Crazy Horse, ou Wiseman e a dança dos corpos

por max 31. dezembro 2013 11:27

 

Com 82 anos e 36 documentários produzidos, Frederick Wiseman, um dos mestres do cinema verité, move-se incansavelmente em torno de uma de suas obsessões mais recentes, o movimento dos corpos. Basta lembrar de seu documentário de 2009, La Danse e o de 2010, Boxing Gym, para confirmar os caminhos que o cineasta tomou nos últimos tempos.

Nesta nova ocasião, Wiseman mergulha nos bastidores do famoso cabaré parisiense, fundado por Alain Bernardin, em 1951. Atrás do jogo sofisticado de luzes e dos espetáculos de cada noite, esconde-se uma rede de processos criativos, organizações completas, tensões, frustrações, alegrias e ensaios e mais ensaios.

O documentário foca, principalmente em Andreé Deissenberg, seu diretor atual, e em Philippe Decouflé, seu coreógrafo, que tomaram o controle do local no início do ano 2000. O erótico e o vulgar, o negócio e a arte estão no filme e nos pequenos detalhes deste documentário repleto de dança e de segredos.

Crazy Horse, nesta terça, 31 de dezembro.

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Bem-vindo ao mundo, ou Penélope Cruz e as lembranças

por max 27. dezembro 2013 03:50

 

Penélope Cruz já havia trabalhado com o cineasta italiano Sergio Castellitto em Não Se Mova (Non Ti Muovere, 2004), filme baseado em um roteiro da esposa de Castellitto, Margaret Mazzantini. Em Não Se Mova, Castellitto também atuou e tinha uma relação apaixonada com uma mulher de poucos recursos de nome Italia. Claro, Italia era Penélope Cruz. Em 2012, a atriz, Castellitto e a esposa voltaram a se unir para realizar outro filme: Bem-Vindo ao Mundo (Twice Born). Com roteiro também de Mazzantini, Castellitto voltou a ter em suas mãos (ou melhor, desta vez, em frente às câmeras, pois neste filme Castellitto não atua) a atriz espanhola mais importante dos últimos tempos.

O cineasta volta a uma história de amor, de um amor quase impossível que aconteceu entre o passado e a guerra. Gemma (Penélope Cruz) voltará ao lugar onde se apaixonou por Diego (Emile Hirsch), onde sofreram com a impossibilidade de terem um filho, onde finalmente tiveram um filho e onde, também, morreu Diego: estamos falando sobre a Bósnia, da Bósnia que temos acesso em dois momentos, a dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1984 e do terrível conflito que teve início em 1992.

Gemma volta com seu filho já adolescente (interpretado por Pietro Castellitto, filho do cineasta) e vai recordando a história de seu amor, que ao mesmo tempo é a história da guerra. A recuperação da memória é a recuperação da vida. Lá, nessa memória, se misturam o caos e o amor, lá, com tudo o que isso implica, vai se aprofundando Gemma, interpretada com acerto e com toda sua gama de emoções pela atriz espanhola ganhadora do Oscar. Penélope Cruz demonstra mais uma vez seu talento, sua capacidade para um grande registro, para a beleza e para o drama, para o amor e a melancolia. E Castellitto, por sua vez, está muito bem neste drama que às vezes parece irregular em sua trama, mas centrado pela atriz e pelo tema de amor e de recuperação das lembranças deste amor.

Bem-Vindo ao Mundo, domingo, 29 de dezembro.

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Woody Allen: Um Documentário, ou em confiança aos amigos

por max 23. dezembro 2013 05:44

 

