Bela do Senhor, ou o mundo contra o amor

por max 30. janeiro 2014 09:01

 

O mundo ao nosso redor desmorona, tudo se torna mais e mais violento, mais perigoso e, para o homem, que cada vez mais se reduz a espaços fechados, só resta provar a liberação do corpo. Para o homem, para os amantes. Nas histórias do Marquês de Sade a orgia acontece em lugares fechados, onde o mundo apenas tem nome, onde o mundo apenas parece não importar. Mas não é certo, a realidade é um vírus. Os amantes que se aposentam para viver a intimidade em confinamento trazem de fora esse vírus, trazem os vermes em seus corpos, e esses vermes também se rompem, também se tornam violentos nos corpos. Talvez este seja o caso de Bela do Senhor (Belle Du Seigneur, 2011), primeiro e único filme de ficção do falecido Glenio Bonder, diplomata brasileiro que se dedicou à fotografia e que terminou fazendo um documentário para a televisão francesa sobre Albert Cohen, o autor do romance Bela do Senhor (Grande Prêmio de Romance da Academia Francesa em 1968, considerada uma das maiores obras literárias da França). Graças a este contato inicial, Bonder foi capaz de conversar e finalizar a produção cinematográfica do filme.

Bonder tenta centralizar em algumas horas um romance complexo de mil páginas que relata uma história íntima que é cercada por uma história maior, a dos anos anteriores da Segunda Guerra Mundial, a dos anos do apogeu do antissemitismo. A história se passa em Genebra e na França, por volta de 1936, e nos apresenta Solal (Jonathan Rhys Meyers), um funcionário judeu de cargo importante da Liga das Nações, e Ariane (a modelo Natalia Vodianova), uma aristocrata protestante casada com um funcionário de Solal. Ambos começam uma relação no meio deste mundo paralisado, praticamente inútil dessa diplomacia anterior à guerra e das tensões que se operam na Alemanha nazista. Esta relação extraconjugal, que como todas essas relações é uma via de escape, passará por todo o espectro amoroso: a conquista, a paixão, o erotismo, o prazer doentio do segredo diante dos outros, os ciúmes, as humilhações mútuas, os altos e baixos, os conflitos morais, o cansaço. O filme, como o livro, fala da beleza do amor, dessa visão de amor como um meio de superação espiritual, mas também dos horrores do ser humano, da sua capacidade de se afundar no pior de si mesmo, da sua tendência a cair no peso da burocracia, da ambição e do poder, apesar dos espaços fechados, apesar de todas as suas aventuras.

Bela do Senhor, sábado, 1 de fevereiro, no Max.

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Barbara, ou a lenta fúria dos rostos do passado

por max 25. janeiro 2014 02:16

 

Qual o rosto do passado? Quantos rostos ele teria? Parece que cada momento tem um rosto diferente e, até mesmo um único momento, pode apresentar rostos distintos. Cada um vai fazer sua leitura, cada um vai buscar seu ângulo. O revisionismo cinematográfico é, sem dúvida, uma oportunidade para olhar e ler estes rostos de que falamos. Na Alemanha, não é a Segunda Guerra que mais incomoda (da mesma forma como incomoda Hollywood), mas sim a recente Alemanha Oriental, conhecida como RDA ou República Democrática Alemã. Uma referência obrigatória é A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, 2006), filme de Florian Henckel von Donnersmarck. Antes, em 2003, temos Adeus, Lenin! (Good bye, Lenin!, 2003) de Wolfgang Becker. Já mais próximo de nossos dias, está Barbara (Barbara, 2012), de Christian Petzold, um filme que também viaja a estes tempos e a este local para, a partir de um olhar intimista, revisar a vida de uma mulher daqueles anos.

