Urbanizada, sonhos de design, de verdade e de beleza

por max 29. junho 2013 04:29

 

Caíram os castelos, vieram as cidades e o homem começou a sonhar com elas. Como pode ser esse lugar para viver melhor? Existe uma cidade perfeita na mente dos homens, uma cidade digamos, platônica, e os homens sempre tentam projetá-la. Nessa cidade há beleza e verdade. Tem espírito humano, alma.

As cidades pensam e agem. Quando há tempo ou quando é tarde demais. Porque as cidades podem ser planejadas desde o princípio, ou podem tentar ser planejadas no momento de seu crescimento. As cidades são excedidas. Pense em uma cidade como Caracas, capital da Venezuela. Caracas cresceu em um pequeno vale e sob o layout de quadrados. A cidade, ao longo dos séculos, continua crescendo e transbordou para as montanhas, para outras áreas. Ao longo dos anos, os arquitetos tentaram traçar novas linhas de pensamentos, outras propostas e outros espaços de convivência. Digamos que a cidade é escrita e reescrita constantemente e, às vezes, mais que o necessário, a cidade em si é escrita em meio ao caos. Cada cidade é vida, essa vida é uma fervura constante, que às vezes é controlada, às vezes não. Basicamente, os homens dos tempos atuais são homens da cidade. Mais da metade da população mundial vive em áreas urbanas. Calcula-se que em 2025 a porcentagem subirá para cerca de 75%.

Urbanizada (Urbanized, 2011), de Gary Hustwit, é um documentário sobre o design dessas cidades que hoje habitamos, com seus prazeres e seus grandes problemas, com seus sonhos e suas potencialidades, com sua beleza e sua feiura. O presente e o futuro das cidades estão em Urbanizada. Norman Foster, Rem Koolhaas, Oscar Niemayer, Alejandro Arayena, Amanda Burden, Enrique Peñalosa... Todos aqueles que permitimos dar forma aos nossos espaços públicos estão lá, pensando, filosofando nossas cidades. Porque a cidade é uma filosofia que ninguém duvida. Uma filosofia do privado e do público, do espaço compartilhado e do movimento, da vida boa e da ruim, dos direitos e deveres e, como já disse, da verdade e da beleza. Com esse documentário, Gary Hustwit completa uma trilogia que começou com Helvetica em 2007, depois com Objectified em 2009 e terminou com Urbanizada (Urbanized) em 2011. Helvetica foca no design gráfico, em como as letras – e principalmente a helvética – ocupam e determinam nossos espaços e nossas leituras; Objectified é sobre o design de objetos e, finalmente, Urbanizada, como sabemos, sobre o design das cidades. Por trás do design há sempre um vazio, atrás do design não há somente estética, há razões, filosofias, modelos de vida. As imagens são a linguagem, são reflexos da vida, são sonhos de vida. Urbanizada é assim, o terceiro projeto de Hustwit sobre o design como espelho da alma, da perfeição e da beleza. A verdade e a beleza se complementam, se misturam. A verdade e a beleza nos fazem humanos.

Urbanizada, domingo, 30 de junho. Design, arquitetura, cidades para viver. O que você vê quando vê o Max?

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Ciclo sobre a diversidade sexual, no Max

por max 25. junho 2013 12:53

 

O sexo ou o amor, em todas as suas formas, abertamente, como é, como se sente, como se vive, como age, como é na vida e como a arte o vê, é representado e mostrado no cinema. Esta semana, o Max nos traz um ciclo especial sobre a diversidade sexual que começa na segunda, dia 24 com Triângulo Amoroso (3 - 2010) de Tom Twyker e vai até sábado dia 30. Os filmes que você poderá assistir são:

 

- Uivo (Howl): Terça-feira 25. Um momento da vida do poeta beat Allen Ginsberg. Dirigido por Robert Epstein e Jeffrey Friedman, Uivo é um drama que mistura animação com um tom de documentário para retratar um dos maiores poetas da geração beat. James Franco interpreta o sereno – o procurador da paz – e ao mesmo tempo ativisita, Ginsberg.

