Minha Terra, África, ou tua terra não é tua terra

por max 30. novembro 2012 02:47

 

Minha Terra, África (White Material, 2009), de Claire Denis, é a obra de uma cineasta francesa que viveu na África e compreende profundamente a África e as relações dos países colonizados com seus colonizadores. De fato, parte de seu trabalho anterior reflete esse conhecimento. O filme que lhe deu fama, que a fez saltar de assistente de Costa-Gavras, Win Wenders e Jim Jarmusch a diretora indicada aos prêmios César, foi Chocolate (Chocolat, 1988), onde explora as lembranças de uma garota branca na atual República dos Camarões, recordações que incluem uma amizade com um homem da raça negra. Em Minha Terra, África temos essa visão da raça branca, por dentro. Uma visão que, como Desonra, de Coetzee, parte de um duro golpe contra a realidade do homem branco. Maria Vial (Isabelle Huppert) é uma mulher branca, proprietária de terras, que decide ficar em sua terra quando a guerra civil chega até ela. Herdeira dos primeiros colonizadores, ela vive neste país africano, que considera sua pátria. Ela está ali desde que nasceu, esse é seu lugar no mundo. Ir embora? Para onde? Ela não deixará sua terra, não irá para a França, um lugar ao qual não pertence. Mas o choque é duro e, evidentemente, ela também não pertence ao país onde nasceu. Agora, os outros, os da raça negra, aqueles com quem, talvez, compartilhou a vida em paz durante muito tempo, se rebelam contra ela. Ou, mais que rebelar-se, a temem, fogem dela. Ela é a mulher branca, ela é o inimigo que nunca foi. Maria se nega a aceitar a realidade? Não, mas ao invés disso, se recusa a deixar seu mundo. Pode-se culpar alguém por não querer exilar-se? Pode-se culpar alguém por não sentir-se culpado pelo mal que outros de sua própria raça semearam? E aqueles que são pela emancipação, que lutam pelos seus direitos, podemos perguntar se é certo agir como anjos exterminadores? É possível justificar as crianças da guerra? É possível justificar a crueldade contra o branco e até mesmo contra a própria raça?

Minha Terra, África não é um filme fácil, não procura agradar ninguém. É uma visão, uma história que vem de dentro, com conhecimento de causa, com as veias cheias de saudades, com a alma arrancada.

Minha Terra, África, neste domingo, 2 de dezembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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In the Loop, ou o espetáculo das guerras

por max 23. novembro 2012 06:58

 

Relembro de Mera Coincidência (Wag the Dog, 1997), com Dustin Hoffman e Robert De Niro. No filme, Barry Levinson inventa uma guerra com a finalidade de esconder um escândalo presidencial. Esta guerra inventada acontece na mídia, nas telas. Jean Baudrillard chegou a dizer que, nos nossos tempos, a realidade não existe, que tudo é parte de uma simulação, um espetáculo. Tudo isso, claro, é uma ferramenta de controle. Podemos ir ainda mais para trás no tempo, até 1949, ano da publicação do livro 1984, de George Orwell. Nesse livro, a guerra também é uma invenção. Constantemente, países diferentes estão em guerra. Um dia é a Eurasia contra Estasia, outro dia é Estasia contra Oceania, e depois, no terceiro dia, Oceania contra Estasia. Tudo acontece (falamos do filme de Michel Radford) nas grandes telas dos refeitórios, diante dos olhos daqueles trabalhadores autômatos.

A comédia satírica britânica In The Loop (2009), retoma o mesmo tema do espetáculo e da política, da simulação e da realidade. O diretor Armando Iannucci parte da interpretação errônea da declaração de um político, feita no rádio, para começar um jogo de guerras e diplomacias entre políticos americanos e britânicos que parecem participar de um reality show da TV. Alguém quer uma guerra e essa guerra, não importa como, deve ser realizada, então que seja inventada e aconteça por razões fictícias, o que acaba sendo uma espécie de ficção cruel. O estilo documental do trabalho marca, com maior ênfase, essa ideia do que está sendo registrado para depois ser visto do sofá, de uma poltrona em um aparelho de televisão.

