Juan dos Mortos, ou a ilha dos malandros e dos zumbis revolucionários

por max 31. outubro 2013 11:27

 

Pode-se dizer, pois bem, aqui está o herói revolucionário cubano, matando dissidentes, matando os capitalistas americanos. Mas em Juan dos Mortos (Juan de los Muertos, 2011) de Alejandro Brugués, estamos diante de uma sátira. Juan, o suposto herói, e Lázaro, seu amigo, são dois vigaristas, os cubanos mais aproveitadores de todos os cubanos, aqueles que prosperam à sombra da revolução. Juan e Lázaro são dois exemplares de malandros latino-americanos, aqueles que, diante da impossibilidade de saída existencial, diante do isolamento material e espiritual imposto na ilha, terminam vivendo das armadilhas, das astúcias e dos movimentos rasteiros. São, como disse em algum momento o próprio Juan, sobreviventes, os melhores exemplos do novo homem socialista. Assim, com todos os direitos, eles vêm levando a vida cotidiana como aproveitadores das circunstâncias dentro de um regime que pretende ditar cada momento da vida coletiva.

E no filme em questão, esse regime, essa estrutura de poder termina criando dois personagens diferentes: por um lado, e não metaforicamente, zumbis, massas estáticas que contradizem o princípio do novo homem: o movimento revolucionário. A revolução, se supõe, é um movimento constante, uma velocidade, um vai para frente, diretamente para o futuro. Mas estes homens que a revolução produziu não pensam, se mobilizam em grupos guiados pela inércia, não avançam, vagam. O perambular, reforço, nega o futuro. Assim, temos os produtos da Cuba contemporânea: o malandro e o zumbi. Alejandro Brugués leva esta ideia ao roteiro, à realização cinematográfica, e opõe estes dois personagens em um jogo narrativo que, à sua maneira, oferece um olhar crítico, sarcástico, à ilha revolucionária. Não só o capitalismo cria zumbis, o socialismo também. E para piorar, o socialismo cria seus próprios capitalistas, porque Juan dos mortos e seus companheiros montaram seu negócio diante da explosão de zumbis, que resulta, segundo o governo cubano, em um grupo de dissidentes enviado pelo império americano. Porque é assim, os de fora sempre terão a culpa, os de fora sempre serão os culpados da revolução não caminhar com um sentido claro até o futuro, os de fora sempre serão culpados por perambular, pelo vagar da revolução. No fundo, poderíamos dizer, este filme de Brugués é uma proposta sobre a verdade da cinética revolucionária, mas também – e voltamos ao tema – é a revelação de outra grande verdade: o malandro latino-americano é o mais capitalista de todos. O revolucionário malandro está sempre pronto a fazer um negócio que lhe dê ganhos pessoais. Juan dos mortos é um herói que não é herói por ânimo justiceiro, mas sim por conveniência, por dinheiro. Juan dos mortos organizou um negócio ideal: ele e seus companheiros prestam serviços a todos que querem matar seus entes queridos. Está sobre esta frase o significado de traição revolucionária: todo aquele que seja suspeito de algo (de dissidente, de zumbi gringo, nunca revolucionário) deve ser entregue pelo amigo, pelo vizinho, pelo familiar próximo. Juan dos mortos está ali para se encarregar do dissidente que virou zumbi, e faz sem escrúpulos, porque Juan só acredita no capital. Sua alma vive no capital. Juan dos Mortos, o filme, é uma maravilhosa sátira política e ao mesmo tempo uma comédia zumbi com todos os seus efeitos, suas virtudes e também defeitos. Uma comédia divertida e excessiva, uma sanguinária crítica que joga verdades na cara e faz dar gargalhadas escandalosas e cruéis.

Juan dos Mortos, sábado, 2 de novembro, no Max… Neste mês, o Max está às ordens para zumbis, porque também teremos Les Revenants.

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Les Revenants, ou a volta dos mortos-vivos incorruptos… e franceses

por max 29. outubro 2013 12:26

 

Uma das grandes promessas que sustenta a fé cristã é a ressurreição. O cristão diz que Cristo ressuscitou entre os mortos ao terceiro dia e que fez suas andanças falando com seus apóstolos. Ressuscitar significa que alguém estava morto e voltou à vida... em carne e osso?

Na primeira Epístola aos Coríntios, Paulo de Tarso diz que quando soou a trombeta anunciando o Fim "em um piscar de olhos, os mortos se levantaram, incorruptos". Enquanto Paulo estabelece uma clara diferença entre o corpo mortal e o corpo espiritual, não deixa de chamar a atenção esta frase que fala de mortos que se levantam, de mortos sem corrupção em seus corpos.

No Juízo Final, os mortos vão deixar seus túmulos e serão julgados por seus atos. Em oposição a esta ideia sagrada, teremos a figura do zumbi. O zumbi é um ser ressuscitado, mas não por Deus e nem sequer no Juízo Final. O zumbi é um produto da mão do homem – do seu jogo com os poderes divinos através da ciência -, e este corpo está corrupto – podre, deformado, cortado em pedaços.