 

 

- Imperdoável (Unforgivable): Quarta-feira 26. Filme de 2011 do conhecido diretor André Techiné, que nos mostra um estranho triângulo amoroso que gira em torno de um romancista policial. Ciúmes, amor lésbico, triângulo. O amor e suas trevas, o amor e suas liberdades.

 

 

- M. Butterfly: Quinta-feira 27. De David Cronenberg, baseado na peça de teatro do mesmo roteirista, David Henry Hwang. Acontece nos anos sessenta na China e nos mostra René Gallimard (Jeremy Irons), um diplomata francês que se apaixona por um dos personagens femininos (e pelo homem que está por trás desses personagens) na Ópera de Pequim. Intriga política e as complexidades do amor homossexual entre duas culturas totalmente diferentes.

 

 

- Um Quarto em Roma (Habitación en Roma): Quinta-feira 28. Reinterpretação de Julio Medem do filme Na Cama (En la Cama) do chileno Matías Bize. Um Quarto em Roma acontece em um quarto e em apenas algumas horas; são as poucas horas que dura o romance de duas mulheres que, por acaso, se conhecem em um bar e decidem se trancar para ver como fazem sexo e conversam. Solidão, tristeza, experimentação, beleza dos corpos.

 

 

- Bye Bye Blondie: Sábado 29. Dirigido por Virginie Despentes, o filme nos apresenta Gloria e Frances, ambas com quarenta anos. Tudo bem com elas, que nos anos 80 se conheceram em um hospital psiquiátrico e se amaram com paixão juvenil. Vinte anos depois, se encontram novamente, e tentam reviver esse amor.

Os Crimes de Snowtown, ou o mal na Austrália

por max 23. junho 2013 05:04

 

Baseado em fatos reais ocorridos no sul da Austrália nos anos noventa, chega o filme –australiano, claro- Os Crimes de Snowtown (Snowtown, 2011). É a história de Jamie (Lucas Pittaway), um garoto que vive uma situação familiar complicada - a figura do pai é ausente e logo se descobre que, supostamente, sofre abuso sexual. Na vida de Jamie (e de sua família) surge o muito amável e encantador John Bunting (Daniel Henshal), que logo vai assumir o controle da casa. Quer dizer, ele se transforma na figura paterna e começa a mostrar que, por trás de toda a sua fascinação, há uma profundidade escura. Bunting diz odiar pedófilos e homossexuais, que se deve acabar com eles. Jamie, por sua vez, confessa ter sofrido abusos sexuais. Começa o terror, começa uma das histórias de assassinatos em séries mais horríveis da Austrália. O longa é dirigido pelo estreante Justin Kurzel, que fez um filme que se revela na simples curiosidade dos assassinatos; ou seja, esse não é um simples thriller americano, porém Kurzel foca nos personagens, na essência do mal, em suas razões, em suas alegrias, seus delírios. Nunca se sabe se, de verdade, lá no fundo havia uma obsessão com a pedofilia e a homossexualidade, dado pelo senso de direito, ou se, no fundo, isso foi apenas uma desculpa para cometer crimes indescritíveis que batem nas brumas de uma mente danificada.

Os Crimes de Snowtown, domingo 23 de junho. Cinema australiano, drama humano, crime. O que você vê quando vê o Max?

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The Big Picture, ou a identidade reencontrada

por max 21. junho 2013 03:48

 

Um thriller, um drama, uma meditação sobre personalidade. Parte do típico tema francês da infidelidade e assassinato de alguém do triângulo amoroso, para seguir pelos caminhos de Patricia Highsmith, ou melhor, de Antonioni. Além de dupla, a personalidade suplantada e a redenção também são fundamentais neste filme de Eric Lartigau, The Big Picture (L'homme Qui Voulait Vivre Sa Vie, 2010), baseado em romance de Douglas Kennedy.

