Call girl, ou as alturas abissais do poder

por max 31. agosto 2013 03:06

 

O sueco Stieg Larsson virou moda. Sua personagem Lisbeth Salander encantou a todos. Larsson mostrou a cara podre da alta sociedade sueca dos tempos atuais. Nazismo, perversidade sexual, corrupção do alto escalão. Larsson é, sem dúvida, herdeiro de uma literatura que mistura ficção com denúncia social. Henning Mankell, através de seu personagem Kurt Wallander, expressou suas preocupações sobre a sociedade dos anos noventa. Há também, em variadas ocasiões, os crimes mais hediondos intercalados com o abuso do poder. Ou o abuso da liberdade, ou a distorção da liberdade. Porque no final o mal começa na liberdade, no uso feito da liberdade. O poder, que tem um vasto campo para se mover, geralmente é uma fonte segura para o surgimento do mal. É onde a arte ataca e é onde estes escritores suecos se estabeleceram com os romances policiais. Ou seja, não são somente produtos de entretenimento dentro do gênero policial; atrás de suas histórias também tem o reflexo de uma sociedade, os males, a corrupção e é o que une estes autores europeus com autores americanos como Dashiell Hamett e Raymond Chandler, que foram os precursores em mostrar dentro do policial a podridão social de sua época.

O filme Call Girl (2012), do sueco Mikael Marcimais, se mete nessas entranhas retorcidas do poder do alto escalão. Neste caso, está no negócio da prostituição e isso em plenos anos setenta. O tempo em que ocorrem esses eventos não é casual. Por quê? Porque nos colocamos precisamente em uma época de liberdades, de luta pela liberdade da mulher, dos direitos civis, mas também em uma época importante da Guerra Fria, onde os poderes, cada um no seu âmbito ideológico, lutavam pelo que acreditavam ser a verdadeira liberdade. Assim, entre estas duas águas turbulentas e inspirado em histórias reais (o famoso caso de moral política Bordellhärvan, do ano de 1977), Marcimais nos conduz ao longo de uma história que começa nos porões, na pobreza de duas meninas que logo são "resgatadas" do buraco, e que depois chegam às alturas do poder. Esta ascensão, podemos dizer, é paradoxal, pois sem dúvida me parece mais um descenso, uma descida às profundezas do inferno, onde as máscaras estão tomando cada vez mais a consistência de aço e onde nada pode ser revelado, porque se for, a consequência poderia ser a morte do mais fraco envolvido.

Embora começamos falando de autores de romance policial, não cabe aqui esperar um filme neste estilo. Call Girl é mais parecido com os filmes de suspense político de Sydney Lumet, ou com Sobre o Domínio do Mal (The Manchurian Candidate), de John Frankenheimer, ou mais recentemente O Espião Que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy, 2011), de Tomas Alfredson. Trata-se de um thriller político, mas com um tom mais obscuro, que nos remete também a filmes como Réquiem Para Um Sonho (Requiem For a Dream, 2000), de Darren Aronofsky. No centro disso tudo há a figura da mulher, a mulher e sua liberdade, e como essa mesma ideia de liberdade é usada em muitos casos para distorcer as almas, para perverter, para sujar, para humilhar, para satisfazer egoísmos, interesses próprios.

Call Girl, domingo, dia 1º, começando o mês de setembro. Poder, liberdade, sexo, corrupção. O que você vê quando vê o Max?