O zumbi também desencadeia seu próprio Apocalipse. A fúria do zumbi, contra os sobreviventes humanos é a imagem do fim dos tempos na mitologia zumbi contemporânea. Quer dizer, o zumbi se eleva com uma blasfêmia claramente oposta ao conceito da ressurreição dos mortos que fala o cristianismo.

É uma ideia interessante que tem sido explorada infinitas vezes na cultura popular americana. Esse tipo de zumbi tem de sobra. Mas o que acontece quando esse morto volta, em um momento que não é o Apocalipse, não parece corrupto nem devorador de cérebros?

O que acontece se esse morto que volta nem sequer sabe que estava morto? Estas são as perguntas que fizeram a si mesmos os criadores de Les Revenants (2012) para realizar esta maravilhosa série francesa produzida pelo Canal+ e que tem muito a ver com o estilo e com o selo das produções originais HBO. Inclusive seu criador, Fabrice Gobert, confessa ser fã de A Sete Palmos (Six Feet Under).

Não é para menos que, em ambas as séries, os mortos voltam, alguns em carne e osso, outros em forma de memórias, alucinações ou espíritos. Mas voltam, em ambas voltam. Em Les Revenants eles aparecem um dia na cidade que foi sua pequena comunidade sobre a montanha, foi nesse povoado que morreram, alguns anos atrás.

Seu retorno, já comentei, é diferente dos zumbis: eles estão exatamente como estavam no dia que morreram, sem marcas, sem cicatrizes, sem o cérebro aparecendo, eles nem sabiam que estavam mortos. Para onde estamos indo? Vamos para uma série com uma carga pesada nos personagens, no drama dos personagens.

Não é para menos. Pergunte a si mesmo como se sentiria se, hoje, para seguir a carta aos Coríntios, fechasse os olhos e ao abri-los seria como se tivessem passado anos, as pessoas teriam mudado e, também, lhe veem como um estranho.

Por aí vai Les Revenants e seus oito episódios que poderemos acompanhar a partir desta quarta, 30 de outubro, no Max.

Quer dizer, se você gosta de zumbis, embora o gênero gore possa ser chocante, os franceses trazem uma série que fará você não se sentir culpado, e permite que você siga uma história de zumbi que não é zumbi. Algo assim, não? Zumbis esquisitos, inteligentes, dramáticos, existenciais, filosóficos. E há crimes e suspense também. Mas de outra maneira. Zumbi à francesa, claro, é isso que teremos.

Lembre-se: Les Revenants, a partir de quarta, 30 de outubro.

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Primeira Posição, seis jovens muito jovens – e muito adultos – para o balé

por max 28. outubro 2013 08:46

 

Eles são muito jovens e muito adultos. São pela paixão, por sua paixão e também pelo apoio – ou a paixão de seus pais. Seis garotos diferente, unidos pelo balé clássico. E por uma competição, a Youth America Grand Prix, um dos eventos mais importantes do mundo da dança. O evento começa com cerca de 5000 participantes, com idade entre 8 e 18 anos, e seus finalistas recebem como prêmios contratos com importantes companhias ou subsídios por parte da organização do evento para continuar com sua paixão.

A estreante diretora Bess Kargman, apresenta em Primeira Posição (First Position, 2011) cenas desta famosa competição, mas também nos mostra a vida destes seis participantes. Aran Bell, um garoto de 11 anos realmente talentoso, que vem de uma família de origem militar. Aran dança desde os 4 anos e não sabe bem como explicar em palavras a paixão que sente pelo balé. No documentário vemos Aran muito próximo a Gaya Bommer Yemini, uma garota israelense que sente uma profunda admiração por Aran, não sei se chega a ser amor, mas é algo muito profissional e ao mesmo tempo regado com o encanto da infância. Também apresenta Michaela DePrince, uma garota de 14 anos cujos pais foram assassinados em Serra Leoa, e que logo foi adotada por uma família da Filadélfia. Michaela é de raça negra e luta com toda sua alma para se destacar como bailarina de balé clássico, o que resulta, sem dúvida, em uma estranheza, uma característica perto do preconceito. Temos Miko Fogarty, uma garota cuja mãe, Satoko Fogarty, talvez seja mais obcecada por balé (e pela competição) que a própria jovem bailarina. De Cali, na Colômbia, mas trabalhando muito em Nova York, vemos Joan Sebastián Samora, e finalmente Rebecca Houseknecht, uma garota loira, uma princesinha de colégio (e que os amigos chamam de Barbie) que tenta, apesar de seu talento e suas incansáveis horas de dedicação ao balé, ter uma vida normal.

Claro, é um documentário que tem tudo para ganhar. Quem não gosta de seguir o enredo de uma competição? Quem não se fascina com os bastidores? Quem não se deixa fascinar por jovens cuja paixão os leva aos limites da genialidade? Claro, também há lugar para outro tipo de perguntas. Por que estes garotos não estão vivendo uma vida normal? Por que se obrigam a ser quase adultos antes do tempo? Não estão sendo explorados por seus pais? Predomina mais essa insistência dos adultos (treinadores, parentes) que a própria satisfação pessoal, o egoísmo, o interesse particular? Isso também está no documentário, isso também pode ser visto. Onde está a infância? É a pergunta que finalmente poderia ser feita. Estes jovens serão adultos felizes? Não estão se privando de algo que precisarão em suas vidas quando forem adultos? Não estão arrancando um pedaço da alma, um pedaço da vida?