Inspirada na série britânica "The thick of it", do mesmo diretor, In the Loop é uma comédia satírica sobre interesses políticos, montada em uma estrutura de falso documentário, em torno deste mundo de falsas aparências e informações (você lembra de algo como armas de destruição em massa?) que podem acabar produzindo o grande estopim da guerra. Divertida, lúcida e tremendamente atual, In the Loop é uma comédia, pura e simplesmente, muito britânica.

Assista nesta sexta, 23 de novembro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Woody Allen: A Documentary, ou a vida de uma lenda

por max 23. novembro 2012 06:32

 

No Max, já homenageamos Woody Allen, exibimos seus filmes, temos falado dele neste blog. Agora, dedicamos um documentário a ele. Woody Allen: A Documentary (2012) não é qualquer coisa. Já sabemos como o diretor é cuidadoso com sua vida particular (apesar de muita coisa ter vazado). Já sabemos como ele se manteve distante das luzes do circo e como, inclusive, negou-se a ir às cerimônias do Oscar, prêmio que ganhou quatro vezes. Assim sendo, o que fez Robert Weide, o diretor deste documentário, é um feito a considerar, pois graças a ele podemos percorrer um ano e meio da vida, trabalho, criação e também história de uma das pessoas mais cultuadas do cinema mundial. É preciso dizer que Weide não é um diretor qualquer. Weide transita no terreno da comédia e está entre os maiorais. No início do seu trabalho, em 1982, escreveu o roteiro para um documentário sobre os irmãos Marx e em 1998 dirigiu outro que foi indicado ao Oscar (1999), sobre a vida do grande Lenny Bruce; estamos falando do documentário Lenny Bruce: Swear to Tell the Truth. Weide também trabalhou durante anos com Larry David dirigindo episódios de Segura a Onda (Curb Your Enthusiasm). David e Allen se respeitam e trabalharam juntos inclusive em um filme de Allen que podemos ver no Max; refiro-me a Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, 2009). Assim sendo, não é de se estranhar que com Weide, Allen tenha concordado em abrir a guarda de sua protegia vida particular e que tenha aceitado que uma câmera o seguisse durante um ano e meio. Mas, como já disse, o trabalho não só engloba o presente, mas também traça uma trajetória bem completa de toda a vida de quem poderíamos qualificar como um dos últimos autores do "cinema de autor". O documentário cobre desde sua adolescência, seu trabalho como escritor de comédia, seus anos como comediante de stand-up, suas primeiras atuações, suas primeiras incursões na direção e tudo aquilo que o levou a ser um diretor que tem realizado, quase sem parar, um filme por ano por mais de 40 anos. O documentário também nos mostra seus hábitos ao escrever, suas ideias sobre a direção e sua relação (sempre carregada de desconfiança com o showbiz) com os atores.

Suas relações de casado, o sexo, a neurose urbana, o medo da morte, todos os temas de Allen estão citados no trabalho de Weide de alguma maneira. Evidentemente não pode faltar o jazz, sua antiga máquina de escrever (comprada em 1952 e ainda hoje em uso) e, claro, Diane Keaton, Mariel Hemingway, Mira Sorvino, Sean Penn, Martin Landau, Josh Brolin, Penélope Cruz, John Cusack, Scarlett Johansson e Larry David, entre outros.

Woody Allen: A Documentary, domingo, 25 de novembro.

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Nesta quinta-feira, sessão dupla de Ultraman

por max 22. novembro 2012 07:08

 

