Ciclo Bem-vindos a Bollywood

por max 31. julho 2013 15:08

 

Durante o mês de agosto, no Max, daremos as boas-vindas a Bollywood, a indústria que produz cerca de 1000 filmes por ano e que fascina com suas histórias românticas, dramáticas, aventureiras, de ação, mas que nunca, nunca se atreve a se exceder com beijos, muito menos com sexo. Você acreditou que Hollywwod era a Meca do cinema? Você se enganou! A Meca do cinema comercial está em Bollywood. Só no ano passado, Bollywood vendeu, no mundo inteiro, milhões de ingressos a mais que Hollywood. É uma produção cinematográfica comercial de alta qualidade, repleta de fórmulas, piscadelas, maneiras e costumes da Índia. Se quiser saber mais detalhes que envolvem o cinema de Bollywood, recomendo acessar o site bollywhat.com (http://www.bollywhat.com/), uma excelente página em inglês que traz tudo sobre esta enorme indústria do cinema.

Mas vamos ao objetivo: este mês, toda quinta-feira, o Max traz um filme de Bollywood... e também um outro nem tão Bollywood, mas parecido. O calendário é:

 

Quinta 1º de agosto: Delhi-6 (2009), com Abhishek Bachchan e Sonam Kapoor, dirigido pelo célebre Rakeysh Omprakash Mehra.

 

Quinta 8 de agosto: Sr. E Sra Khanna (2009), com o famoso Salman Khan e com Kareena Kapoor, dirigido por Prem Soni.

 

Quinta 15 de agosto: Amor Antes e Depois (Love Aaj Kal, 2009), protagonizado por Saif Ali Khan e Deepika Padukone, e com direção de Imtiaz Ali.

 

Na quinta 22 de agosto: O Detetive Bengali (Bengali Detective, 2011), um documentário que às vezes não é um documentário, dirigido pelo britânico Philip Cox, e que tem muito de Bollywood, que é idêntico a Bollywood, ou algo assim...

 

E quinta 29 de agosto: Chup Chup Ke – Silenciosamente (Chup Chup Ke, 2006), com Shahid Kapoor e Kareena Kapoor nos papéis principais, com direção do lendário diretor de mais de 80 filmes, Priyadarshan.

 

 

Mas para começar, vamos conversar sobre Delhi-6 (2009). É um drama com toques de comédia – ou vice-versa, com direção de Rakeysh Omprakash Mehra, considerando um dos diretores dos novos tempos do cinema da Índia. Delhi-6 foi um sucesso de público e também de crítica, inclusive foi para o Festival de Veneza. O filme conta a história de um jovem chamado Roshan (Abhishek Bachchan), que passou toda sua vida nos Estados Unidos e que agora retorna ao seu país natal para ficar com sua avó que está morrendo. Ao chegar a Delhi, Roshan se depara com uma nova realidade, com a forte marca das diferenças das castas, com os costumes, a moral, com outra maneira de entender o mundo, bem diferente de como ele aprendeu na América, e tudo isto o leva a experimentar uma mudança interior muito profunda no meio deste antigo mundo que tem o código postal 10006, que é resumido como Delhi-6.

Lembre-se, nesta quinta, 1º de agosto, começa o ciclo Bem-vindos a Bollywood... E começa com Delhii-6. Mais cinema, mais Bollywood. O que você vê quando vê o Max?

Algumas obras de Ai Weiwei

por max 26. julho 2013 14:10

 

“Grapes,” 40 Stools from the Quing Dynasty

 

 

 

“Snake Ceiling,” installation of children’s backpacks

 

 

¨Cube Light"

 

 

"Ai-Weiwei-Dropping-a-Han-Dynasty-Urn-and-Colored-Vases"


 

"Forever Bicycles"


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Ai Weiwei: Never Sorry, ou o retrato de um artista dissidente

por max 26. julho 2013 13:13

 

Na último domingo do mês, como de costume no Max, teremos um documentário de primeira categoria: Ai Weiwei: Never Sorry (2012) de Alison Klayman.