Woody Allen: Um Documentário (2012) não é qualquer coisa. Sabemos como Allen é zeloso em relação à sua vida particular (apesar de que mais de uma história tenha vazado), que se manteve longe das luzes do circo e que também se negou a assistir as premiações do Oscar, onde foi ganhador em quatro oportunidades. E assim Robert Weide, o diretor deste documentário, tem uma conquista a considerar, pois, graças a ele, podemos acompanhar um ano e meio de vida, de trabalho e criação de um dos sujeitos mais cultuados do cinema mundial. Weide, cabe dizer, não é qualquer diretor. Weide se movimenta no campo da comédia e entre os grandes. No início de sua carreira, em 1982, escreveu o roteiro para um documentário sobre os irmãos Marx, e em 1998 dirigiu um documentário que foi indicado ao Oscar (1999) sobre a vida do grande Lenny Bruce; estamos falando do documentário Lenny Bruce: Swear to Tell the Truth. Weide também trabalhou durante anos com Larry David dirigindo episódios de Segura a Onda (Curb Your Enthusiasm). David e Allen se respeitam e até trabalharam juntos em um filme de Allen, Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, 2009). Portanto, não é de se estranhar que, com Weide, Allen concordou em quebrar o silêncio de sua vida particular tão protegida e até aceitou que uma câmera o seguisse durante um ano e meio. Mas, tal como eu disse, o trabalho abrange não só o presente, mas também faz um tour completo pela vida daquele que podemos qualificar como um dos últimos autores do cinema de autor. O documentário aborda desde sua adolescência, seu trabalho como escritor de comédia, seus anos como comediante de standup, suas primeiras atuações, suas primeiras incursões em direção e todo o trabalho que o fez ser um diretor que realizou, quase sem parar, um filme por ano por mais de quarenta anos. O documentário também nos mostra seus hábitos de escritura, suas ideias sobre direção e sua relação (sempre inclinada para o cômico) com os atores.

As relações sentimentais, o sexo, a neurose urbana, o medo da morte, todos os temas de Allen são abordados no trabalho de Weide. E, claro, não pode faltar o jazz, sua antiga máquina de escrever (comprada em 1952 e que ainda é utilizada) e, mais, Diane Keaton, Mariel Hemingway, Mira Sorvino, Sean Penn, Martin Landau, Josh Brolin, Penélope Cruz, John Cusack, Scarlett Johansson e Larry David, entre outros.

Woody Allen: Um Documentário, terça 24 de dezembro.

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Uma Varanda para o Mar, o que somos sem as recordações

por max 20. dezembro 2013 03:43

 

A realidade é inatingível, a verdade uma fantasia e a memória uma invenção. O passado também é uma invenção. Sobretudo se esse passado, se essas recordações, vêm da infância. O que foi real e o que não foi? O que lembramos? O que se apagou o que se esconde em alguma parte da nossa mente? Os amores desses anos, por exemplo, são recordados como o momento mais idílico da existência. Nesse lugar utópico, tudo se traduz em pequenos grandes atos de amor, quase épicos. No amor infantil, caminha-se nos locais de mãos dadas com a pessoa amada. Não há camas (ainda), não há quartos que protejam corpos nus (ainda); há corpos andando no espaço, descobrindo o mundo.

No filme Uma Varanda para o Mar (A View of Love), este parece ser o caso das memórias distantes de Marc Palestro (interpretado por Jean Dujardin), um homem feliz no casamento, que trabalha no ramo imobiliário em Aix-en-Provence. Tudo está bem em sua vida (e as recordações são meras lembranças que flutuam no nada), até que um dia, por razões profissionais, se encontra com uma mulher de nome Mondonato. Para Marc ela parece familiar, até que finalmente a reconhece. Ela é Cathy, seu amor da infância, seu amor de Oran, Argélia.

O filme passa nos anos oitenta, mas a história também nos leva a vinte anos atrás, no momento de maior conflito da Argélia, quando o país alcançou sua independência e os franceses tiveram que emigrar. A atriz e diretora Nicole Garcia (nascida em 1946) viveu no país durante sua infância e sabe bem como retratar tudo que aconteceu e suas circunstâncias. Ela, como já disse, nos leva ao passado histórico, recria essa época, mas também nos lança nesta explosão do presente, no turbilhão desta paixão que se rompe entre Marc e Cathy. No entanto, após o momento consumado, ela se mostra distante e desaparece. Marc, desesperado, pergunta à sua mãe (Claudia Cardinale), em busca de memórias mais claras. Sua mãe diz que Cathy morreu muito jovem em um acidente. De repente, o presente e o passado deixam de ter forma. Tudo se mistura, tudo se torna espesso; Marc começa a viver uma profunda apatia e o espectador começa a passear pelas águas de um thriller muito particular, onde a vingança, a corrupção e o desejo entrelaçam tempos, verdades e engenhocas ilusionistas.