Para Paul Exben (Romais Duris) tudo está perfeito. Ele tem um bom trabalho, uma bela esposa, filhos. Não pode pedir mais da vida. Mas a vida – ou uma parte profunda do que poderia ter feito um homem diferente – parece não estar de acordo e joga na cara dele a dureza da existência. Exben descobre que sua mulher o traiu com um fotógrafo. Mata o fotógrafo. Exben pega a identidade do fotógrafo e foge para um país eslavo. Então Exben deixa de ser Exben? Não, Exben torna-se realmente Exben. Exben é mais Exben do que nunca. Ao contrário de O Passageiro – Profissão Repórter (Professione: Reporter, 1975) de Antonioni, o protagonista tem um motivo para mudar de identidade (o assassinato), e também ao contrário do filme de Antonioni, o acomodado (Exben) suplanta o artista. Lembramos que em O Passageiro – Profissão Repórter, David Locke, o personagem interpretado por Jack Nicholson, é um repórter (com câmera) que se passa por um traficante de armas (neste caso, o acomodado também é um viajante, um viajante igualmente sombrio). Na verdade, Locke, no filme de Antonioni engana sua mulher e ela o engana. Os paralelos estão lá. No entanto, a ordem se inverte: Exben, próspero em sua pacata vida sem grandes acontecimentos, cometerá um crime e isso a colocará em movimento, o levará a uma jornada que começa com uma ação que brotou de suas mãos, de uma escuridão inesperada. Exben invocou a morte, e a chegada da morte à sua aparentemente vida perfeita e próspera o transforma. O véu da falsa eternidade foi executado, e agora Exben entende que a vida também é morte, que a vida também está viajando para outras terras que estão dentro de si mesmo, onde habitam outras coisas, onde habitam as contradições e o enigma. É tanto enigma que nunca entendemos claramente, (como no filme de Antonioni) o que procura Exben, até onde ele vai, o que quer. Só no final, talvez no final, teremos o quebra-cabeça montado, o panorama geral, a big picture de um homem que queria viver sua vida. Quem sabe.

The Big Picture, sábado 22 de junho. Identidades, assassinatos, cinema europeu, thriller, busca interior. O que você vê quando vê o Max?

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Branco Como a Neve, ou as influências e a neve

por max 20. junho 2013 14:39

 

Sem dúvida, tradição é importante. Nesta tradição tem imagens fortes, que influenciam a mente dos artistas. Branco Como a Neve (Blanc Comme Niege, 2010), de Christophe Blanc, lembra irmãos Coen e a neve de Fargo – Uma Comédia de Erros (Fargo, 1996). Os Coen usaram a neve como metáfora, como uma imagem da fragilidade das coisas. A neve, algo tão bonito, tão puro, tão brilhante, não é mais que uma superfície suave, frágil, fácil de sujar e, neste caso, por um tolo empresário falido que contrata um casal de bandidos. Para os irmãos Coen, a neve é o cenário dos mais terríveis atos. Blanc usa a mesma imagem no thriller Branco Como a Neve, que retoma a neve para a história de um homem rico (empresário do ramo automotivo) envolvido numa confusão com a máfia. Para sair dessa confusão, ele procura seus dois irmãos, duas bestas que, claro, não vão fazer as coisas direito. A influência dos Coen está lá e Blanc assume esse desafio (o título francês joga com as palavras: "Blanc Comme Neige", quer dizer, Blanc é o sobrenome do diretor, que se torna negro, adota o gênero noir (negro), mas o gênero noir estilo Coen). Excelente, o filme franco-belga tem excelentes atuações de François Cluzet, Olivier Gourmet e Jonathan Zaccaï. A neve é como a floresta, a floresta é como a neve, esse antigo lugar onde está o caos, o desconhecido, onde o homem se perde, onde o homem encontra os demônios, o mal, a escuridão. A neve tão pura, tão perigosa.

