4:44 - O Fim do Mundo, nem ao 666 chegamos

por max 29. novembro 2013 12:27

 

Talvez a vida já não importe mais, talvez o fim do mundo chegue e dará no mesmo. Talvez passemos por etapas diferentes, talvez devêssemos gritar, deprimir, fazer sexo, talvez devêssemos simplesmente aceitar que o fim do mundo é tão igual como qualquer dia de nossas vidas. Porque, talvez, somos os responsáveis por nós mesmos. Por nossa indiferença, por nosso vazio. Se fossem os extraterrestres, como na novela de rádio de H. G. Wells, teríamos saído correndo pelas ruas, ou teríamos lutado. Mas nem isso. Talvez se tivéssemos sido os culpados. Mas nem isso. Simplesmente foi o universo que se cansou de nós. E, talvez, neste momento antes do fim, só devêssemos buscar, afagar, querer estar com a pessoa amada, como Cisco (Willem Dafoe) e Skye (Shanyn Leigh) fizeram. Talvez nesse dia possamos pedir algo para comer, deixar que um garoto asiático use nosso computador, talvez deveríamos conversar um pouco no Skype, talvez visitar algum vizinho, talvez nos drogar um pouco. O que sei eu. Talvez deveríamos simplesmente olhar pela janela e ver que, lá fora, não acontece nada, porque todo mundo escolheu deixar a morte chegar, finalmente a morte levará todos os nossos erros, todos os nossos vazios, todas as nossas culpas. E, talvez, o mundo nem tenha um final bíblico, de modo que nem merecemos um 666, e sim um 4:44. Quem sabe, talvez foi isso que Abel Ferrara quis dizer.

4:44 - O Fim do Mundo, domingo, 1º de dezembro.

O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

Etiquetas:

Geral

Histeria, ou uma história de boas vibrações

por max 23. novembro 2013 03:38

 

Se você não sabia, eu conto. O vibrador não é uma invenção dos tempos perversos que vivemos. O vibrador foi inventado em uma época totalmente pacata, fechada, coberta de tecidos e preconceitos. O vibrador foi inventado na época vitoriana.

 

Cabe dizer que, durante muito tempo, a histeria era considerada propriedade exclusiva das mulheres. Histeria, de fato, vem do grego, da palavra útero. Na Antiguidade, acreditava-se que o útero era um órgão móvel e dependendo de onde estava localizado, causava certas enfermidades na mulher.

 

Também, durante muito tempo, pensava-se que a cura para a histeria feminina era fazer massagem no clitóris das mulheres. Acreditava-se que uma vez que elas chegavam ao orgasmo, estavam curadas.

 

O médico britânico Joseph Mortimer Granville aplicava as tais "massagens pélvicas" com a finalidade de curar a histeria. Um dia, atormentado por dores em suas mãos, decidiu tentar o tratamento com um dispositivo mecânico. Através desta grande ideia, nasceu o vibrador.

 

Histeria (Hysteria, 2011), da cineasta Tanya Wexler, é uma comédia romântica "cheia de boas vibrações". Por quê? Porque, literalmente, fala sobre a invenção do vibrador. Hugh Dancy, Maggie Gyllenhaal, Rupert Everett e Jonathan Pryce estrelam esta atrevida, interessante, educativa e como não dizer, orgástica história que não deixa de marcar claramente os padecimentos sócio-culturais das mulheres nesta determinada época histórica. O prazer sexual é um direito, mas também uma questão, digamos, política. Estamos, sem dúvida, diante de um filme onde não falta humor, nem mesmo crítica social, que sabe lidar com a tensão erótica e que, afinal de contas, apresenta uma história rápida, inteligente e picante que nos mantém sorridentes. Um bom filme, que ninguém se atreva a dizer o contrário, cheio de excelentes vibrações.

 

Histeria, domingo, 24 de novembro, no Max.

