do divino. Um espinheiro é uma coisa qualquer, não é bonito, não é soberbo, mas Deus o escolheu para se manifestar, porque através de seu simbolismo nos quer dizer que Deus pode estar em qualquer parte, até nas coisas ruins e mais insignificantes. Você é espinheiro, eu sou espinheiro, todos podem ser, pois todos estão a serviço de Deus, o que também quer dizer que estamos a serviço de algo maior. Ou seja, o espinheiro se despe de seu centro, de seu próprio eu e se lança para o fogo, se sacrifica pelos outros; aquele que foi escolhido por Deus para representá-lo, queima sem cessar, mas não se consome, não morre. Ou seja, seu fogo permanece, além de toda expectativa, além de toda lógica, de toda lei.

Pensar na minissérie Homem em Chamas (Hořící keř, 2013), produzida pela HBO Europa e dirigida por Agnieszka Holland, a cineasta polonesa mais famosa internacionalmente, faz perceber estes significados do arbusto. Jan Palach, aquele jovem estudante que em janeiro de 1969 queimou seu próprio corpo em uma manifestação pública contra a ocupação do governo soviético na Tchecoslováquia, se transforma, na minissérie de Holland, nesse arbusto que arde, que continua ardendo depois de consumido, depois de morto. A partir desse caso real começa a reconstrução histórica da diretora, que deve ter vivido aqueles terríveis anos de ditadura na própria pele. Holland segue a figura da jovem advogada Dagmar Burešová (Tatiana Pauhofová), que vai tecendo a trama dos familiares de Jan, que tiveram que defender a imagem do filho diante do poder político que pretendia manchar seu nome, sua ação e sua honestidade. Palach, esse jovem que esteve à altura dos deuses ao renunciar à sua vida é, sem dúvida, esse arbusto que ardeu em nome das ideias superiores, e que continuou ardendo porque, duas décadas depois, seu nome voltou a ser lembrado como inspiração para os estudantes e os cidadãos que começaram um movimento civil de protestos e contribuíram para a liberdade final de seu país.

Homem em Chamas é uma minissérie de três partes emotiva e cheia de intriga política, de humildade, coragem e luta, de luta pela liberdade, onde os vivos e os mortos se unem, se misturam e se juntam em cenários da verdade, da honra, da justiça e da coragem.

Homem em Chamas, a minissérie de Agnieszka Holland, a partir de quarta 12 de fevereiro, no Max.

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Escuridão, a treva também salva

por max 10. janeiro 2014 04:49

Agnieszka Holland é polonesa (nasceu em Varsóvia), tem raízes judaicas, mas foi criada no catolicismo. Agnieszka Holland é uma diretora de temas sociais fortes, uma mulher preocupada com jogadas maldosas e que faz um cinema que tem chamado atenção na Europa e América. Filmes como Olivier, Olivier, Complô Contra a Liberdade, Filhos da Guerra e O Jardim Secreto, a levaram a terrenos internacionais e a transformaram em uma das cineastas mais importantes da Polônia.

Seu mais recente filme, Escuridão (In Darkness, 2012), novamente relata suas preocupações humanas e nacionais. A diretora fez um filme baseado em histórias reais e recriou as vicissitudes de Leopold Socha (Robert Wieckiewicz), residente de Lvov, a terceira comunidade judaica mais importante da Polônia nos tempos anteriores à Segunda Guerra Mundial, e de um grupo de judeus que ficou sob sua proteção. Socha era funcionário público e trabalhava no esgoto da cidade. Em 1941, a cidade se transformou em um gueto, e logo os judeus começaram a ser eliminados e levados a campos de concentração, mas Socha começou a resgatá-los e escondê-los, claro, nos esgotos. O drama das famílias ali escondidas, o medo constante de serem descobertas, a possibilidade de que a qualquer momento Socha poderá traí-las, está tudo no filme. E a tudo isso se soma a escuridão dos esgotos, o mau cheiro sufocante, os ratos, as dificuldades para comer, as relações muito próximas e tensas entre eles, e até mesmo uma gravidez.

Então qual é a verdadeira escuridão? A escuridão que os protege do que está fora, ocupando a cidade? Também vemos o que acontece lá fora. Socha caminha pela cidade, entra em lugares onde deve lidar com os alemães e com os próprios poloneses aliados ao nazismo. Sua situação não é fácil, é um funcionário público, deve estar a serviço dos novos chefes. Socha está apenas interessado nas joias? Quando as joias acabarem, vai deixar seu lado obscuro aflorar? A escuridão dos outros é um vírus? Contamina, entra na pele, mata a alma e faz infeliz? Em contraste, a escuridão das vítimas é um ventre escuro, de renascimento e iniciação, um lugar de onde surge a luz definitiva.

Assim, entre a escuridão luminosa do escondido e a verdadeira escuridão exterior caminha este filme, com a sábia arte de Holland, que sabe criar tensão em filmes de entretenimento e ao mesmo tempo dramas profundos, dolorosos e preocupantes, típicos de cinema de autor.

Escuridão, domingo, 12 de janeiro, no Max.

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