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Chup Chup Ke – Silenciosamente, encerrando o ciclo Benvindos a Bollywood

por max 28. agosto 2013 11:08

 

Digamos que estamos diante de uma comédia de Bollywood e que isso tem o seu risco. Porque tem base no silêncio, ou em dois personagens mudos, um deles, realmente mudo (na ficção, claro). Mas vamos começar pelo início. O filme se chama Chup Chup Ke – Silenciosamente (Chup Chup Ke, 2006) e foi dirigido pelo mestre Priyadarshan, que dessa vez propõe uma comédia que começa com o desespero por causa de dívidas. Jeetu (Shahid Kapoor) é um especialista que assume muitas dívidas, envolvendo toda sua família em problemas, principalmente a seu pai, sobre quem recai todo o peso dos credores, com constantes ameaças de agressão. Arrasado pela culpa e preocupação, Jeetu decide se matar. Com sua morte, um seguro de vida pagará todas as dívidas de seu pai. Mas Jeetu não é bom em nada e não terá nem a sorte de morrer. Se joga de uma ponte, mas logo acorda entre as redes de um casal de pescadores, Gundya (Paresh Rawal) e Bandya (Rajpal Yadav), que, acreditando que ele é milionário, o entrega a um comerciante chamado Prabhat Singh Chauhan (Om Puri), com a finalidade de quitar as dívidas que eles também têm. É aí que Jeetu decide se fingir de mudo. Mudo, atenção! Em um filme de Bollywood, onde as pessoas dançam e... cantam sem parar. Longe de sua família, convenientemente desaparecido, Jeetu conhece a sobrinha de Prabhat, uma bela garota chamada Shruti (Kareena Kapoor). Shruti, no filme, é realmente muda. Depois de várias confusões, Jeetu se passa pelo noivo de Shruti, para evitar um casamento arranjado. E assim as coisas vão entre canto e comédia neste filme que une pela terceira vez o casal de sobrenome Kapoor.

Chup Chup Ke – Silenciosamente, quinta 29 de agosto, encerrando o ciclo Benvindos a Bollywood, no Max.

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Espaços Inacabados: A História da Escola de Artes de Cuba, ou a arte e a política entre espaços inacabados

por max 27. agosto 2013 04:17

 

A Revolução cubana apenas começava. Fidel e Che eram a glória e percorriam o país sobre carruagens de triunfo. Um dia, em Havana, visitaram um campo de golfe, desses que pertenciam à burguesia, ao capitalismo, aos Yankees. Fidel ficou impressionado com a beleza do lugar, poucas horas depois faria declarações. Naquele terreno, como em poucas vezes antes, seria construído um lugar para a arte e para o povo, uma grande escola de arte que envolveria a dança, o ballet, o teatro, a escultura, a pintura. Três jovens e inovadores arquitetos, Vittorio Garatti, Ricardo Porro e Roberto Gottardi, receberam a missão de transformar o sonho em realidade. Seu design, muito moderno, muito atual, estava cheio de espaços abertos, curvas, cúpulas, fantasia. Sem dúvida, o edifício era para ser uma verdadeira obra de arte para o novo homem, o homem surgido a partir da única e verdadeira ideologia que levaria a humanidade a um amanhã melhor, a utopia perfeita e realizada. Trabalharam rápido, titanicamente, trabalharam na velocidade da modernidade e de todas as revoluções que pretendiam mudar o mundo. Mas toda aquela beleza, toda aquela alegria dos primeiros dias da Revolução, tudo aquilo passou para outro plano. A política sempre pode mais, a política sempre é mais imediata e urgente. A arte fica para trás, em segundo plano, do mesmo jeito como ficou o sonho da academia de artes que Fidel anunciou. Logo os interesses mudaram, de repente a sóbria ou sombria arquitetura soviética prevaleceu, logo a diferença era pecado – na revolução tudo é uniforme, e até mesmo Che Guevara escreveu um artigo condenando o projeto arquitetônico da escola de arte. Depois, os arquitetos foram acusados de algo, julgados e condenados por algo. Mas nunca foi dito e tudo está estático, pela metade.

É essa Cuba que o documentário Espaços Inacabados: A História da Escola de Artes de Cuba (Unifished Spaces, 2011), de Benjamin Murray e Alysa Nahmias, aborda. Sobre essa revolução, sobre essa força de arte e sobre a Cuba sonhada que nunca deixou de ser e que hoje vive no simulacro de suas ideias. Com o retorno dos arquitetos para terminar o projeto várias décadas depois, os cineastas fazem o mapeamento dos primeiros anos da revolução, como se passa da alegria para as suspeitas sombrias, de como a Guerra Fria se instalou, assim como esse lento congelamento no tempo que dura até hoje. Um edifício, uma metáfora de um país, o poder da arte.