Branco Como a Neve (White As Snow), sexta-feira 21 de junho. Suspense, imagens de tirar o fôlego, cinema europeu. O que você vê quando vê o Max?

Hit and Miss, ou uma nova série original e cruel no Max

por max 19. junho 2013 09:20

 

Olho nessa história. Ela se chama Mia. Mia é transexual, mas também, eu sei que você não vai acreditar mas é isso mesmo, é um assassino (uma assassina?) de aluguel. Quer dizer, não é ruim, eu acho que não, mas se complica, sabe? A trama se complica porque nossa garota, um dia descobre que é pai. Uma vez Mia teve uma namorada, que se chamava Wendy, e bem, Wendy morreu de câncer, e foi quando Mia ficou sabendo do filho. Foi nomeada tutora da criança, de seu filho, que também tem alguns meio irmãos, três para ser mais exato, que vivem em uma fazenda em Yorkshire. Ah, esqueci de dizer que esta história se passa na Inglaterra. É uma história inglesa, é uma série britânica, que é protagonizada por uma atriz que o papel cai como uma luva: Chloë Sevigny, uma jovem que tem nome forte nos cinemas por papéis difíceis. Você sabe, é uma das rainhas, ou seja, uma das atrizes preferidas do cinema independente. Ela ganhou esse nome, de verdade. Lembra de Vida Sem Destino (Gummo, 1997) do jovem diretor Harmony Korine? Nada fácil. E Kids (1995), de Larry Clark? Ela trabalhou também com David Fincher, Woody Allen, Lars von Trier, com Vincent Gallo, com que ela, no filme Brown Bonny (The Brown Bonny, 2003), fez sexo oral totalmente explícito. Também se fez de louca em História de Horror Americana (American Horror Story, 2011), série que mexeu com a cabeça de muita gente e levantou muitos escândalos, lembra?

Então, não parece incomum ver Chloë interpretando um assassino transexual em uma série de TV. Uma série, como eu disse, britânica, criada por Paul Abbott, famoso roteirista e produtor de outras séries de muito sucesso na Inglaterra. Estamos falando de Hit and Miss, com seis episódios focados na personalidade de Mia. De fato, o tema que mais aborda é o da identidade sexual. Mia, de certa forma, aproveita que não se parece nada com sua identidade legal para cometer assassinatos. Não é rastreável, não existe, entende? Ela é uma menina presa no corpo de um homem, com o órgão sexual masculino, e, portanto, não tem um papel específico na sociedade e nem dentro das leis. É, obviamente, outra visão do problema da transexualidade. Não se trata de um ser insignificante, perverso, como geralmente é visto. Mia é um ser humano preso em um turbilhão de problemas, rejeições e incompreensões.

Com tudo isso, entenderemos que Sevigny é a estrela absoluta da série, pois sobre ela cai todo o peso, e ela lida muito bem com isso, dando-lhe todas as nuances, crueldade e delicadeza necessárias para a série de profundo sentido dramático.

Vai perder? A partir desta quarta, 19 de junho, assista com exclusividade. Ah, os seis episódios serão exibidos toda quarta. E você sabe que essa história é boa, não é? Drama, sexo, suspense, originalidade, séries de primeira. O que você vê quando vê o Max?

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O Artista, ou alguns fragmentos sobre o silêncio e nosso tempo

por max 16. junho 2013 05:59

 

Hollywood tende a se apaixonar de vez quando por um europeu. Há alguns anos, em 1998, apaixonou-se por Roberto Benigni e por sua A Vida É Bela (La Vita È Bella, 1997), filme premiado com três Oscars, entre eles o de Melhor Filme Estrangeiro. Benigni pulou entre os bancos, parou, voltou a pular e todos aplaudiram de pé, encantados, dizendo como é louco, como esse italiano é simpático… depois, Benigni fez uma versão horrenda de Pinóquio (Pinocchio, 2002) que ninguém se lembra ou quer se lembrar.