Com tudo isso, o documentário é uma magnífica mostra de como o corpo e a mente podem trabalhar juntos para criar beleza, para criar, por que não, até mesmo uma sensação de liberdade diante das imposições que a sociedade propõe para o corpo, essas ocupações militares, por exemplo, ou esses confinamentos ou prisão no escritório, por exemplo.

Primeira Posição, terça, 29 de outubro.

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A Demora, ou os rostos da velhice

por max 25. outubro 2013 11:08

 

Os idosos, diz um paradigma são fonte de sabedoria. Já viveram muito, sabem muito, são veneráveis. Além disso, outro paradigma não mostra o envelhecimento na hora do descanso, da tranquilidade, de abandonar as atividades do cotidiano. Claro, na velhice também se aplica o paradigma dos males, da degradação do corpo e da mente, o afastamento do amor. A velhice é um sinal, sem dúvida, cheio de muita riqueza. Vejamos um pouco.

 

A velhice como sabedoria

Sempre escutamos falar de grupos ou conselhos de anciãos das culturas tradicionais africanas. Aquele conselho de anciãos administrava a lei e a justiça. O conselho reunia a vítima e o agressor e dava voz a ambos em busca da compreensão mútua. O que levava a um ato de redenção, de culpa ou perdão. Não apenas a vítima era exigida, mas também o agressor.

 

A velhice como decadência

No mundo grego parecia existir uma dupla articulação sobre a velhice. Por um lado, a velhice como o fim da beleza do corpo, dos prazeres que o corpo proporciona e, por outro lado, a velhice como o lugar do fim das paixões que agitam os jovens. Sobre a primeira, lembramos o poeta grego Mimnermo de Colofón: "Que vida, que prazer sem a dourada Afrodite? / Que eu morra quando essas coisas não mais me interessarem, /um amor secreto, suaves dons e um leito, / que vêm a ser as agradáveis flores da juventude / para homens e mulheres. Mas quando chega a dolorosa velhice, / que torna feio igualmente o homem belo." Outro poeta grego, Anacreonte, lamenta a rejeição de uma bela mulher para o envelhecimento do sujeito lírico: "O amor dos cabelos de ouro / Lança-me a bola vermelha / e quer que eu jogue com a moça / das sandálias coloridas. Mas a jovem — que é de Lesbos, a bem construída — faz pouco de meus cabelos já brancos / e olha ardente para um outro". Tem mais. Em um outro poema, Anacreonte disse que de nada lhe serve a retórica, o conhecimento acadêmico, apolíneo, pois já está grisalho; melhor, diz ele, preferir o vinho e os prazeres. "A neve tem feito minha cabeça sua coroa; / menino, dá-me água e vinho para anestesiar a minha alma / como o tempo que me resta para viver / é curto, muito curto. / Logo você deve me enterrar / e os mortos não bebem, não amam, não desejam".

 

Envelhecimento como refúgio (com dinheiro)

Se bem que, por este lado, a velhice é um desespero, Platão, em A República, nos mostra outra visão. Céfalo, um idoso rico, explica que a velhice não é algo tão ruim, embora já escutou em reuniões outros idosos dizendo que já não podem comer nem beber e que os prazeres da juventude e o amor passam longe. Céfalo encerra dizendo: "A verdade é, Sócrates, esses arrependimentos e reclamações sobre as relações devem ser atribuídos à mesma causa que não é a velhice, mas sim ao caráter dos homens e seu comportamento; porque o que é de natureza calma e feliz, quase não sentirá a pressão da idade, mas, para a disposição oposta, tanto a juventude quanto a velhice são igualmente um fardo". Céfalo também cita Sófocles que, diante da pergunta de como combinar o amor com a idade, responde com uma única palavra: "paz". Logo completa: "Eu, felizmente, escapei das coisas que você fala; eu me sinto como se tivesse escapado de um mestre louco e furioso". Sensação de calma e liberdade, comenta Céfalo, ao que finalmente Sócrates, após escutar atentamente, disse: "Suspeito que as pessoas no geral não estão convencidas quando você fala assim; eles pensam que a velhice é sentida levemente, não devido a sua disposição feliz, mas porque é rico e você sabe que a riqueza é uma grande consoladora". Com riqueza, portanto, todos vão envelhecer bem, ricos. A fortuna é, como Sócrates vê, uma espécie de almofada que alivia o peso dos anos, a fortuna permite tratamento, medicamentos, luxos. Isso está claro.

