Glück, ou o estado de graça

por max 27. fevereiro 2013 14:25

 

A palavra glück, traduzida do alemão como felicidade, estado de graça, é o título do filme da diretora e escritora alemã Doris Dörrie (que vimos há um tempo no Max com a comédia A Cabeleireira). Essa palavra iniciando o filme pode ser entendida como uma ironia, mas também como uma afirmação.

Felicidade (Glück - 2012), no foi feito a partir de uma das histórias de Dörrie. Neste caso, o filme é baseado na história do advogado criminal Ferdinand von Schirach, que por sua vez foi inspirado na história real de um romance atroz. Felicidade é cheio de humor e também de abominação, entra nos labirintos da noite, em becos e lixeiras, prostituição e crueldade, para se transformar em uma espécie de flor que cresce no asfalto, uma flor que o mundo pisa sem reparar em suas feridas.

Ela é Irina (Alba Rohrwacher), uma garota de Balcãs, que na guerra sofreu com a morte dos pais, foi violentada e se tornou prostituta ilegal nas ruas de Berlim. Ele é Kalle (Vinzenz Kiefer), não exatamente um mendigo, mas um homem antissistema que dorme nos parques e tem um cachorro chamado Byron. O nome do cachorro nos remete, é claro, ao poeta inglês do romantismo, poeta apaixonado e maldito. As trevas e a poesia como estado de graça, a descida aos abismos para descobrir a alma e a inocência da alma, a descida cheia de amor que supera toda atrocidade, todos esses significados trazem a substância de sempre. A beleza, a escuridão, a verdade, a inocência, está tudo lá, no indício do personagem através do cão. E, ao contrário de Irina, não conhecemos muito sobre Kalle e, no entanto, se o nome de seu cachorro despertou atenção, podemos suspeitar muito dele, e de sua história.

Claro, Kalle e Irina se encontram, se unem, se apaixonam e buscam curar, com essa união, suas feridas em um jogo de pacificação mútua. Assim, começam a viver em um estado de graça que poderíamos chamar de amor. O casal tenta levar uma vida, digamos, de pequeno-burguês, com apartamento, passeios e jantares. O casal quer ser apenas um casal com todos os direitos, jovens apaixonados, como os representados pela publicidade. Mas um dia, um cliente de Irina morre sobre ela (sim, ela continuou trabalhando como prostituta), e Kalle não tem ideia melhor do que usar uma faca elétrica. Irina não teve culpa, mas sabemos que os marginalizados têm a marca do crime (cometido ou não) na testa. Mesmo Kalle tendo visto, então, ele picou o cliente morto em pedacinhos.

A culpa foi do estado de graça que Kalle viveu todo esse tempo? A culpa foi de sua extrema felicidade? Por causa desse estado de "amor" em que ele cometeu o crime, será isentado da prisão após o julgamento? Isso é o que será mostrado, lá se vai a história, pelos desvios do estado de graça. Porque de cara, você pode ver os dois. Um, o desejado, é o que nós vendemos, o outro, o vivo, é o que supostamente nos liberta de todo o mal, que nos leva às alturas dos anjos, do terrível, da inocência terrível. Tudo, com magníficas cores e edição que caracteriza o filme de Doris Dörrie, além do humor, do tratamento da comédia, mesmo que você não acredite, surpreendentemente bem administrado.

Felicidade, de Doris Dörrie, nesta sexta, 1º de março. Amor, atrocidade, inocência, beleza. O que você vê, quando vê o Max?

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Geral

Pina, os encontros da arte

por max 23. fevereiro 2013 04:56

 

 

Primeiro encontro

Pina Bausch foi uma das coreógrafas mais importantes dos nossos tempos. Foi a precursora do que chamamos de dança-teatro, herdeira do expressionismo (muito alemão, certamente) e de toda aquela dança surgida na vanguarda que fez uma mudança radical no que era, até então, uma série de regras acadêmicas, de pesos, engessados ao tradicional balé clássico. Fundadora da célebre Tanztheater de Wuppertal, Bausch abriu as portas no início dos anos sessenta, época da liberdade artística, da revolução cultural e jovem; também podemos dizer que foi época do pós-modernismo, onde os jogos, o cruzamento das disciplinas e a beleza do heterogêneo criaram um campo fértil.

O medo, a violência, o sexo, a dor, o amor, o delírio, a alma fragmentada, nossa alma, eram os temas da coreógrafa, tudo isso dentro de cenários que buscavam romper os limites entre os palcos e a realidade, entre os palcos e a paisagem externa, principalmente urbana.

Odiada, adorada, Pina Bausch, a fumante inveterada, se tornou uma lenda. A grande lenda das artes, que alguns podem chamar de pós-moderna e, embora ela sempre se mantivesse nos bastidores, foi o objeto da lente de diretores como Fellini, Almodóvar ou Wim Wenders.