Se abandonarmos o passado, o que resta? O que resta de nossas vidas? Sombra, frenesi, ficção, escura e amorfa existência onde a realidade e a verdade são inatingíveis. Ou talvez não, o que acontece é melhor não ver, o que na verdade somos, nessa área onde a intenção de sermos bons humanos é apenas uma formiga pisoteada por uma pata enorme.

Uma Varanda para o Mar, domingo, 22 de dezembro.

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A Fada, ou quando éramos tolos e felizes

por max 19. dezembro 2013 03:02

 

Há uma diferencia entre o tolo mau e o tolo inocente. Como tolo mau, que tem uma estranha mistura com o próprio mal, temos Pável Fiódorovich Smerdiakov, em Os Irmãos Karamazov. Pável estava cheio de complexos, era desprezível, rancoroso e sempre andava pelas esquinas, fazendo-se de desentendido, concebendo obscuridades secretas. E também temos Lennie, em Ratos e Homens. Lennie, acidentalmente, acabou matando uma menina. Mas Lennie era muito forte e muito burro, e o assassinato foi acidental. Os personagens dos romances de Jim Thompson também têm algo rompido em sua cabeça. São uns garotões tranquilos, que passam despercebidos e, de repente, explodem. Carregam uma bomba relógio por dentro. De certa forma também são tolos, ou se passam por. Se lembrarmos de Os Idiotas (The Idioterne, 1998) de Lars von Trier, temos uma clara concepção cultural destas pessoas. O tolo, o idiota, primordial, adâmico, é totalmente inocente, como uma criança crescida; tudo é perdoado. Assim, um grupo de brincalhões, ou de anarquistas, ou de guerrilheiros sociais se fazem passar por idiotas para tirar proveito do tipo de imunidade que eles têm. Há uma cena maravilhosa em que um do grupo, em seu papel de idiota, está sentado em um restaurante, no meio de uma terrível gangue motorizada. Os motorizados se comportam como damas com o idiota. Inclusive, o acompanham até o banheiro, e quando ele diz que não pode segurar seu membro, um dos motorizados o ajuda a fazer suas necessidades.

O tolo é inocente, é belo, delicado, tem certa graça embutida. Desse tolo, o tolo bom, alguns personagens parecem vir de cabaré, café-concerto e vaudeville. No final do século XIX era grande o interesse pelos estudos da loucura. Nos jornais se comentava bastante sobre os estudos do Doutor Jean-Martin Charcot, pessoas, totalmente leigas, frequentavam seus cursos, suas conversas. Os artistas da época começaram a se interessar por temas como a histeria. Viram nas gestualidades, nos movimentos dos pacientes mentais um atrativo particular. Sabe-se que alguns pacientes foram às ruas e se dedicaram a fazer apresentações de rua para ganhar a vida. Neste ir e vir, claro, o idiota, o tolo, entrou no olhar dos artistas. A perda do gesto cultural do tolo passaria a fazer parte da expressão de muitos desses interpretes de cabaré.

Lembramos que o humor utiliza como arma de ataque, de pensamento crítico e social, tudo aquilo que a própria sociedade marginaliza, deixa de lado por não ser correto, por estar fora dos cânones. Claro, também se pode tomar essa gestualidade do tolo para gerar ternura, para gerar uma risada leve e agradável.

Este é o caso, possivelmente, de A Fada (The Fairy, 2011), comédia franco-belga dirigida por Dominique Abel, Fiona Gordon e Bruno Romy, trio de comediantes que vem desenvolvendo um cinema (Rumba, 2008, e O Iceberg, 2005) que tem muito a ver com esse retorno da comédia gestual herdada do cabaré, do vaudeville e, claro, de artistas como Chaplin, Buster Keaton ou Jacques Tati. E claro, nos lembramos de O Artista (The Artist), mas O Artista é também de 2011 e, como vemos, Abel, Gordon e Romy trabalham desde 2005 nessa espécie de cinema do novo vaudeville que mistura o som com o cinema mudo.