 

A velhice em A Demora

No filme A Demora (La Demora, 2012), do diretor uruguaio radicado no México, Rodrigo Plá (Zona do Crime – La Zona; Desierto Adentro), aborda o tema da velhice a partir da perspectiva daqueles que têm que assumir os cuidados dos idosos; Isso nos leva diretamente ao diálogo de Céfalo e Sócrates, e também a Maria (Roxana Blanco), a personagem principal do filme. O pai de Maria, já idoso, nunca teve bens e fortunas. Vive com ela e está começando a perder a memória. Maria, a herdeira das desgraças, trabalha em uma fábrica têxtil e o salário mal dá para manter seus filhos e seu pai doente. Estamos na velhice decadente, diante de um idoso que nada se parece com Céfalo, mas sim se parece com o mundo que vemos em Anacreonte e Mimnermo. Esta ideia de idoso traz consigo a alienação. O idoso já não é mais uma máquina útil. O idoso deixa de ser homem-máquina e a estrutura do poder não precisa mais dele, portanto, o joga fora. Aqui, o idoso é uma periferia, o aterro de tranqueiras velhas. Sua filha pouco ajuda. Ela está oprimida pela vida, ele não lhe oferece sabedoria, muito menos bem-estar. É um velho decadente e, portanto, Maria decide, repentinamente, abandoná-lo. Esse abandono leva à ideia principal do filme e mostra a visão do diretor em uma nova perspectiva.Tal como os idosos africanos do conselho, o filme busca o encontro da vítima (o idoso) com o agressor (a filha, Maria) em um jogo de arrependimentos e buscas que vão levar Maria, como protagonista, a submeter sua mente a julgamento e a buscar suas próprias redenções na recuperação do pai. O pai espera e o conto original de Laura Santullo, esposa do diretor e roteirista do filme, se chama "A Espera". Mas o idoso sempre espera. Como parte do nosso paradigma contemporâneo para ver estes idosos abandonados ao desuso, à preguiça, ao esquecimento. O que não é comum é quem abandona voltar para resgatar. Ou seja, aqui a espera do idoso se transformou em um atraso, nada mais que um atraso. E a pessoa atrasada sempre volta; chega, chega tarde, mas chega. Assim como também chega a velhice, que nunca, aparentemente, chega tarde, está sempre pronta, antes de percebermos, antes mesmo que aqueles que te rodeiam percebam que terão que te carregar. Ao redor dessas pessoas é que gira o filme, ao redor de Maria que, a partir do olhar do velho sábio diretor, como aqueles idosos africanos que enfrentam a vítima e o agressor em um processo de redenção, perdão e catarse.

A Demora, domingo, 27 de outubro, no Max.

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Filhos das Nuvens, A Última Colônia, ou as perguntas incômodas sobre os saarauis

por max 21. outubro 2013 11:40

 

Quem são os saarauis?

Se você for ao Wikipedia encontrará algo mais ou menos assim: São pessoas nativas do Saara Ocidental, cuja maioria habita a parte do Saara que está ocupada pelo Marrocos. Outros vivem exilados nos acampamentos de refugiados e nas areias de Tinduf. O restante está espalhado por todo o mundo, emigraram principalmente para a Espanha, França, Mauritânia e Mali. Seu idioma nativo é um dialeto chamado 'Hassaniya' derivado do árabe clássico, mas também falam espanhol. Falam espanhol porque, a partir do século XIX, se tornaram colônia espanhola. Aquela área rica em fosfatos, sobre tudo as minas de Bu Craa. Além disso, no Saara, mesmo que você não acredite, tem um dos maiores bancos pesqueiros do mundo. Em 1976, a Espanha abandonou o Saara Ocidental, que se proclamou República Árabe Saaraui Democrática. Mas nesse mesmo ano, o Marrocos começou a bombardear com fósforo branco os saarauis. Desde então, a república Saaraui é cada vez menos república independente e, hoje em dia, os saarauis são considerados minoria e tratados de forma discriminatória em sua própria terra. Por quem? Pelo Marrocos. Acontecem desaparecimentos, torturas, protestos, greves de fome. De tudo acontece ali. Mas nada acontece. Ninguém sabe de nada. Eu não sabia, e você? Pois eu não. E graças também ao que li na internet, em 2008 descobriu-se que o governo marroquino organizou redes clandestinas que pagavam cidadãos mauritanos para que imigrassem aos territórios ocupados do Saara Ocidental e se passassem por saarauis. O que aconteceu com essas pessoas? Quem é o culpado por tudo isso e se mantém em silêncio? Javier Bardem fez algo.

 

Quem é Javier Bardem?

Não é necessário responder, correto? No entanto, devemos dizer que o premiado ator, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pela interpretação do sombrio Anton Chigurh em Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men, 2007), dos irmãos Coen, desta vez, não atua... bom, atua um pouco... Sim, ele se faz de apresentador e produtor do documentário Filhos das Nuvens, A Última Colônia (Hijos de Las Nubes, La Última Colonia, 2012), dirigido por Álvaro Longoria, que produziu 7 Dias em Havana (7 Días em la Habana, 2012) e Um Quarto em Roma (Habitación en Roma, 2012), e que agora se atreve fazendo a direção das câmeras para nos mostrar a dura realidade dos saarauis, com Bardem, como já disse, diante da câmera, magoado, indignado e em certas ocasiões confuso (quando pessoas importantes se negam a lhe dar entrevistas) diante da terrível situação em que se encontra o povo em questão.