Há pouco tempo vi Frankenweenie (2012), o longa-metragem de Tim Burton inspirado em seu próprio curta. No filme, Toshiaki, o garoto japonês, ressuscita seu bichinho de estimação através do método descoberto por Victor. A tartaruga revive, mas transforma-se em uma tartaruga gigante. Seu aspecto, mais do que de tartaruga ninja, passa a ser de dinossauro. Mais do que dinossauro, Godzilla. Porque, além disso, o grito daquela tartaruga gigante e maléfica é o mesmo grito de Godzilla na série. No filme de Burton se subentende, ou melhor, se diz claramente, que o resultado da ciência pode ser bom ou mal, dependendo do que tenha no interior quem a realiza. Victor ressuscita Sparky por amor, e Sparky acaba sendo um magnífico cãozinho Frankenstein. Pelo contrário, Toshiaki e sua turma só querem experimentar o que aprenderam na aula de ciências da escola e suas criaturas ressuscitadas viram monstros, seres obscuros, tão obscuros quanto suas almas. O caso de Toshiaki não deixa de ser interessante. O que sai de seu interior não é somente maldade, mas sim uma metáfora da alma de um país que teve ambição, que jogou para ganhar e perdeu. Os monstros da cultura japonesa são a metáfora de sua ruína, de seu mundo destruído na guerra. Seus monstros são sua obscuridade. Não necessariamente maldade, mas sim obscuridade. Lembremos que o criador de Godzilla, Ishiro Honda, esteve sempre firme em sua famosa criação inspirada nas abundantes provas da bomba de hidrogênio que os americanos lançaram no atol Bikini na Micronésia. A intenção de Honda era protestar contra as armas nucleares.

Agora, enquanto Godzilla nasce desse protesto contra a corrida atômica, caberia perguntar de onde sai a série Ultraman, que estreou no final dos anos 60 (cabe esclarecer que há o antecedente Ultra Q). Será que há, ainda, nessas histórias de Ultraman, remanescentes dos monstros nucleares, ou será que trata de algo diferente? Certamente, não podemos apagar a herança, a tradição, mas o diretor Akio Jissoji, ao falar de seus monstros, faz referência a outra dor, a outra obscuridade. Jissoji chegou a dizer que suas criaturas eram símbolos da natureza. Nos anos 60, o Japão conheceu um progresso imenso, e o urbano começou a ocupar cada vez mais espaço. Jissoji concebia, então, seus monstros como uma maneira de protestar contra o crescimento desmedido da modernidade contra a contaminação, contra a racionalidade antiecológica. Ali, os monstros destruíam edifícios com prazer. São monstros vingadores, são a natureza que reclama. Claro que, para salvar a humanidade de seus próprios excessos, chega um ser de outro planeta. Não há outra opção: os humanos não sabem proteger-se de si mesmos. Assim nasceu Ultraman e, desde então, não parou de multiplicar-se em uma quantidade significativa de versões para televisão e cinema com as séries Ultra, e sempre com a assinatura da Tsuburaya Productions.

Nesta quinta, o Max traz uma sessão dupla de Ultraman com dois filmes da franquia: Ultraman – Mega Batalha na Galáxia Ultra (Mega Monster Battle: Ultra Galaxy Legends, 2009) e Ultraman Zero: Vingança de Belial (Ultraman Zero:The Revenge of Belial, 2010).

Ultraman – Mega Batalha na Galáxia Ultra é uma história de dimensões bíblicas onde o terrível anjo caído Ultraman Belial (belial, em hebraico, tem significados relacionados a corrupção) é liberado pela raça maléfica dos Rayonix, donos da lança Giga Battlenizer, com a qual Ultraman Belial poderá controlar 100 monstros, derrotar a raça Ultra e apoderar-se do Cetro de Plasma, fonte de energia da civilização Ultra. O Universo estará em perigo e somente um humano com herança Rayonix poderá acabar com a ameaça.

Ultraman Zero: Vingança de Belial dá continuidade à história anterior e é, além disso, o filme que foi lançado para celebrar os 45 anos da franquia da série Ultra. Belial, vencido no filme que precede este, volta ao ataque. Desta vez, reuniu um exército imenso e está pronto para dominar o Universo. Porém, Ultraman Zero é enviado para uma dimensão mais distante onde Belial se esconde e acumula energia. Lá, o sol não tem a força suficiente para dar-lhe energia, então seu pai, Ultraman Seven, oferece um bracelete que dá força multiplicada por três. Com as limitações daquele bracelete, Ultraman Zero terá que buscar o mítico escudo de Baradhi e, finalmente, enfrentar Ultraman Belial, antes que este se apodere do Universo.