Para realizar esse magnífico trabalho, Klayman acompanhou Ai Weiwei por três anos, o artista plástico chinês que ao mesmo tempo é um forte ativista político que denunciou a violação contínua dos direitos humanos por parte do governo chinês.

Com forte atividade no Twitter, em seu blog e na internet em geral, Ai Weiwei é um dos poucos artistas de seu país que levanta a voz para o mundo, nestes tempos em que o partido chinês tenta ganhar a opinião pública internacional à força de gratificações capitalistas. Um dos protestos mais conhecidos de Ai Weiwei teve a ver com as Olimpíadas de 2008. Como se sabe, ele atuou como assessor artístico no desenho do Estádio Nacional de Pequim, o estádio poliesportivo principal do evento, conhecido como "Ninho de Pássaro". No entanto, ao que parece, o artista esperava uma abertura geral do governo, uma mudança com a chegada das Olimpíadas, o que não aconteceu. Ele percebeu que foi um aproveitamento publicitário, propaganda em geral, e também em particular, porque seu nome foi usado. O artista, então, levantou a voz e criticou a festa das Olimpíadas utilizada como uma celebração hipócrita que pretendia esconder os crimes do Estado. Essa crítica ficou conhecida mundialmente.

Ai Weiwei, cabe dizer, foi criado nos Estados Unidos e voltou à China em 1996 devido à morte de seu pai, o destacado poeta contemporâneo Ai Quinq. Desde então, Ai Weiwei vive na China e não parou de colocar o dedo nas cicatrizes do governo chinês. Um exemplo: após o terremoto de Sichuan em 2008, fez uma instalação com nove mil mochilas, indignado pelas crianças que faleceram por causa das escolas mal construídas.

Foram tomadas medidas contra ele. Em certa ocasião, seu estúdio em Xangai foi totalmente desmontado, ou melhor, saqueado por ordens do governo. E em 2011 foi preso por 81 dias. Seus mais recentes trabalhos artísticos são testemunhos deste terrível momento. Nele estão os dioramas da prisão e o CD A Divina Comédia (The Divine Comeduy) onde Ai Weiwei canta - acompanhado de seus respectivos vídeos (clique aqui para ver um dos vídeos), onde também denuncia toda a detenção.

Uma boa parte do que foi dito aqui está em Ai Weiwei: Never Sorry, o retrato deste artista controverso, militante e talentoso. Entrevista com o próprio Ai Weiwei e um monte de entrevistas com amigos e conhecidos se juntam a momentos cheios de força e também de intimidade (a mãe, o filho mais novo) para compor este maravilhoso documentário que em 2012 ganhou o Prêmio do Júri em Sundance, e que faz honra a este homem que não se cala e que não se arrepende de nada que tenha dito ou feito.

Ai Weiwei: Never Sorry, somente no Max, domingo 28 de julho. Arte, cinema, documentário, resistência contra a tirania. O que você vê quando vê o Max?

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A Solidão dos Números Primos, ou a beleza da tristeza

por max 25. julho 2013 08:03

 

