Almanya - Bem-vindo à Alemanha, ou o retorno e a identidade

por max 26. abril 2013 05:28

 

Dirigido pela alemã de origem turca Yasemin Samdereli que, pela primeira vez, dirige um filme para o cinema – pois já havia feito filmes para a televisão – o Max apresenta Almanya - Bem-vindo à Alemanha (Almanya – Welcome to Germany - 2011), uma comédia selecionada para o Festival de Berlim, onde ganhou os prêmios de melhor roteiro e melhor filme. Almanya - Bem-vindo à Alemanha é uma volta às viagens de migração, uma volta, no sentido amplo da palavra, pois levanta a possibilidade de retorno à terra natal de uma família turca que mora na Alemanha há 45 anos. Mas, por outro lado, existe outro retorno: o retorno da memória, o flashback da odisseia de quem sai de seu país em busca de uma vida melhor.

No filme, quem deseja retornar é um homem de setenta anos, Hüseyin Yilmaz (Vedat Erincin). É ele quem anuncia à família que havia comprado uma casa na Turquia e que finalmente podem voltar. O finalmente voltar, que aqui não funciona, é o sentimento de todos os membros da família, exceto dos mais jovens, cuja identidade não está relacionada com a Turquia. Apesar de que, pode-se dizer, nem para os primeiros a chegar há 45 anos, nem para os que nasceram na Alemanha, o assunto é fácil. Sempre serão estrangeiros fora de seu país. Onde quer que estejam. Então, este filme simpático, bem humorado, às vezes caricato e por vezes comovente, apresenta uma possibilidade de voltar à terra perdida, mas também uma volta à história familiar, o que vira um tipo de jogo de nostalgias (agrada a alguns críticos) e um instrumento de olhar conciliador, nada alarmista, mas um pouco crítico. A identidade, a integração, a luta para deixar de ser um estrangeiro, um bruto, um despojado em meio às dificuldades do recém-chegado e à profunda incompreensão em um país que ainda assim abre suas portas… isso é Almanya - Bem-vindo à Alemanha.

Lembre-se: Almanya - Bem-vindo à Alemanha, sexta 26 de abril. Imigrantes, comédia, crítica, integração. O que você vê quando vê o Max?

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Encerramos a série “do livro à tela” com dois filmes de Shakespeare

por max 24. abril 2013 08:51

 

 

Nesta quinta, termina a série "do livro à tela" com duas obras de um dos maiores autores da literatura universal. Estamos falando de Shakespeare e de Hamlet (1997) e Othello (1995). Você assiste um filme na sequência do outro, uma paixão atrás da outra. Porque com Shakespeare, um nunca é suficiente.

A sessão começa com uma das melhores adaptações que já foram feitas de Hamlet, o espetacular filme dirigido pelo cineasta e grande ator irlandês Kenneth Branagh, que também interpreta o vingador enlouquecido de nossos tormentos. E ninguém melhor que Branagh para trabalhar com Shakespeare. Com apenas 23 anos, fez uma impecável interpretação de Henrique V para a Royal Shakespeare Company, que o apontou como o novo talento do cenário britânico. Também com sua companhia Renaissance, fundada em 1987, recebeu as melhores críticas graças à adaptação de Muito Barulho Por Nada (Much Ado About Nothing) e também do próprio Hamlet. A imprensa chegou a rotulá-lo como "o novo Laurence Olivier", grande ator marcado como um dos maiores intérpretes de Shakespeare. Muitos anos depois do teatro, em 1996, Branagh apresenta uma nova interpretação e direção de Hamlet, dessa vez para o cinema. Grande em sua ambientação, fiel aos monólogos, uma atuação tão magnífica que não se sentem os 242 minutos de duração do desenvolvimento da vingança do enlouquecido Hamlet. Excelentes atuações como a do próprio Branagh, a de Kate Winslet no papel de Ofélia, de Richard Attenborough, Billy Crystal, Robin Williams, Jack Lemmon, Charlton Heston, Gerard Depardieu e Judi Dench, entre tantos outros.