Espaços Inacabados: A História da Escola de Artes de Cuba, terça, 27 de agosto. Documentários de primeira, história, alma humana. O que você vê quando vê o Max?

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Homens Livres, ou o mapa para nos entendermos

por max 23. agosto 2013 05:03

 

O espírito humano parece precisar de um mapa das fatalidades, dos momentos históricos cheios de dor, pena e vergonha, desses períodos de caos que ficam fragmentados na memória, imprecisos, obscuros.

Uma nova peça para este mapa é Homens Livres (Les Hommes Libres, 2011) do marroquino Ismaël Ferroukhi, um filme inspirado em fatos da vida real que explora a participação dos imigrantes islâmicos na resistência francesa durante a ocupação nazista, um aspecto desta grande história dividida e distorcida que até agora não havia sido contada.

Ferroukhi se vale de Tahar Rahim, um ator que deixou uma ótima impressão entre o público e a crítica com O Profeta (Un Prophète, 2009), e o transforma em Younes, um imigrante argelino que transita entre as aberturas do mercado negro de Paris e quem, como muitos argelinos, não tem o mínimo interesse pela situação da França durante o conflito; só quer saber de ganhar um bom dinheiro em Paris para retornar à sua terra assim que possível. Mas Younes é preso pelos nazistas e obrigado a trabalhar para eles como espião. Ele vai para a mesquita vigiar o diretor, Si Kaddour Ben Ghabrit, interpretado por Michael Lonsdale, que também atuou em Homens e Deuses (Des hommes et des dieux, 2010). Si Kaddour Ben Ghabrit é suspeito de fornecer documentos falsos aos judeus norte-africanos para se converterem a religião islâmica; assim Younes deve estar ali, abrir bem os olhos e pegar o diretor com a mão na massa. Ao mesmo tempo, ele conhece e faz amizade com Salim Halali (Mahmoud Shalaby), um cantor que aprecia bons momentos na cidade graças a sua arte. Porém, Salim guarda um duplo segredo: sua verdadeira religião e sua identidade sexual.

Os personagens inspirados na vida real são Si Kaddour e Salim. Younes, produto da ficção, é o pouquinho de transformação necessária. Na chave do suspense, Ferroukhi nos mostra a mudança que Younes experimenta, o passo de sua visão pragmática e sem maiores preocupações humanitárias, a ação cautelosa, mas não isenta de perigo, que espera depois do universo da resistência.

Portanto, este é o mapa de Ismaël Ferroukhi, um mapa histórico, mas que também é contemporâneo, que delimita as diferenças religiosas e políticas do Oriente Médio, os massacres, as guerras dos tempos atuais. Islâmicos e judeus estiveram, nesta pequena história, alguma vez unidos por uma causa maior, unidos sob o jugo de um inimigo superior. E isso, sem dúvida, desperta o interesse de Ferroukhi e nos mostra através de Younes, um homem do Islã que, liderado por sua condição humana universal, acaba se unindo aos filhos da religião hebraica, com a finalidade de salvar almas, almas também hebraicas.

Homens Livres, domingo, 25 de agosto. História, compaixão, irmandade universal, cinema de primeira. O que você vê quando vê o Max?

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O Detetive Bengali, ou seguindo as pistas da realidade

por max 21. agosto 2013 13:58

 

Pista número um: Não estamos falando exatamente de um filme de Bollywood. O Detetive Bengali (The Bengali Detective, 2011) é um filme dirigido pelo britânico Philip Cox. Embora alguns atores – se é que podemos chama-los de atores – são indianos. Não pense que verá os famosos galãs ou as incríveis belezas que Bollywood nos acostumou a ver. Em O Detetive Bengali tem pessoas reais, da vida real.