 

Então o que é o documentário?

Filhos das Nuvens, A Última Colônia é um documentário que busca dar visibilidade aos desprotegidos, àqueles que não têm poder para levantar sua voz e, ao mesmo tempo, é um exercício interessante sobre a ocultação do poder e da política sem ética, sem moral, somente baseada no egoísmo e nos interesses próprios. O lado obscuro de Marrocos, Espanha, Estados Unidos e outros países está sobre a mesa, e Bardem vai passando por cima deles, cheio de espanto, mas com a cabeça erguida de quem busca a verdade e levanta a bandeira da justiça de sua área, onde pode, onde é permitido.

 

Filhos das Nuvens, A Última Colônia, nesta terça, 22 de outubro, no Max. O que você vê quando vê o Max?

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Cinema animado, de quinta 17 à domingo 20 de outubro

por max 16. outubro 2013 17:01

 

Primeiro vieram os desenhos. Desde as cavernas, lá estão eles, búfalos rupestres, tigres, caçadores. Há até mesmo, em algumas destas cavernas, repetições de patas e corpos, indicando movimentos. Os arqueólogos franceses Marc Azéma e Rivère Florent argumentam que a agitação do fogo dentro da caverna de Lascaux fazia essas patas repetidas terem efeitos de animação graças ao jogo de luzes nas sombras. Também argumentam que os antigos homens das cavernas haviam inventado com ossos uma espécie de taumatrópio, utensílio muito simples, mas engenhoso, que foi "inventado" por John Ayrton em 1824, e que logo foi a alegria dos salões na época vitoriana. O taumatrópio de 1824 (ou o dos homens das cavernas) é o antecessor do famoso zootrópio, máquina estroboscópica criada em 1834 por William George Horner, e do praxinoscópio, similar ao zootrópio inventado por Émile Reynaud em 1877. Todos estes aparatos, que trabalham com desenhos, são precursores da imagem em movimento, do cinema. Portanto, começou com a imagem animada. Disso não há dúvidas.

Em outubro, o Max faz uma homenagem a um gênero que tem ido além de seus limites iniciais e que se instaurou na categoria de culto: o cinema animado, esse amplo espectro de maravilhas da imaginação que estará esta semana no Max. A imaginação como implantação, a capacidade de criar mundos maravilhosos e também de retratar o mais cruel realismo, estão nos filmes de animação.

A partir de quinta 17, até domingo 20 de outubro, teremos os seguintes filmes:


 

Ánima Buenos Aires (2012): começamos na quinta-feira, dia 17, com um longa-metragem latino-americano formado por quatro histórias, contadas através do olhar dos artistas mais importantes da animação e design da Argentina, onde é mostrada a alma da cidade de Buenos Aires através do humor, da emoção e do tango. O que é animado (o desenho) é também a alma de uma cidade cheia de espelhos, esconderijos e histórias inusitadas que foram bem contadas sob a produção e direção de Caloi e de María Verónica Ramírez. "Xixi de Cachorro", "Claustrópolis", "Bu-Bu" e "Meu Buenos Aires Ferido", são os nomes dos quatro curtas criados por Pablo e Florencia Faivre, Pablo Rodríguez Jáuregui, Carlos Nine e Caloi, respectivamente. A melancolia, a saudade, o tango, a própria arte do desenho e o humor fazem estes quatro curtas prestarem homenagem a uma Buenos Aires que foi, que já não é, e que está sendo esquecida com a morte e com a modernidade.

 

 

O Gato do Rabino (Le chat du rabbin, 2011): Na sexta, dia 18, teremos esta animação dirigida por Antoine Delesvaux e Joann Sfar, uma produção austríaca e francesa que é a adaptação cinematográfica da famosa série de comics de Sfar. O filme nos leva para a Argélia de 1920, onde conhecemos um rabino e sua filha, donos de um gato muito mimado. Certo dia, o lindo gatinho come um papagaio e começa a falar. Nosso novo fenômeno se transformará, como em muitas histórias antigas de todas as partes do mundo, num ser mentiroso, imprudente e irreflexivo que também insistirá em se converter ao judaísmo, com a finalidade de voltar para os braços, ou melhor, para as carícias de sua dona, que está distante do gato por causa de seu pai, um rabino zeloso da conduta moral. Contudo, a inquietude por adotar a religião deverá levar o felino a fazer uma viagem maravilhosa, que faz o filme também ser um colorido road movie, e faz um grande passeio através do pensamento de várias religiões. Portanto, temos os gatos, sempre portadores desta dupla natureza enigmática, mas ao mesmo tempo vis e espertos. Os gatos são anjos e malandros, essa é sua essência dupla, e aqui isto está muito bem retratado. Mas este gato do filme é a fonte do aprendizado constante por trás da busca pela verdade. Um gato que é para ser temido e respeitado (principalmente respeitado), porque é um gato que deixa claro seu direito à liberdade de expressão e de livre pensamento.