 

 

E como já foi dito anteriormente, com Shakespeare um nunca é suficiente, na sequência de Hamlet você verá Othello, filme de 1995 dirigido pelo britânico Oliver Parker e interpretado por Laurence Fishburne, Irène Jacob e Kenneth Branagh. Para Parker, este seria seu primeiro filme, cuja adaptação também seria sua primeira para o cinema. No entanto, quando estreou como cineasta, já fazia mais de uma década que era ator. Havia atuado em várias séries de televisão, especialmente em tramas policiais e detetivescas (alguns papéis, incluindo longas-metragens inspirados em Agatha Christie), assim como também em filmes do mestre do terror Clive Barker. Não poderíamos imaginar que seu primeiro filme seria sobre Shakespeare, embora mais tarde sua carreira foi dedicada a adaptar várias obras de teatro, não só de Shakespeare, mas de Oscar Wilde. No entanto, seu Othello é uma peça forte, um thriller acentuado, muito focado nas forças das atuações. Apesar de o personagem de Othello ser um fantoche para enganar e criar falsos ciúmes, Fishburne proporciona um poder sexual avassalador, que enfrenta muito bem os movimentos e a inveja do terrível Iago, papel do já anunciado Keneth Branagh, que é, aqui eu digo se já não disse antes, um dos maiores atores vivos do cinema mundial.

Você já sabe, nesta quinta-feira encerramos o ciclo de histórias que nasceram nos livros e deram um salto para o cinema, com dois filmes, Hamlet e Othello, inspirados no magnífico William Shakespeare. Quem perder, perderá muito.

Paixão, vingança, ciúmes, loucura, o melhor teatro do mundo, as melhores versões cinematográficas. O que você vê quando vê o Max?

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A Vida Durante a Guerra, ou a triste sátira dez anos depois

por max 19. abril 2013 07:48

 

Um ano antes do lançamento de Beleza Americana (American Beauty – 1999), um outro filme mostrava as obscuridades de uma família norte-americana dos subúrbios passeou por festivais de cinema e depois pelas salas especializadas com boa repercussão, seu título era Felicidade (Happiness). Seu diretor, Tood Solondz, fez uma história, uma "comédia", também familiar, também dos subúrbios, mas arrancou a cabeça de todas as bonecas. Aquele filme, de feliz não tinha nada. Ao contrário, a desgraça, a solidão, a neurose, a pedofilia, a infelicidade em geral, ocupavam cada segundo daquele trabalho que não era, sem dúvida, para qualquer um. Solondz demonstrou mais uma vez que não era um docinho. Fez o mesmo com Bem-Vindo à Casa de Bonecas (Welcome to the Dollhouse - 1995) outra comédia (sempre a partir da perspectiva do diretor) também muito brutal sobre uma menina, como tantas outras, que sofre abusos na escola e em casa. Este segundo filme de Solondz foi sucesso absoluto em Sundance e ganhou o Grande Prêmio do Júri; E Felicidade (Happiness), recebeu o prêmio dos críticos em Cannes. Em 1998, Solondz já havia se tornado um animal de festivais, um guru do cinema independente. Estes anos, os 90, foram os de furor do – chamado novo – cinema independente norte-americano, algo como um cinema de autor realizado por jovens, carregados da rudeza cool dos tempos pós-modernos, e que teve sua principal e mais calorosa mostra no festival de Sundance.