Em A Fada, temos dois personagens muito próximos do tolo inocente: um recepcionista de um hotel e uma garota misteriosa que chega ao hotel. Abel é Dom, o garoto, e Fiona Gordon é Fiona, a fada. Ele não tem muito o que fazer nem muito que perder na vida, não tem grandes esperanças. Ela, como é rara, uma fada segundo dizem, e como fada proporciona a Dom três pedidos que ela concederá. Tudo é muito estranho. Eles são muito estranhos, são inocentes, são agradáveis, são comoventes, estão à beira do absurdo. Mas não, como já disse, não estão à beira da tolice perversa, ou da tolice agressiva. Não, eles são bons e ternos, e não têm graça porque são como crianças. Dom pede dois desejos, simples e básicos, uma scooter e o serviço de gás para a vida toda; nada mais. Dom não se deixa levar pelo poder, pelas baixas paixões. De fato, nem sequer tem ideia de que outro desejo pedir. Isso dará origem para que ele e Fiona comecem a andar juntos pelo mundo, e que entre eles comece a se estreitar uma relação. Mas nem tudo é idílico, claro, Fiona está em perigo. É procurada, perseguida, como se fosse uma louca, como se devesse voltar ao manicômio, ao psiquiatra, ao lugar que inspiraram esses comediantes de vaudeville.

O filme segue entre pulos, perseguições, silêncios, quedas, gestações mágicas, momentos absurdos, infinidade de graças que nos encantam, porque eles, os personagens, são uns tolos encantadores, crianças inocentes, santos inocentes, e deles não esperamos nada, apenas ternura e inocência que nos lembram do grande tolo inocente que carregamos dentro de nós. Já comentei em algum outro momento: Adão e Eva, que nasceram adultos e que eram inocentes mesmo sendo adultos, são os paradigmas destes tolos. É assim: nossos pais fundadores foram um casal de tolos que não respeitaram o pai maior, fizeram suas travessuras e, por isso, foram castigados, expulsos do paraíso. E, a partir desse dia, viraram adultos, começaram a esconder seus erros, a se preocupar com a alegria dos outros. Agora, cada vez que erramos, cada vez que vemos uma dessas pessoas com certos problemas de aprendizagem, lembramos que, em alguma parte de nós mesmos, em algum momento éramos assim, ríamos do vislumbre súbito da glória antes da queda, da travessura, a glória que foi inocente, felizmente tola.

A Fada, sábado, 21 de dezembro.

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Jean-Michel Basquiat: The Radiant Child, ou a vida e morte de Dionísio

por max 16. dezembro 2013 13:49

 

Muita gente lembra de Basquiat, de Julian Schnabel, com Jeffrey Wright interpretando o artista de rua que morreu aos 27 anos por causa de seu vício no caos, na destruição, em vinhos e em drogas. O filme estreou em 1996, oito anos depois da morte deste jovem artista dionisíaco. Em 2010, 14 anos depois do filme de Schnabel e 22 da morte de Basquiat, a diretora Tamra Davis fez uma homenagem ao seu grande amigo, no documentário Jean-Michel Basquiat: The Radiant Child (2010).