Ela é Barbara (Nina Hoss), uma jovem médica, loira, de aparência fria, que pediu visto para sair do país – ela tem um amante na Alemanha Ocidental – e que, por causa dele, foi punida e enviada para trabalhar no interior. Tudo nela mostra distância, desinteresse por tudo o que a rodeia. Tudo nela vai de acordo com o regime que matou qualquer rastro de alegria e liberdade. Pode ser que este distanciamento não seja totalmente falso. Ela está cansada deste mundo em que vive e só quer (por trás da máscara de frieza) que seu amante termine de preparar sua fuga. Essa frieza de Barbada não deixa de ter certo egoísmo. Estamos na terra do salve-se quem puder, sobreviver é apenas uma questão de ficar alheio à realidade. É neste ponto que a história começa a atingir a doutora. Uma coisa é suportar os embates do poder com a antipatia do exterior, e outra é enfrentar a si mesmo, uma vez que aparecem certas verdades: o amor, os que decidiram lutar contra o poder, fazer resistência. No entanto, tudo o que acontecerá com Barbara não será um estalo, mas um despertar contido, conciso, de poucas palavras, muito interior, intimista. O que poderia ser expressivo se transforma, assim, em um rio subterrâneo que vai percorrendo o rosto de Nina Hoss em silêncio, discretamente.

Nisto está sua magnífica atuação, pois Christian Petzold trabalhou um roteiro sem estridências nem melodramas. E compreendemos, não podemos esquecer que estamos cravados no centro de uma época marcada pelo controle do Estado, pelo controle ditatorial. Qualquer excesso se traduz em perigo de morte. Por isso, andaremos com cuidado e com a pele tensa, os músculos tensos, a alma tensa diante da intriga e do drama que sacodem a alma de Barbara.

Barbara conquistou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Berlim e teve sucesso com os prêmios da Academia Alemã de Cinema e com os críticos de seu país. Um filme magnífico, sério, sem exageros na atuação, um roteiro preciso, uma fotografia fria, mas suficientemente expressiva, para falar de tempos difíceis e devastadores e por um trabalho de câmera que revela, com calma, estes rostos do passado que revisamos para contar a nós mesmos os contos de terror que não queremos repetir.

Barbara, domingo, 26 de fevereiro, no Max.

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Agente C - Dupla Identidade, ou os problemas de uma mulher terrorista

por max 23. janeiro 2014 11:55

 

 

O cinema do terrorismo irlandês, ou o cinema da luta armada na Irlanda, é um grande negócio e já tem suas peças fundamentais. Em Nome do Pai (In The Name of The Father, 1993), de Jim Sheridan, é um clássico que de imediato nos vem à cabeça, assim como Traídos Pelo Desejo (The Crying Game, 1992) de Neil Jordan, Ventos da Liberdade (The Wind That Shakes The Barley, 2006), de Ken Loach, ou o mais recente Fome (Hunger, 2008) de Steve McQueen.

Deste cinema, chama a atenção em particular a ideia da psicologia do terrorista por um lado, e das manipulações do poder por outro. Para a guerra, se vai como um soldado, se vai como representante de um país, faz parte de um coletivo que defende uma nação. No terrorismo, me parece, há algo mais individual. O terrorista – estamos falando do terrorista europeu, não do islâmico – não é propriamente um soldado, e sim um indivíduo, uma pessoa anônima, mas que tem uma decisão pessoal por trás, uma situação limite que o levou a ser um "soldado". O homem na guerra é recrutado, o terrorista entra nas filas do terrorismo por ação voluntária. Por trás desse homem – mais uma vez anônimo – há um drama ou uma tragédia. O filme traz à tona esse indivíduo anônimo e dá nome e sobrenome, porque é interessante, precisamente, o conflito interior que o motivou a se converter em um lutador de uma determinada causa. Por outro lado, os mecanismos do poder também são muito atrativos para mostrar neste tipo de filme. Nesta guerra que não é guerra, quem se move por trás do poder também são seres anônimos que deslizam através das frestas para minar os alicerces de uma organização igualmente anônima e terrível. Há um jogo de obscuridades e tensões. A zona da luta contra o terrorismo é encoberta, e nela a moralidade e a legalidade se movem entre fronteiras. Digamos que é um lugar maquiavélico, onde os fins justificam os meios.