 

Pista número dois: Apesar do filme contar com um detetive particular que gosta de dançar – e que dança durante todo o filme – enquanto investiga casos em Calcutá, alguns complexos, como um triplo assassinato, outros simples, como o roubo de um xampu, não é uma dessas superproduções dos estúdios indianos, e sim um documentário. O mesmo Cox contou que o truque para filmar um documentário tão excepcional estava na escolha do elenco. Cox passou alguns anos buscando um personagem que seria o típico galã dos filmes indianos, alguém real, alguém de carne e osso e realmente interessante. E finalmente, um dia, encontrou Rajesh Ji.

 

Pista número três: Rajesh Ji é esse detetive particular que falamos. Segue sua carreira e sua vida em Calcutá, uma cidade com 15 milhões de habitantes, onde uma alta porcentagem de casos criminais não são resolvidos pela lei, o que deixa tudo nas mãos da população... e dos detetives particulares contratados pela população. Rajesh é movido entre duas águas: a legalidade e o crime, neste documentário que mistura comédia, suspense e comentário social. Ficção, realidade? Aqui se confundem, formam uma parte de uma estrutura complexa que Cox soube capturar com genialidade e que ganhou admiração do público e da crítica.

 

Pista número quatro: É comédia? É algo para rir? Talvez, quem sabe, a ternura e a compaixão estão ali presente. Mas o certo é que O Detetive Bengali é um assunto sério, cheio de drama, de miséria, de tristeza, de obscuridade da alma. O crime sempre é algo sério.

 

Pista número cinco: A realidade é complexa, a ficção também. Os personagens que estão na glória literária têm suas contradições. Holmes era viciado em drogas e louco, Senhorita Marple fofoqueira, se não me engano, Kurt Wallander, em Os Cães de Riga, sente vontade de usar o banheiro no meio de uma missão, ele entra em um arquivo criminal do governo estrangeiro, faz em uma lata de lixo e se satisfaz. Estes, naturalmente, são personagens já citados da ficção, complexos em seu modo de atuar. Rajesh, que é real, também é complexo e contrapõe o peso da realidade, da sua dura realidade, a sua intimidade familiar (sua esposa, seu filho pequeno) e também, a sua paixão pela dança. Por essas danças que vemos no filme. Bollywood não poderia fazer melhor, não é mesmo?

 

Pista número seis: Dentro do ciclo Benvindos a Bollywood, não perca este filme único e original, O Detetive Bengali, quinta 22 de agosto. Ficção, realidade, sociedade, crime, desespero, comédia, dança. O que você vê quando vê o Max?

 

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O mundo de Roger Corman, ou essa fibra profunda de nossa alma

por max 19. agosto 2013 12:24

 

Quando você se senta para lembrar de um filme antigo, aquele que te impressionou pelo terror, apesar de você se lembrar de efeitos especiais ruins, então você está lembrando de Roger Corman. Isso, essa clara situação na memória de uma história de Edgar Allan Poe, estrelada por um homem jovem que logo é reconhecido como Jack Nicholson, esse posicionamento nítido (diria um expert em marketing) é o império de Roger Corman sobre todos nós. Os filmes de Roger Corman foram produzidos há muito tempo (embora ainda ele esteja produzindo), ocorreram em uma época em que você não se interessava em saber o custo e quantos efeitos computadorizados foram inseridos em apenas poucos segundos, uma época em que você se assustava de verdade, mas ao mesmo tempo se sentia protegido na tranquilidade do seu lar, no sofá, ou debaixo do cobertor em sua cama. Roger Corman pertence a um tempo sagrado em que fomos mais felizes, em que ainda éramos capazes de nos assustar. Esse é seu verdadeiro alcance. Quando levamos o pensamento até Corman, também vamos a uma área de nossa alma que está intacta.