 

 

Tatsumi (2011), no sábado, dia 19, veremos a recriação animada da vida de Yoshihiro Tatsumi, o mestre criador do estilo gekiga dentro da vertente do mangá japonês. Em 1957, Tatsumi começou a criar histórias maduras com um estilo de traço menos infantil, que buscavam dar uma nova visão ao mangá que existia até então. O diretor de Singapura, Eric Khoo, nos traz este filme baseado em A Drifting Life, a auto-biografia gráfica de 800 páginas escrita pelo próprio Tatsumi. A história nos leva em especial, ao início de carreira de Tatsumi no mundo do mangá, no Japão pós-guerra. Lá também está a importância da figura de outro mestre, Osamu Tezuka, e as primeiras tentativas do jovem Tatsumi de trabalhar com um estilo diferente, que logo seria conhecido como gekiga, ou comics para adultos, mas sem nenhum conteúdo sexual ou de linguagem imprópria, apenas porque Yoshihiro Tatsumi abordou outros temas, como por exemplo, a situação do Japão após a Segunda Guerra Mundial. Tatsumi foi selecionado ao prêmio Un Certain Regard em 2011.


 

Um Gato em Paris (Une vie de chat, 2012): também no sábado, dia 19, você poderá aproveitar esta maravilhosa história que também nos mostra um gato, desta vez com um simpático amigo, uma habilidoso ladrão que age como um gato. Jean-Loup Felicioli e Alain Gagnol nos apresentam este filme indicado ao César no ano de 2011 e ao Oscar em 2012, dentro da categoria de Melhor Filme de Animação em ambos os casos. Dino, o gato desta história, vive em dois mundos: o noturno, junto ao seu amigo ladrão e o diurno, como um gato doméstico que acompanha sua dona, a pequena Zoe. A garota é muda desde que um criminoso tirou a vida de seu pai, um policial que cumpria seu dever. Todas as manhãs, Dino leva para Zoe uma lagartixa morta, mas um belo dia, ele aparece com um bracelete. Este bracelete é, como o espectador sabe desde o início, um indício da outra vida de Dino. A mãe de Zoe, que é policial, vai atrás da pista deste bracelete junto com seu colega de trabalho. Mas Zoe não ficará de lado e, por conta própria, decide seguir Dino em seus passeios noturnos. Assim, com todos perseguindo o mistério, se encontrarão com uma quadrilha de criminosos muito perigosa que, pelas voltas da vida, também tem a ver com a morte do pai de Zoe. Estilizado, elegante, noturno, comovente, um filme que faz olhar pela janela e agradecer à Lua, que faz com que algumas pessoas criem histórias tão encantadoras.

 

 

Rugas (Arrugas, 2011): Encerramos com luxo no domingo, dia 20, com nossa estrela espanhola dirigida por Ignacio Ferreras, baseada no clássico comic de Paco Roca. O filme nos coloca diante dos nossos olhares e de nossa sensibilidade com Emilio e Miguel, dois idosos que se conhecem em uma casa de repouso. Emilio, durante toda sua vida teve de tudo, mas foi deixado de lado por um filho que não tem tempo para cuidar dele, e acaba de entrar para a casa de repouso em um estado inicial de Alzheimer. Miguel, de origem argentina, faz um plano e o ajudará, com outros amigos, a não terminar no temido andar dos que são considerados sem juízo. Um filme com excelente roteiro, comovente e ao mesmo tempo difícil (mostrar a realidade dos últimos anos de idosos não é nada fácil) que, graças ao seu humor compassivo, alcança alturas humanas sem necessidade de tragédias nem dramas dolorosos. Rugas ganhou o Goya de Melhor Filme de Animação em 2012 e teve uma grande repercussão internacional.

 

De presente, neste domingo, você também poderá aproveitar Steamboy (2005) de Katsuhiro Ôtomo e A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no kamikakushi, 2008), de Hayao Miyazaki, ambos antes da estreia exclusiva de Rugas. Para lhe dar um ótimo sabor visual de filmes de animação.

Não esqueça, de quinta 17 a domingo 20 de outubro, o melhor do cinema animado estará no Max. O que você vê quando vê o Max?

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Diário da França, ou o registro de um registro

por max 14. outubro 2013 14:52

 

 

Todo documentário é um registro e este documentário, Diário da França (Journal de France, 2012), é um registro do trabalho de registros de um homem. O documentário é dirigido pelo jornalista, documentarista e renomado fotógrafo francês Raymond Depardon e por sua sonoplasta e esposa há 25 anos, Claudine Naugaret. Embora, no fundo, e como indica o próprio Depardon, o documentário é realmente de Naugaret, de Naugaret sobre Depardon, que é o foco, o objetivo deste documentário. O que está por trás do trabalho deste homem que tem estado presente em grandes momentos da história da França e do mundo? O que acontece por fora, que não vemos, mas é manifestado em uma foto ou em um documentário? Trata-se de uma homenagem ao artista, mas também para termos o registro de como é esse trabalho de registrar as coisas do mundo, a essência dos seres humanos, sua dor, seu poder, sua alegria, sua miséria. Assim, o espectador tem a sorte de conhecer o arquivo fílmico de Depardon e as ideias que giram em torno dessas imagens que em algum momento fizeram história ou que nunca foram vistas pelo público. Entre Depardon e Naugeret tem este exercício nos bastidores, voyerista e, porque não dizer, narcisista, onde as imagens, o fotógrafo e sua esposa são os protagonistas absolutos de um método. Quer saber como se faz e como nasce a arte? Quando olhamos, tentamos encontrar algum segredo, alguma pista ou simplesmente confirmar que por trás de toda arte solo, existe o mistério e um ser humano cheio de paixão por seu trabalho e pela vida. Um documentário que é um homem e que, ao mesmo tempo, é um país. Um documentário que é metalinguagem do desejo e do amor de viajar registrando o mundo.