O filme Agente C - Dupla Identidade (Shadow Dancer, 2012), de James Marsh (excelente documentarista britânico que ganhou o Oscar de Melhor Documentário com O Equilibrista (Man On Wire) em 2008), é uma nova exploração da questão do terrorismo, da luta irlandesa com base profundamente feminina – pois sua protagonista é uma mulher – e shakespeariana. E lá está a mulher como o centro da narrativa, a mulher terrorista e suas razões, mas também, de Shakespeare, é o turbilhão da vingança, a traição, o engano, a ambição e o amor materno. Colette (Andrea Riseboroughes), uma jovem mãe solteira que faz parte do Exército Republicano Irlandês (IRA), será o foco deste filme, acompanhada de Clive Owen na oposição masculina, e também na oposição ideológica. Owen é, neste caso, um agente britânico do MI5.

O filme abre com um prólogo em que somos apresentados a Colette quando criança. A menina se nega a sair para fazer uma compra que seu pai ordena, e essa negação trará consequências. Ao invés dela ir, quem vai é seu irmão pequeno, e em seguida este irmão aparece morto, baleado em um combate entre o IRA e o governo. O pai então joga na cara de Colette a culpa pela morte de seu irmão. Ocorre a rejeição e a cena é cortada. Agora estamos em 1993, Colette vai colocar uma bomba em uma estação de metrô. Ela consegue, mas é capturada ao tentar fugir. Depois é levada até Mac (Clive Owen), um agente especial que já tem tudo pronto para estremecer a tranquilidade de Colette ao obrigá-la a trabalhar para eles como informante. Mac sabe do conflito interno de Colette, sabe da ferida aberta por seu irmão morto, e sabe que ela também tem um filho. Ele mostra fotos onde parecia que a bala que matou seu irmão vinha do lado do próprio IRA, e a ameaça com vinte e cinco anos de prisão, o que a impedirá de ficar com seu filho. Colette se vê forçada a dar seu braço a torcer: não pode perder outro menino em sua vida, em sua angústia, irmão e filho se misturam, fazem parte de uma mesma dor. Ela vai sair para espionar seus irmãos, membros do IRA, enquanto que em suas costas, nos meandros do poder, uma mulher (Gillian Anderson), por interesses próprios, muda algumas coisas para dificultar a espionagem. Mac começa a se incomodar com sua chefe e, ao mesmo tempo, algo começa a surgir entre ele e Colette e, claro, isto vai gerando mais conflitos, como já disse, shakespearianos, entre as sombras do tormento, a culpa, o desejo, a ideologia e a luta de poderes em uma mulher que se debate entre suas diferentes condições, mãe, filha, irmã, lutadora, mulher apaixonada...espiã.

Agente C - Dupla Identidade, sábado 25 de janeiro, no Max.

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Deixe A Luz Acesa, ou o mapa de um rio chamado amor

por max 18. janeiro 2014 12:05

 

Erik (Thure Lindhardt) não é muito bom com dinheiro, um dinamarquês mimado pelos pais e que foi a Nova York (estamos em 1997) para realizar um documentário sobre um cineasta underground da cultura gay. Na verdade não conseguiu muita coisa e o documentário em questão acabou sendo mais elusivo que o próprio cineasta underground. Sua irmã (Paprika Steen) exige que ele se torne mais sério, porque já tem trinta anos e, por outro lado, sua melhor amiga (Julianne Nicholson) está muito preocupada com ele e sofre. No entanto, Erik se diverte. Ou tenta. Acaba de terminar um relacionamento e agora se dedica a conseguir encontros rápidos através de ligações telefônicas. Em um desses encontros, cruza com Paul (Zachary Booth), um advogado bem sucedido que trabalha em uma grande editora. Ambos se sentem atraídos fisicamente e aproveitam o que têm que aproveitar, mas, no final, Paul diz que tem uma namorada e assim Erick percebe que foi algo de momento e nada mais. Ira Sachs transforma a história para nos mostrar que não será bem assim. Erik e Paul terão uma relação duradoura, difícil, mas duradoura, por mais de uma década.

