Um quarto em Roma, ou algumas horas dentro do corpo de duas mulheres

por max 19. março 2013 14:55

 

Bom, a ideia era fazer um remake de Na Cama (En la Cama), do chileno Matías Bize. Mas Julio Medem, aquele que nos fascinou com Lúcia e o Sexo (Lucía y el Sexo – 2001 e com O Esquilo Vermelho / La Ardilla Roja - 1993), queria algo mais para envolver todo o tema, fez que o casal tivesse, nesse caso, duas mulheres.

 

 

Assim surgiu Um Quarto em Roma (Habitación en Roma – 2009), filme ambientado em Roma, mas em um quarto de Roma, e em poucas horas; somente as poucas horas que dura o romance dessas duas mulheres que, por acaso, se conhecem em um bar e então decidem ficar juntas e ver como se saem com sexo e um bom papo.

 

 

Elas conversam sobre suas vidas, suas frustrações e alegrias e, em suas histórias, o real e o imaginário se misturam. A beleza de dois corpos nus de duas atrizes magníficas e que estão muito bem, Elena Anaya e a ucraniana Natasha Yarovenko, acompanhadas de delicadeza, sem intenções propriamente escandalizadas, de cada momento deste filme delicado.

 

 

Às vezes, no silêncio de um quarto, se vive toda uma vida e o seu grande amor. Assim fazem essas duas personagens distantes e diferentes, duas mulheres que entraram não só nas profundezas de seus corpos, mas também de seus espíritos.

 

Um Quarto em Roma (Habitación en Roma), domingo 24 de março. Paixão, intimidade, controvérsia, beleza. O que você vê quando vê o Max?


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Target, a realidade virtual e a eterna juventude

por max 19. março 2013 14:15

 

A realidade virtual é uma vida onde tudo é exagerado. A série de filmes Matrix (The Matrix) mostra o combate do corpo a corpo exagerado, a capacidade inenarrável de saltar, de dar golpes velozes, de dar mil socos em alta velocidade. Em um jogo de realidade virtual pode-se voar até uma boate (voar literalmente, exageradamente), entrar, conseguir alguém para dançar em cinco segundos, dançar charmosamente (mesmo sem saber dançar), conquistar uma mulher e transar com ela quase que imediatamente. Em outro jogo, você pode assassinar centenas de monstros, centenas de zumbis. A aventura sensacionalista, exagerada, a vida recarregada, aprimorada. A realidade virtual é uma utopia, um lugar para fugir de nossos corpos e levar uma vida melhor. Isso nos lembra Michel Foucault em O Corpo Utópico:

 

"O prestígio da utopia, a beleza, a maravilha da utopia a que se devem? A utopia é um lugar fora de todos os lugares, mas é um lugar onde eu terei um corpo sem corpo, um corpo que será belo, límpido, transparente, luminoso, rápido, colossal em sua potência, infinito em sua duração, desligado, invisível, protegido, sempre transfigurado." (Foucault, p.8)

 

A realidade virtual como forma de utopia também se refere à busca da eterna juventude. Aquele corpo virtual deve ser perfeito em sua aparência mais jovem. Em nossos tempos, a juventude, o aspecto juvenil, mais parece ser a utopia daqueles que já não são mais jovens. O fenômeno parece se acumular, especialmente naqueles que têm todo o material ao seu alcance. Na ânsia de ter mais, também se esforçam para se tornar uma juventude plástica, na moda, desesperada.