 

Segundo encontro

Wim Wenders é um diretor alemão que nos apaixonou com filmes como Asas do Desejo (1987) e Tão Longe, Tão Perto (1994), essas histórias sobre anjos com um certo elemento rilkeano. Mas Wenders é também o autor de obras como O Amigo Americano (1977), com Dennis Hopper (baseado no famoso romance de Patricia Highsmith), e também de Paris, Texas (1984), com roteiro de Sam Shepard e atuação de Nastassja Kinski. Wenders era amigo de Pina Bausch.

 

Terceiro encontro

Nos últimos anos o cineasta alemão tem se interessado por música. Como Pina Bausch, procurou fazer o cinema sair de seus limites. Assim, fez documentários onde o cinema e a música se encontram. Seu trabalho mais conhecido sobre essa busca é, sem dúvida, Buena Vista Social Club (1999), documentário que, com o guitarrista Ry Cooder e o produtor Nick Gold, resgatou do esquecimento um grupo de músicos cubanos. Wenders também realizou trabalhos com U2; e documentários sobre Willie Nelson, no blues, e com a banda de rock alemã BAP, com a finalidade de homenagear sua cidade natal, Colônia.

Há um tempo, Wenders está buscando o encontro desses caminhos: o documentário, a ficção, a música, as artes, o cinema. Em 2011, alcançou o auge (não sabemos se haverá outro) dessa busca com Pina, filme que foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2012.

 

Quarto encontro

Pina não é só um documentário sobre Pina Bausch. De fato, Pina morreu durante o processo de realização do documentário. Wenders que, como já havíamos dito, era amigo dela, decidiu deixar seu trabalho para trás, mas os alunos de Pina o convenceram a continuar. Wenders, então, continuou as filmagens de Pina que não é um documentário sobre Pina, e nem sequer é um documentário propriamente dito.

Pina é parte documentário e parte teatro-dança fora dos palcos. O filme tem quatro obras da coreógrafa realizadas nas ruas e também é filmado em 3D, um 3D que nas salas de cinema contribuiu para mostrar a magnífica profundidade do formato. Wenders, um cineasta que sabe realmente o que fazer com a tecnologia, fez do formato uma ferramenta para mesclar corpos, cenário e música em uma peça cinematográfica de primeira classe.

O espírito de Pina Bausch passeia por este trabalho de Wenders com sua energia, com sua inteligência e intuição radicais. Claro, com sua morte repentina, há muito de suas melancolia, de suas lembranças. Mas a tristeza se torna uma presença benevolente, que realça o filme, esta estranha e maravilhosa mistura de documentário com dança e homenagem póstuma.

 

Despedida

Pina, de Wim Wenders, domingo 24 de fevereiro. Dança, paixão, tristeza, arte. O que você vê quando vê o Max?

 

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Notícias do cinema que o Max adora…

por max 20. fevereiro 2013 08:00

Michaël R. Roskam

 

Depois do bem sucedido Bullhead, que esteve entre os indicados ao Oscar de filme estrangeiro, o diretor belga Michaël R. Roskam, trabalha em vários projetos, inclusive um com a HBO chamado Buda Bridge. Outro é The Tiger, no início pensado para Darren Aronofsky (Pi, Réquiem para um Sonho, O Lutador, Cisne Negro). The Tiger é a história de um tigre que ataca e devora humanos em um povoado siberiano. O roteiro é de Guillermo Arriaga (Amores Brutos, 21 Gramas), e dizem que Brad Pitt está cotado para o elenco. Outra possibilidade é a adaptação de um conto de Dennis Lehane. O filme se chamaria Animal Rescue, sobre o dono de um bar que resgata um cachorrinho e acaba se metendo em problemas sérios por causa desse gesto tão simples. Qual desses projeto Roskam vai desenvolver?

 

Manoel de Oliveira é o diretor de cinema em atividade mais velho do mundo. Ele tem 104 anos, realizou 60 filmes e já planeja outro. Trata-se de A Igreja do Diabo, adaptação de um conto homônimo de Machado de Assis. O projeto de Oliveira reúne outros dois contos do escritor para compor uma trilogia que inclui a visita do diabo à Terra, um caso de adultério (Missa do Galo), e as desilusões de um ornitólogo (Ideias do canário).

 

O diretor e roteirista italiano Marco Bellocchio está cheio de projetos novos. Ele já desenvolve La Priggione di Bobbio, um drama do século 16 com orçamento de 1,5 milhão de euros. E para o próximo ano, planeja uma adaptação de 5 milhões de euros da Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo. La Priggione di Bobbio é ambientado nos tempos da Inquisição, e mostra uma mulher sedutora acusada falsamente de bruxaria. Pagliacci é a história de amantes, de uma infidelidade e da consequente tragédia e parece que Bellocchio transportou os fatos para um sanatório. No elenco, atores de ópera e uma orquestra tocando ao vivo durante a filmagem.