Deixe A Luz Acesa (Keep the Lights On, 2012), o quinto filme de Sachs, move-se dentro da herança deixada pelo New Queer Cinema da década de noventa, que buscava mostrar, por fora das concepções do poderio heterossexual, os rostos e as histórias reais que lançam a voz pelo movimento LGBT. Neste filme, Sachs nos leva pelo longo e tortuoso caminho das relações, escapando, sempre fugindo dos lugares comuns. De fato, quando acreditamos que algo acontecerá com Erik, que para ele caminhos piores estão preparados, acabamos percebendo que quem está perdido é Paul. Sua perdição: o prazer que tem com drogas. Claro, veremos como a relação se desintegra e também como se cruza, como é retomada, e como vai se perdendo. A separação, a reabilitação, a recaída, a infidelidade de ambos, a prepotência, a imaturidade, a agressividade, a distância, o tempo, o filme relata um mapa muito autêntico de um rio cheio de deltas, que não é nada além de uma relação de casal, um percurso de encontros, desencontros, egoísmos e afinidades, de ódios e paixões que acontecem com um casal em momentos de dois seres que se conhecem profundamente no amor, mas também com dois estranhos que se conhecem tanto que são capazes de ir muito além. Ferir ou amar, existe um dilema neste casal onde o sexo não parece ser o problema. Mas talvez para fora, em relação ao corpo dos outros em uma época (anos noventa) onde o armário é totalmente aberto e a AIDS não é um segredo, e sim uma grande verdade com forma de um imenso desejo sexual. Sachs nos trouxe isso, um mapa que flui, um mapa de um rio profundo, a relação de dois homens que se amaram e se prejudicaram com igual intensidade. Talvez tenham sido muito honestos com eles mesmos, talvez, em certas ocasiões, é melhor apagar as luzes e não ver o outro em seus piores momentos.

Deixe A Luz Acesa, domingo, 19 de janeiro, no Max.

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Oslo, 31 de Agosto, ou revisitar a cidade e reabilitar o espírito

por max 17. janeiro 2014 06:23

 

A reabilitação não só implica deixar as drogas e o álcool, mas também implica na sobriedade. A sobriedade de um dia de cada vez, essa batalha de se manter com algum resquício da mente em pé nos lugares que antes eram pesadelos. Não se trata só de não beber, não se drogar, é também manter o equilíbrio do espírito, o que significa realmente toda uma odisseia do dia a dia pelos lugares onde alguma vez se escreveram histórias dolorosas. Esse é o caminho que segue, por vinte e quatro horas, o filme Oslo, 31 de Agosto (Oslo, 31. August, 2011), do cineasta norueguês Joachim Trier.

Baseado no romance Fogo Fátuo (LeFeu Follet, 1931) do escritor francês Pierre Drieu La Rochelle (já existe uma adaptação cinematográfica do mesmo livro feita por Louis Malle, em 1963), o filme de Trier desenvolve o drama em um dia da vida de Anders (Anders Danielsen Lie), um homem de 30 anos que sai de um centro de reabilitação e segue para uma entrevista de trabalho. Mas esta saída de Anders é mais que uma busca por um emprego. Joachim Trier nos leva à intimidade de Anders, mas, como nos romances de Kakfa, por mais próximos que estejamos do personagem, este continua enigmático para nós. Anders acorda ao lado de uma mulher qualquer, depois ele sai, tenta se suicidar, e depois vai para a entrevista de emprego, fica com raiva, visita um amigo dos velhos tempos, vai a uma festa, conhece uma garota que, finalmente, parece estar interessada nele e não em seu passado. No entanto, a cada passo, Anders fica mais perto do risco da queda, e não podemos saber se conseguirá ou não, pois dele não sabemos nada, não o conhecemos. O que Anders quer? Talvez Anders esteja buscando uma forma de unidade. De falsa unidade de si mesmo. Quem era Anders? Talvez ele se pergunte quem ele era nesses lugares e quem é agora nesses mesmos lugares? É como se Anders estivesse atrás de seu rastro, como se estivesse tentando recolher os pedaços espalhados por toda a cidade de Oslo. Precisamos do passado e de seus lugares para nos completar, para nos entender, e Anders, nesse presente devastado da cura, parecia não ter um lugar no mundo. Toda escrita precisa de uma superfície e Anders escreveu sobre essa superfície, a cidade de Oslo, uma história que foi um inferno. Ao sair para explorar a cidade, é como se Anders estivesse pedindo perdão, como se tentasse recomeçar sobre as diferentes superfícies. É como se buscasse reconciliar-se, dialogar, fazer as pazes não só com ele mesmo, mas com a cidade.