O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

Etiquetas:

Geral

A História de Tomi Ungerer, ou uma personalidade sem fronteiras

por max 18. novembro 2013 09:35

 

Tomi Ungerer, Tomi, é um artista que não conhece limites. Sua criatividade transbordou em outros campos e, graças a ela, carrega uma inquietude inteligente e genial. Passou da ilustração e escrita de literatura infantil (é o autor do famoso texto Os Três Ladrões) a temas eróticos, ao protesto, à política, à publicidade, à arquitetura, à escultura e mais. É um artista difícil de catalogar e de quem, sem dúvida, se poderia fazer um documentário... E, de fato, foi feito. A História de Tomi Ungerer (Far Out Isn't Far Enough: The Tomi Ungerer Story, 2012) dirigido e escrito por Brad Bernstein, que gravou 40 horas de entrevista com o famoso artista nascido na Alsácia, França, para fazer um balanço de sua controversa e dinâmica vida. Ungerer viveu os horrores do nazismo da Segunda Guerra Mundial e se cansou para sempre da guerra, o que o levou a se dedicar na América a um ativismo político importante através de seus cartazes antiguerra. Ungerer também é professor de literatura infantil, mas ao mesmo tempo desenvolve um trabalho transgressor para adultos. No documentário nos deixamos envolver por sua fascinante e elétrica personalidade e passeamos, acompanhados de sua esperteza, de seu humor (e de seu horror), por seus melhores e piores anos. Ungerer é um personagem único, sem duas caras, um personagem de uma energia vital incrível, e isso lhe rendeu uma enorme simpatia, mas também uma boa quantidade de detratores mais ou menos poderosos, que inclusive chegaram a proibir seus trabalhos. Sem dúvida é um homem livre, inteligente e extremamente criativo. Isso pode ser uma grande vantagem, mas em outras ocasiões, pode trazer fortes consequências.

O magnífico documentário de Bernstein também inclui entrevistas com Maurice Sendak (se não me engano, foi a última entrevista concebida por este outro grande artista) e com Jules Feiffer, entre outros.

A História de Tomi Ungerer, terça, 19 de novembro, no Max. O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

Etiquetas:

Geral

360, ou o retorno a nós mesmos

por max 15. novembro 2013 13:34

 

Anthony Hopkins, Jude Law, Ben Foster, Rachel Weisz, Moritz Bleibtreu e Dinara Drukarova são alguns dos atores que interpretam papeis principais neste filme caleidoscópico de Fernando Meirelles (Cidade dos Homens, O Jardineiro Fiel, Cidade de Deus), que dá uma volta por cidades distintas do mundo, como se girassem 360 graus em busca constante por relacionamentos amorosos e decisões de vida. Em Viena nos deparamos com uma história de prostituição, amor e suborno, que inclui Jude Law como o homem que pediu uma acompanhante, mas se arrepende ao ser descoberto por seu possível sócio, que irá suborná-lo. Em meio a este desastre vienense está a garota, que também tomou uma difícil decisão em sua vida: trabalhar como prostituta. Em Paris encontramos um divertido argelino obcecado por uma mulher com uma boina vermelha. O dilema deste homem tem a ver com sua religião, com seus desejos mais íntimos. Por que ele persegue esta mulher? O que sente na realidade por ela? O que dizem a religião e a ciência de seu momento de ruptura? Em Londres conheceremos Rachel Weisz indo se encontrar com seu amante. Outra mulher a filma na rua. Ela não sabe o que fazer. Finalmente se encontra com aquele homem que a fascina. No entanto, termina com ele. Ainda assim, no último momento, fazem sexo. Eles se separam e ele chega em casa e percebe que sua namorada não está, mas que lhe deixou um vídeo. Já sabe que vídeo é esse? O personagem interpretado por Rachel Weisz, por outro lado, escuta as mensagens de seu marido. Seu marido diz que a ama, que queria estar com ela. Seu marido que está viajando a Viena. Você já ouviu falar? No Colorado teremos um homem que acaba de sair da prisão após uma pena de seis anos por problemas sexuais, outro que busca sua filha desaparecida (aqui Anthony Hopkins) e uma garota que parece normal até começarmos a conhecê-la. Eles se encontrarão, ela vai beber demais, vai se insinuar para o criminoso sexual e o homem que procura a filha não a encontra onde pensava que encontraria. E assim voltaremos a Paris, conheceremos novos personagens. Uma mulher que quer se divorciar do marido russo, que se nega a aceitar a proposta e viaja imediatamente para Viena. Esta mulher, abandonada pelo marido, vai trabalhar. Ela se sente atraída por seu chefe. Ambos se gostam, mas ele terá que tomar as rédeas daquele dilema. Em Viena, o marido russo se reúne com seu chefe. O chefe, nota-se, não é uma pessoa fácil. Aparece novamente a jovem prostituta, com sua irmã. A prostituta é para o chefe. A irmã está falando com o marido russo. As coisas logo se complicam por causa de um telefonema da jovem prostituta. Haverá briga, tensão, nova tomada de decisões.