Target (The Target – 2011), dirigido pelo veterano russo Alexander Zeldovich (que em 27 anos de carreira teve apenas quatro filmes), com roteiro do polêmico (que causou problemas a Putin e seu partido) romancista Vladimir Sorokin, nos mostra uma história que acontece dentro de uma sociedade utópica aparentemente perfeita, por trás da qual se move a mediocridade de raças mais prósperas. Porque, sem dúvida, parece que nos encontramos diante de uma sociedade medíocre, uma sociedade que chegou com facilidade ao seu estado de perfeição. A Rússia, que aqui é apresentada linda e futurista, chegou onde chegou por ser um lugar de passagem, um enorme escritório entre dois grandes espaços de comércio internacional. Nada parece ter ocorrido sem esforço. No filme, a Rússia é um lugar de obrigação, um lugar que se enriquece por si mesmo; um país virtual, porque tudo acontece na velocidade do virtual, porque tudo é exagerado na riqueza, porque tudo parece ser muito perfeito... menos a velhice. Nesta Rússia, como já dito, surgiu um sistema de castas e os protagonistas de Target são os de mais alto nível. Um Ministro de Recursos Energéticos, sua esposa, uma atriz da Televisão russa e um coronel encarregado da segurança no trânsito entre as fronteiras. Todos estão ansiosos e confiantes, em uma viagem para uma região distante, próximo à Mongólia, em busca de uma fonte da eterna juventude que, supostamente existe, pois é resultado de alguma estranha irrigação de um antigo laboratório de astrofísica. Logo, os privilegiados descobriram a deusa da cura, mas também encontraram com os exageros de suas virtudes e defeitos. Tudo por causa deste benefício da juventude exagerada, ficará exagerada neles. Viverão a utopia de seus corpos e, esta utopia vivida, mais que um presente dos deuses, será uma queda no abismo. Assim deve ser para aqueles que só conhecem o egoísmo, miséria e mediocridades, tudo aquilo que é obscuro no homem, tudo aquilo que em si não é virtual, que em si é muito, muito humano.

Uma produção russa muito cuidadosa, muito bem pensada, clara, nítida em seu objetivo e em sua produção; um drama profundo sobre utopia, mesquinharia, desejo, poder político, sobre a sociedade contemporânea em geral, tão perto de seus desejos de virtualidade, que só vive no egoísmo.

Target (The Target), quinta-feira 21 de março. Realidade virtual, distopia, eterna juventude, miséria humana. O que você vê quando vê o Max?

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A Cabana, ou a loucura na floresta

por max 19. março 2013 10:24

 

Alucinante, profundo, A Cabana (Die Summe Meiner Einzelnen Teile – 2011), de Hans Weingartner, mergulha no drama de um jovem matemático que, após sair de um hospital psiquiátrico, é rejeitado pela sociedade. É uma máquina que quebrou, entrou em manutenção e, como toda máquina que sofre uma avaria, a sociedade acredita que não está funcionando bem, apesar de ter voltado a trabalhar. Até poderíamos dizer que Weingartner consegue bons resultados trabalhando com terror, porque às vezes o filme cai em alucinação, violência e desespero. A loucura do matemático protagonista do filme (Peter Schneider) segue por esses caminhos. A cidade o rejeita, a cidade o mergulha no terror, até que, certo dia conhece um garoto ucraniano (Timur Massold), que mora em um chalé, e juntos vão para a floresta e constroem um pequeno refúgio. Esse tempo na floresta é cheio de descobertas, mas nem todas, claro, são boas. Ambos descobrirão a escuridão da alma humana, uma escuridão que é, na realidade, a verdadeira forma de loucura, destrutiva, maligna. Com uma direção carregada de toques expressionistas, com obscuridades e momentos de tensão, e uma câmera ágil, mas não desorientada, Hans Weingartner apresenta um filme onde deixa evidente a loucura do mundo e não a loucura clínica.

A Cabana (Hut in the Woods), sábado 23 de março. Loucura, drama, terror. O que você vê quando vê o Max?

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Beleza Adormecida, ou a sorte de Julia Leigh

por max 15. março 2013 13:17

 

Julia Leigh, diretora de Beleza Adormecida (Sleeping Beauty – 2011), é uma mulher de sorte. Tem 42 anos, é australiana (o que pode não ter a ver com sorte, mas é preciso dizer), uma reconhecida romancista e também diretora de cinema. É jovem, mas antes de ser a jovem que é hoje, antes, quando era ainda mais jovem, ganhou o Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative, uma espécie de bolsa de estudos das letras que é realizada sob a orientação de um escritor renomado; e no caso de Julia, ela teve a assessoria do romancista ganhador do prêmio Nobel, Toni Morrison. Seu primeiro romance, O Caçador (The Hunter), foi traduzido para nove idiomas, e também transformado em filme por Daniel Nettheim (com Willem Dafoe e Sam Neill nos papéis principais).