Existem outras explicações, é claro, que têm a ver com a história, com a rebeldia, com o cinema independente. Corman queria fazer filmes que ele gostasse para pessoas que queriam ter um bom momento. Isso também é o que Hollywood quer. A diferença é que Corman não se deixava levar pelos grandes executivos. Nosso homem lenda fazia as coisas distantes deles. Fazia seus roteiros, conseguia cenários (geralmente a partir de outros filmes e que ele usava sem problemas), gravava em tempo recorde e era um excelente caçador de jovens talentos, entre eles, Jack Nicholson e Martin Scorsese.

O documentário O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood (Corman's World: Exploits of a Hollywood Rebel, 2011), de Alex Stapleton, fala deste cineasta lendário que em sua época chegou a dizer que havia produzido mais de cem filmes sem gastar um centavo. Na realidade, agora são mais de quatrocentos... Sem gastar um centavo. E lá estão para fazer homenagem, aqueles que devem a ele e que deveriam a ele a paixão e a praticidade da arte (Tarantino, Scorsese e Nicholson, entre outros).

Não há dúvidas, é difícil encontrar um homem prático hoje em dia. Um homem que é como é, não tem nenhum protocolo, nem esnobismo, nem ostentação. Roger Corman é este tipo de homem, esse que quis fazer filmes e ganhar dinheiro com isso, sem se enganar com intelectualismo, sem alegar que estava fazendo a sétima arte. Como diria Foucault, eu acho, Corman se preocupava mais em cuidar de si mesmo do que conhecer a si mesmo. Ele já se conhecia, ele queria se cuidar, ser prático, se ocupar estando bem e fazendo o que gosta: criar filmes engraçados, que chegam às profundidades de nosso espírito imortal. A essência do que os outros pretendiam com temas mais inteligentes e falharam. O bom cinema é para poucos.

O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood, terça, 20 de agosto. Cinema B, biografia, arte, rebeldia, entretenimento. O que você vê quando vê o Max?

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O que eu mais desejo, ou o mundo recém-fundado

por max 16. agosto 2013 12:15

 

O início desta história é bem ao estilo de Hirokazu Koreeda: um casal se separa e também separa seus filhos. Ou seja, um filho fica com o pai e o outro com a mãe. O maior, Koichi (Koki Maeda) vive com sua mãe em uma cidade da Ilha de Kyushu. Lá tem um vulcão e as pessoas falam constantemente de uma possível erupção. Koichi deseja que isso aconteça. Se esse vulcão entrar em erupção, haveria a possibilidade de ele voltar a se encontrar com seu irmão Ryunosuke (Oshiro Maeda, irmão de Koki na vida real), que vive com seu pai aspirante a roqueiro, perto de uma linha ferroviária distante. Os irmãos sempre conversam por telefone e um dia Koichi conta a Ryunosuke algo especial: diz ter encontrado uma maneira de fazer seus pais viverem juntos novamente. Um amigo de classe lhe disse que quando dois trens-bala se cruzam, forma um campo magnético entre eles que é capaz de realizar o desejo de uma pessoa que está fazendo o pedido naquele exato momento. Então, os irmãos e um grupo de amigos decidem fugir e procurar um ponto onde os trens-bala se cruzarão. Mas esse é apenas um momento de O Que Eu Mais Desejo (Kiseki, 2011), um momento importante, mas sim, o filme tem um enredo maior. Porque Koreeda nos dá muito mais. Ele nos dá um mundo infantil, um mundo visto pelas crianças, onde as pequenas coisas cotidianas tornam-se novas, enormes e se misturam com seus próprios sonhos de criança. E é isso que interessa ao cineasta japonês, entrar nesse mundo tão fechado e distante do adulto. Com ternura, graça, elegância e, claro, naturalidade, Koreeda consegue oferecer com esse filme essa sensação de mundo recém-fundado, recém-inventado, recém-descoberto.

O Que Eu Mais Desejo, domingo 18 de agosto, no Max. Arte, ternura, beleza, magia. O que você vê quando vê o Max?