O fato é que Solondz havia conquistado seu espaço como diretor inteligente e mordaz. Era, como costumam se referir aos novatos, uma promessa. Mas Solondz não se deixou levar, não foi afetado pelo sucesso. Nem saiu correndo para fazer mais filmes. Seguiu no seu próprio ritmo. Daquele momento até 2011, dirigiu quatro longas, mas - quatro comédias, melhor dizer sátiras – que mantiveram o espírito crítico diante da sociedade norte-americana. Em 2001 lançou Histórias Proibidas (Storytelling), feito em dois capítulos ("ficção", e "não ficção"). O capítulo "Ficção" mostra a vida de um escritor ganhador do Pulitzer e que usa seu prêmio para conquistar alunas, e no "Não Ficção", mostra a gravação de um documentário sobre estudantes e seus familiares durante o processo do vestibular. Em 2004 lançou Palíndromos (Palindromes), um filme que, no início, se liga a Bem-vindos à Casa de Bonecas (Wellcome to the Dollhouse), para depois seguir seus próprios caminhos, uma história onde uma garota – novamente uma garota – vai da gravidez ao aborto, e também vai de seu amante caminhoneiro à uma instituição que esconde um grupo de assassinos fanáticos disfarçados de médicos para praticarem abortos. Sem dúvida, Solondz seguia seus próprios caminhos da incorreção. Seu último filme, de 2011, foi Dark Horse. A expressão "dark horse" tem o mesmo sentido que a expressão "ovelha negra". Nesta história tem duas ovelhas negras: Abe (Jordan Gelber) e Miranda (Selma Blair). Ele é um gordo ao estilo de George Constanza (lembra de Jason Alexander em Seinfield?) que coleciona bonecas e ainda vive em seu quarto da infância; ela, portadora de hepatite B, também volta a viver na casa de sua mãe após romper um relacionamento com um árabe. E por aí vai. Como se vê, Solondz tem seu próprio universo, seus temas, seus personagens já característicos. E isto fica ainda mais evidente em seu penúltimo trabalho. A Vida Durante a Guerra (Life During Wartime - 2009), um filme que parte das três irmãs que originalmente aparecem em Felicidade, para assim compor três histórias "femininas". De certa forma, A Vida Durante a Guerra lembra que, uma vez, Solondz seguiu os passos de Woody Allen (seu primeiro trabalho Fear, Anxiety & Depression – 1989, tem fortes marcas de Allen). A Vida Durante a Guerra também retoma Bill, o pedófilo de Felicidade, desta vez fora da prisão e em busca de redenção familiar. O papel originalmente interpretado por Dylan Baker, passa neste filme para Ciarán Hinds, de quem lembramos com mais clareza como o magnífico Julio César da série Roma, da HBO. No entanto, o que em Felicidade era uma sátira cruel de obscura luz, em A Vida Durante a Guerra ganhou um tom de comédia melancólica e nebulosa que não deixa de remeter a um filme rodado logo depois dos atentados de 11 de Setembro. A visão destas mulheres e destas famílias fica diferente porque parece que assim é o que pensa o diretor, que estamos em um país agora diferente. Fica claro que Solondz não está fazendo uma sequência ao estilo de Hollywood. Ele está contando seu mundo, o que é diferente de fazer uma sequência de Guerra nas Estrelas (Star Wars), e a este mundo, nesses tempos, se agrega a melancolia de um país que sofreu um duro golpe. No entanto, os temas de Solondz estão ali: pedofilia, estupro, homossexualidade, perdão, família, adolescência e maturidade, mas com tom mais político e ao mesmo tempo mais triste. Tudo, dez anos depois, sempre é mais triste.

A Vida Durante a Guerra, domingo 21 de abril. Cinema de autor, sátira, a sociedade contemporânea, crueldade. O que você vê quando vê o Max?

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Nova quinta-feira da série “do livro à tela”, agora com Norwegian Wood

por max 17. abril 2013 13:47

 