O filme de Meirelles, como se vê, é um emaranhado de histórias complexas e em situações limites. O roteiro é de Peter Morgan e é baseado em uma obra teatral de Arthur Schnitzler, que já foi levada ao cinema em algumas ocasiões. O entrelaçamento das histórias pode não ser direto ou altamente significativo; o que parece certo é que essa volta de 360 graus não é uma volta pela geografia do mundo, e sim uma volta pelo espírito humano, o amor, o sexo e as decisões. Sobre todas as decisões. Nossa vida está cheia delas. Todos os dias pegamos um caminho, decidimos fazer algo. Mas também há grandes momentos onde essas decisões mudam nossas vidas. Decisões, erros, sobressaltos, golpes súbitos do destino. Aqui estamos em um entrelaçamento que leva e traz momentos de crises que fazem virar a alma. Paradoxalmente, estamos diante de uma volta de 360 graus: quer dizer, quando o eixo da vida gira nós giramos também e caímos, de novo, em nós mesmos. Porque no final disso, as grandes crises da vida nos machucam, nos despertam, nos fazem sentir vivos de novo, começamos a tentar sobreviver e, de alguma forma, nos levam de volta a nós mesmos, ali, onde todos nós estamos conectados. Este filme de Meirelles também aborda isso.

360, domingo, 17 de novembro, no Max.

O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

Cinco Câmeras Quebradas, ou a guerra silenciosa do olhar

por max 11. novembro 2013 12:36

 

Enquanto os poderes se concentram na guerra, enquanto as barreiras se levantam e os israelitas e os palestinos sofrem as consequências, um homem de uma pequena aldeia também luta. Seu nome é Emad, é palestino e sua luta é silenciosa, ocular, digamos assim. Emad Burnat grava, grava o que vê ao longo dos anos, o processo de opressão, de separação, de imposições.

Tudo começou em 2005, quando levou uma câmera à sua aldeia Bilin para registrar o nascimento de seu último filho. Desde então, a função da câmera mudou. E também a vida de Emad. Claro, dizer "a câmera" é uma maneira de generalizar, porque na realidade Emad tem cinco, cinco câmeras que foram quebradas, despedaçadas por soldados israelitas.

Através dessas câmeras, este outro combatente, mas da imagem, tem registrado momentos como o dia que arrancaram as oliveiras da aldeia, a progressiva aproximação do muro que cada vez mais busca diminuir seu território e sua vida, a morte de um amigo, a prisão de seus irmãos e sua própria prisão, os protestos da população, as marchas pacíficas, o terror... Um total de 700 horas que fazem o documentário Cinco Câmeras Quebradas (5 Broken Cameras, 2011), dirigido, naturalmente, por Emad Burnat, agricultor palestino, e pelo israelita Guy Davidi, que se encarrega de nos mostrar a contrapartida, o outro lado do muro, a bota, o poder.

Não estamos diante de um documentário que toma partido por algum movimento religioso ou político, nem tampouco nos dá a visão de um correspondente de guerra com certas ideias no meio dos prédios do primeiro mundo. Não, aqui estamos diante de um documentário do dia a dia dos homens, da marcha a pé, do olhar atento, do olhar próprio que registra e se transforma em voz justiceira. Um olhar que tem insistido, um olhar que não parou com a bota.

Cinco Câmeras Quebradas, documentário indicado ao Oscar em 2013. Aproveite, nesta terça, 12 de novembro, no Max.