 

Em 2011, o Oscar se apaixonou por Michel Hazanavicius e por O Artista (The Artist, 2011), estrelado por Jean Dujardin. A paixão foi tão grande que toda cerimônia do Oscar teve referências do cinema mundial, da sua época e do filme. Com toda coragem, Hollywood estava dizendo, <<estes são os homens, este é o filme, e estes são os vencedores>> (finalmente venceu como Melhor Figurino, Melhor Ator (Jean Dujardin), Melhor Diretor e Melhor Filme).

 

Mas talvez Michel Hazanavicius não seja Benigni, talvez não pule sobre os bancos – ele fez quando foi premiado, e talvez não seja tão histriônico. Ele é francês! Provavelmente não tenha uma versão de Pinóquio que deixe todos com vergonha. Hazanavicius, talvez, nos dará algo melhor, quem sabe. Por enquanto, ele tem feito alguns curtas-metragens sobre infidelidade, protagonizados por Jean Dujardin como protagonista que não esteve nada mal. Quem sabe tente a sorte mais uma vez com algum filme sobre seu ilustre agente secreto OSS 117 (também interpretador por Dujardin). Veremos...

 

Nós paramos de acreditar em tudo. Já não acreditamos nos princípios da modernidade. Não tem futuro, não tem história, não tem grandes relatos que nos expliquem o mundo. Vivemos em um abismo para não navegarmos de volta ao passado. Então, somos a grande nostalgia e a grande paródia. A arte do século XXI vive em nostalgia. Essa nostalgia gera a homenagem, a paródia/homenagem.

 

Hazanavicius transformou sua nostalgia no cinema mundial. Mas é uma nostalgia rara, é uma nostalgia em preto e branco que fica em silêncio... Embora, na verdade, uma parte tem som. George Valentin é a estrela das ribaltas silenciosas, das ribaltas de uma época glamorosa. Como astro, George Valentin nos fascina. Mas, ele também é teimoso, passado que se recusa morrer. E isso, não está nada bem.

 

Talvez a pergunta seja: Quando o som é mero efeito especial que serve para despertar emoções baratas e quando é parte fundamental do filme, da obra de arte?

 

Talvez outra pergunta seja: Uma boa história não precisa de diálogos?

 

E outra pergunta: Os diálogos salvam uma história ruim?

 

O Artista encanta por seu preto e branco, pela atuação de Dujardin e por essa primeira parte envolvida em uma atmosfera elegante, leve, agradável. Em O Artista, gostamos de Valentin no auge de sua fama. Em seguida, chega à época do som e o filme fica dramático, mas segue em silêncio, com exceção de uma cena magistral que deverá ficar para sempre em nossas memórias – sim, essa em que as coisas ganham vida através do som. Por que a segunda parte de O Artista continua sem som? Porque estamos vendo o mundo a partir do ponto de vista de Valentin, que não é mais que um dinossauro, um dinossauro de frente que não renunciou à extinção, mas que é, no entanto, secretamente admirado e amado pela estrela do cinema sonoro Peppy Miller (Bérénice Bejo), aquela garota que se apaixonou por ele quando Valentin era famoso. Peppy é a imagem dos novos tempos, mas ainda não nega o passado: está apaixonada por Valetin e quer ajudá-lo. Ela o ama sem conhecê-lo, mas o ama em seu fracasso (há alguma coisa no filme que também aborda a natureza da fama). Como personagem dominante do filme, Peppy é o equilíbrio. É o novo que não corta com seu passado. Peppy salva, resgata da decadência e do esquecimento o seu amado Valentin. De repente, o melodrama volta a ser a bela comédia e temos um final bem pensado com som, atingindo a dança, a alegria de viver, o diálogo e, finalmente, a voz de Valentin. Não é que todo passado seja melhor, mas também não é negado. Trata-se, na realidade, da nostalgia, que é uma espécie de equilíbrio, estilo de vida, vivendo no presente. A nostalgia mantém vivo o passado, mas não o para, não o afunda. Peppy e Valentin juntos, dançando, são a festa, a alegria, a combinação mais ou menos luminosa do que nossas tentativas contemporâneas. Nesse sentido, O Artista é um filme absolutamente pós-moderno: o futuro e o presente se misturam, são a regra, utilizam o equilíbrio. Estamos diante de um trabalho profundamente nostálgico que não faz mais que falar – em seu silêncio – de nossos tempos. Destes tempos onde o passado pode ter um futuro.