O trabalho em questão utiliza uma entrevista inédita com Jean-Michel que a diretora realizou. Nela, ele estava tranquilo, lúcido, cheio de um humor alegre e leve, que não demonstra nada do mundo escuro do bacanal. Através dessa entrevista, Davis vai entrando na vida de Basquiat, colhendo outros depoimentos de pessoas que o conheceram, que foram muito próximas a ele e recorre também a muitas imagens de arquivo. Desde a infância nas ruas até a rápida ascensão do garoto que da noite para o dia já não sabia o que fazer com todo o dinheiro que estava ganhando, com todas as bijuterias e brinquedos que vieram de repente. Por um lado, vemos a evolução de sua arte, a opinião de especialistas sobre a volumosa, radical, desenfreada e rápida obra de Basquiat, e por outro lado também testemunhamos como a fama foi entrando em sua vida. Sua relação com Warhol, a quantidade de bajuladores e de amigos verdadeiros que o acompanharam nesta floresta iluminada que também o levou ao caos. Somos também testemunhas de seu apetite pelo trabalho, de sua necessidade e sua lucidez quando ele decide se fechar para trabalhar. Vemos Basquiat trabalhando, ele se diverte trabalhando, cria o momento, desenha, pinta, escreve sobre a tela, risca. Vemos Basquiat criando e destruindo uma forma de arte de rua, expressionista e pop ao mesmo tempo. Porque Basquiat tinha isso, sua obra era um grafite qualquer, mas também entrava em formas de arte de vanguarda ao mesmo tempo em que ignorava o pop e o mercado de fetiche.

A sociedade se deslumbra diante do gênio, e se o gênio é um garoto terrível, esse olhar alucinado é ainda maior e leva, no paroxismo e na emoção, ao desmembramento, à destruição. Basquiat, como se tem observado, teria fundido a figura de Dionísio, o deus menino, o menino divino, e quem, como já sabemos, é o deus da embriaguez, do excesso sensual, da liberação do irracional. Basquiat é uma imagem clara de todas essas coisas e também, para irmos a Nietzsche e às ideias expressadas em O Nascimento da Tragédia, é também a metáfora dessa forma de ser dionisíaca dobrada, controlada, contida no controle apolíneo, na arte. No entanto, esse garoto Dionísio não poderia ficar dentro desse controle apolíneo, e terminou se destruindo, de algum modo, desmembrado por essa sociedade que o rodeava. Lembramos que em algumas histórias da Grécia antiga o deus menino Dionísio é esquartejado quando criança (as Ménades praticam o ritual conhecido como Sparagmos) pelos titãs, seres selvagens que o seduziram com bijuterias, brinquedos.

Jean-Michel Basquiat: The Radiant Child, aproveite nesta quarta, 17 de dezembro.

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Amor Pleno, ou os silêncios e as crises

por max 14. dezembro 2013 03:12

 

Terrence Malick é um diretor de silêncios e vozes serenas em off. Geralmente, essas vozes que percorrem seus silêncios são colocadas na pós-produção, não estão no roteiro original. Malick sabe que muito de nossa vida, de nossos movimentos na vida, é realizado a partir de zonas que não necessariamente têm alguma conexão com um discurso expressivo, um discurso ordenado e explícito. Muito do que fazemos obedece a impulsos localizados em áreas escuras de nosso espírito, em áreas que são limites, crepúsculos. Depois, ao longo do tempo, quando tudo passa, quando olhamos para o passado, vamos colocar em palavras o que aconteceu conosco. Assim Malick, em sua maneira de fazer cinema, procede da mesma forma: primeiro filma, trabalha com o material bruto, com a matéria, e vai vivendo, sem se preocupar em ter uma estrutura fechada e racional. Depois, quando está na edição, começa a dar sentido a todo esse material bruto que é o filmado (como material bruto é o vivido) e coloca palavras e reflexões sobre aquilo que simplesmente experimentou, procurando a origem das coisas, procurando o porquê das coisas. Aristóteles falava da experiência e da arte, a qual ele equiparava com a ciência, com a filosofia, que é uma ciência, diz. Em Metafísica lemos: "Os homens experientes sabem bem que tal coisa existe, mas não sabem por que existe; os homens da arte, pelo contrário, conhecem o porquê da causa". Então, de alguma forma, parece como Malick age; a filmagem, o processo de ir registrando as atuações e as situações, obedece a uma experiência; a edição, por sua parte, obedece a uma busca do porque e da causa. Essa dinâmica, como eu já disse, também acontece na vida real. As crises são grandes e profundos silêncios vividos. Nunca sabemos bem quando entramos em crise, nem por quê. Ao longo dos anos, geralmente, começamos a buscar explicações para tudo. Nós colocamos palavras. Mas, enquanto isso, vivemos profundamente nos silêncios que gritam. É ali, nesse mistério das crises, que as pessoas aproveitam, sofrem, se destroem, ressuscitam. É lá, dentro desses silêncios angustiantes que está a maravilha da vida.