O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

 

Elas, ou a cebola da feminilidade

por max 8. novembro 2013 12:31

 

Paris, a Paris romântica, perfeita. Uma mulher casada, independente, quarentona, com marido e filhos. Uma mulher perfeita. Tudo perfeito em um mundo perfeito. Tudo planejado, tudo em sintonia, mas, talvez, as aparências são somente uma camada, uma fachada... Elas (Elles, 2011), de Malgorzata Szumowska, é como uma cebola que vemos perdendo delicadas camadas; essas camadas são as representações habituais de dois contextos que giram em torno da mulher. Por um lado, temos o contexto do casamento de Anne, interpretada por Juliette Binoche, essa mulher perfeita, profissional, casada, burguesa acomodada que acha que tudo está bem em sua vida. Por outro lado, temos o contexto de duas meninas, Lola (Anaïs Demoustier) e Alicja (Joanna Kulig), duas jovens garotas que se prostituem para pagar seus estudos. Estes dois contextos se juntarão e acontecerão em paralelo ao longo do filme, com a finalidade de ir tirando as camadas dessa cebola. Naturalmente começa na superfície, onde aparece que tudo está bem, no caso da Binoche. Mas logo descobriremos que ela, sua personagem, está escrevendo um artigo para a revista Elle, revista que, como já sabemos, é dirigida e pensada para a mulher que, em termos sempre fáceis e universais, é cosmopolita, dinâmica e moderna. Uma revista que, segundo ela mesma se explica, não cuida apenas da estética da mulher, mas também do intelecto. E a partir daí, dessa imagem de uma mulher que conquistou um lugar na sociedade, a cineasta começa a se desdobrar. Essa é a primeira camada da cebola na vida de Anne, mas logo essa cebola começa a se abrir diante de nós quando ela começa a comparar sua vida com a vida das jovens prostitutas. Aí, nessa fusão de contextos, começa a mudança, as delicadas camadas da cebola são retiradas. O que Anne descobre? Talvez que sua vida de mulher perfeita em Paris não é tão perfeita. Que ela, dentro de sua comodidade tem vivido, como todo burguês, cega a uma série de realidades mais próximas da crueldade, da dor, do sofrimento. Talvez perceba, pela primeira vez, que sua Paris iluminada tem regiões escuras e terríveis. Talvez ela, sexualmente, não tenha vivido tudo o que deveria. Talvez, à sua maneira, também seja uma prostituta, uma prostituta de seu marido e de seus filhos. Como sabemos, uma concepção de prostituta que inclui sinais de desprezo e de objeto. A prostituta é uma coisa, um objeto que utilizamos e logo despachamos, e também, hipocritamente, desprezamos por considerá-la imoral, pecadora. A vida de prostituta, em nosso quadro mental, constitui um universo obscuro, agressivo, daninho; essa é outra concepção e também a diretora separa mais camadas. Nas figuras de Lola e Alicja descobrimos outra realidade. Não me atrevo a dizer que Szumowska defende o ofício; o que trata de fazer talvez (cada "talvez" nos leva a outra camada da cebola) é se mostrar objetiva, apresentar o plano do real sem sombras. Estas são garotas que (como observava a revista Elle) desejam ter uma boa aparência, mas também querem ser nutridas intelectualmente, educadas. Entregaram-se à prostituição, mas o que vemos desse mundo não é necessariamente abismal; têm dinheiro, estão pagando seus estudos, têm roupas, se dão seus luxos, nem todos os clientes querem sexo nem as maltratam. No entanto, também entendemos que o ofício interfere na vida amorosa, familiar e também no inconsciente. Cada menina, porém, é diferente. Uma é mais casual, a outra é mais tímida, uma é francesa, a outra estrangeira, e ambas enfrentam suas condições de maneiras diferentes. Quer dizer, estamos diante de dois seres humanos e a humanidade tem suas nuances, a realidade tem suas nuances. Essas nuances afetam Anne, personagem de Binoche, batem nela, o que a faz acordar. Qualquer decisão de vida tem suas vantagens e desvantagens, suas garantias e castigos. E só podemos vê-las se nos livrarmos de todos os clichês, dos lugares comuns, das crenças e dos preconceitos. Só podemos chegar ao fundo da condição da mulher moderna se nos despirmos de tudo isto. Elas não é um filme feminista, Elas talvez seja um filme que pretende despir, desdobrar, arrancar, se aventurar na condição da mulher. Ali temos um jogo de espelhos e paralelismos: a mulher bem sucedida, supostamente livre, é escrava das mediocridades burguesas; as mulheres escravas (supostamente) dos homens, os jogos sexuais dos homens, são as bacantes que atravessam o bosque, donas de si mesmas. Mas nem tudo é Apolo e Baco. Szumowska continua separando ranhuras e mostra o conflito em todas, sem menosprezar, sem poses, sem feminismo panfletário. Szumowska simplesmente quer mostrar a elas como são hoje em dia, como são profundamente.