Existe algo entre solidão e destino, algo entre dor e solidão e destino, algo entre destino e matemática. Algo sobre números primos no final, e o mundo no meio. Esta é uma dessas histórias que nos fazem pensar que realmente nossas vidas estão marcadas desde o início e que, por mais que lutemos, nunca poderemos desfazer esse caminho que já está marcado, para o bem ou para o mal, mas sempre, de alguma maneira, para a beleza. A Solidão dos Números Primos (La Solitudine Dei Numeri Primi, 2010) de Saverio Costanzo (Em Minha Memória – In Memoria Di Me; Privada – Private), filme baseado no primeiro e bem sucedido romance de Paolo Giordano, recria a história de Mattia (Luca Marinelli) e Alice (Alba Rohrwacher), dois personagens muito particulares, muito solitários, que não têm uma vida fácil em suas relações sociais (dois números primos gêmeos separados por outro número, pelo mundo). O interessante de tudo isto é que, tanto o livro como o filme, trabalha com cuidado a beleza da linguagem. Estamos falando, de algum modo, de uma bela história de amor, particular, estranha, triste, mas bela. E há outra conexão que não devemos deixar de lado: a que existe entre a tristeza e o belo. O romantismo exaltou essa associação. A necessidade de procurar internamente para exaltar o que a razão não pode ver, levou os românticos a celebrar a beleza do abismo sublime, mas também a beleza profunda da tristeza. No entanto, se relacionarmos melancolia com tristeza, podemos remontar aos gregos e até às ideias supostamente aristotélicas (em tal caso que atribuímos "Problema XXX" a Aristóteles) que relaciona a melancolia com os artistas, com as pessoas sensíveis e com a arte, sem dúvida. Essa ideia do triste e do belo tem sua vertente, seus adeptos, sua força. Gosto de fazer referência a um texto de Osho que se intitula "É possível celebrar a tristeza?". Há uma frase magnífica que diz: "Note: Quando você está feliz você não é tão profundo como quando você está triste. A tristeza tem profundidade; a felicidade tem algo de superficial. Observe as pessoas felizes." Aos que afirmam ser felizes, diz Osho neste texto, vocês vão encontrar insipidez, superficialidades. Não tem profundidade. "A felicidade é como as ondas, apenas superficiais; levam uma vida trivial. Mas a tristeza tem algo de profundo". A Solidão dos Números Primos tem muita celebração da tristeza carregada de beleza e, claro, da matemática do destino. Aí está: os tristes como os belos, como os justos, deles é o reino da arte, este é o destino deles. Ou você já viu alguma vez um romance ou um filme onde gente bela e feliz é absoluta e protagonista de uma grande história profundamente humana?

A Solidão dos Números Primos, sábado, 27 de julho. Beleza, melancolia, arte. O que você vê quando vê o Max?

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Of Snail and Men, ou a vida que está na mente

por max 25. julho 2013 07:39

    

No filme Of Snails and Men (Despre Oameni si melci, 2012) encontram-se diversas causas que ajudam a moldar esta comédia dirigida por Tudor Giurgiu. Por um lado, a queda do regime socialista romeno em 1989, que é a mesma coisa que falar do terrível governo de Nicolae Ceaușescu. Embora não seja exatamente esse o pano de fundo, pois o filme se passa três anos depois, e com a turnê de Michael Jackson muito presente. Os tempos mudaram, sem dúvida. O capitalismo chegou e o mundo novo é algo como um caminho que vai se formando à medida que progride. Os romenos não poderiam saber, haviam ficado fechados sobre si mesmos durante muito tempo. Tudo o que vinha de fora era novidade, muito irresistível.

Assim, em uma cidade desta Romênia pós-comunismo chega o mercado, o negócio, a liquidação de uma fábrica de automóveis para se transformar em outra coisa, supostamente em uma fábrica de escargots. Há crise, há, portanto, ameaça de fechar. Aqui nós encontramos outra referência importante: a literatura, que vem do título. Como em Ratos e Homens (Of Mice and Men) de Steinbeck, que nos coloca diante de uma situação econômica paupérrima e que faz os personagens da história agirem. Enquanto no romance, George Milton e Lennie Small se movem de um lugar a outro, agricultores derrotados pela Grande Depressão, no filme, os trabalhadores decidem lutar, vão comprar a fábrica. Em especial há Gica (Andi Vasluianu), que tem uma ideia genial para o grupo de trabalhadores. Gica propõe que todos vendam seu sêmen a um banco de sêmen, claro, e com o dinheiro comprem a fábrica. Aqui, o filme entra em outra de suas áreas de influência. Estamos diante de uma comédia onde um grupo de pessoas decide fazer algo fora do comum e que é simpático. Isto nos coloca contra a influência de filmes como Brassed Off (1996) de Mark Herman, Ou Tudo Ou Nada (The Full Monthy, 1997) de Peter Cattaneo ou Garotas do Calendário (Calendars Girls, 2003) de Nigel Cole. Uma comunidade unida, uma comunidade repentinamente alegre, a criatividade, o pensamento humano que, elevado para o bem, tudo realiza. Temos uma constante busca que transcende qualquer pensamento político, de qualquer coisa terrena ligada às leis de qualquer relato maior, como o capitalismo e o socialismo. Nos filmes desse estilo, o que se eleva é a criatividade, a capacidade humana para fazer que nossas mentes concebam ideias universais que nos enchem de orgulho e alegria. Assim, a metáfora perfeita para exemplificar esse poder, esta força que emana das alturas humanas, é o sêmen. E é assim, o sêmen é a imagem principal neste filme. Chevalier e Gheerbrant falam sobre o sêmen em seu Dicionário de símbolos (1991):

