Cópia Fiel, ou a beleza e a verdade do amor

por max 7. setembro 2012 08:50

 

Fala-se do amor como uma forma de alcançar a verdade, de estar em harmonia consigo mesmo. Fala-se até do amor como uma forma de verdade. Fala-se também da verdade e da beleza em estreita relação. Platão dizia em O Banquete que o único modo de alcançar a verdade era através do amor pela beleza. A beleza, a estética, a representação da realidade é uma das visões, talvez, das mais ortodoxas e conhecidas, do que é a arte. A arte embeleza com seu olhar. Voltemos, porém, a Platão. O filósofo também dizia que, no início, os homens foram dois seres em um, mas os deuses os separaram, e desde então os homens e as mulheres se procuram para unir-se entre si no andrógino, o ser perfeito. Desde então, se fala da metade da laranja, da alma gêmea e de tudo o mais. O namoro arrebata e faz sentir que encontramos aquela parte que nos falta. Sentimo-nos felizes, sentimos que estamos vivendo nossa verdade.

Mas quanto dura a paixão e o que é, na verdade, o amor? Parece girar em torno dessas perguntas o filme Cópia Fiel (2010), do afamado diretor iraniano Abbas Kiarostami. Neste filme, protagonizado por Juliete Binoche e William Shimel, ele é escritor de livros comerciais e ela, dona de uma galeria de arte.

Ela chega com feridas de amor, ele com ideias sobre a arte, e os dois, casal de desconhecidos, passarão um dia inteiro em um povoado ao sul da Toscana.

A escolha do lugar não pode ser melhor. Aquela região italiana se transforma no "cenário" para uma história romântica. As aspas não devem ser vistas com superficialidade. Precisamente, o que acontece entre aqueles dois personagens é uma representação, uma montagem, uma cena do que é o amor, inclusive com suas diferentes etapas, mas sempre em um espaço limitado de horas onde ambos os personagens representarão sobre aquele cenário idílico o jogo por vezes malicioso, por vezes cruel e sarcástico do amor.

Kiarostami explica asim uma dinâmica entre o amor e a estética, onde duas almas já cansadas da realidade do amor começam a "representar" esteticamente esse amor. Ambos estão cansados porque viveram a "realidade" das relações, aquilo que se passa a viver tão logo acaba a paixão, aquilo que nos abre os olhos e nos faz ver a "verdade": podemos discutir, brigar, construir o inferno com nossa própria metade da laranja, com aquela que cremos que nos completava e nos fazia feliz. A esta verdade, a esta realidade, o cineasta iraniano contrapõe o sinal da representação, ou seja, contrapõe o estético. O amor não apenas necessita da verdade, mas também da beleza, de certo toque estético, de certo jogo, de certa representação, de certa ficção, de certa arte, de certa "mentira". O amor necessita de sua "cópia" para manter-se, para seguir vivendo dentro de sua verdade. O amor, compreendemos, não é uma verdade em si mesmo; o amor necessita do jogo das representações para sustentar-se, porque ali o amor, tal como o vê Platão, é verdade e beleza unidas.

Cópia Fiel é uma obra-prima, um ensaio sobre o amor – fica claro -, a verdade e a beleza, narrado com delicadeza e com o apoio, o suporte de excelentes atuações (Binoche ganhou a Palma de Ouro de Melhor Atriz em Cannes por esse papel), no que Kiarostami demonstra mais uma vez ser um dos expoentes máximos da arte cinematográfica contemporânea.

Cópia Fiel, com exclusividade, neste domingo, 9 de setembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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