 

Outra pergunta: Nosso futuro será em preto e branco?

 

Max tem a honra de apresentar, domingo 16 de junho, O Artista. Nostalgia, comédia, drama, emoções silenciosas, silêncio que exalta. O que você vê quando vê o Max?

 

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De quinta a domingo, ou a herança dos pais

por max 15. junho 2013 09:51

 

Somos o que nossos pais fazem de nós. Somos o espelho e somos a imagem no espelho, somos o presente desse passado, somos o que vemos, somos o que eles foram. De Quinta a Domingo (De Jueves a Domingo – 2012), primeiro longa da chilena Dominga Sotomayor é um drama que está parado em um tempo de ser, no estabelecimento de um momento que marcará para sempre a vida de um casal de crianças, especificamente Lucía (Santi Ahumada), a filha mais velha de um casamento que está prestes a acabar.

Trata-se de pequenas férias, que serão de quinta a domingo, mas que marcarão definitivamente o futuro desta família, desta menina. Ana (Paolo Gianni) e Fernando (Francisco Pérez-Bannen) estão rpestes a se separar, mas decidem fazer esta última viagem com as crianças. Eles, os filhos, não sabem da separação. Mas ao longo do caminho, Lucía vai percebendo o que está diante dela, no motorista com a passageira, nas conversas cifradas, nos olhares, incluindo os silêncios.

Não poderíamos dizer que se trata de um filme de crescimento, pois tudo o que viverá Lucía e seu irmão é apenas o início de uma história que começa e que paira nesses dias de férias. Também não é road movie no estilo americano, mas é uma viagem, uma viagem que tem um destino, é claro, mas não se pode deixar de saber, onde vão essas pessoas, porque estão juntos nessa estrada, qual o destino que os une, porque o poder superior os colocou juntos nessa vida.

De Quinta a Domingo, sábado 15 de junho. Cinema latino-americano, família, road movie, solidão. O que você vê quando vê o Max?

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Os Acompanhantes, ou a elegância do excêntrico

por max 13. junho 2013 14:27

 

Elegante, fresco, repleto de personagens peculiares, Os Acompanhantes (The Extra Man - 2010) de Robert Pulcini e Shari Springer Berman (os criadores do magnífico Anti-Herói Americano – American Splendor - 2003), é uma comédia que nos mostra Kevin Kline como um dramaturgo que não consegue meios para viver e que presta serviços como acompanhante para senhoras viúvas da cidade, com quem faz sexo, pois ele é publicamente...assexuado. O filme, leve em sua imagem, em sua música e em seus olhares, tem tudo com leveza e diversão. Diverte com Kline fazendo Henry Harrison, e diverte também com Paul Dano fazendo Louis Ives, um jovem aspirante a escritor que é fascinado por lingerie feminina – e as veste – mas que também busca se vestir como os personagens dos romances de Fitzgerald. Sim, são todos raros, todos particulares, todos excêntricos... Pergunte a Wes Anderson se a excentricidade não dá rendimentos. Mas no fim... Por essas excentricidades, Ives deixa a escola que lecionava e vai direto a Nova Iorque tentar a sorte como escritor. Bem, você sabe, para encontrar a si mesmo. E assim, encontrando-se ele se encontra com Harrison, e entre eles começa uma relação, não amorosa, muito menos sexual (já sabemos, Harrison não é Cole Porter), mas sim de senhorio / inquilino e de mestre / discípulo.