Mas, como já dissemos, a escrita permanece sobre os espaços, sobre as diferentes superfícies. Sua folha de vida é uma delas. A entrevista de trabalho demonstra: ele é muito bom no que faz, mas tem um buraco em seu currículo, um período inativo em seu passado, e ele é perguntado sobre isso. Ele diz a verdade, ele lê o que está escrito, ele lê nessa escuridão onde fervem o álcool e as drogas, e se enfurece. Ele se enfurece porque compreende que dia a dia, a cada segundo, a escrita continuará presente. Até mesmo seu passado tentará lê-lo. Quem é este novo homem, que coisas novas está escrevendo? Poderia parecer alguém que continuava livre de seu peso social, um herói que continuou fiel à sua rebeldia, que se livrou das amarras do trabalho, do casamento, dos filhos. Assim ele é lido por algum personagem do passado. Mas Anders é esta leitura de outro? Ou é aquele que, sem o perdão da cidade e de si mesmo, tentou apagar a escrita com o suicídio? Anders está em pedaços, ou é feito dos pedaços de uma escrita que foi dispersada – como um louco, foi deixando rastros de uma escrita desesperada por todas as partes - e isso o enfurece. Cada um desses pedaços é um animal que o morde, que late para ele. A sobriedade, em um só dia, é um desafio cheio de riscos elevados. É possível se reencontrar e começar a escrever algo novo sobre as ruas de Oslo? É possível reescrever uma Oslo mais amável? Porque Oslo continua lá, um lugar cheio de belezas, de memórias. Há um amor nesse olhar para Oslo, amor pela cidade onde se encenaram pesadelos, um amor onde o céu parece se abrir como uma página em branco. Talvez este filme de Joachim Trier não fale de redenção, esse conceito muito religioso para ser verdade e que parecia ser muito tarde na história de Anders. Sem dúvida, a leitura e a reescrita do lugar parece ser uma possibilidade. Mas esse trajeto de um dia é cheio de perigos. Reescrever é perigoso porque reescrever, como sabemos, é revisitar. Oslo revisitada pode acolher ou devorar Anders. Revisitar e reabilitar, neste caso, parecem significar a mesma coisa.

Oslo, 31 de Agosto, sábado, 18 de janeiro, no Max.

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Bert Stern: O Primeiro Mad Man, ou o lugar do desejo

por max 13. janeiro 2014 14:04

 

 

Os homens de Avenida Madison viraram moda. Eles são mostrados na série da HBO, Mad Men, os homens da Madison. Apesar desta série se basear em personagens totalmente fictícios, os mad men existiram de verdade. David Ogilvy é, talvez, o mais famoso deles. O homem da "grande ideia" publicitária. Mas, se perguntarem para você "por que estes publicitários dos anos 60 são tão importantes?" Porque eles mudaram a maneira de fazer publicidade nos Estados Unidos e, claro, no mundo. O que até então era um trabalho de apresentação de desenhos e ilustrações, de grandes textos, de simplesmente mostrar o produto e sua necessidade comercial, se transformou em algo a mais com os novos publicitários. Da necessidade comercial passamos ao desejo. Ao desejo puro. Os novos publicitários foram os arautos do capitalismo, os arautos do consumo, os criadores da marca, dos signos que giram ao redor deles mesmos na espiral da aparência e do desejo. Menciono Jean Baudrillard, que argumenta, justamente, que estamos nos tempos dos meios de massa e da cibernética, nos tempos em que as imagens criam seus próprios universos autossuficientes, nos tempos em que o olhar é o desejo. Olhar e desejar. Uma imagem, uma fotografia, uma explosão de estética e de beleza que nos altera e nos dá prazer.