 

"Para Galeno, o sêmen vem do cérebro. Esta teoria foi disseminada na idade média. A medula espinhal vai do cérebro ao pênis e de lá vem o sêmen, segundo o que se lê no Bahir. O sêmen simboliza a potência da vida, e a vida humana não pode descender mais do que caracteriza o homem, o cérebro, a sede de suas faculdades."

 

Há, portanto, o símbolo do sêmen, a forte relação com o cérebro, a fonte da vida humana. Estes trabalhadores de Of Snails and Men se negam a morrer na miséria, porque deixar-se derrotar é como morrer, e eles, ao que parece, já estiveram mortos durante muito tempo por causa de um regime ditatorial que não os deixava usar suas mentes. Está vivo quem pensa, está vivo quem acredita. Os personagens desta comédia fresca e profunda não são simples caramujos enfiados em suas "conchas-cárceres-refúgios"; estes homens são homens, homens que estão vivos e lutam unidos com a melhor de todas as armas: a inteligência.

Of Snails and Men, sexta, 26 de julho. Cinema europeu, cinema de vanguarda, cinema profundamente humano. O que você vê quando vê o Max?

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Shame, ou o sexo, a dor e o silêncio

por max 19. julho 2013 06:39

 

 

Não se trata de prazer. O prazer talvez seja o que menos interessa. Este homem está preso em um círculo, uma vez ou outra volta ao mesmo ponto, sem poder evitar. Ele tem um segredo, dentro dele pulsa um desejo incontrolável. Mas, diante do mundo, é outra coisa. Diante do mundo é frio, seco, inexpressivo. Ele parece ser alguém que cuida da aparência e do corpo, que se veste corretamente, que é atraente. Parece que é alguém que sabe se cuidar. De alguma forma, parece ser alguém bem sucedido, que alcançou seu objetivo, se tornou homem. Alguém que sabe quem é. Mas não, para esse homem, o "cuide de si mesmo" não coincide com o "conheça a si mesmo". Na Grécia antiga, ambas ideias estavam estreitamente relacionadas, segundo Michel Foucault. Neste homem, o ideal está incompleto. Ou seja, este homem se cuida de forma incompleta, ou errada. O cuidado a si mesmo é superficial, mas não porque ele seja superficial, e sim porque não se atreve a deixar sua verdade vir à tona. Não diz, porque se ele disser, pode ser destruído por fora. Então este homem, por fora, não é o que realmente é. Não confessou suas verdades e, portanto, não está totalmente adaptado para viver em sociedade. Entre a sociedade e ele há uma resistência. Esse é o caso de Brandon, personagem interpretado magnificamente por Michael Fassbender em Shame (2011), de Steve McQueen. Brandon é tensão e verdade em torno de sexo. Michel Foucault apontou que havia uma estreita relação entre sociedade, verdade e sexo; que, mesmo as proibições sexuais, estavam diretamente relacionadas com o fato de dizer a verdade sobre si mesmo. Quem diz a verdade é aceito, incluso, adaptado ao núcleo social, e se transforma em um indivíduo, em alguém visível dentro desse mundo social. Quem se cala, fica de fora, é parte de uma massa escura. Brandon comete, em segredo, as ações que o desejo o obriga. Não pode deixar de ser, porque o que ele é, diante da luz social, poderia ser destruído. Mas o que é Brandon? Não sabemos, nem ele mesmo sabe. O personagem é escuro, embaçado. Que relação Brandon tem com sua irmã Sissy (Carey Mulligan)? O que sente por ela? Que passado os une? Que terrível passado? Difícil dizer, talvez nunca saberemos, porque Brandon não está inteiramente formado diante de nós. Brandon não disse suas verdades diante do tribunal do mundo e, enquanto não disser que não é, não exatamente, provará atos sexuais que serão uma surpresa – inclusive para ele mesmo, um êxtase e convicção. Brandon cala seu desejo, sua ânsia, sua libertinagem, sua enfermidade, seu vício, e esse silêncio é sua história e sua dor.