Os personagens de Os Acompanhantes são e não são do mundo. Eles se movem, se deslocam, giram, entram e saem, vão pelos cantos ao redor das portas do grande mundo. São esquisitos e gostam de arte, de teatro, de literatura, vivem para entreter os outros, os poucos, os que vivem nesse grande mundo, que é nada mais e nada menos que Nova Iorque, a colossal, a extremamente difícil e mesmo assim, extremamente sofisticada.

Sim, o filme, sem dúvida nenhuma, é elegante, fresco, mas também triste e reflexivo, e no fundo, aos olhos destes personagens que nos enchem de felicidade, mas também de compaixão, e para alguns, até mesmo de melancolia.

Os Acompanhantes, sexta-feira 14 de junho. Excentricidade, elegância, fina comédia. O que você vê quando vê o Max?

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Auto Focus, ou as obsessões sexuais de Paul Scharader

por max 12. junho 2013 13:50

 

O sexo é um dos temas principais de Paul Schrader, como roteirista ou como diretor. Bom lembrar que ele ganhou conhecimento mundial graças ao roteiro de Taxi Driver (1976), aquele filme que também lançou Martin Scorsese. Schrader, conta Peter Biskind no livro Como a Geração Sexo, Drogas e Rock´n´Roll Salvou Hollywood (Easy Riders, Raging Bulls – 2004), pertence à segunda geração da chamada "Nova Hollywood", constituída pelos <<primeiros filhos do baby boom, nascidos durante e, principalmente, após a Segunda Guerra Mundial, a geração que se formou nas escolas de cinema, nos chamados movie brats, os pirralhos, os "meninos mimados" da indústria cinematográfica>>. Ali, Biskind coloca Scorsese, Spielberg, Lucas, De Palma, Malick e claro, Schrader, que, como muitos destes novos diretores, era tudo um caso. Ele se envolveu com drogas, se embriagou, era dono de um ego enrome e, dizem, escrevia com um revólver calibre 38 ao lado da máquina, e às vezes, colocava sobre a cabeça uma coroa de espinhos de bronze que o fazia sangrar pela testa (seus pais eram calvinistas muito rígidos). Talento, isso sim ele tinha de sobra. Então, não é de se estranhar sua transformação em um dos roteiristas mais cruéis e temidos de Hollywood. Lembramos mais uma vez que, em 1976 saíram Taxi Driver, mas também Trágica Obsessão (Obsession), de Brian de Palma, ambos com roteiro de Schrader, ambos com temática realista e cruel. Em Taxi Driver, a vertente do assunto sexual está na figura da prostituta Iris, interpretada por Jodie Foster, a jovenzinha que é <<salva>> no final por Travis Bickle, aquele pequeno e solitário motorista de táxi interpretado por Robert De Niro. Uma influência marcante de seu passado religioso, faz com que, talvez, a visão de Schrader em relação ao sexo seja escura e punitiva. Em Taxi Driver o sexo está coberto de uma pátina coisificada, que o devolve como mercadoria e o priva de todo o espírito. O sexo reduz o ser humano, está representando com toda sua força e torna-se o símbolo máximo do filme de Scorsese.

Em Hardcore - No Submundo do Sexo (Hardcore – 1979), segundo filme como diretor (o primeiro foi Vivendo na Corda Bamba – Blue Collar), o tema sexo volta a aparecer, mas como tema central, desta vez sob a forma do espírito da pornografia. Um homem de negócios (George C. Scott) mergulha na sordidez do submundo para encontrar a filha menor de idade, que está desaparecida.