Tazaki Tsukuro Incolor e Seus Anos de Peregrinação é o nome do recém lançado romance de Haruki Murakami. Na noite anterior ao lançamento, dezenas de pessoas fizeram filas nas livrarias de Tóquio, todos desejando ser os primeiros leitores, os primeiros compradores dos 600.000 exemplares da história escrita por Murakami, retornando após uma ausência de três anos. Seus leitores precisavam seguir adiante no mundo de Murakami, um lugar maravilhoso, intuitivo, de imaginações delirantes, de dimensões ou lugares com suas próprias regras, que ao mesmo tempo são alegorias e metáforas da sociedade japonesa. Seu novo romance narra uma história de perda e solidão, que tem como cenário principal o tsunami que devastou parte do Japão em 2011. Como sabemos, aquele desastre trouxe grandes preocupações e questionamentos por causa dos danos causados aos muitos geradores de energia atômica que o Japão mantém. Murakami, crítico feroz da utilização da energia atômica (mesmo sendo com fins pacíficos), aparentemente dá ênfase ao espinhoso tema em seu romance. O título, como em muitos romances do autor, revela esse temperamento lúdico e extravagante, fantástico e maravilhoso que trilha em seus romances. Murakami é dos escritores que se distanciam da tendência realista da literatura. Mas, paradoxalmente (assim é o mundo da loucura), seu romance mais conhecido e que sequer virou um filme, é o seu único trabalho dentro da literatiua realista. Claro, podemos dizer que filmar uma história de Murakami é quase impossível, se não impossível, pelo menos é o trabalho para um grande estúdio de Hollywood. Mas, além disso, é verdade que um dos romances mais lembrados de Murakami é Norwegian Wood, uma história onde não há mundos paralelos, nem gente que fala com gatos, nem unicórnios, nem garotas que dormem dias inteiros. Escrito em 1987, depois de um trabalho nitidamente fantástico como O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo (1985), Murakami apresenta um drama realista sobre a conquista da maturidade e o confronto com a morte (por suicídio), com uma forte presença da loucura, do amor e do sexo na juventude. Em certa ocasião, o autor declarou que nunca teve interesse em escrever romances realistas, que esse tipo de escrita o aborrece, mas decidiu, mesmo que uma única vez, escrever um. Norwegian Wood é o resultado, "um simples experimento", como declarou.

Naturalmente, um romance com essas características é conteúdo perfeito para os realizadores de um cinema mais inteligente, calmo e artístico. E não é estranho que o premiado diretor vietnamita Tran Anh Hung (O Cheiro da Papaya Verde - The Scent of Green Papaya, Entre a Inocência e o Crime - Cyclo, Fugindo do Inferno - I Come with the Rain), fez a versão cinematográfica. Norwegian Wood (2010) capta com sutileza o verdadeiro tom proustiano da obra (partimos de uma lembrança, uma canção dos Beatles, que faz a protagonista Toru Watanabe viajar no tempo), carregando o filme de um poder visual e de uma luz onde os personagens entram e saem de sua escuridão em uma busca desesperada pela felicidade e pelo sentido da vida. Essa lembrança de Watanabe nos leva a este micro universo íntimo onde a dor e a morte se transformam em uma grande sombra, mesmo com a lentidão do desenvolvimento da juventude e do crescimento de seus personagens.

Norwegian Wood, continuando a série "do livro à tela", nesta quinta 18 de abril. Literatura, cinema, juventude, suicídio, crescimento. O que você vê quando vê o Max?

Polissia, o mundo impuro do abuso infantil

por max 12. abril 2013 14:21

 

Como faz para resistir quem enfrenta todos os dias uma das piores trevas da humanidade, o abuso infantil? Essa parece ser a pergunta que faz a diretora, roteirista e atriz francesa que foi a esposa de Luc Besson, conhecida pelo nome único de Maiwenn.

Primeiro, dizem, ela viu documentários sobre o abuso infantil (os documentários de Virgil Vernier). Depois, decidida a fazer um trabalho a respeito, solicitou passar um tempo na unidade especial para o abuso ao menor de idade da polícia de Paris. A experiência que teve ali refletiu em seu roteiro que logo ficou completo com a também diretora, atriz e roteirista, Emmanuelle Bercot, e que mais tarde se tornou Polissia (Polisse – 2011). É um filme mosaico, totalmente coral, daqueles que entram nas casas, nos segredos, nas inocências e nas trevas que se movem ao redor do mundo do abuso infantil. Pedófilos, crianças batedoras de carteiras, pais abusivos, a violência sexual entre os adolescentes e crianças que, apesar dos abusos, sentem afeto pelos abusadores ("ele era bom comigo"). Os policiais que trabalham nesse departamento vêem diariamente tudo isso e muito mais. Suas vidas são mantidas ali, em um equilibrio precário que, como este filme, se movimenta entre a ficção e a realidade. Porque assim, a diretora realizou um filme que se move entre ambos os mundos, entre o cenário imaginário e o documental. Essa ficção funciona como um muro, uma forma de testemunhar o terrível. A ficção, como sempre, nos ajuda a continuarmos vivos. Porém, o muro desse mundo precário se rompe quando aparece uma fotógrafa e jornalista ministerial (interpretada pela própria Maïwenn), que se encarrega de documentar as atividades destes policiais. O segundo longa de Maïwen, que lembra um pouco a cultuada série policial A Escuta (The Wire), mergulha neste mundo onde não há mais que um realismo cru, mas ela faz, apesar do estilo documental, em proporção correta uma estética de cinema policial. A Alma suporta até onde suporta. A ficção é a ferramenta para conhecer e conscientizar as facetas do mal que os homens fazem e vivem.