Lembre-se, nesta quinta-feira, dupla sessão de Ultraman: Ultraman – Mega Batalha na Galáxia Ultra (2009) e Ultraman Zero: Vingança de Belial (2010).

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El premio, a ferida da ditadura

por max 19. novembro 2012 03:39

 

Os países curam suas feridas, relembram, repassam, repensam cada uma delas. No cinema argentino, as ditaduras militares e as Ilhas Malvinas são dois temas fundamentais no imaginário político e humano e fazem parte da cultura da dor e da vergonha que a nação toda carrega nas costas. No filme El Premio (2011), da cineasta argentina residente no México, Paula Markovitch, assistimos a história da pequena Cecilia e sua mãe em um contexto histórico dominado pela ditadura. Cecilia tem sete anos e parece ser uma criança como todas as outras, mas não é; Cecilia vive camuflada o tempo todo. Sua mãe é uma mulher apaixonada, com ideais políticos opostos ao poder e, por causa desta paixão, é obrigada a se mudar constantemente e esconder sua identidade e de sua filha. O filme as coloca em San Clemente del Tuyú, uma tranquila cidade turística da Argentina. Cecilia, claro, vai para a escola. Lá, a pequena deve esconder sua verdadeira identidade pois, naquele lugar, a soberania do regime militar se mostra com descarada contundência, e se reflete, por exemplo, na professora que é a favor da acusação política. A presença da morte, da ditadura, do ódio e do terror está em todas as partes. Apesar do filme ser baseado em fatos biográficos da própria diretora, remete àquele maravilhoso conto do chileno Antonio Skármeta «La composición», no qual um garoto deve escrever uma redação onde explica (nos tempos da ditadura) o que fazem seus pais durante as noites. Claro, essa redação era uma abominável maneira dos militares entrarem na intimidade dos lares através da inocência das crianças. No filme de Paula Markovitch existe também uma composição, uma redação cujo tema principal é contar as maravilhas da vida no militarismo. Ceci ganhará o concurso e o prêmio será entregue pelos militares a quem sua mãe se opõe e que, possivelmente, foram responsáveis pelo "desaparecimento" de seu pai.

Mão muito delicada e poética com imagens, às vezes, fora de foco para enfatizar a lembrança, o que foi vivido, o que foi e se reconstrói, e a atuação formidável das meninas Paula Galinelli Hertzog e Sharon Herrera acabam por deixar bem redonda esta história sobre ditaduras, que foi premiada nos festivais de Berlim, Havana, Jerusalém e México.

El premio, nesta segunda, 19 de novembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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O Ruído do Gelo, doença, morte e demônio

por max 16. novembro 2012 11:17

 

 

O tema da morte personificada é antigo. Nos tempos medievais, a imagem da morte estava muito presente. A morte dançava e a morte triunfava. Entre tanta fome, guerra e peste, a morte se convertia em uma imagem cotidiana. Nas gravuras de Hans Holbein, vemos a morte em cenas cotidianas, ao lado de seres humanos, gestos e ações como para arrebatar seu temperamento terrível. Não é de se estranhar que assim fosse, a morte a vida estavam, então, estreitamente relacionadas. Mais ainda a morte e a doença eram sinônimos. Estar doente era morrer. Em Sétimo Selo (1957), de Ingmar Bergman, o cavaleiro que retorna das cruzadas se depara com a peste (a doença) que arrasou o território. Logo, aparece A Morte, aquela famosa Morte de Bergman, e o cavaleiro e a Morte se enfrentam em uma partida de xadrez.

Em O Ruído do Gelo (Le Bruit Des Glacons, 2010), o veterano Bertrand Blier (Linda Demais para Você/Too Beautiful For You, Ménage, Quartos Separados/Notre histoire) retoma o tema da morte representada, da morte convertida em pessoa, através da figura de um homem elegante, formal, interpretado por Albert Dupontel. Um dia, ele bate à porta de quem há de morrer em breve, um escritor bêbado e em crise, interpretado por Jean Dujardin, ganhador do Oscar. A morte, neste caso, se apresenta como doença (a relação segue ainda nos dias de hoje). A morte é o câncer do escritor. Mas, além disso, esta doença-morte tem algo de mefistofélica. Essa elegância, esse porte, esse temperamento entre o afável, sedutor e misterioso, não deixa de nos lembrar o diabo "redimido" de Milton, mas, sobretudo, de Fausto, de Goethe. Umberto Eco em sua História da Feiúra também nos lembra de Dostoievski em Os Irmãos Karamazov: «Era um senhor, ou melhor dizendo, uma espécie de gentleman russo, não tão jovem, qui frisait la cinquantaine, como dizem os franceses, com fios brancos em seus fartos cabelos escuros e sua barbicha aparada."