Bert Stern sabia disto. Foi fotógrafo e sabia muito da beleza, pois sempre se viu rodeado de mulheres bonitas. De modelos a atrizes. Stern foi um desses primeiros mad men que começaram a mudar a maneira de fazer anúncios, de fotografar produtos, de apresentar a cena com uma estética diferente, estilizada, elegante, onde o sapato da mulher era algo a mais que um sapato feminino, ou o perfume era mais que um perfume, uma paisagem, uma mulher bonita, um desejo. Dizem que Stern tinha um olhar magnífico para fazer as mulheres bonitas ficarem ainda mais bonitas, um olhar definitivo, um olhar único. Assim também acabou fotografando estrelas do cinema e atores também.

O documentário Bert Stern – O Primeiro Mad Man (Bert Stern – Original Madman, 2011) da atriz e diretora Shannah Laumeister, que nos conta a vida, as agonias e os êxitos deste grande publicitário e artista da fotografia. Cabe esclarecer que Shannah foi uma das esposas de Stern e que, quando casados, ela registrou cada momento de sua vida. O próprio Stern fala sobre isso, quase como uma queixa, e também vemos as imagens dela com ele, juntos, no documentário. Stern e Shannah se casaram, segundo o que ela disse na morte de Stern, eles se casaram em segredo em 2009. Stern tinha 40 anos a mais que ela. E ela, claro, uma mulher muito bonita. Como já dissemos, Stern estava sempre rodeado da beleza. Por isso é irônico vê-lo no documentário, aos seus 80 anos, falando da vida que levava naquele momento. Um homem que chegou a ser o último fotógrafo de Marilyn, que a fotografou nua em duas ocasiões e também belíssima em trajes de gala na sessão dupla que hoje se conhece como Last Sitting (clique aqui para saber mais), esse homem vai caminhando lentamente até sua casa, e logo se senta e diz com voz de idoso que gostaria de ter guardado bons momentos para a velhice, mas não, gastou todos no passado. Depois ele falou como é a sua vida: como bom e digno idoso americano, agora só tem que se preocupar em fazer algumas compras no mercado, renovar o seguro do carro e cuidar de sua saúde, de viver a vida normal como qualquer homem, muito distante daquela vida em que fez o grande pôster de Lolita, filme de Stanley Kubrick e da vida em que fotografou as belas Liz Taylor, Audrey Hepburn, Twiggy (nessa maravilhosa montagem com televisores onde também se via o rosto dela), Madonna ou Kate Moss (clique aqui para saber mais). O documentário de Shannah Laumeister vai do passado ao presente e tem a voz do próprio Stern narrando sua vida, desde os mais gloriosos até os mais patéticos momentos, aqueles em que Stern esteve sumido nos labirintos do vício e da fama. A parte em que ele conta como voltou após sua grande queda é fenomenal, pois ali ele fala do livro das pílulas, conhecido como The Pill Book. A ideia, muito simples: Stern se colocou a fotografar comprimidos, comprimidos e mais comprimidos depois de saber que o livro mais roubado das bibliotecas dos Estados Unidos era o manual sobre diagnósticos e terapias médicas dos farmacêuticos. Claro, ele não se equivocou ao fazer isso, pois o livro foi um sucesso comercial.

Stern morreu em 23 de junho de 2013. Tinha 83 anos. Sua vida e sua obra, este maravilhoso documentário coloca no lugar onde deve estar, na história da publicidade, junto a Ogilvy e aos outros grandes criadores do desejo, na história da cultura popular contemporânea, na história dos homens que tiveram o fogo da criação.

Bert Stern: O Primeiro Mad Man, terça, 14 de janeiro, no Max.

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Escuridão, a treva também salva

por max 10. janeiro 2014 04:49

Agnieszka Holland é polonesa (nasceu em Varsóvia), tem raízes judaicas, mas foi criada no catolicismo. Agnieszka Holland é uma diretora de temas sociais fortes, uma mulher preocupada com jogadas maldosas e que faz um cinema que tem chamado atenção na Europa e América. Filmes como Olivier, Olivier, Complô Contra a Liberdade, Filhos da Guerra e O Jardim Secreto, a levaram a terrenos internacionais e a transformaram em uma das cineastas mais importantes da Polônia.