Julia Leigh contou que a partir do sucesso de O Caçador, começou a sonhar com alguém, uma espécie de demônio, observando-a enquanto dormia. O sonho lembra o filme A Estrada Perdida (Lost Highway) de David Lynch. Em A Estrada Perdida, os personagens protagonistas (Patricia Arquette e Bill Pullman) recebem um vídeo onde descobrem que são gravados enquanto dormem. E também podemos lembrar Caché (2005) de Michael Haneke, onde Juliette Binoche e Daniel Auteuil também recebem um vídeo onde descobrem que a parte de fora de sua casa é constantemente gravada. Ser vigiado, observado dessa maneira nos lembra nossa impotência. Somos vulneráveis diante de olhares espiões. Esses olhares têm poder sobre nós. É um poder, é o poder.

Julia Leigh ficou com a ideia desse sonho-demônio em sua cabeça e, um tempo depois, fez seu primeiro filme: Beleza Adormecida (Sleeping Beauty), título que, sem dúvida, nos remete aos contos de fadas, como A Bela Adormecida, mas também a assuntos muito mais perversos (um conto de fadas já é perverso).

Leigh confessou em uma nota sobre o filme que já conhecia Memória de Minhas Putas Tristes (Memoria de Mis Putas Tristes – 2004), romance de Gabriel García Márquez em que um jornalista decide celebrar seu aniversário de noventa anos dormindo com uma prostituta menor de idade. No romance, a jovem Delgadina dorme para que o idoso possa contemplá-la, só isso. Sem dúvida, existe uma influência direta e confessa.

Pelos lados da prostituição, vemos outras referências. Leigh fala da história de Salomão, que mandava trazer jovens prostitutas para sua cama. No cinema (disso Leigh não falou), contamos com A Bela da Tarde, de Buñuel. Do mesmo modo podemos ir a mundos mais sórdidos, onde a prostituição e a luxúria dos poderosos se misturam. Temos Réquiem Para Um Sonho (Requiem for a Dream – 2000) de Darren Aronofsky e De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut), último filme do grande Stanley Kubrick.

Julia Leigh apresenta uma combinação de todos estes elementos em Beleza Adormecida, a história de uma linda garota com um lado obscuro que nunca fica claro, porque não importa. Esta linda garota é Emily Browning (Desventuras em Série - Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events), que desde seus primeiros filmes se revelou como um rosto exótico, que no futuro poderia aprofundar essa perfeição em filmes de tom mais sensual. Sua participação em Beleza Adormecida é perfeita. Em seu rosto, em seu olhar, em sua delicadeza selvagem tem algo de obscuro, da noite que cai, da tentação de uma serpente interior. Por isso, não é estranho quando sua personagem Lucy aceita um trabalho particular: em troca de um bom dinheiro, ela se deitará para dormir e enquanto dorme, idosos burgueses, cheios de dinheiro, se deitam com ela e fazem o que quiserem com o seu corpo... tudo, menos penetração. Sua virilha é um templo proibido. O olhar espião está ali presente, aquele olhar que, como já disse, é poderoso.

Mas tem mais. Uma vertente dos significados do poder está relacionada com a velhice. Os idosos acumulam, ao longo do tempo, influências, dinheiro, conhecimento. O diabo sabe mais que o velho diabo. E o idoso com dinheiro é, com certeza, uma metáfora da corrupção da alma humana. Mas a esse idoso que tem tudo, algo lhe foi negado: a juventude, o corpo da juventude. Suas ânsias, nostalgias, seu desejo por aquilo que não poderá ser nunca mais, se traduz em mãos que buscam tocar a suavidade perdida. O corpo tocado se transforma em espelho do desejo. A imagem refletida.

Beleza Adormecida, domingo, 17 de março. Juventude, desejo, velhice, poder. O que você vê quando vê o Max?