 

Não perca, este mês, no Max: Bullhead, de Michael R. Roskam, O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira, e Vincere, de Marco Bellochio. O que você vê, quando vê o Max?

 

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Bullhead: http://www.hbomax.tv/sinopsis.aspx?prog=CEL206301

O Estranho Caso de Angélica: http://www.hbomax.tv/sinopsis.aspx?prog=PYR198544

Vincere: http://www.hbomax.tv/sinopsis.aspx?prog=CEL188163

 

Bullhead, ou o Minotauro que perdeu seu paraíso

por max 15. fevereiro 2013 06:32

 

Os agricultores: há, em nós, uma conexão inocente, essencial com os símbolos da fazenda e do fazendeiro . Ambos estão relacionados com a natureza, com o trabalho na terra, com a criação de pitorescos animais. O fazendeiro, claro, tem uma fazenda. Entre os primeiros brinquedos de um menino sempre estará a fazendinha. Os primeiros quebra-cabeças, também uma fazendinha. É inevitável. A fazendinha, como símbolo, significa bondade, inocência, vida.

 

O fato: em 1995, na Bélgica, Karel Van Noppen foi assassinado. Van Noppen era um veterinário que trabalhava como pecuarista inspetor do governo, um homem honesto que esteve investigando uma situação irregular nas fazendas do país e descobriu algo parecido com uma máfia de hormônios. Ou seja, os fazendeiros injetavam substâncias em suas vacas para torná-las mais fortes e gordas. A partir desta morte, se descobriu toda uma rede ilegal de traficantes, fazendeiros e funcionários do governo. Conclusão: alguns fazendeiros podem ser gangsters, mafiosos, assassinos.

 

A ideia: Há um tempo, Michaël R. Roskam vinha pensando em temas como redenção e vingança. Inclusive escreveu contos e dirigiu curtas com os temas. Ao tomar conhecimento da notícia sobre máfias de fazendeiros, deu-se a alquimia. Ali existia um filme de suspense que ia além de ser original e no qual, de alguma maneira, iriam se encaixar os temas que tanto lhe interessavam.

 

O resultado da alquimia: Bullhead foi lançado em 2011 e indicado ao Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira.

 

O personagem: Bullhead é centrado em Jacky Vanmarsenille (Matthias Schoenaerts), um jovem fazendeiro com musculatura de sobra, um touro, um Minotauro que tem ataques repentinos de violência. Jacky está envolvido no tráfico de hormônios para o gado, e como se isso não fosse suficiente, também injeta em si mesmo as tais substâncias. Mas o horror não acaba aqui: seu passado esconde algo, um fato desonroso, que o faz agir dessa maneira autodestrutiva e violenta. Tudo piora quando personagens desse seu passado reaparecem. Eles são: Diederik (Jeroen Perceval), o amigo de infância que o abandonou em um momento crucial e agora é traficante de drogas e informante da polícia; e Lucía (Jeanne Dandoy), seu amor dos tempos de colégio. Eles vão despertar em Jacky dois desejos atávicos: o da vingança furiosa contra aqueles que o humilharam, e o da redenção, através do amor, da busca daquilo que se perdeu durante sua juventude. Um amor que, sem dúvida, torna-se difícil, pois Lucía é irmã de um daqueles que maltrataram o agora jovem Minotauro.

 

Minotauro: Diz o Dicionário dos Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant: «Esse monstro simboliza um estado psíquico, o domínio perverso de Minos. Mas o monstro é filho de Pasifae: ou seja, Pasifae é também a fonte da perversidade de Minos: esta simboliza um amor cheio de culpa, um desejo injusto, um domínio indevido, a falta, reprimidos e ocultos no inconsciente do labirinto.» Mais: «o mito do Minotauro simboliza, em seu conjunto, o combate espiritual contra a rejeição.».

 

(Pasifae, é bom dizer, era esposa de Minos. Farta das infidelidades do rei, Pasifae se apaixonou por um touro branco – algumas versões ligam este amor bestial ao castigo de Poseidon ou de Afrodite. O touro, logicamente, não prestou atenção à mulher, e por causa disso Dédalo – o mítico escultor— fez-lhe uma figura oca de uma vaca. Pasifae entrou ali dentro e o touro, acreditando que se tratava de uma vaca, transou com ela. Dali, nasceu o Minotauro.)

 

O enlace: o paraíso dos fazendeiros é um paraíso furado, tal como furada é a infância, essa distante terra dourada, de Jacky, o Minotauro.

 

Carne: São Jerônimo rasga sua própria carne com as mãos e até mesmo com uma pedra. A carne é potência diabólica, abismo, pecado, inferno. Mas a carne, fera indomável, busca saciar sua fome e sede. A luxúria, a ira, a avareza, o ódio, o puro prazer são alguns desses alimentos da carne. A partir dali, a carne necessita da purificação. A carne do Minotauro necessita da luz de Ariadna, que é a luz do amor. Mas o Minotauro perdeu-se em seu próprio labirinto, em seu labirinto de carne, nenhum paraíso.