Seu mais recente filme, Escuridão (In Darkness, 2012), novamente relata suas preocupações humanas e nacionais. A diretora fez um filme baseado em histórias reais e recriou as vicissitudes de Leopold Socha (Robert Wieckiewicz), residente de Lvov, a terceira comunidade judaica mais importante da Polônia nos tempos anteriores à Segunda Guerra Mundial, e de um grupo de judeus que ficou sob sua proteção. Socha era funcionário público e trabalhava no esgoto da cidade. Em 1941, a cidade se transformou em um gueto, e logo os judeus começaram a ser eliminados e levados a campos de concentração, mas Socha começou a resgatá-los e escondê-los, claro, nos esgotos. O drama das famílias ali escondidas, o medo constante de serem descobertas, a possibilidade de que a qualquer momento Socha poderá traí-las, está tudo no filme. E a tudo isso se soma a escuridão dos esgotos, o mau cheiro sufocante, os ratos, as dificuldades para comer, as relações muito próximas e tensas entre eles, e até mesmo uma gravidez.

Então qual é a verdadeira escuridão? A escuridão que os protege do que está fora, ocupando a cidade? Também vemos o que acontece lá fora. Socha caminha pela cidade, entra em lugares onde deve lidar com os alemães e com os próprios poloneses aliados ao nazismo. Sua situação não é fácil, é um funcionário público, deve estar a serviço dos novos chefes. Socha está apenas interessado nas joias? Quando as joias acabarem, vai deixar seu lado obscuro aflorar? A escuridão dos outros é um vírus? Contamina, entra na pele, mata a alma e faz infeliz? Em contraste, a escuridão das vítimas é um ventre escuro, de renascimento e iniciação, um lugar de onde surge a luz definitiva.

Assim, entre a escuridão luminosa do escondido e a verdadeira escuridão exterior caminha este filme, com a sábia arte de Holland, que sabe criar tensão em filmes de entretenimento e ao mesmo tempo dramas profundos, dolorosos e preocupantes, típicos de cinema de autor.

Escuridão, domingo, 12 de janeiro, no Max.

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A Espiral, ou uma série sobre a arte do roubo

por max 7. janeiro 2014 03:16

Quando vemos um desses filmes que têm ladrões sofisticados realizando roubos mais planejados, dizemos "isso é quase arte". Partindo deste princípio, deste temor que produz um roubo magistral e uma grande obra de arte, surge a série de produção belga, holandesa e escandinava, A Espiral (The Spiral). Roubar com arte é uma arte. E o ilustre artista de rua Arturo, que ficou famoso por seu trabalho de conteúdo social, teve essa nova ideia: agora fará uma performance, agora roubará seis obras de arte em seis diferentes museus do mundo. Para isso, Arturo reúne seis jovens artistas que estão dando um tempo, e assim, no melhor estilo de filmes requintados de ladrões, começa seu desempenho, seu acontecimento criminoso. É aqui que começa a série e é aqui que ouviremos mais de uma vez a frase: "eu não sou ladrão, sou um artista".

O jogo, claro, está a serviço da intriga, ação e mistério. Não faltarão, claro, as perguntas: Então, o que é a arte? Qual sua função social? Até onde chega a reinvindicação na arte? Até onde sua função social? Até onde a arte pode se considerar mais do bem que do mal? Repito a frase: "Eu não sou um ladrão, sou um artista".

Formada por cinco episódios dirigidos por Hans Herbots (Verlengd Weekend) e sob produção da empresa Caviar, esta maravilhosa série tem uma proposta absolutamente original. Uma exploração entre o thriller, a arte e as séries de altíssima qualidade.

A Espiral, a partir de quarta 8 de janeiro.

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Em janeiro, documentários sobre o design em grande escala

por max 6. janeiro 2014 03:08

 

Em janeiro, o Max traz três documentários dedicados ao design em grande escala. Documentários sobre objetos e cidades, porque na verdade não se pode pensar no homem sem estes dois elementos, sem essa interação que traz benefícios e também conflitos. Já sabemos: o homem criou seu ambiente e agora seu ambiente se transformou em um personagem a mais, em um ser vivo de quem falamos, com quem compartilhamos e que, naturalmente, sofremos.