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11:25 The Day He Chose His Own Fate, o caminho do guerreiro Mishima em vídeo

por max 14. março 2013 07:22

 

Existe a sensação de que a vida de muitos escritores japoneses conhecidos no mundo ocidental é planejada da cabeça aos pés. O escritor, Haruki Murakami, é um modelo de disciplina tanto na escrita, como no esporte, como na vida. Yukio Mishima é outro atleta do espírito. Marguerite Yourcenar registra em Mishima ou a Visão do Vazio (Mishima), que sua vida foi "tão calculada quanto sua obra". Alguns dizem que quando tomou o quartel general de Tóquio do comando Oriental das Forças de Autodefesa do Japão, ele já tinha certeza que iria morrer, e que tornaria sua morte um ritual. Em 25 de Novembro de 1970, Mishima entregou seu último romance ao seu editor, e também deixou um dinheiro reservado para aqueles que sobrevivessem à tomada do quartel.

Mishima se inspirava na lei do caminho do guerreiro ou samurai (bushido), caracterizada pela luta espiritual contra o excesso e por um pensamento constante na morte. O caminho do samurai, assim diz a lei, se encontra na morte. Mas essa morte deve ser com disciplina, coragem. No entanto, um bushi (ou samurai) não ansiava pela morte. O samurai tem uma vida disciplinada. A morte é uma questão de honra, a morte é uma exaltação da vida que não se pode mais viver dignamente. Neste contexto, Marguerite Yourcenar (sempre olhando para Mishima), comenta que "o desejo da morte é comum em seres dotados de paixão pela vida".

Direitista e defensor do Imperador, o que já foi dito, seguidor dos códigos de conduta do caminho do guerreiro, Mishima via com maus olhos a expansão que estava acontecendo no Japão no final dos anos sessenta e início dos anos setenta. Cabe dizer que Mishima foi uma espécie de "Pop Star" de seu país em sua época. Era escritor, compositor, campeão de artes marciais, ator e também modelo (tinha um corpo bem definido, chegou a ser fotografado nu). Ele pulou de um extremo a outro, da cultura à celebridade com grande facilidade. Contudo, por trás daquele homem excêntrico que gostava da fama, havia uma paixão muito forte pela política. Mashima formou seu próprio exército, o Tate-no-kai. Embora dizer "exército" talvez seja um exagero. Mas Mishima tinha suas próprias pessoas, treinadas para a guerra com seus próprios uniformes. Lembrando que após a Segunda Guerra Mundial, o Japão perdeu o seu exército, e isso para Mishima foi vergonhoso, tão vergonhoso como ver o país entrando cada vez mais na corrente do Ocidente. Mishima, como um bom seguidor do caminho do guerreiro, decidiu protestar contra aquilo que lhe parecia uma grande desgraça. Além disso, como um bom samurai, sabia que se rebelar contra a autoridade traria o suicídio.

11:25 The Day He Chose His Own Fate (2012) gira em torno dos últimos dias de vida de Yukio Mishima. O filme é dirigido por Kōji Wakamatsu e possui um forte tom político que permite um olhar profundo a aspectos da cultura japonesa como o sentido do coletivo, a honra, a tradição, a disciplina e o passado através da figura de Mishima. Um filme que seguiu os caminhos da gravação em vídeo, como se fosse, ironicamente, paradoxalmente, de uma telenovela transmitida por todos os televisores do país, como se aquele fato real e trágico fosse uma fantasia que se vive nas telas da TV e não tem nada a ver com o país. Assim, o formato utilizado se transforma, desde a perspectiva do cineasta, em uma crítica à sociedade contemporânea. É como se Wakamatsu soubesse, como se suspeitasse que aquela recriação da morte do homem preocupado pela degradação de sua nação se tornaria uma história de telenovela que vive e morre na tela, como um espetáculo; uma história que por mais que diga grandes verdades, vai ficar debaixo da mesa. Quem sabe, às vezes um ato heroico pode ser uma simples loucura, uma simples estupidez, e é melhor esquecer.

11:25 The Day He Chose His Own Fate, quinta 14 de março. Honra, vergonha, loucura, política, heroísmo, morte. O que você vê quando vê o Max?

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Inquietos, ou paixões juvenis de Gus Van Sant

por max 8. março 2013 11:57

 

Gus Van Sant ficou por mais de três décadas explorando a inquieta alma juvenil e seus extremos. O mundo das drogas em Drugstore Cowboy (1989), a prostituição em Garotos de Programa (My Own Private Idaho - 1991), a loucura e o horror dos assassinatos nas escolas em Elefante (Elephant - 2003), a decadência, a pressão da fama e o suicídio de um jovem astro do rock em Últimos Dias (Last Days - 2005), a culpa de um skatista e o assassinato em Paranoid Park (2007).