Gigolô Americano (American Gigoglo), no ano seguinte, volta a mergulhar nas profundezas do sexo como negócio apresentando Richard Gere como um garoto de programa que atende senhoras maduras. Ele acaba esse envolvendo com a mulher de um policial e também numa investigação criminal pela morte de uma suas clientes.

Mais um ano, e o tema sexual é novamente relevante na refilmagem de Sangue de Pantera (Cat People, 1946). Com o título A Marca da Pantera e forte carga erótica, Schrader mostra uma história de despertar sexual estrelada por Nastassja Kinski. O pior de tudo: a jovem não só desperta para o sexo, mas também se transforma em uma terrível pantera negra. Alguém tem dúvidas? Mais uma vez tem o sexo e a escuridão claramente entrelaçados.

Depois de alguns anos cambaleando em projetos mais ou menos interessantes, Schrader volta com suas obsessões sexuais em Uma Estranha Passagem em Veneza (The Comfort of Strangers – 1990). O filme mistura o erótico comercial (Veneza, casal bonito, mistério e sedução), e o amargo drama psicológico em que o sexo tem um papel profundo e perverso. O Dono da Noite (Light Sleeper), dois anos depois, retoma indiretamente algo dessa tensão sexual através de uma série de assassinatos de mulheres. O mundo da droga, o resgate, a morte, e claro, o sexo estão ali com uma forte intensidade. Em 1999 veio A Sombra de Uma Vingança (Forever Mine), um thriller em que a infidelidade, a vingança e a morte fazem um cocktail esmagador. O sexual sempre aberto, sempre dominando os corpos e as mentes, sempre escuro e distorcido.

Schrader mantém sua visãode todos esses anos, e em 2002 expandiu com Auto Focus, um filme biográfico que foca na vida de Bob Crane, em suas idas e vindas pelo mundo da fama, desde que era um simples DJ até seu papel principal e de sucesso na série dos anos sessenta Hogan´s Heroes. Compartilhando o protagonismo estão Greg Kinnear, como Bob Crane, e Willem Defoe (reincidente com Schrader) no papel de John Henry Carpenter, um gerente regional de vendas da Sony Eletronics. Onde está o escuro tema sexual nisto tudo? Bem, desde que Crane conheceu Carpenter, começou a procurar mulheres em bares. Cada vez que Crane estava em turnê pelos circuitos da comédia, Carpenter o acompanhava e, após as apresentações, eles iam a lugares para conhecer mulheres. Aproveitando a incerta fama de Crane (homem casado que não bebia), seduziam as mulheres e logo as levavam para a cama. A verdadeira diversão de tudo aquilo estava em gravar sessões sexuais com os novos e maravilhosos aparatos que o técnico da Sony facilitava (estamos no início dos aparelhos de vídeos caseiros).

Assim, como se vê, o tema do abismo sexual está muito presente. Crane se transformou em um viciado em sexo que começou a ver como o pouco que restava de sua carreira e de sua vida familiar estava desmoronando no desespero da paranoia e da culpa. A crise profunda, eventualmente resolvida em morte, pois Crane foi golpeado brutalmente – e morto – pelo que parecia ser um tripé de câmera. Carpenter, claro, foi acusado, apesar de nunca ter provado nada. Não é demais dizer que o assassinato de Crane segue sem solução até hoje.

Schrader, que retrata essa vida e essa obsessão sexual neste filme pouco convencional que vai, desde as cores de um sitcom dos anos cinquenta até uma cinematografia mais suja e lavada que obedece a queda no abismo da indulgência sexual e a culpa. Auto Focus é uma peça fundamental na obra de Schrader. Aqui, ainda mais forte que em Taxi Driver, vai revelar questões do sexo, do pecado, da culpa e da natureza da fama. Esses são seus problemas, esses são seus olhares, suas obsessões.

Auto Focus, quinta 13 de junho. Obsessão, sexo, desejo, morte, o melhor do cinema de Hollywood. O que você vê quando vê o Max?

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