Elas, domingo 10 de novembro, no Max.

O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

Urbanizada, ou os espelhos da alma da cidade

por max 4. novembro 2013 03:02

 

Caíram os castelos, vieram as cidades e o homem começou a sonhar com elas. Como pode ser esse lugar para viver melhor? Existe uma cidade perfeita na mente dos homens, uma cidade digamos, platônica, e os homens sempre tentam projetá-la. Nessa cidade há beleza e verdade. Tem espírito humano, alma.

As cidades pensam e agem. Quando há tempo ou quando é tarde demais. Porque as cidades podem ser planejadas desde o princípio, ou podem tentar ser planejadas no momento de seu crescimento. As cidades são excedidas. Pense em uma cidade como Caracas, capital da Venezuela. Caracas cresceu em um pequeno vale e sob o layout de quadrados. A cidade, ao longo dos séculos, continua crescendo e transbordou para as montanhas, para outras áreas. Ao longo dos anos, os arquitetos tentaram traçar novas linhas de pensamentos, outras propostas e outros espaços de convivência. Mas a cidade se transforma muito rápido, e seu crescimento não envolve somente o Estado e as entidades privadas em suposto acordo com o Estado. Mas também os indivíduos, e as áreas marginais, que constroem e constroem com livre arbítrio, sem nenhum planejamento. Há outras partes das cidades, e até mesmo outras cidades que vão decrescendo, caindo no esquecimento. Nesses espaços ou cresce o monte ou cresce a imaginação. O High Line Elevated Park de Nova York é um exemplo da criatividade do urbanismo contra o esquecimento. Algumas partes de Detroit (cidade quase fantasma) também são.

Digamos que a cidade é escrita e reescrita constantemente e, às vezes, mais que o necessário, a cidade em si é escrita em meio ao caos. Cada cidade é vida, essa vida é uma fervura constante, que às vezes é controlada, às vezes não. Basicamente, os homens dos tempos atuais são homens da cidade. Mais da metade da população mundial vive em áreas urbanas. Calcula-se que em 2050 a porcentagem subirá para cerca de 75%.

Urbanizada (Urbanized, 2011), de Gary Hustwit, é um documentário sobre o design das cidades, sobre o sonho da cidade ideal, sobre a utilidade versus a beleza, sobre as soluções versus o esquecimento. É um documentário sobre os prazeres e os grandes problemas, os sonhos e as potencialidades, sobre a beleza e a feiura das cidades. Norman Foster, Rem Koolhaas, Oscar Niemayer, Alejandro Arayena, Amanda Burden, Enrique Peñalosa... Todos aqueles que permitimos dar forma aos nossos espaços públicos estão lá, pensando, filosofando. Porque a cidade é uma filosofia que ninguém duvida. Uma filosofia do privado e do público, do espaço compartilhado e do movimento, da vida boa e da ruim, dos direitos e deveres e, como já disse, da verdade e da beleza.

Com esse documentário, Gary Hustwit completa uma trilogia que começou com Helvetica em 2007, depois com Objectified em 2009 e terminou com Urbanizada (Urbanized) em 2011. Helvetica foca no design gráfico, em como as letras – e principalmente a helvética – ocupam e determinam nossos espaços e nossas leituras; Objectified é sobre o design de objetos e, finalmente, Urbanizada, como sabemos, sobre o design das cidades. Por trás do design há sempre um vazio, atrás do design não há somente estética, há razões, filosofias, modelos de vida. As imagens são a linguagem, são reflexos da vida, são sonhos de vida. Urbanizada é assim, o terceiro projeto de Hustwit sobre o design como espelho da alma, como espelho de nossos sonhos e de nossas verdades irrevogáveis.