Depois de flertar com grandes estúdios e dar um tapa na mesa do Oscar com Milk – A Voz da Igualdade (Milk) em 2008, o cineasta está de volta com as velhas obsessões em Inquietos (Restless – 2011), o drama de um jovem casal que vive rodeado pela presença da morte. Ela, Annabel (Mia Wasikowska), sofre de um câncer fatal (tumor cerebral), uma garota bela e doce, obcecada por Darwim e pássaros aquáticos. Ele é Enoc (Henry Hopper), um rapaz que tem o hábito de visitar funerais de pessoas desconhecidas e que também conversa com o fantasma (supõe-se que é um fantasma) de um kamikaze japonês. Ambos personagens esboçam uma maturidade resolvida apesar de tão jovens (idade que pressupõe inquietude do espírito), dada pela relação estreita com a morte, que os faz sentir finitos, e sua admiração pela existência. A maturidade alinhava todo o filme, mas também vem acompanhada dos conceitos do horror e da nobreza (daí o kamikaze), elementos que ajudam a enfrentar e assumir a morte. Assim, com esse retorno a um estilo muito indie, orçamento muito baixo, filme pequeno e delicado, Van Sant nos leva através do labirinto da morte e do amor; o amor como forma de combater a morte, e não morrer na vida exaltada pela paixão. A inquietude juvenil dos filmes de Van Sant continua aqui presente (restless, inquietude, por isso minha insistência com a palavra em todo texto), mas agora colorida por esse destino implacável – essa grande presença – que é o fim da vida. Inquietos é uma fábula romântica, mas ao mesmo tempo gótica, uma fábula mórbida, ao estilo de Gus Van Sant, ainda mais delicada do que muitas vezes o autor realizou.

Inquietos, domingo, 10 de março. Amor, morte, juventude. O que você vê quando vê o Max?

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Especial Dia Internacional da Mulher

por max 7. março 2013 15:10

 

O Max acredita nas mulheres. Mais que acreditar, está com as mulheres. O Max sabe que as mulheres são as protagonistas absolutas desses tempos, por isso preparou um especial dedicado a elas, nesta sexta, 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

 

Comece a sexta-feira dedicada a elas com A Fonte das Mulheres (La Source des Femmes - 2011), do cineasta franco-romeno Radu Mihaileanu. A história de um grupo de mulheres que, como na comédia Lisistrata escrita por Aristófanes, decidem deixar de levar água de um poço aos homens da aldeia, que nunca levantaram um dedo para ajudá-las. Leila (Leila Bekhti) é a protagonista desta história ambientada em algum povoado ao norte da África.

 

 

O especial continua com Potiche – Esposa Troféu (Potiche - 2010), comédia de François Ozon protagonizada por Catherine Deneuve, uma dona de casa muito bonita e muito bem vestida, que um dia decide deixar de ser um adorno caro (o que em francês se entende como potiche) e se transforma em uma líder da fábrica de guarda-chuva de seu marido. Contamos também com a participação de Gérard Depardieu, no papel de um velho amante, que também faz parte da nova vida da ex-dona de casa decorativa. Uma comédia leve, perspicaz, inteligente, além de estridente, cheia de cores e imaginação kitsch, pois o filme é retratado nos anos setenta.

 

 

E finalizamos com Vincere (2009), do veterano diretor Marco Bellocchio, um filme apaixonado, grande, dramático, que conta a história de Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), primeiro amor de Benito Mussolini (Fillippo Timi), primeira esposa e mãe de um menino com o mesmo nome, Benito Albino (também interpretado por Fillippo Timi). A história narra os primeiros anos do amor de Mussolini e Ida, mostra como ela foi suporte para ele, até mesmo econômico (vendeu tudo que tinha para financiar suas atividades políticas), e mostra também, em uma dura e comovente segunda parte, como anos depois, Duce já no poder, essa mulher foi repudiada e perseguida a fim de esconder o segredo de juventude do líder nacional-socialista.