Polissia (Polisse), ganhador do Prêmio do Júri em Cannes. Neste domingo, 14 de abril. Realismo brutal, ficção como salvação, vidas a flor da pele. O que você vê quando vê o Max?

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Continuação do especial do livro à tela, agora com “2001 – Uma Odisseia no Espaço”

por max 10. abril 2013 15:39

 

Muitos filmes de Stanley Kubrick são baseados em romances anteriores. 2011: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey – 1968) é um caso especial no que diz respeito à referida característica. Mais que em um livro, o filme tem sua origem em dois contos curtos de Arthur C. Clarke, que posteriormente foram transformados em um romance e, paralelamente, em um roteiro para o cinema. Originalmente Kubrick se aproximou de Clarke, pois queria fazer um filme de ficção científica. Clarke gostou da ideia e começaram a trabalhar nas propostas. No final, tinham dois contos de Clarke (especialmente A Sentinela) e decidiram ampliar, transformando em romance e depois em roteiro. Essa maneira particular de trabalho teve como resultado o livro e o roteiro, que foi escrito em paralelo; Kubrick ficou mais ocupado com o roteiro, e Clarke se ocupou com o romance, mas sempre em processo de feedback.

Como os outros filmes de Kubrick, 2001: Uma Odisseia no Espaço começa sem os créditos iniciais, o que não era normal no final dos anos sessenta, e que se tornou uma marca do autor. Tem a apresentação da produtora, que no caso de 2001 é a Metro, depois vem o crédito de Kubrick como produtor e o título do filme. Nada mais, nenhum crédito dos atores, nenhum dos outros produtores, nem dos escritores.

Kubrick, como sabemos, foi um inovador no cinema em muitos sentidos. Em 2001: Uma Odisseia no Espaço, a utilização da música extra diegética (aquela que não foi criada exclusivamente para o filme), experimenta uma mudança importante, especialmente porque Kubrick utiliza música clássica ou acadêmica para algumas cenas chaves. Uma das mais conhecidas é Assim Falou Zaratustra (Also Sprach Zarathusta) de Richard Strauss. Como já falamos, a peça de Strauss é utilizada no início do filme, e proporciona uma excelente abertura, é um clássico do cinema. Nunca uma música que não foi produzida para tal imagem foi tão consciente, tão perfeita, como se tivesse sido feita para isso. Esta abertura, cabe dizer, nos leva logo a uma história pensada a fundo e trabalhada com rigor e muita calma. No entanto, Kubrick não deixou de lado o desenvolvimento tecnológico, ou seja, os efeitos especiais. O filme é todo um conjunto imaginário tecnológico, trabalhado pelo cineasta com a supervisão de Fred Ordway e Harry Lange, dois especialistas em tecnologia avançada e que trabalharam na NASA. Foi realizada uma exaustiva investigação de novas tecnologias e de possibilidades no futuro. Foi como eu disse, o conselho de dois especialistas além do especialista em modelagem para o cinema, Anthony Masters. Tudo foi projetado com muito cuidado, tanto que nem um botão poderia aparecer sobre um console sem ter uma função; tudo devia ser absolutamente justificado, ter uma função "real". O nível de exigências e mudanças passou a criar sérios conflitos entre Kubrick, os especialistas e a equipe de construção dos projetos.