 

Uma frase para finalizar: quem está ferido pode chegar a sentir que isso aconteceu porque merecia isso. Pode ser culpado e vítima. Pode sentir vontade de destruir e de se destruir. Quem incendeia paraísos acaba semeando infernos.

 

A estreia: Bullhead, neste domingo, 17 de fevereiro. Vingança, redenção, film noir, inocência ultrajada, paraísos perdidos. O que você vê, quando vê o Max?

 

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Especial François Ozon, nesta quinta, dia 14, no Max

por max 13. fevereiro 2013 11:20

 

O Max apresenta um especial do diretor François Ozon com três filmes recentes: Ricky (2009), Potiche – Esposa Troféu (Potiche, 2010) e O Refúgio (Le Refuge, 2009). Ozon é cineasta de muitas facetas e já realizou vídeos, curtas de ficção (premiados em Cannes), documentários em curta-metragem e em longas-metragens, e, claro, longas de ficção. Em filmes como Les amants criminels (1999), 8 Mulheres (8 Femmes, 2002) e Swimming Pool – À Beira da Piscina (Swimming Pool, 2003), usou o gênero policial ou noir, sempre com variações, carregando no seu tom todo particular de humor, às vezes bem light, frequentemente sarcástico. Ozon é cineasta bem contemporâneo nesse sentido, pois gosta de jogar com a paródia, com a colagem, a mistura de gêneros. Como bom francês, como bom herdeiro, ele aborda a França burguesa. Penetra ali, cutuca, se mete entre os que estão devidamente acomodados e entre os trabalhadores, nessas vidas que parecem condenadas à tranquilidade e que, prontamente, se veem submergidas em outros âmbitos, em outras experiências.

Para Ozon, o que interessa são as diferenças, as rachaduras, os saltos. Para ele, interessam também as mulheres, o que pensam, o que são, seu psicológico, seu mundo. Os casais interessam igualmente, bem como os trios, o amor homossexual. E, finalmente, interessa a ele também (mas pode ser que haja ainda mais temas de interesse) as exceções e os estranhamentos no mundo contemporâneo.

Em Ricky (2009), o primeiro deste especial, ele aborda essa estranheza, mergulhando no coração da realidade da classe trabalhadora. Ali, no meio das tribulações e lutas de um casal de poucos recursos financeiros, faz nascer um filho que tem asas. A introdução deste fato fantástico é uma oportunidade para se aprofundar na mente dos personagens – em especial, no feminino –, para explorar os medos e as alegrias, para iluminar obscuridades.

Logo depois – lembre-se que é sempre no mesmo dia – Potiche –Esposa Troféu (Potiche, 2010). Aqui, Ozon demonstra mais uma vez que ama fazer filmes com mulheres. Filmes com mulheres, nos quais elas são boas, mas também são profundamente más. Mulheres em situações extremas e delirantes, mulheres lutadoras, mulheres que se rebelam contra séculos e séculos de dominação masculina, essas são as mulheres de Ozon. O próprio títulp do filme demonstra isso. Potiche é uma palavra que designa um adorno bem caro de casa, e também é uma metáfora para esposa linda, mas inútil que decora o lar de um marido próspero. Catherine Deneuve é essa dama «potiche», a amadíssima senhora Pujol, esposa do dono de uma fábrica de guarda-chuvas, contra quem se rebelam os trabalhadores e o sequestram. A senhora Pujol não somente conseguirá libertar o marido, mas também se encarregará de comandar a empresa, com melhores resultados dos que os apresentados pelo marido em sua gestão. Uma comédia perspicaz, inteligente e estridente, carregada de cores e do imaginário kitsch bem ao estilo dos anos 70.

Para fechar o especial de Ozon, O Refúgio. É um drama duro que apresenta, a princípio, um casal jovem e próspero, mas viciado em heroína. Os amantes, mergulhados no vício, acabarão na pior das situações: ele, morto e ela, em coma. A essa altura, em seu despertar, ela descobrirá que está grávida. Perdida, arrependida por ter se entregado ao vício, ela vai fugir para o mar, em um possível refúgio onde se encontrará com o irmão do falecido, um atraente jovem homossexual. O Refúgio é um jogo de trios e de profundos conflitos morais arraigados na contemporaneidade, um trabalho forte e cru de Ozon que encerra este ciclo especial do Max.

Lembre-se: Ricky, Potiche – Esposa Troféu e O Refúgio, três filmes de François Ozon nesta quinta-feira, 14 de fevereiro, no Max. Cinema de primeira, cinema contemporâneo, o melhor do melhor. O que você vê, quando vê o Max?