 

Você já sabe, sexta-feira 8 de março, aproveite o especial do Dia Internacional da Mulher que o Max preparou para você com os filmes A Fonte das Mulheres, Potiche – Esposa Troféu e Vincere.

 

Mulheres lutadoras, drama, comédia, filmes de primeira, o que você vê quando vê o Max?

Lunar, a referência de Duncan Jones

por max 7. março 2013 04:30

 

Lunar (Moon, 2009), primeiro filme de Duncan Jones, não situa um momento exato no futuro em que o lado escuro da lua é uma imensa mina de onde é extraído um material conhecido como Helio-3, indispensável na Terra para o funcionamento dos reatores de fusão que movem a civilização. Estamos em uma grande operação controlada por uma corporação, que está sob o cuidado de um único homem, pois a base e as três escavadoras são totalmente computadorizadas e robotizadas. Sam Bell (Sam Rockwell) é apenas o fator humano necessário para manter a operação. Existe um contrato de 3 anos e a única companhia é GERTY, um robô com inteligência artificial com a voz de Kevin Spacey. A história nos coloca no momento em que está chegando o período do fim do contrato. Em duas semanas, Sam espera voltar para casa. Mas antes, algo estranho acontece. Sam começa a ter visões, que lembram um pouco o clássico Solaris (1972) de Andrey Tarkovskiy. Tanto em Lunar como em Solaris, a alucinação é uma imagem agradável, uma espécie de urgência da mente, a projeção de uma necessidade. De que algo não está bem na cabeça. No entanto, enquanto em Solaris, a ocorrência de alucinações femininas e a concretização é parte fundamental da trama, no filme de Duncan Jones parece ser uma homenagem ao próprio Tarkovskiy. Embora também, devo dizer, é um indício do que está prestes a acontecer com Sam. Ele está sofrendo um desgaste e a aparição de uma mulher é parte desse desgaste..

As referências do filme estão, sem dúvida, muito presentes no filme de Duncan Jones. GERTY nos leva ao HAL de Kubrick. Como HAL, GERTY controla o mundo de Sam, ele busca facilitar, mas ao mesmo tempo, o controla. GERTY, como HAL, é a marca do poder, que faz os moradores da estação espacial nos dois filmes lembrarem que não são eles que mandam no lugar, que os humanos estão ali porque alguém os mandou, alguém de longe, mas alguém com poder.

Um erro de GERTY permitirá que Sam descubra uma terrível verdade. As máquinas, em seu correto funcionamento, não são a realidade, mas a perpetuação de um estado de confinamento confortável. Quando estas falham, se abrem as portas do que é verdadeiro, do que está por atrás de tudo, das maquinações do poder. Um erro de GERTY e uma avaria na escavadeira levarão Sam a descobrir o outro homem dentro da cabine escavadora, um homem inconsciente que, uma vez de volta à base, torna-se idêntico a ele. Aqui está a questão do dublê, mas a partir do ponto de vista da ficção científica. Aqui o dublê abre caminho para o clone e um profundo drama moral nos lembra Blade Runner – O Caçador de Androides (Blade Runner - 1982), a ansiedade dos replicantes de Blade Runner, a busca pelo que somos. Tanto Blade Runner como Lunar giram em torno dessa pergunta. Por que somos seres humanos, o que nos faz seres humanos? Estas perguntas, claro, são extensivas ao clone, à réplica. Será que o clone não é um ser humano? Porque foi criado a partir de outro e tem uma vida limitada e falsas recordações, deve ser tratado como um objeto, como um simples signo reproduzido? Um signo que nasceu de um original, não é um signo independente, com vida própria, uma constituição espiritual nova e distinta? Isso que nos faz distintos, cheios de sentimentos e de vozes próprias, não é o que nos torna humanos?