O demônio laico se embeleza. Não quer andar pelo mundo assustando, mas seduzindo. Na sedução, há maiores possibilidades de condenação. O demônio de Robert De Niro em Coração Satânico (Angel Heart, 1987) é elegante. Quase um dandy, ele contrata o detetive Harry Angel (Mickey Rourke) que, sem saber, começa a buscar a si mesmo. Angel perdeu a memória e esqueceu que tem um pacto com o diabo. O nome do personagem de De Niro: Louis Cyphre. Em O Advogado do Diabo (The Devils Advocate, 1997), o diabo é também um sedutor, um advogado poderoso (Al Pacino), armado de uma teia de sedução que enreda outro jovem advogado (Keanu Reeves). Al Pacino, neste papel, é um charmoso advogado, um imã irresistível, rodeado de sucesso e bem-estar. Claramente, um diabo capitalista. Mais adiante, em Constantine (2005), o diabo segue sendo um elegante personagem, mas, desta vez, vestido todo de branco e com os pés descalços, sujos de lama. Peter Stormare nos entrega, aqui, a magnífica interpretação de um Satanás interessante para o espectador e, por que não, simpático: é sarcástico, é misterioso, é inteligente e, ao mesmo tempo, é um trambiqueiro. Isso sempre o diabo foi, um grande trapaceiro, um grande trambiqueiro, um malandro de primeira. Para chegar nisso, o diabo laico é obrigado a ter, sem dúvida, certo toque de empatia com suas vítimas.

Mas, estou indo pelas beiradas? Falava da morte e da doença e, de repente, me pus a falar do diabo. O que tem a ver o filho rebelde de Deus com tudo isso? Pois, pensemos, por exemplo, na relação entre a doença e o pecado na Idade Média. Acredita-se que quem fica doente é porque pecou. A peste era um castigo de Deus aos pecadores. O pecado, quem o contamina com ele? Satanás. Satanás contamina a alma frágil que se deixa tentar. Temos aí, sem dúvida, uma relação clara entre doença, morte e demônio. O câncer que começa a acompanhar o escritor em seus temas do dia a dia, é a Morte personificada, mas também é uma espécie de diabo brincalhão. Pode ser que não seja, é o mesmo que dizer que não seja um demônio, mas algo dessa herança, desse laço subterrâneo que permanece ali, na figura dessa doença personificada, doença-morte, doença-demônio.

O Ruído do Gelo, neste domingo, 18 de novembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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A Fonte das Mulheres, ou Lisístrata atualizada

por max 15. novembro 2012 09:29

 

Os gregos já contaram esta história, ou melhor, Aristófanes já o fez em Lisistrata. É uma história que todos conhecem: ao final, as mulheres são as que salvam o mundo, não é?! Digo, em oposição à selvageria dos homens. É o que acontece em Lisistrata, as mulheres, fartas da guerra do Peloponeso, decidem não ter mais relações sexuais com os homens até que a guerra termine. Assim, o ditado que diz que atrás de todo grande homem existe uma grande mulher não surpreende ninguém. As mulheres movem o mundo, movem a alma. Os homens sabem disso e, por isso, durante anos, tentaram dominá-las (lembremos de Anticristo, de Von Trier). E aí temos uma Sherazade, tão afiada, tão astuta em contraste com certas sociedades islâmicas de hoje: nas quais as mulheres estão sob controle, amordaçadas, ocultas.