Amor Pleno (To The Wonder, 2012), o mais recente filme de Terrence Malick, explora essas crises e esses silêncios. Começa a partir de um caso de amor, que é uma crise, se entendemos a crise como aquilo que produz uma mudança abrupta no cotidiano da existência, como aquilo que nos levará a outra fase da vida. O caso de amor altera, desestabiliza, desconcentra o poder emocional que nos leva a um momento em que a visão cotidiana, sem dúvida, se altera, sem que possamos definir exatamente o porquê. Dizemos que estamos apaixonados, temos essa experiência, mas por que não nos apaixonamos por uma determinada pessoa, por que justo em um determinado momento nos sentimos assim, talvez, no presente ou no futuro, não podemos identificar. Para representar tal crise, Malick nos propõe os personagens de Neil (Ben Affleck) e de Mariana (Olga Kurylenko). Eles se conhecem na Europa, vivem um romance arrebatador, juram amor, ele segue para Oklahoma, inclusive com a filha dela. Eles geram, por cima do silêncio arrebatador dos discursos de amor, promessas, poesias. (Isso acontece, não é mesmo? Depois de algum tempo dizemos 'eu não sei o que aconteceu, não sei como disse essas coisas'). Essa primeira crise, que é o amor, segue um período de equilíbrio que vai mergulhando os personagens mais uma vez no novo cotidiano da vida do casal. E assim, em certo momento, vai começando outra crise. Marina começa a ter uma relação estranha e se envolve com um pastor de origem espanhola chamado Quintana (interpretado pelo grande Javier Bardem) que, para temperar, para confirmar estes argumentos, também está em crise. Quintana está passando por uma crise religiosa. Tanto o amor como a religião são questões de fé. Ambas se unem ali, na fé. Um acredita no amor, o outro acredita na fé, mas também deixa de acreditar. Ou também duvida, entra em crise. Essa crise de Quintana, claro, abre portas a possibilidades amorosas. Mas, é claro, Neil também vive sua crise e esta se expressa através de Jane (Rachel McAdams), uma mulher do passado. Cada um por si só está em seu turbilhão, todo mundo vacila, todo mundo vive à sua própria maneira as terríveis marés internas e caladas que marcam seus movimentos, essas marés que nos abalam, que nos tiram do tédio, que fazem nos sentirmos vivos novamente.

A vida, parece, está em crise. Ali, nesses silêncios que nos sacodem, vive a maravilha, essa coisa que nos incomoda, que nos torna rebeldes, que nos tira da morte. A dor, o amor, a falha, os vícios de ser o que dá sentido.

Amor Pleno, domingo, 15 de dezembro.

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Terra à Vista, o lugar para onde o presente e o passado convergem

por max 12. dezembro 2013 03:00

 

O passado e o futuro conjugados no presente, duas formas de vida que se encontram e onde o passado, claro, vai deixando de existir. Em alguns casos, a dissolução do passado pode trazer vantagens. O passado pesa, não funciona bem, acarreta procedimentos que já não fazem sentido, não produzem, não dão o que é necessário. O passado, com perdão do óbvio, está desatualizado. Mas, também, o passado é uma nostalgia, um lugar, em muitas ocasiões, mais humanitário. O presente e o futuro trazem complexidades, novos interesses que, em certas ocasiões, exigem frieza no modo de agir. É como se o progresso fosse uma máquina de rolo compressor que só vai para frente e não para, porque sabe que se parar pode sofrer acidentes e poderia ser manipulado de maneira inadequada. Em muitas ocasiões, a ética do passado e do presente se confronta, batalha, cria dramas ou até mesmo impede tragédias na alma das pessoas. Esse é, talvez, o caso de Terra à Vista (Terraferma, 2012), filme dirigido por Emanuele Crialese, cineasta italiano que ganhou seu lugar na história do cinema de seu país com filmes como A Ilha de Grazia (Respiro, 2002) e Novo Mundo (Nuovomondo, 2006).