Lunar bebe da grande tradição da ficção científica cinematográfica, e por que não, literária, mas permanece no traçado único (não clone). Duncan Jones conhece essa tradição, beber dela é fazer uma homenagem e criar seu próprio mundo, sua própria história, seu próprio complexo de signos. Para Duncan Jones, filho do grande David Bowie, não é estranha a bagagem cultural da alucinação interestelar. Bowie interpretou em 1969 o eterno réquiem de Major Tom em "Space Oddity", Duncan Jones apresenta uma peça inteligente, de um só ator que brilha em seu papel, e construiu essa história solitária e obscura de referências cinematográficas e temática do próprio gênero. Em seu primeiro filme, não é um novato fazendo o que dá com a ficção científica.

Lunar é uma peça culta, mas com um toque adequado de intriga, que nos mantém firmes na cadeira, presos com força e não seremos lançados no espaço, perdidos, como Major Tom.

Lunar, de Duncan Jones, quinta, 7 de março. Ficção científica, clones, referências culturais, intriga, suspense. O que você vê quando vê o Max?

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Gorbaciof, os gestos do bem e do mal

por max 1. março 2013 14:49

 

O mundo está cheio de malandros, que geralmente, tendem a falar muito. Para enrolar, deixar tonto, para confundir você. Mas atrás de todo malandro existe um grande silêncio. Existem malandros, é claro, que podem ser mais calados. Há de tudo na vinha do Senhor. Pode haver um malandro que sabe que em boca fechada não entra mosquito. No entanto, em todo malandro existe algo poderoso. Se não é a voz, pode ser que o corpo seja poderoso. E atrás desse poder da voz ou do corpo, nessa gestualidade exagerada, está o louco medieval. Quer dizer, todo gesto desarticulado, todo movimento repentino é uma ruptura da regra, da correção cultural. Essa singularidade rebelde teve em outros tempos caráter demoníaco, assim como o riso, o cômico. De tudo que herdamos, entre outros personagens, existe o malandro. Seu palavreado e excesso corporal são um indício do mal que nele habita. Seus gestos são uma espécie de marca de Caim que destaca o pecado cometido. Daí, talvez, vem a marca que exibe o ator Toni Servillo em Gorbaciof (2010) de Stefano Incerti. A marca de Mikhail Gorbachev, ex-presidente da União Soviética que, nos absurdos que correm pelo mundo, foi comparado ao Anticristo ou algo assim, devido à mancha em sua testa, seu número da Besta. Claro, o Anticristo e o mal não podem ter uma relação mais próxima. Nem mesmo o magnífico ator Toni Servillo poderia estar mais próximo desse personagem. Lembremos, por exemplo, que em Il Divo (2008) de Paolo Sorrentino, Servillo interpreta Giulio Andreotti. Sua atuação está extremamente marcada pelas expressões secas e os gestos fechados, iguais aos do famoso e controverso político. Servillo sabe, como todo grande ator, se comunicar também com seu corpo e seu rosto. O mesmo ele faz ao interpretar Gorbaciof, um carcereiro viciado em jogo que rouba dinheiro dos presos, que fala pouco, mas diz muito sobre o malandro que tem por dentro, através de seus movimentos desajeitados e acelerados, quase epiléticos. O personagem não fala muita coisa, nem pode se comunicar com a garota de origem asiática em quem acredita ter encontrado o amor. Ela a viu em um restaurante chinês, gostou dela, e logo vai colocar para fora o bem que tem por dentro. Os gestos também servem para ele. O corpo e esses gestos, em todo caso, podem servir tanto para o mal como para o bem, tanto para anunciar o seu mal, como para mostrar a linguagem do amor. Nesse sentido, podemos dizer, com o perdão do clichê, que o mal também é universal e que também tem seus movimentos clássicos, universais, reconhecidos. O personagem Gorbaciof carrega toda a complexidade que, não só por ser o malandro, um ladrão que rouba ladrão (mas sem redenção), mas também aquele que busca a salvação através do amor.

Um filme muito bem atuado, levado, como já disse, por Servillo, mas com uma mão sóbria. Stefano Incerti, com a finalidade de marcar o peso de tamanho ator, não caiu nos virtuosismos cinematográficos, mas sim deixou a câmera como testemunha dos acontecimentos que vão levando as malandragens e os amores, do bem e do mal que cruzam com a vida de Gobarciof.

Gorbaciof, domingo 3 de março. Malandragem, amor, excelentes atuações. O que você vê quando vê o Max?

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