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Amor Antes e Depois, ou sem dor não existe amor feliz

por max 14. agosto 2013 12:22

 

Somos pessoas estranhas. Quando podemos ter o amor, nós inventamos desculpas para não amar, ou para sermos infelizes no amor. No passado, lembrando a tradição, as famílias faziam acordos (ou ainda hoje, em algumas sociedades, fazem acordos) de matrimônios. Os que se apaixonavam por fora dos acordos familiares eram infelizes. Embora os que se casavam sob o acordo também eram infelizes. Eram duas pessoas obrigadas a se unir, duas pessoas que não se conheciam antes, que não se gostavam, que não saíram, não foram ao cinema, que não jantaram, não se beijaram porque estavam encantados um pelo outro. Esses tempos, para a maioria, acabaram. Tem sido assim, como em Amor Antes e Depois (Love Aaj Kal, 2009) de Imtiaz Ali, o terceiro filme que o Max traz este mês no ciclo Benvindos a Bollywood. E, de fato, o filme apresenta este contraste ao mostrar uma história de amor moderna entre Jai e Meera, interpretados por Saif Ali Khan e Deepika Padukone respectivamente, e uma história de amor de outros tempos, marcada pelo compromisso matrimonial entre famílias. Nesta história de outra época, Veer Singh (Rishi Kapoor) está perdidamente apaixonado por Harleen (Giselli Monteiro), tanto que viajou centenas e centenas de quilômetros para apenas ver seu rosto. Mas, neste drama do passado, Harleen será negociada para outro homem e isto trará grande sofrimento aos apaixonados. Na história do presente, na história moderna, entre Jai e Meera não existem impedimentos e o casal poderia ser feliz. Mas não é. Não é porque eles são modernos, ou pretendem ser modernos (no início vivem em Londres, isso é importante, pois sua educação é ocidental). O amor é uma coisa fora de moda. O amor é algo brega que não vai de encontro com as modernidades contemporâneas. Então Jai e Meera decidem se separar, porque são modernos, porque não querem compromissos, porque cada um quer "crescer". Resultado: Começam a caminhar pela vida, caem nos braços de outros, sofrem porque não estão juntos. E veja como a frase está escrita "sofrem porque não estão juntos", eu não disse "porque não podem estar juntos", que é bem diferente. Isso acontece porque o amor nesses dias traz o mesmo sofrimento, mas por razões diferentes. Mas é que o amor sem dor não parece ser amor. E quando não é a tradição e as obtusas tradições, é o próprio homem que inventa os dramas para ser imensamente infeliz no amor. Bom, paradoxalmente, somente assim iria parecer que o amor vale a pena.

Amor Antes e Depois, quinta 15 de agosto, no ciclo Benvindos a Bollywood, no Max.

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Eames: o arquiteto e a pintora, ou o casamento criativo

por max 13. agosto 2013 05:58

 

Charles e Ray Eames, dois grandes criativos da modernidade. O endereço de seu estúdio "Washington Boulevard, 901" em Venice Beach, área industrial de Los Angeles, era o centro do jogo, uma meca para os designers e arquitetos, o centro da criatividade. E quando dizemos criatividade, estamos falando daquilo que é inusitado, novo sim, mas também útil. Cito aqui um trecho de José Antonio Marina e Eva Marina, em El aprendizaje de la creatividad: "'Criar' é produzir intencionalmente inovações valiosas. Não basta ser original, deve-se ter alguma qualidade apreciável: a eficácia, a beleza, a graça, a utilidade." (Marina, 2013. p.12), e o casamento dos Eames foi criativo. Ela era pintora e fotógrafa, ele, cineasta e arquiteto sem licença. Mas também, juntos, foram dois profissionais das soluções. IBM, Westinghouse, Polaroid e muitas outras grandes empresas colocaram seus problemas estruturais nas mãos dos Eames e eles solucionaram. Mas há muito mais deste casamento que deveríamos saber e o documentário Eames: O Arquiteto e A Pintora (Eames: The Architect and the Painter, 2011), dirigido por Jason Cohn e produzido por Bill Jersey, nos conta.