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Rota Irlandesa, ou as guerras de Ken Loach

por max 8. fevereiro 2013 12:34

 

Ken Loach é diretor comprometido. Seu mundo é o dos trabalhadores, o dos explorados, o das lutas contra os poderes. A guerra, esse lugar onde as tensões entre o homem e os poderes são tão fortes, já foi, é claro, tema de vários de seus filmes. Agenda Secreta (Hidden Agenda, 1990) apresenta o tema do terrorismo britânico no norte da Irlanda no formato de thriller político. Honra e dignidade são os temas deTerra e Liberdade (Land and Freedom, 1995), drama histórico ambientado na Guerra Civil Espanhola, cujo protagonista é um britânico que se une ao grupo republicano. Em 2006, Loach volta à guerra em Ventos da Liberdade (The Wind That Shakes The Barley) e, desta vez, se move para os terrenos da guerra da independência e da guerra civil na Irlanda. Aqui também ressalta o valor dos homens (dois irmãos em particular) diante da repressão dos ingleses, sua ânsia de liberdade, paixão e determinação em alcançá-la. Já em 2010, com Rota Irlandesa, sua visão da guerra parece ser outra.

Trata-se, sem dúvida, de uma película típica de Ken Loach, escrita por Paul Laverty, o roteirista que já o acompanhara em outro filme sobre a guerra, Ventos da Liberdade. O título Rota Irlandesa (Route Irish) vem da rodovia que liga o aeroporto de Bagdá à Zona Verde da cidade, em determinado momento do filme considerada a rota mais perigosa do mundo. Então, de saída, situa o espectador dentro da área que corresponde a seus filmes comprometidos que versam sobre a guerra. Mas, desta vez, Loach não vai ao passado para contá-la, como havia feito em duas ocasiões anteriores — e o que talvez dava ao próprio tema da guerra um tom romântico, idealista. Agora o cineasta vem a tempos mais próximos, à Guerra do Iraque, para mostrar como (e se isso fosse possível) até mesmo a ideia da guerra mudou para as mãos de uma brutal e mercenária privatização.

Loach se lança para os abismos da conspiração e se vale (de novo, como em Agenda Secreta) de um formato muito hollywoodiano para contar esta história. O thriller determina aqui um enredo muito mais centrado, diferentemente de outros filmes seus, para mergulhar, a partir desse centro, no mistério de uma morte, por trás da qual, já dissemos, há uma aparente conspiração que tem a ver com setores privados envolvidos na guerra.

Realista, sem sentimentalismo, acusador, Ken Loach rasga a cortina e se debruça sobre os prédios das companhias de segurança britânicas que atuaram no Iraque, meras máscaras privatizadas do mundo mercenário, onde a cobiça se movimenta com duros golpes de bilhete. A história está carregada da ira e da indignação de seu protagonista, Fergus Molloy (Mark Womack), que parte en busca das verdades por trás da morte de um amigo íntimo. No entanto, as paredes são altas, e campeia a impunidade. São outros tempos, tempos sem romantismos, sem ideais, tempos de capital, de interesses, tempos mais frios, calculistas, e, ao mesmo tempo, mais horrendos. É o que parece nos dizer Ken Loach.

Rota Irlandesa, neste domingo, 10 de fevereiro. Guerra, thriller, compromisso social, poder. O que você vê, quando vê o Max?

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Three Quarter Moon, ou a lua do meio

por max 8. fevereiro 2013 10:58

 

Um amargurado motorista de táxi é o protagonista de Three Quarter Moon (2011), do diretor alemão Christian Zübert. Chama-se Hartmut Mackowiak (Elmar Wepper, ator conhecido na televisão alemã) e gira por Nuremberg, profundamente entristecido, pois foi trocado pela esposa depois de trinta anos, pelo elegante condutor de um Volvo. Ele vive a se queixar de seu infortúnio e, além disso, dos imigrantes que chegam ao seu país. Certo dia, uma menina de seis anos, chamada Hayat, cruza sua vida. A menina é turca. No começo, ela está acompanhada da mãe, uma cantora de cruzeiro, que deixa a pequena sob os cuidados da avó, enquanto ela completa sua temporada de trabalho. A avó da menina, claro, vive num bairro de imigrantes. Dominado pela raiva, Hartmut não para de falar mal dos estrangeiros. A mãe da menina, horrorizada, o chama de "nazista". A criança, naturalmente, não tem ideia do que isso significa. Quando a avó sofre um colapso, e se vê sozinha numa cidade que não conhece direito, ela lembra do senhor "Nazista", o único alemão que conheceu, e pega o táxi nas cercanias do hospital para onde haviam levado sua avó em coma. Aqui, naturalmente, começam o drama e a comédia em torno destes personagens que, por mais diferentes que se mostrem, no fundo parecem enfrentar uma crise semelhante. Ambos, sem dúvida, estão sozinhos no mundo e, dentro dessa solidão, estabelecem uma relação que ocupa um espaço particular, nem oriental nem ocidental, nem a lua daqui nem a de lá, mas uma lua do meio, uma lua que não vai aos extremos. Ali, dentro desse lugar, cada um deles vai conhecer a cultura do outro, levados, além disso, por uma espécie de maiêutica socrática em que se explorarão os assuntos da vida, da morte e do amor. Porque esta história, para dar um salto de Sócrates a Platão, é sobre o amor, sobre o amor que surge da amizade e da compreensão dos seres humanos.