O diretor de fotografia foi o veterano Geoffrey Unsworth, que deixou o filme por outros compromissos profissionais (apesar de ter se dado muito bem com Kubrick). Em seu lugar entrou Alcott, com quem Kubrick também se deu muito bem. Usaram muitos planos abertos, e na fotografia, nítida e detalhada, as cores foram apresentadas sem muita satuaração, um cenário sútil e limpo, com muitas curvas polidas e brilhantes, e com fontes de luz suaves e que não estavam o tempo todo determinadas. Se buscava que a luz ocupasse todos os espaços. Em outro momentos, há uma forte presença do vermelho, para dar uma sensação de perigo, de alarme tecnológico.

E isso nos leva de volta para a trama. 2001: Uma Odisseia no Espaço é um filme com poucas palavras, de desenvolvimento lento. Um capítulo é protagonizado por primatas que estão longe da língua humana. Então, em naves e estações espaciais tem poucos tripulantes, com vida monótona e tempo limitado para o diálogo. No entanto, o ato comunicativo é fundamental. O monólito que gera toda a trama emite um sinal, de alguma maneira se comunica, ou finge se comunicar, talvez afim de atrair e depois de perder aqueles que se aproximam. O HAL 9000, o computador, fala, se "comunica". Mas com o HAL não há garantia que a comunicação seja recíproca, que as palavras servirão para alguma coisa. HAL não quer uma troca, sua vontade é imposta, quer cumprir sua missão: suas palavras escondem um silêncio. A comunicação humana, a comunicação com as máquinas, o discurso. Somos palavras, mas também somos silêncios profundos, áreas desconhecidas de nós mesmos que podem nos elevar ou nos afundar em um abismo. Essa necessidade, essa busca para encontrar nossas origens, surge talvez da capacidade de falar. Mas essa capacidade de falar, talvez faça nos perder nas respostas.

Não esqueça, 2001: Uma Odisseia no Espaço, no ciclo especial do livroa à tela, que o Max apresenta em todas as quintas de abril.

O futuro, ou um filme pessoal de Miranda July

por max 5. abril 2013 06:38

 

Muito estilo, muita pesquisa para contar de outra forma, momentos altamente oníricos e outros poéticos: é o que Miranda July traz em seu segundo filme, O Futuro (The Future, 2011). A diretora, atriz, escritora e artista plástica que ganhou o Caméra D'or em Cannes 2005 por Eu, Você e Todos Nós, agora conta a história da crise de um casal que começa, por sua vez, com outra crise, a da idade. O que acontece quando o futuro já é o presente? O que acontece quando você percebe que tudo o que queria fazer ficou para trás? O que acontece quando talvez seja tarde demais? Para Jason (Hamish Linklater) e Sophie (Miranda July) esse momento chega com a adoção de um gato chamado Paw Paw. Diante do espectador, esse gato pensa, seu pensamento aparece em off, sobre o casal, e só se vê suas patas (e uma está ferida). Entre o que o felino está dizendo e o que se vê do casal, assiste-se o desmoronamento dos dois e como surge uma repentina necessidade de fazer algo com a vida em 30 dias, que é o suposto tempo de recuperação do gato na clínica, como se a volta do bichinho fosse o nascimento de uma criança, uma âncora que impedirá de realizar os sonhos, como se com essa volta toda oportunidade de crescer espiritualmente se apagasse para sempre.

Miranda July faz uso de sua bateria multidisciplinar. Ela aparece atuando e numa margem, onde fica difícil dizer se é ela ou a personagem. Ou melhor, se a personagem é ela. O Futuro é daquelas que não deixa nenhuma dúvida de que se trata um filme muito "pessoal".

O Futuro, domingo 7 de abril. Cinema independente, crises da idade, crises de casais. O que você vê quando vê o Max?