Narrado por James Franco, o filme percorre a vida do casal e seu trabalho para contar o ponto de partida e toda a gama de expressões que os Eames utilizaram ao longo de suas vidas: arquitetura, fotografia, cinema, design e também a publicidade. Vale lembrar o curta-metragem Powers of Ten (1968 e 1977), realizado pelos Eames como uma forma de humanizar ou deixar a IBM mais próxima do público jovem. Cabe destacar que este curta-metragem (que pode ser visto aqui) foi selecionado para ser preservado pelo Registro de Cinema da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos devido a seu "significado histórico, cultural e estético".

Isso é tudo que existe, entre fotografias, filmes e entrevistas. Então, prepare-se e sente em uma cadeira, uma das várias cadeiras Eames que marcaram a história, e aproveite o documentário Eames: O Arquiteto e a Pintora, terça 13 de agosto, no Max. Não esqueça, a partir deste mês, o Max traz um documentário toda terça-feira.

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A separação, ou entre a vida e a Lei

por max 11. agosto 2013 06:21

 

O drama geralmente acontece por conflitos internos, por esgotamentos pessoais, pelas crises individuais, ou melhor, pelas situações limite. Em A Separação (A Separation, 2011) de Asghar Farhadi, a trama da história não é dada somente por esses conflitos entre os personagens, mas também por uma forte marca da cultura e do Estado. Estamos no Irã, diante de uma poderosa consciência do pecado e da Lei religiosa que é a Lei de Direito do Estado. Entre estes dois pilares que marcam o comportamento das almas, movem-se as ações de dois casais. Um, da pequena burguesia, o outro, da classe baixa. O primeiro casal entra em conflito. Ela, Simin (Leila Hatami), não quer continuar vivendo em seu país, deseja para sua filha um mundo melhor, menos fechado, mais moderno. Ele, Nader (Peyman Moadi), também quer a mesma coisa, mas pensa em seu pai, que é muito idoso e está com Alzheimer. O casal recorre à Lei para superar o conflito. A Lei diz que não há razões suficientes para ir embora, que devem ficar. Simin é contra a opinião e abandona o marido e a filha. Assim começa a separação. Uma separação que não será somente do casal, que não acontecerá somente na instituição matrimonial – que é sagrada e, portanto, fundamental para o Estado teocrático, mas que também dará lugar a uma separação do que é a vida real com respeito à vida conjugal, recomendada, ordenada, dirigida pela Lei. Trata-se de uma separação das esferas religiosas e mundanas, uma separação do pecado e do profano, uma separação do antigo e do moderno. Quando Simin vai embora, Nader, um homem moderno e ocupado com seus trabalhos no escritório, tenta conseguir uma enfermeira para seu pai. Então aparece Razieh (Saré Bayat), uma mulher muito religiosa de classe baixa. Razieh está grávida e é casada com um homem muito violento, brutalizado por certos fundamentalismos, e que fica com raiva quando descobre que ela está trabalhando. Ali estão outros conflitos, outros processos de separação do código ou da Lei. Razieh trabalha sem o consentimento de seu marido e sofre um aborto. Aborto acidental, mas é um aborto. Depois também começa um processo legal que tem a ver com a culpa do aborto. Quem o provocou? Seria Nader em sua fúria ao demiti-la (pois encontrou seu pai amarrado à cama no horário que Razieh deveria cuidar dele) ou o marido violento? Assim, ao longo do filme, temos essa dialética: a do mundo real e a desse mundo que deveria ser dominado pelos céus. Entre as duas águas, o drama do filme se move com excelentes atuações e com muita confiança, graças a uma direção que não se apressa e que não busca sensacionalismo ou sentimentalismos baratos.

A Separação, ganhador de três Ursos de Ouro em Berlim em 2011, sete prêmios César na França, além do Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2012.

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