Claro que o tema de um velho amargurado que se deixa enternecer por uma menina ou um menino não é nada novo. Pode-se pensar em Kolya, uma Lição de Amor (Kolja), filme checo dirigido por Jan Sverák, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1997. Ou também em O Profissional (Léon, de 1994), de Luc Besson, entre muitos outros. Mas a volta que o diretor Christian Zübert dá ao seu trabalho tem a ver com a Alemanha contemporânea, com esta relação de hoje em dia entre alemães e turcos. A mulher de Christian Zübert é turca, e é ali, nesse intercâmbio, nesse choque, nessa convivência amistosa, que se centra o diretor.

Three Quarter Moon, nesta sexta-feira, 8 de fevereiro. Diferenças, semelhanças, luas em quarto crescente, amizade, compreensão. O que você vê, quando vê o Max?

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O Homem que Nunca Esteve lá , ou o crime e o chamado anti-heroi

por max 6. fevereiro 2013 12:08

 

Os irmãos Coen se dão bem com o crime. Ficaram mais conhecidos do grande público em 1987, com Arizona Nunca Mais (Raising Arizona). Nesta comédia de relativo sucesso comercial, um iniciante Nicolas Cage (depois de Asas da Liberdade/ Birdy, antes de Coração Selvagem/ Wild at Heart), interpreta um bobalhão descabelado que, junto com sua esposa policial, decide roubar um dos quíntuplos do milionário Nathan Arizona. Eles não agiam por razões comerciais e sim porque não podiam ter filhos e consideram que o figurão já tem muitos. Nestes personagens, um suposto ato de justiça avaliza um crime, o que será uma constante na cinematografia dos Coen.

Bom ir um pouco mais para trás. Três anos antes, eles haviam produzido o primeiro filme, Gosto de Sangue (Blood Simple, 1984), onde o crime já era o senhor absoluto. A história começa quando o marido ciumento Julian Marty (Dan Hedaya) manda matar a mulher e a amante, crente que tal ação não lhe vai trazer nenhuma consequência. Nesta trama cheia de confusões, a esposa Abby (Frances McDormand) acaba sendo a protagonista, uma jovem que quis dar um pouco de ação e de sentido a sua vida, atrevendo-se a ser infiel, que acreditou merecer algo melhor tendo um amante que lhe desse o que o marido chato não lhe dava.

Depois de Arizona Nunca Mais, os Coen voltaram em cheio ao film noir, desta vez com uma história de quadrilhas: o inteligente e exagerado Ajuste Final (Miller´s Crossing, 1990). Ambientado nos tempos da proibição do álcool, o filme tem o brilho, o encanto e o horror daqueles anos mafiosos de gabardine, cabarés clandestinos e metralhadora. Gabriel Byrne é Tom, um conselheiro da máfia que, por azar, se apaixona pela mesma mulher que seu chefe Leo (Albert Finney) deseja. Tom é uma versão do cara durão dos filmes bogartianos, mas nele já começa a ver-se a variante Coen, desenhada nos personagens de Gosto de Sangue e Arizona Nunca Mais. Tom é um duro anti-heroi, porém há nele algo de vida monótona. Mas também o caracteriza — e nos atrai — certa agudeza, certa vontade inclusive de acordar do nada, de montar sua própria história e de fazer justiça. Neste caso, a centelha que o desperta é o amor. Tom sente que o merece, e voltar-se contra seu perigoso chefe é um ato de justiça em prol de seu direito a esse amor.

Barton Fink – Delírios de Hollywood (Barton Fink, 1991) retoma igualmente o tema do crime e da morte por meio de Charlie Meadows (John Goodman), um vendedor ambulante que acaba sendo um serial killer. O filme mescla o tema do crime com uma trama de fortes marcas kafkianas, onde Barton Fink (John Turturro) representa essa tendência do absurdo e a impotência diante dos poderes (neste caso, os estúdios Capitol). O hotel delirante e infinito também nos leva até os terrenos kafkianos e igualmente surrealistas, um cenário elástico, maleável, especular, onde cabem o criminal e o pequeno oprimido de Kafka. Aqui se vê como os Coen, por meio do insosso e oprimido Barton Fink, vão moldando o personagem totalmente bom de suas histórias, que depois se concretizaria dentro do aspecto em Marge Gunderson de Fargo e em Ed Tom Bell de Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men).