Desta vez, Crialese nos leva à Sicília e nos apresenta Filippo (Filippo Pucillo), um jovem pescador que começa a ver as vantagens do turismo em contraste com a escassa renda como herdeiro da arte da pesca. A vida, com a chegada do dinheiro dos turistas, sem dúvida é mais fácil. Mas, neste vasto mundo – perto, muito perto – que se move lá fora não tem somente os turistas, também estão os imigrantes, aqueles que nunca pararam no tempo, mas que vão mudando de rosto conforme as crises vão atacando o mundo. Neste caso, essa crise enorme, mundial, globalizada, termina afetando este pequeno lugar de pescadores da África. Mas, assim como o turismo e a crise dos imigrantes alcançam aquela isolada população, as novas leis também fazem seu trabalho. As leis que pretendem globalizar, as leis que pretendem submeter tudo a um mesmo padrão. Paradoxalmente, tais aspectos globais funcionam como se fossem uma modernidade tardia. Essa modernidade que buscou valores e morais universais do epicentro europeu. No entanto, o filme de Crialese, como uma boa peça produzida em nossos tempos, enfrenta o local aparentemente universal. De alguma forma, podemos dizer, trabalha com dimensões universais. E fazendo frente à lei universal (essa que diz que os imigrantes ilegais não podem oferecer ajuda, que devem ser entregues às autoridades), ele enfrenta a lei pequena, a lei do próprio lugar: a lei do mar que diz que se um homem vem do mar pedindo ajuda, esse homem, seja quem for, deve ser ajudado. O passado, neste caso, parecia ser mais atual, mais humanamente futurista que o próprio presente. E é aqui onde volta essa ideia do passado e o presente confrontando-se com a cultura, como política, como ética na alma das pessoas. São duas maneiras de estar no mundo que se confrontam, duas maneiras de pensar, de ver e de viver o humano. Porque não somos ilhas, porque estamos rodeados de pessoas, pessoas que chegam por todas as partes. Por isso somos terra firme, mas às vezes, lamentavelmente, terra doente.

Terra à Vista, sábado, 14 de dezembro.

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Lado a Lado, ou Neo perguntado pelos artesãos

por max 10. dezembro 2013 14:42

 

É curioso: aquele ator que interpretou Neo na trilogia Matrix algum dia se perguntou pelo futuro do cinema analógico. Ou melhor, do filme, do formato 35mm e de todos os outros formatos que vêm em rolos. Keanu Reeves, um dos atores que melhor representam no mundo a metáfora de ser digital, de ser virtual, foi quem se preocupou. Neo quis saber e perguntou.

O filme vai acabar? O cinema, a película do cinema morreram? Assim pensou e saiu perguntando a todos e depois montou um documentário chamado Lado a Lado (Side by Side, 2012). Reeves foi o produtor e o entrevistador e Christopher Kenneally dirigiu.

Os entrevistados foram David Lynch, Martin Scorsese, Steven Soderbergh, David Fincher, Robert Rodríguez, James Cameron, Danny Boyle, entre outros.

O que responderam? Assim como indica o nome do documentário, parece haver um pensamento paralelo. Certa resistência, mas também uma total aceitação dos novos formatos, das suas possibilidades e de suas novas portas. Também a nostalgia se soma e a palavra "arte" abre suas portas. Como sabemos, a arte sempre tem uma vertente de significados que se detém na ideia do artesanal. É desse trabalho dedicado, detalhista e sereno que resultou algo feito a mão. Em Lado a Lado esse tema "artesanal" está ali e se confronta com os cineastas para gerar neles uma espécie de consciência de culpa, digamos, uma espécie de nostalgia do paraíso perdido que perturba suas mentes, apesar de eles terem se aberto completamente para o cinema digital. Neo veio do futuro e trouxe suas perguntas e os artistas responderam. Neste documentário, estão suas respostas.