Diário da França, terça 15 de outubro, no Max.

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A Guerra Está Declarada, ou quando Romeu e Julieta tiveram um filho

por max 11. outubro 2013 09:44

 

A Guerra Está Declarada (La guerre est déclarée, 2011): Romeu e Julieta nos tempos atuais. Romeu e Julieta, se a morte não tivesse interrompido, se tivessem se casado, tido um filho, se esse filho tivesse uma doença grave. Esta é a história real da atriz e diretora Valérie Donzelli. Ela viveu o que o filme mostra, decidiu lutar, decidiu declarar guerra a tudo que declara guerra contra o amor e a felicidade. Porque a vida declara guerra à felicidade, constantemente.

No filme, o início da Guerra do Iraque também marca o início da guerra que Romeu (Jérémie Elkaïm, que é marido da diretora) e Julieta declararam à doença do filho. Eles lutam para salvá-lo, para erradicar o tumor cerebral. Mas não pense que o filme é um drama sombrio, ou se afunde na pobreza. Ou tenha um leve ânimo da luta (como poderia, se a mesma diretora está contando o que ocorreu?). Há leveza, os atores são leves, jovens, e percebe-se a determinação em seu empenho para superar a enfermidade. Claro, também há dor. O casal sofre e tem conflitos, e aquele empenho contra a enfermidade não é fácil. O tom da música é eletrizante, as atuações, a sinceridade e uma direção limpa e rápida faz deste trabalho uma fantástica mostra de esperança e vida.

A Guerra Está Declarada, domingo, 13 de outubro. O que você vê quando vê o Max?

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7 Dias em Havana, ou 7 visões sobre uma mesma realidade

por max 10. outubro 2013 14:16

 

7 Dias em Havana (7 días en La Habana, 2012) é formado por sete curtas dirigidos por diferentes cineastas. Os diretores por ordem de aparição, que é a ordem dos dias da semana (quer dizer, cada curta é um dia da semana, começa segunda e termina domingo): Benicio Del Toro (com «El Yuma»), Pablo Trapero («Jam Session»), Julio Medem («A Tentação de Cecilia»), Elia Suleiman («Diário de um Principiante»), Gaspar Noé («Ritual»), Juan Carlos Tabío («Doce-amargo») y Laurent Cantet («A Fonte»).

Cada um destes curtas reflete uma visão de Cuba contemporânea. É importante ressaltar que, entre os diretores, apenas um é cubano (Juan Carlos Tabió, o autor de Morango e Chocolate) e três são latino-americanos (Tabío, é claro, e os argentinos Pablo Trapero, diretor de Carancho, e Gaspar Noé, diretor de Irreversível). Em relação a Del Toro, confesso que não sei onde colocá-lo, mas me inclino a classificá-lo como uma figura que tem sua vida em torno de Hollywood, nos Estados Unidos. De fato, Del Toro fala muito mal o espanhol.

O assunto é que o <<El Yuma>> traz, precisamente, uma visão externa de Cuba. É sobre um ator estrangeiro (Josh Hutcherson) que é convidado ao festival de cinema e termina dentro de um táxi dando uma volta pelos meandros da cidade. <<Jam Session>>, do argentino Trapero, não está muito longe dessa visão externa. Desta vez, seu personagem interpreta o eternamente admirado nos festivais, Emir Kusturica, que interpreta a si mesmo em uma crise pessoal que se canalizará através de um motorista, e que também é um excelente trompetista. Esses olhares não pretendem ser superficiais ou instaurar um lugar comum, mas na verdade, ser mais agudas a partir da visão periférica ao redor do enorme lugar comum que é a Cuba. Já sabemos que, muitas vezes, estar muito marcado sobre si mesmo não deixa ver bem, produz cegueira.

Julio Medem (Julia e o Sexo) também filma uma história vista por um empresário que veio de fora, neste caso, da Espanha. O empresário conhece uma maravilhosa cantora cubana e lhe oferece uma carreira do outro lado do Atlântico. A garota terá que decidir entre a carreira e o amor que tem em Cuba. Como se vê, a música prevalece no feitiço daqueles que observam Cuba de fora. A música e Cuba. Por mais que se tente uma visão profunda com respeito a Cuba, a música sempre virá à tona.

Elia Suleiman também mostra um passeio. O diretor palestino espera por uma entrevista com Fidel Castro para falar sobre Cuba. Enquanto aguarda, ele caminha pelas ruas. No final, o estrangeiro percebe que a realidade não é um discurso (esse discurso que tanto facina os intelectuais de esquerda que não vivem em Cuba), mas sim algo tangível, algo que se comprova com todos os sentidos.