Em 1996, os Coen apresentam Fargo, que lhes daria o Oscar de Roteiro Original e a Frances McDormand o de Atriz. Marge, a heroína de Fargo, é policial de cidade pequena, grávida (com uma barriguinha), que, com toda sua calma e tranquilidade, vai atrás da pista de criminosos de pouca importância, mas criminosos — e perigosos — ao fim e ao cabo. Nada de mafioso durão (hardboiled), nem de um melancólico kafkiano, estamos, o personagem aqui se parece mais aos Coen, ao que os Coen vão desenhando.

O próximo é O Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998), com Jeff Bridges num dos melhores papéis de sua carreira como um dude Lebowski, um pobre coitado que, da noite noite para o dia, é confundido com um milionário (por causa do sobrenome), e que, ainda por cima, acaba metido em uma complicada trama de rolos, pornografia e más companhias. A imagen do dude já é plenamente Coen. O dude é um anti-heroi que rompe a monotonia de sua vida para começar uma aventura que não lhe trará senão problemas.

Em E Aí Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou, 2000), seus protagonistas são presos fugitivos que vão atrás de um tesouro. São prisioneiros cômicos dos anos 30 qu, com George Clooney à frente, empreendem sua própria viagem heróica. São quase caricaturas de um mundo absurdo e violento, banhados com a luz de sua própria inércia, de seu própria insignificância santificada. É interessante considerar que este filme é inspirado em A Odisséia, poema épico por excelência. O roteiro da viagem do heroi está presente e se vai adaptando a suas necessidades.

Claro, muitos filmes contemporâneos usam este esquema e o variam de acordo com os tempos; o que pretendemos decifrar é a variação dos Coen.

Na sequência, três das suas fitas mais recordistas de público: The Ladykillers (2004), Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) e Queime Antes de Ler (Burn After Reading, 2008). Em todos eles se repetem as constantes aqui relatadas.

Em The Ladykillers (2004) é um esquisito G.H. Dorr, ladrão de bancos (Tom Hanks) acompanhado de uma quadrilha desastrada. G.H. Dorr não é personagem insosso que pensa poder fazer justiça fazendo o mal, mas sim que pode fazer o mal a um custo mínimo, ou seja, acreditando que nem ele nem ninguém saírá ferido ou morto (a menos que haja alguém a quem matar).

Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) levou Oscar de Filme e Direção e tem uma dupla partilha dos personagens à la Coen. Um é Llewelyn Moss (Josh Brolin), um caçador de antílopes que esbarra com um dinheiro mal ganho e se deixa tentar e o outro é o policial Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), um velho acomodado, tranquilo, que leva a investigação criminal em seu próprio ritmo, tal como a policial grávida de Fargo. São dois personagens muito Coen, sem dúvida, e não é de estranhar que por isso quiseram levar ao cinema o magnífico romance de Cormac McCarthy.

Em Onde os Fracos Não Têm Vez se apresenta outro caso de infidelidade que vai gerar conflitos. É a história de Katie Cox (Tilda Swinton), casada com Ozzie Cox (John Malkovich), um ex-agente da CIA que está escrevendo suas memórias. Ela é amante de Harry (George Clooney), um funcionário do Departamento do Tesouro. Katie quer se divorciar de seu marido, mas antes busca averiguar em seu computador seus saldos bancários, o que a leva a descobrir acidentalmente o CD com as memórias. Este CD, por azar, acaba nas mãos dos empregados da academia aonde Kati vai. Chad (Brad Pitt) e Linda (Frances McDormand) acham que o que diz o CD pode interessar aos russos (nesses tempos, cabe destacar), interesse que pode ser convertido em muito dinheiro.

Dentro da macroestrutura épica ou viagem do heroi que nos vem de Joseph Campbell e que foi adaptada para roteiros por Christopher Vogler, a ambição e a oportunidade se transformam em elementos perversos ou negativos, variantes à la Coen do que se conhece no primeiro ato como o «chamado à aventura» — tal como o conceitual Vogler —, ligação e detonador que abre espaço para o segundo ato. A oportunidade de crime, essa imensa tentação que se poderia ver como algo fácil de executar é, no cinema dos Coen, esse chamado à aventura. Em seu mundo, o chamado à aventura pode ser o chamado a deixar-se tentar pelo mal.

Neste sentido, O Homem que Nunca Esteve lá (The Man Who Wasn't There, 2001) é uma das mais claras demonstrações. Ali está Billy Bob Thornton, no papel de um muito lacônico, simples, insosso e inexpressivo barbeiro que um dia decide fazer chantagem para obter algum dinheiro para investir em um negócio. Como em Gosto de Sangue, há uma infidelidade que se transforma em motivo de chantagem. Ed Crane, o barbeiro, faz algumas chamadas anônimas ao chefe de sua esposa, Big Dave Brewster (James Gandolfini), e pede dez mil dólares em troca de silêncio, Mas, é claro, as coisas se complicam.