Urbanizada, terça, 5 de novembro. Design, arquitetura, cidades para viver. O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

Etiquetas:

Geral

O Que Traz Boas Novas, ou a confissão e o ensino

por max 1. novembro 2013 17:13

 

Na sala de aula é o lugar em que nossos filhos passam a maior parte do tempo. Em um lugar fechado, com horário, onde a criança é submetida a uma disciplina. Essa disciplina controla seu corpo e sua mente. Essa disciplina prepara para viver em sociedade. Essa sociedade tem determinados parâmetros, ensina determinados discursos. Ensina o que deve dizer e o que não se deve dizer. E tem o professor, aquele que fala em público, se levarmos para a etimologia. No entanto, o termo em latim profiteri tem relação com "professar e confessar". Ou seja, o professor em público professa, faz um ato de fé, e ao mesmo tempo confessa. Confessar, o que sabemos é pegar o que se tem de mais profundo e revelar, para conhecer a si mesmo, revelar para que, através do conhecimento de si próprio, os outros também saibam sobre você e sobre eles mesmos. O professor é um espelho. Quem ensina, pelo que entendemos, tem uma grande responsabilidade e corre um grande risco: deve dar o melhor de si para ensinar (in signare, indicar, mostrar algo a alguém) o caminho aos outros.

Então como se contrasta o que se confessa e o que se ensina, com o discurso aceito e imposto? O que você pode dizer e o que não pode, o que pode e o que não pode confessar? Quanto você pode abrir sua alma, quanto seus alunos podem saber de você? A sala de aula é uma máquina, ou é "um lugar para a amizade, para o trabalho e para convivência, um lugar cheio de vida"?

Esta última frase, devo dizer, pertence ao professor Bachir, um homem misterioso de origem argelina que substitui uma professora que se enforcou em uma escola em Montreal, no filme O Que Traz Boas Novas (Monsieur Lazhar, 2011). Um trabalho simples e bonito que é dirigido pelo canadense Philippe Falardeaus (La moitié gauche du frigo; Congorama; Não Sou Eu, Eu Juro! - C'est pas moi, je le jure!), baseado na obra teatral Bashir Lazhar, de Évelyne de la Chenelière.

O personagem Bachir, interpretado pelo ator e diretor de teatro Mohamed Fellag, é um homem encantador, muito educado, que caiu como uma luva para aquelas crianças que perderam de maneira tão trágica a antiga professora. Bachir significa "portador de boas notícias". Todo o mundo na escola almeja isso. Ele é inteligente e agradável, cumprirá com seu dever de ensinar o que os livros ditam. Só o que os livros ditam. E ali, entre os ensinamentos do discurso oficial, não se ensina, não se fala da morte. Isso Bachir não pode fazer, foi dito categoricamente. Mas estas crianças, claro, têm atrás de si a morte da professora, e essa morte é rodeada de uma névoa que querem eliminar. No entanto, o tema morte é um tabu, a morte é terrível e não faz parte deste guia oficial que a sociedade impõe. Os professores, os mestres da escola não devem falar sobre morte, embora este seja um tema decisivo para as crianças do filme, e esse seja também um tema fundamental para o próprio Bachir, que oculta em seu passado um terrível episódio com a morte. Assim a trama vai se transformando num processo, uma evolução para a confissão que envolve o trabalho de ensinar corretamente. Bachir, em sua honestidade, em sua necessidade humana, em seu dever interno, deve confessar seu passado, deve falar a fundo da morte para limpar a si mesmo e para mostrar um caminho às suas crianças. Mas claro, isto trará conflitos com os pais e com o colégio.

O diretor Falardeau nos traz um trabalho que, apesar da dificuldade de seus temas, se deixa levar pelo encanto da relação do mestre com as crianças, por essa essência de casa, de amizade, trabalho e convivência que proclama o próprio Bachir, o portador de boas notícias. Porque isso é o final do filme: uma história agradável, boa, leve e ao mesmo tempo comovente, que aborda temas profundos sem chegar no patético nem no desprezível dentro do trágico. Deve ser assim, porque o que Philippe Falardeau tenta fazer é transformar esse ato pesado da confissão em um ensinamento ao redor da morte, e que esse ensinamento se converte em um guia para a vida, para fazer crescer a vida. Bachir é boa notícia e as crianças gostam tanto dele que, na hora de tirar uma foto, ao invés de falarem "Xiisss", eles falam "Bachiiiiir", o que o faz abrir um sorriso no rosto, um sorriso cheio de vida.

O Que Traz Boas Novas foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e você pode conferir com exclusividade domingo, 3 de novembro, no Max.

O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

arquivos
 

nuvem