A Fonte das Mulheres, do cineasta franco-romeno Radu Mihaileanu (Um Heroi do Nosso Tempo/Live and Become, Trem da Vida/The Train of Life, O Concerto/The Concert), atualiza a figura de Lisístrata e dá a ela o nome e a beleza de uma jovem muçulmana de um povoado qualquer entre a África e o Oriente Médio. Seu nome é Leila (Leïla Bekhti), e ela, farta de ser subjugada aos homens, de ter que levar - ela e todas as mulheres do povoado - a água de um poço para seus lares, decidem declarar-se em greve sexual até que os homens colaborem. Assim, essa bela garota retoma a herança de Sherazade (não no sentido de ser a narradora das Mil e Uma Noites, mas no da astúcia) e da Lisistrata de Aristófanes, para transformar-se na heroína desta comédia leve e corajosa, que não deixa de enfocar o drama da submissão feminina em determinadas culturas. A Fonte das Mulheres é uma viagem ao mundo dos rituais e das tradições (às vezes, a partir de uma visão um tanto turística ou estereotipada), mas também uma crítica ao machismo covarde, ao radicalismo religioso e, finalmente, uma voz que se levanta em favor da mulher moderna, da mulher em igualdade de direitos, da mulher Lisistrata que, hoje, está de mãos dadas com o homem, mais do que em sua companhia, mas conduzindo-o.

A Fonte das Mulheres, neste sábado, 17 de novembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Eterno Amor, ou os truques mágicos de Jeunet

por max 14. novembro 2012 04:19

 

Jean-Pierre Jeunet é um cineasta muito conhecido. Para muitos, é quase um deus, um ser amado à última potência. Jeunet é uma espécie de diretor eternamente juvenil ou universitário, por assim dizer. Um diretor de ilusões e esperanças.

Jeunet sabe escolher os planos, as cores e contar as histórias que dão aos seus filmes certo ar de fábula. Porque é assim: Jeunet é um contador de fábulas com habilidades de mago visual. Basta citar Delicatessen (1991), que o tornou conhecido no mundo todo, junto com Marc Caro, para exemplificar com clareza o que eu digo. Delicatessen, apesar inclusive de ser uma comédia de humor negro, tem uma poesia que supera o corriqueiro, e nos leva a um mundo particular cheio de graça e fascinação. Já separado de Caro, ele realizou O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Amélie, 2001), filme leve, espirituoso, cheio de ideias criativas e comoventes, protagonizado pela não menos empática Audrey Tautou. Amélie, uma moça ingênua ao extremo, mostra todo o esplendor que leva em seu interior quando decide enveredar pelas armadilhas do amor, seguir as pistas, as pistas do amor. Para ela, não há nada mais importante que o amor, que se traduz, por sua vez, em felicidade. O amor, o encontro consigo mesmo, o amor dos outros, o amor dela. O que Amélie leva dentro dela é uma mina de ouro: sua criatividade e persistência a fazem esplêndida, uma garota adorável pela qual a França e meio mundo se apaixonaram. Este mês, o Max apresenta o filme que foi realizado três anos depois do bem sucedido O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Estamos falando de Eterno Amor (Un long dimanche de fiançailles, 2004), baseado em romance de Sébastien Japrisot.

Aqui Jeunet não somente retoma sua protagonista anterior, Audrey Tautou, mas também volta ao tema do amor, e sobre essa espécie de teimosia do amor unida à ingenuidade. Porque se Amélie era teimosa e criativa em sua missão de distribuir amores, Matilde também será perseverante em sua tarefa: ela está convencida de que seu prometido não morreu na guerra, e sai em busca dele. Esta busca é cheia de momentos originais e de histórias incríveis, carregadas de uma visão crítica sobre os governos, a guerra e a perversão do poder. A história de seu prometido, Manech (Gaspard Ulliel), também é fascinante: um soldado que se mutilou para escapar dos horrores da guerra de trincheiras e que, além disso, acaba condenado à terra de ninguém (esse espaço entre a trincheira francesa e a trincheira alemã).