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Série de filmes do livro para o cinema

por max 3. abril 2013 03:36

 

Em Da Literatura ao cinema: Teoria e análise da adaptação (2000), José Luis Sánchez Noriega diz que em 1908 produtoras como Pathé, começam a dar um brilho artístico ao cinema. A mesma Pathé fundou a SCAGL (Sociedade Cinematográfica de Autores e Pessoas de Letras), e posteriormente a Film d´Art. Contrataram escritores, dramaturgos, atores de teatro, músicos talentosos, com o objetivo de adaptar os romances de Alexandre Dumas, Walter Scott, Victor Hugo, Shakespeare e outros autores da antiguidade clássica. A Alemanha, que prefere argumentos originais, contrata escritores para criar suas histórias, diz Sánchez Noriega. Também W. C. Griffith falaria da influência de Dickens em seu estilo. Explica o filósofo Juan Nuño no ensaio Cinema e Literatura (1989).

 

"A grande inovação produzida por Griffith consistiu em tornar a narrativa cinematográfica em uma autêntica narrativa literária. O filme decola e sai do quadro estreito de teatralidade como havia localizado Meliès e os primeiros criadores, e tudo isso graças a Griffith que se inspira em Dickens e cria para o filme um estilo cópia literária"

 

Em Dickens, Griffith e nós (1994), S. M. Eisenstein destaca a união entre o cinema e a literatura, e falando de suas próprias influências nos referimos a Tolstói, Flaubert e Zola. Essa influência, observa Nuño, é dada sobre os planos. Ou seja, a cena teatral (fixa) torna-se plano e movimento, e essa é uma das grandes heranças da literatura narrada no cinema. O que os une, não é somente a adaptação de uma história, mas também uma maneira de olhar o mundo.

Esta relação existe, sem dúvida, desde o início do cinema. Da tipografia à imagem, o trabalho da tradução de um "formato" a outra conhecida adaptação, a livre inspiração, a versão, o comentário, a mistura entre a biografia e a ficção. E claro, a narrativa, as histórias, sempre estão ali, fazendo ponte entre ambos os mundos, tão semelhantes e tão diferentes ao mesmo tempo.

 

Este mês, todas as quintas, o Max traz uma série de filmes que tem a ver com o cinema e a literatura, uma série especial que vai do livro para a tela.

Eis os filmes que serão exibidos:

 

Quinta-feira 4: Uivo (Howl) original de Allen Ginsberg.

Quinta-feira 11: 2001: Uma Odisséia no Espaço, original (em parte) de Arthur C. Clark.

Quinta-feira 18: Norwegian Wood, original de Haruki Murakami.

Quinta-feira 25: Hamlet e Othello, original de William Shakespeare.

 

 

O especial cinema e literatura começa na quinta, 4 de abril, com Uivo (Howl - 2010), de Rob Epstein (ganhador de três prêmios no Festival de Berlim e de dois Oscars de Melhor Documentário) e Jeffrey Friedman (ganhador de três prêmios em Berlim junto com Epstein). O Uivo torna elementos biográficos que se inspira em seu lugar no famoso poema de uma dos maiores poetas beat norte-americanos, Allen Ginsberg. Entre a animação, o estilo documental, a poesia e o drama, o filme é uma peça experimental e de um espírito independente e traz James Franco em um papel forte e alucinante. Cheio de conflitos entre a homossexualidade como bandeira literária e os ideais estéticos que resulta ao mesmo tempo nitidamente políticos, Ginsberg é apresentado como um personagem atormentado e lutador, apesar de seu temperamento nirvânico, ou quase alienígena. Tanto a personalidade do poeta, como o poema, são responsáveis por terem a mesma carga dramática. Lembrando que em 1955 o poeta Lawrence Ferlinghetti recitou o Uivo por meio de performance artística na famosa livraria City Lights, e alguns dias depois, ele foi preso por isso. A acusação: propagar, disseminar, recitar literatura obscena. Você pode não acreditar, mas Ginsberg e seu poema são levados a julgamento. Ambos acusados de indecência. O julgamento, por sua vez, é um dos pilares fundamentais do filme, fortaleza que nos lembra a luta pela liberdade, pela beleza e pelo direito de amar quem quisermos. Franco, em seu papel, demonstra sua coragem e talento. Os diretores, deixam claro seus pontos de vista em um filme muito digno.

Não esqueça, Uivo, quinta, 4 de abril, iniciando a série de filmes que começam no livro e pulam para as telas do cinema. Amor pelo cinema, amor pela literatura. O que você vê quando vê o Max?

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