Shame, domingo, 21 de julho. Cinema de vanguarda, cinema profundamente humano, cinema de verdade. O que você vê quando vê o Max?

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Nota de Rodapé, ou você entre as rivalidades de pai e filhos

por max 12. julho 2013 09:00

 

A relação pai e filho está presente ao longo de toda a história da humanidade. No Ocidente começa com a mitologia grega, onde pais e filhos sobrenaturais vivem uma devastadora luta de poderes. Cronos é derrotado (ou castrado) por seu filho Urano (Saturno), que posteriormente, com medo que sua descendência faça o mesmo com ele, devora seus filhos. A famosa pintura de Goya é bem ilustrativa em relação a isso. Zeus, que foi escondido pela mãe, Rea, já adulto vence seu grande rival, seu pai Urano. Na religião católica Deus criou Adão e Eva e, de alguma maneira, ele cresce quando decide pecar, ignorando as ordens do pai.

O pai é um poder, é a representação de uma velha forma de poder, o filho é a revolução, o novo, que luta para ter voz. Contra a tirania de castração do pai, o filho deve se transformar e cortar. É o que fez Urano. Os testículos são a representação máxima dessa tirania, que continua a ser o filho e anseia separar-se do pai para encontrar a si mesmo, para alcançar sua individualidade. É um processo lógico e ancestral. No entanto, o episódio é também alegoria e metáfora de algo maior. Quem está contra o pai, também poderia se levantar contra os governos, contra os estados, contra imperadores, reis, ministros, governantes em geral. Assim, entre as leis religiosas mais antigas, exige-se respeito pelo pai e pela mãe. A figura paterna pode ser uma forma de controle social, e também, sem dúvida, esta forma de controle tem suas raízes mais profundas na alma dos homens.

Por estes caminhos da relação entre pais e filhos, entre os desejos de autoridade de uns e de outros, pelos caminhos da paixão atávica, temos a comédia do cineasta israelense Joseph Cedar (autor de Fogueira – Medurat Hashevet e de Beaufort), Nota de Rodapé (Hearat Shulayim), um filme que se move, ainda mais idealmente, na esfera do campo acadêmico, onde as competências entre professores-pesquisadores têm o prestígio da amargura. Cedar nos mostra, como previsto, um pai e um filho, neste caso, ambos pesquisadores das sagradas escrituras hebraicas.

O pai, Eliezer (Shlomo Bar-Aba) é misantropo, obsessivo, acadêmico, soberbo e apenas dono de um pequeno "sucesso". Seu prestígio alcança uma nota de rodapé no livro de sucesso de alguém. Uriel (Lior Ashkenazi) é o filho e é dono de um temperamento sedutor que encanta a todos. Uriel também conhece as luzes da fama; ele publicou vários livros e parece, sem dúvidas, que é muito mais importante e muito mais conhecido que seu pai.

No entanto, o filho despreza o pai e assim vamos conhecer Cedar de uma maneira muito divertida, inteligente e amarga logo no início do filme. Mas, chega o momento de ruptura: o pai é informado que receberá o maior e mais importante prêmio de Israel concedido a pesquisadores do campo religioso. E embora aqui aconteça a primeira ruptura, logo a situação fica ainda mais complicada, quando percebemos que era tudo um engano.

É quando, a partir de notas de rodapé muito criativas que o diretor introduz na trama, podemos conhecer e entender o comportamento do pai e do filho e a tensa rivalidade entre eles. No fim, o que está em jogo são os sentimentos, os sentimentos colocados na balança da vida. Cedar pesa e nos mostra; ele faz com graça, com um toque sarcástico e com ternura. Com tudo isso, quem gosta de bons filmes, agradece.

Em 2011, o filme foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, ganhou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes e a Academia de Cinema de Israel concedeu-lhe dez prêmios, incluindo o de Melhor Filme.