Da inércia, passamos à tentação e da tentação ao crime menor, e do crime menor ao crime maior: o assassinato. Esse assassinato pareceria ser a primeira casualidade de uma larga cadeia de infortúnios. Mas são casualidades? Os Coen introduzem seu espectador em um outro mundo, em um mundo especial e terrível. Vogler chama o segundo ato de «mundo especial», e nesse mundo especial há outras leis, nas quais o azar e o insólito são a regra, a constante. Não são fundamentais, por assim dizer, o enfrentamento aos golpes do inimigo e ao próprio grande inimigo; o que importa aos Coen é a cadeia de eventos inesperados, os azares, os golpes de surpresa. Ali, certamente, é aonde vai parar Ed Crane. A partir da primeira morte, se sucedem outras mortes e outros acontecimentos insólitos, que nos fazem pensar que talvez Ed Crane seja um tipo com sorte. Mas a sorte, nos Coen, é um recurso que se esgota, e que não é renovável. A sorte em realidade não existe, tão-somente é um passo prévio a outra torcida do parafuso, e isso o descobrirá Crane até o final da fita.

Assim, na obra dos Coen, o crime liberta forças e dá espaço a outros mundos dentro deste mundo. Em O Homem que Nunca Esteve lá é o próprio protagonista quem abre essa porta, cansado já de ser o mesmo, cansado da monotonia. De algum modo, Ed Crane busca dar sentido a sua vida, ingressando em um mundo onde sucedam coisas, onde se movam os estímulos, onde se mova sua sorte, boa ou má, tanto faz. Ed Crane, como muitos, esteve morto em vida durante anos, paralisado, invisível, de algum modo até impedido de atuar e de ter mais do que a vida lhe deu. De repente, um dia, viu a oportunidade de fazer justiça, de presentear-se com o que merece, o que durante tanto tempo lhe foi vedado. Já o dissemos, o que, na estrutura da viagem do heroi, equivale à chamada para fazer o bem se converte aqui na chamada para a ambição, para a tentação, para a oportunidade que o levará, sem se importar com os resultados, a uma aventura que o faça sentir-se vivo, justiceiro, merecedor do que nunca lhe foi dado. E, isso é o importante, o (anti) heroi dos Coen da mesma forma considera que está fazendo o correto, que se lhe fará justiça. Paradoxal, mas assim é.

O Homem que Nunca Esteve lá, dos irmãos Coen, nesta quinta-feira, 7 de fevereiro. Anti-herois, tentação, crime, mundo frustrado. O que você vê quando vê Max?

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At Any Second, ou o fogo que leva a outro fogo

por max 1. fevereiro 2013 10:42

 

Um fogo leva a outro fogo. O fogo não morre, nem desaparece, ele se transforma. Em amor, por exemplo.

 

Mais vale arder com uma chama intensa, que apagar-se lentamente. Embora a última parte pareça ser a forma mais frequente de deixar-se morrer em vida, também a frase inteira pode ser uma maneira de destruir-se... em vida.

 

Quem não ama vai se apagando, vai tornando-se um bosque frio e cinzento.

 

Quem ama é belo, disse Platão em O Banquete, porque ele vive como um deus. Mas, por vezes, esse deus é um destruidor que aniquila o ser amado.

 

Então também há quem destrua amando. Possivelmente, quem destrói amando não ama e somente busca salvar-se ou, de qualquer forma, fundir-se com outro alguém.

 

«Ame-me, ame-me, ame-me, salve-me, salve-me, salve-me, destrua-se, destrua-se, destrua-se.»

 

O fogo do amor. Chama alta que atiça, que glorifica, que abraça e que mata.

 

Então, voltemos a quem vive no frio, no musgo, voltemos a quem teve responsabilidades demais, a quem não se permitiu nada nem por um momento. Voltemos a quem foi apolíneo demais e que, um dia, ao ver o abismo de Baco, lança-se de forma plena.

 

Geralmente, quem se deixa arder, depois de tantos séculos de bosque, explode nas mãos desse deus destruidor que diz amar.

 

Despertar pode ser uma forma de destruição.

 

O amor não é algo fácil, não se controla, não se pode racionalizá-lo. O amor se joga no bosque, morde-o todo, mastiga-o inteiro, pisa-o de cima abaixo, sobe e desce as ladeiras, raízes das árvores, os montes. O amor é um lobo selvagem, filhote que um dia crescerá e será tão grande quanto Fenrir da mitologia nórdica, esse animal que devora tudo.

 

Neste domingo, 3 de fevereiro, delicie-se com At Any Second (2011), de Jan Fehse, filme protagonizado por Sebastian Koch e Mina Tander. Amor, fogo, despertar, destruição. O que você vê, quando vê o Max?

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