Lado a Lado, terça, 10 de dezembro.

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A Feiticeira da Guerra, ou a inocência que salva

por max 6. dezembro 2013 09:37

 

Existe a ideia do que perdemos, do que o homem perdeu em algum momento de sua história mítica. Existe a ideia de que os deuses foram para outra parte e nos deixaram sozinhos nesta terra. Quando em algum momento estiveram juntos, o homem foi feliz. Era o paraíso. Existe um lugar paradisíaco. Para substituir esta perda, geralmente o homem procura na religião, no amor, nas felicidades materiais. Mas a palavra chave aqui é busca. O homem busca essa felicidade perdida e, em certas ocasiões, se perde buscando essa felicidade. Geralmente acredita-se que há um momento da vida em que algo desse contato entre os deuses e os homens sobrevive, um tempo da vida do homem em que tudo flui de outra maneira, um mundo, digamos, mágico, onde prevalece o pensamento mágico, um mundo que segue a doutrina animista, um mundo sem fronteiras entre este e o outro, mas, sobretudo, um mundo onde tudo é permeável e possível: esse mundo é, como sabemos, a infância. A infância é nosso momento de felicidade suprema, dentro dela somos inocentes, absolutamente inocentes, ingênuos e felizes. A infância é entendida como um poder sobre a vida, que pode voltar como adulto, um identificador para subsistir sobre toda crueldade do mundo. Mas o que acontece quando a infância é arrancada? O que acontece quando, por exemplo, na África, as crianças são transformadas em soldados, em assassinos terríveis? Há ainda, talvez, nesta criança que foi privada de seu mundo, um resto desta magia? O filme canadense A Feiticeira da Guerra (Rebelle, 2012), do diretor Kim Nguyen, parece explorar este afiado e difícil tema. Komona (Rachel Mwanza) é uma garota de quatorze anos que está grávida e que conta para seu bebê que ainda não nasceu a história de sua vida. Perceba que significativo, seu bebê que ainda nem nasceu, que está em seu ventre, esse ser que está no paraíso de todos os paraísos, é quem recebe a história, a terrível história que sua mãe tem vivido. Tudo começou quando um dia as hienas da guerra a obrigaram a matar a tiros os seus pais. E ela teve que obedecer, porque se não fizesse eles atirariam nela, e então seus pais morreriam horrivelmente a facadas. A partir de então, conheceremos uma grande lista de infortúnios, ou melhor, tragédias que atravessarão a alma da pequena Komona. Poderíamos pensar até aqui que o filme não nos mostrará mais que uma série de perversidades, de momentos horríveis da vida de uma garota de qualquer país africano em guerra. No entanto, o diretor segue por caminhos a que nos referimos anteriormente: Komona não se perde totalmente, Komona guarda um pedaço de sua infância e com ela sobrevive a tudo ao longo de sua jornada infernal. A magia está em Komona, alguns, com espírito civilizatório, poderiam pensar que esta magia desapareceu na ignorância dos africanos, que essa magia pertence a um passado ignorante de superstições e atraso. Talvez, de certa maneira, Nguyen lança sua voz contra essa opinião: talvez esse pensamento mágico, essa maneira de ver o mundo não deveria se perder totalmente. Talvez haja certos respeitos, certos olhares místicos ou religiosos que mantêm certo equilíbrio entre os homens. Talvez a perda disso fez com que o caos tomasse o mundo destes homens. Ou talvez esse seja apenas um fio para Nguyen, e o que na verdade lhe interessa é ir além, ir até a alma da infância, mergulhar neste lugar das inocências, onde também habita a magia, o primeiro amor, os fantasmas premonitórios, a própria vida. Komona não se perdeu porque nela habita uma luz, essa mesma luz que agora carrega em seu ventre, e a quem Komona conta toda a força de sua profunda experiência. Ela fala do mundo mau, mas o mundo mau não a matou, porque nada matou sua inocência.

A Feiticeira da Guerra, domingo, 8 de dezembro.

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