Nota de Rodapé, domingo 14 de julho. Pais, filhos, cinema do mundo. O que você vê quando vê o Max?

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O Planeta Solitário, ou quando o universo nos enfrenta

por max 5. julho 2013 03:34

 

Esta deve ter sido uma história de amor. Um casal decide visitar os verdes campos da Europa do Leste, na Georgia. Seu casamento está prestes a acontecer e parece que serão felizes para sempre. Eles são Alex (Gael García Bernal) e Nica (Hani Furstenberg) e estão muito apaixonados. Não há nada mais romântico. Viajar para o campo, cruzando magníficas paisagens, entrar em contato com a natureza, fazer amor sob as estrelas. Nossos tempos têm isso, nossos tempos procuram sentir, ir além da razão, para se conectar com algo mais, misturar-se com a Mãe Terra e com o Universo. Nossos tempos pretendem ser animistas e panteístas. Buscamos respostas em outros lugares que já não são da modernidade fria e racional. Sim, mas em certas ocasiões, essa busca não tem nenhuma preparação. Essa busca começa apenas com uma ideia, com um desejo superficial, com um sonho inocente. Nos amamos, somos lindos e bons, acreditamos na conexão de todas as coisas, o mundo é perfeito. E claro, o mundo é perfeito, mas nós não. O mundo é um todo e somos nós que estamos sobre o mundo, completamente incapazes de compreender as grandes coisas. A conexão, na realidade, não existe. Às vezes, só precisa de um gatilho, algo insignificante para que tudo comece a desmoronar. E isso é o que acontece em O Planeta Solitário (The Loneliest Planet, 2011) da diretora Julia Loktev. Se em Day Night Day Night (2006), através da imagem do jovem terrorista, Loketv trabalhou com os processos de invasão que moldam uma mente e criam pensamentos, em O Planeta Solitário ela se instala na dinâmica de deseducação, de abertura para outras realidades. O exterior, as grandes paisagens, o detalhe mínimo (quando Alex vê uma espingarda ameaçando, ele coloca o corpo de Nica para se defender) servirá para confundir a mente, para descentralizar a aprendizagem. Essas ideias cômodas e superficiais sobre o que somos e sobre o que são nossas relações humanas começam a desmoronar e isso é o que vamos notando ao longo do filme. Sem as distrações das cidades, sem ruído e fúria, não há nada mais do que nós mesmos, e é aí que começamos a ver nós mesmos e aos outros, quando começamos entender, a partir dos nossos profundos silêncios, que estamos realmente sozinhos.

O Planeta Solitário, domingo, 7 de julho. Cinema independente, solidão, histórias de amor que que se rompem. O que você vê quando vê o Max?

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Falando de jazz, quatro filmes sobre jazz e com jazz em julho…

por max 3. julho 2013 09:09

 

O jazz é uma palavra tão cheia de significados que, em última análise, é uma palavra absolutamente única.

Quando não é possível definir o jazz, mas você gosta de jazz, está tudo bem. Porque nunca é possível saber tudo sobre jazz. Saber tudo sobre jazz seria como colocar a alma em um aquário que está em um museu.

Eu gosto de jazz, sim, mas sem grandes erudições.

Gosto de jazz e sempre penso que os músicos de jazz são heróis que vieram de outra dimensão. Heróis que fogem um pouco para estes lados e nos deixam algo, sua língua, o que se fala em outra terra.

O jazz é um livro do francês Boris Vian, que aliás, tocou jazz.

O jazz é Alfred Jarry, Marcel Duchamp.

O jazz é um monge dedicado, como às vezes monge era Thelonious.

O jazz é uma luz que percorre as matemáticas mais profundas.

O jazz simplesmente soa.

O músico de jazz é um homem discreto, que faz seu trabalho em silêncio, um monge com voto de silêncio. O músico de jazz é um monge com voto de castidade.

O jazz é um roadmovie.

Sempre exige um pouco de loucura e jazz.

O Jazz tem sabor de cachimbo, melhor se for de Magritte.