Drama bélico, história detetivesca, condução amorosa, fotografia esplêndida, planos inusitados, Eterno Amor é um filme que quer repetir um sucesso, com o cuidado de não somente usar a fórmula do sucesso, mas que vai além: o diretor trata de respeitar muito bem seu público e lhe apresenta uma história, mesmo que cheia de reminiscências de Amélie Poulain, que busca seus próprios caminhos.

Eterno Amor, nesta sexta-feira, 16 de novembro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Kaboom, ou uma lista explosiva e pós-moderna

por max 14. novembro 2012 04:04

 

Niilismo

Carpe Diem

Juventude

Universidade

Sexo

Bissexualidade

Pansexualidade

David Lynch

Luis Buñuel

John Waters

Bret Easton Ellis

Ficção científica

Comédia

Gore

Cinismo

Magia negra

Conspiração

Fim do mundo

Sexo explícito (ou quase)

Surfista chamado Thor mais gay que um gay sem ser gay

Máscaras de porcos

Desaparecimentos, assassinatos

Experimentação com drogas

Mais sexo

Sexo outra vez

Cores explosivas, azul e rosa bem fortes

Transmodernidade, pós-modernidade

O universo inteiro

Explosão

Kaboom, de Gregg Araki, nesta quinta-feira, 16 de novembro.

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Conflito das Águas, ou os paralelos da história

por max 9. novembro 2012 14:08

 

O homem moderno entende que a história não é cíclica, que não há elementos do pensamento sagrado que nos façam voltar às origens nem repetir certos acontecimentos por predestinação ou nada parecido. Contudo, a história moderna aceita, sim, que há certas constantes que se repetem em determinados momentos históricos e em lugares diferentes. Há certos padrões que obedecem causas muito complexas e que, claro, têm a ver com a essência do homem, com o uso excessivo do poder, com o abuso da liberdade. Para a ficção, tais repetições ou paralelos são muito atraentes, inclusive sob uma perspectiva quase mágica. Parece que a ficção, sim, se permite usar desse pensamento sagrado, dessa concepção cíclica. Há algo na literatura que abraça a magia com imprudência. O filme Conflito das Águas (También la lluvia, 2010), da diretora, roteirista e atriz espanhola Icíar Bollaín (Pelos Meus Olhos/Te doy mis ojos, Mataharis), assume a chamada narração no abismo, a de uma história dentro de outra história, para nos mostrar a crua realidade de um paralelo histórico que nos leva a uma compreensão do abuso do poder.

As filmagens de um épico sobre um Cristóvão Colombo cruel com os índios e faminto por ouro se desenvolve ao lado da chamada Guerra da Água, que aconteceu na Bolívia no ano 2000, guerra que não foi literalmente uma guerra, mas sim um grande protesto em Cochabamba contra a privatização do serviço de água por parte de uma companhia multinacional. As semelhanças ficam mais que claras. O poderoso, em seu abuso de liberdade, sempre desejará tudo para ele e sempre cometerá seus piores abusos exatamente onde a inocência das pessoas é maior. Porém, dentro dessa compreensão da história moderna, Bollaín honra a carga mágica da ficção e não fica apenas no simples paralelismo. Entende que os tempos mudam, e também os homens, os povos, e relata a luta daqueles cidadãos que combateram a privatização da água, daqueles que lutaram, que sofreram, que padeceram, mas também triunfaram.

Protagonizada por um grande ator espanhol como Luis Tosar, e pelo astro mexicano Gael García Bernal, Conflito das Águas transita sob as diretrizes do roteiro do veterano Paul Laverty, roteirista próximo de Ken Loach, um dos cineastas mais representativos do realismo social britânico. Não é de se estranhar, então, a forte corrente social que atravessa o trabalho de Bollaín. Nem é razoável, partindo de García Bernal, protagonista de Amores Brutos (Amores Perros), filme de relatos entrelaçados, pensar em uma certa influência de Alejandro González Iñárritu e seu roteirista Guillermo Arriaga.

Conflito das Águas teve justificado sucesso nos festivais de cinema internacionais como drama forte que é, preocupado com os temas sociais dentro do tema dos abusos de poder contra os mais desprotegidos. Assista a sua estreia exclusiva neste domingo, 11 de novembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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