Sobre esta relação entre os objetos, as cidades e os homens, o Max apresenta três documentários, sobre os quais falarei para vocês com suas respectivas datas de exibição:

 

 

Terça 7 de janeiro: A História da Escola de Artes de Cuba (Unifished Spaces, 2011), de Benjamin Murray e Alysa Nahmias. A Escola Nacional de Artes de Cuba é um prédio que ficou inacabado por décadas. Trata-se de um dos projetos mais inovadores da arquitetura cubana que veio a baixo pelo peso de suas próprias intrigas e ideais, sob o peso da hipocrisia e do vaivém de acomodação da política. Este documentário narra a história de uma proposta para o retorno, e consequentemente, de um momento histórico como este da Revolução Cubana.

 

 

Terça 21 de janeiro: Urbanizada (Urbanized, 2011), de Gary Hustwit. Como se faz uma cidade, como se pensa, como se reorganizam seus espaços. Existem pessoas que a pensam, pessoas que nos organizam nos espaços, sempre apontando para o lugar onde poderemos melhor – ou mais ou menos – viver. Huswit é um especialista em lançar estes olhares ao design, às cidades, às tipografias, aos espaços exteriores onde convivemos.

 

 

Terça 28 de janeiro: Eames: O Arquiteto e A Pintora (Eames: The Architect and the Painter, 2011), de Bill Jersey e Jason Cohn. O documentário apresenta a vida e a obra do casal Charles e Ray Eames, designers industriais e arquitetos que revolucionaram o universo do design em meados do século XX, especialmente com suas cadeiras inovadoras, que hoje em dia são procuradas com desespero pelos colecionadores e imitadas até não poder mais.

 

Lembre-se, em janeiro, nós projetaremos um novo ano e também estes documentários sobre o design em grande escala, aqui no Max.

De Volta à Realidade, ou a grande epopeia dos alcoólatras

por max 4. janeiro 2014 03:55

 

Kate é professora da escola. Um dia, ela chega na classe, para diante de seus alunos, começa a passar a lição, de repente vomita. Desculpa-se, diz que está passando mal porque está grávida. Mas, na verdade, Kate é alcoólatra. E isto que acaba de acontecer é apenas o começo da terrível história que está por trás de De Volta à Realidade (Smashed, 2012), filme de produção independente dirigido por James Ponsoldt que se rende às obscuridades do alcoolismo, uma doença muito comum em nossas sociedades, mas da qual, no fundo, não sabemos absolutamente nada.

Para começar, esquecemos ou desconhecemos que alcoolismo é uma doença. Uma doença que além de crônica é irreversível e que, em muitas ocasiões, é ignorada, pois achamos que o beberrão é simplesmente alguém que gosta de beber com intensidade durante os fins de semana ou algo assim. Mas não, o alcoolismo é algo mais, algo mais sombrio e triste, uma espécie de vida paralela, uma vida que se move entre as sombras, que se arrasta e só vemos em algumas ocasiões, flashes, erupções momentâneas.

O filme de Ponsoldt leva ao outro lado da cortina, mostra a realidade por trás de todas as máscaras. O jovem cineasta mostra a vida privada do alcoólatra, sua dor. Lá, na desesperada e caótica intimidade de sua vida, conheceremos Kate (Mary Elizabeth Winstead) e seu marido Charlie (Aaron Paul). Eles serão os protagonistas e vítimas de uma batalha muito dura e impiedosa. O álcool é um terrível inimigo, porque está dentro de de você, porque te seduz, porque te dá prazer e depois te deixa cair, degrada, deforma. Isso já se sabe, e também se sabe das intenções de escapar, ou pelo menos, de estabelecer uma trégua. Porque do alcoolismo nunca se ganha. A doença sempre estará lá, à espera de quem parou de beber. Kate e Charlie, no entanto, enfrentarão a batalha e Ponsoldt, sem reter nada, com uma naturalidade sem redenção, nos mostrará todos os detalhes de uma luta feroz que se debaterá entre o amor, o ódio, a dor, a embriaguez e a sobriedade. Porque não só é difícil deixar de beber, também é terrível manter a vida, o equilíbrio da vida, o amor e a sanidade sem o álcool envolvido. Este filme, sem dúvida, é uma história de amor e ao mesmo tempo um grande épico.

De Volta à Realidade, domingo, 5 de janeiro.

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