No mundo do jazz é permitido fumar, mesmo que ninguém fume.

Jazz, não sei bem o que é jazz, mas este mês o Max traz, a partir de quinta, 4 de julho e toda quinta do mês, um filme sobre jazz. Porque no Max, não se escuta somente jazz, mas também fala-se sobre o que se vê.

 

 

Começamos na quinta, 4 de julho, com Por Volta da Meia-Noite (Round Midnight, 1986), um clássico do cinema que fala sobre o jazz. Por Volta da Meia-Noite é um filme franco-americano dirigido por Bertrand Tavernier. O filme mergulha na vida do músico de jazz, mas o mais interessante é que é protagonizado por verdadeiros astros do jazz, como Dexter Gordon, François Cluzet e Herbie Hancock. Este músico fictício de jazz que percorre o filme é inspirado por músicos famosos do jazz, como Lester Gordon e o pianista Bud Powell. O personagem do filme, Dale Turner (Dexter Gordon), é um saxofonista que trabalha em Paris durante a década de cinquenta. Turner tenta largar o vício, mas irremediavelmente tem recaídas, e é aí que conhece o cartunista Francis Borler (François Cluzet), que o admira e tenta resgatá-lo de seu vício levando-o para sua casa. Um drama de amizade e redenção, com uma trilha sonora maravilhosa criada pelo grande Herbie Hancock. Melhor abertura para esse ciclo de jazz não poderia existir.

 

 

Na quinta, dia 11, continuamos com A Vida e a Música de Thelonious Monk (Thelonious Monk: Straight, No Chaser, 1989). Documentário que usa magistralmente 14 horas da turnê europeia de Monk. O filme, feito por Christian Blackwood entre 1967 e 1968, mostra um Monk em todo o seu mistério e sua complexidade. Seu afastamento, seu gênio, o apoio de sua esposa, sua maneira de enfrentar os ensaios, os sucessos e os fracassos. Também acompanha este pacote magnífico europeu um bom resumo de entrevistas de amigos e familiares, bem como um período de sua infância, de suas origens e do auge dentro do bebop dos anos quarenta. Monk, um músico estranho e experimental, um músico que aprendeu a tocar saxofone como um animal, que se revelou, como Picasso com a pintura, tocando quando criança, tocando, batendo, ficando de pé, reinventando. O produtor executivo desta obra é Clint Eastwood, que amadureceu essa ideia desde que trabalhou no projeto de Bird.

 

 

Na quinta, dia 18, o Max traz Bird (1988), poderoso filme dirigido por Clint Eastwood e maravilhosamente protagonizado por Forest Whitaker, que retrata a vida de um dos maiores saxofonistas de jazz (de sax alto), Charlie Parker, também conhecido como Bird. O forte drama que o músico enfrenta em um mundo duro, em um mundo que não foi feito para a arte nem para a sensibilidade dos artistas, de onde ele escapa, irremediavelmente, através dos vícios.

 

 

E para terminar, na quinta-feira dia 25, teremos Michel Petrucciani (2011), documentário dirigido por Michael Radford sobre o genial pianista Michel Petricciani, o segundo filme francês dentro deste ciclo. Petrucciani nasceu com uma deficiência física significativa, com osteogênese imperfeita (conhecida também como a doença dos "ossos de vidro"), uma condição muito rara que acontece em uma em cada vinte mil pessoas. Mesmo assim, Petrucciani foi um dos pianistas de jazz de maior destaque na história e, embora tenha morrido aos 36 anos de idade, sua história merece ser contada. E é isso que Radford faz através de entrevistas (entrevistou mais de trinta pessoas), arquivos de vídeo e fotografias, neste documentário humano e sóbrio sobre a vida de um homem genial que conheceu todas as paixões, os amores, os vícios, as ociosidades e as glórias da fama.

 

O Max fala de jazz em julho, ouviremos sobre jazz e curtiremos a música e as imagens que traz o canal neste ciclo magnífico. Arte, música, paixões humanas, criação. O que você vê quando vê o Max?

 

(Ah, qualquer coisa, podem me presentear com um chapéu como os que Thelonious Monk usava. Obrigado.)

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