Em <<Ritual>>, Gaspar Noé, fora dos discursos, mergulha em uma história íntima de nativos e de caráter popular: mostra o amor entre duas garotas, e uma família preocupada e disposta a fazer o que for para corrigir o suposto erro que vem de uma obscura maldição. Sem mais, uma das garotas passara por um ritual de bruxaria para livrar-se de suas maldições: suas preferências sexuais e o amor às mulheres.

<<Doce-amargo>>, do diretor cubano Tabío, se aventura por uma realidade que pretende retratar Havana e Cuba em geral. Aqui não há estrangeiros ou discursos, e sim a vida de um corajoso nativo da ilha. Vemos Mirta, que para sobreviver e manter sua família tem dois empregos. O matriarcado, a dura realidade da pobreza e o doce sabor do olhar comovente sobre os personagens estão muito presentes aqui.

É do diretor francês Laurent Cantet o último curta do filme. É sobre Martha, uma mulher que sonha que a Virgem da Caridade de Cobre, padroeira de Cuba e também conhecida como Oshum, a ordena a fazer uma festa em sua homenagem... naquele dia.

O filme se propõe retratar os olhares externos e internos, a música, o discurso ideológico contrastado como o de fora e o sentimento religioso em seus aspectos mais belos e também em seus aspectos mais absurdos. Busca retratar também o verdadeiro aspecto do lugar comum, o que de verdade está por trás da música, do religioso, da ideologia, das ruas tantas vezes vistas, promovidas ou denegridas. Digamos que 7 Dias em Havana leva uma semana para desconstruir e mostrar, não sei se a realidade, mas pelo menos outros pontos de vista fora dos oficiais, dos turísticas ou das oposições.

7 Dias em Havana, sexta 11 de outubro. O que você vê quando vê o Max?

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Beleza Sul-africana, ou a beleza e a verdade

por max 10. outubro 2013 14:02

 

Francois van Heerden leva uma vida digna, uma vida dentro do padrão. É um Bôer de Bloemfontein como qualquer outro: másculo, racista, rude. Digamos que, dentro desta vida mediana que leva, tem um nível médio de beleza, entendendo a beleza neste caso como toda aquela estética que o ser humano obtém por parte dos meios de produção, que por sua vez, estão intimamente ligados com o controle dos desejos. Isto é o que é dado a desfrutar, isto é o que pode desfrutar, isto é, também, o que deseja desfrutar e isto é o que moralmente é belo. Porque é assim, a beleza tem uma moral, uma tradição e dentro dela devemos nos mover. Quem faz uso da beleza deve se sentir cômodo dentro deste prazer: não deve ter medo de aproveitar, porque essa beleza que é dada, é moralmente correta; o resto é segredo ou miséria da vida privada, e deve ser ocultado, escondido, calado, ou negado com raiva. Se tem uma beleza padronizada, que a sociedade oferece para o consumo geral, uma beleza que também é superficial, porque vive para o suposto bem geral. Trata-se de um prazer masculino, ocidental, tradicional, estreito.

Van Heerden, produto do apartheid tem seus parâmentros de estética e moral; obedece a uma tradição que foi cultura dominante durante muito tempo. Mas agora tudo é diferente. O Bôer não detém controle absoluto da sociedade, tudo se desfaz ao redor dele, porque tudo ao redor aponta para novos parâmentros de vida. Há discordância em Francois van Heerden. Sua alma tem uma fenda, e por essa fenda começa escapar o ar de conflito. Mas também esta mesma fenda é uma janela por onde podemos entrar e descobrir os segredos profundos que darão corpo à história de Beleza Sul-africana (Skoonheid, 2011), do diretor Oliver Hermanus.

Francois Van Heerden, interpretado por Deon Lotz, começa a desmoronar. Tudo aquilo que foi, toda aquela beleza e moral interior que se moveu está desmoronando. Chega o momento em que Francois já não se limita, em que Francois já não é o Bôer que precisa ser. Chega o momento em que, o personagem decide buscar a beleza que ele anseia profundamente: Francois tem encontros sexuais orgiásticos com outros homens brancos, casados e machos, mas também começa a se tornar obcecado por seu sobrinho, Christian (Charlie Keegan), um garoto, claro, muito mais jovem que ele. No entanto, não estamos diante da morte veneziana de Luchino Visconti. Aqui esta beleza não é um ideal, não é uma figura sombria e angelical, aqui essa beleza é objeto de um desejo destrutivo que termina gerando violência. Assim, Hermanus nos mostra como todo ódio violento não é somente ignorância, mas também ódio mesmo, um ódio que é um olho espião e acusador. A tradição e a hipocrisia podem mais que a essência humana, que a honestidade; ambas fundam o ódio como uma maneira de distrair a atenção sobre quem, no fundo, são os verdadeiros causadores de todos os males.

Beleza Sul-africana, sábado 12 de outubro. Beleza, feiúra, hipocrisia, verdade, cinema do melhor. O que você vê quando vê o Max?

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