Saída pela Loja de Presentes, ou onde está a arte?

por max 27. julho 2012 06:47

 

Aqui e ali me deparo com uma discussão sobre o filme Saída pela Loja de Presentes (Exit Through The Gift Shop, 2010). Fala-se, questiona-se fortemente que o documentário dirigido por Banksy — pseudônimo de um artista urbano britânico cujo nome verdadeiro e vida são desconhecidos — seja realmente um documentário ou o que chamamos de mockumentary. Eu acredito que isso pouco importa, pouco importa há muitos anos. Desde que Duchamp pôs um urinol em uma exposição de arte e estabeleceu um princípio de contradição sobre o que deve ser entendido como arte.

Para Marcel Duchamp, naquele distante ano de 1917, não interessava esclarecer se aquele urinol era arte ou não. Na verdade, o que o artista estava fazendo era colocar uma bomba no próprio centro das concepções de arte. Ele plantava uma crítica e a crítica, como tal, é uma expressão de liberdade. A crítica disse: Eu não quero esta educação, eu não quero esta forma de olhar o mundo, eu quero outra.

Saída pela Loja de Presentes faz algo parecido. O diretor diz: Eu não vou dizer se isto é real ou não; isto é simplesmente uma representação da realidade, não uma reprodução da realidade. Isto é verossímil, não necessariamente verdadeiro. Isto é arte, representa a si mesma, tem significado em si mesma, critica a realidade a partir dela mesma. Uma obra de arte não tem por que explicar-se. Uma obra de arte está lá. O filme criado por Banksy está lá, e você decide se o que ele projeta é ou não real. No entanto, sempre será real, porque a arte é uma forma de mostrar a realidade; não por meio, repito, da reprodução exata do objeto, mas por meio da sua representação. Digamos que Banksy, como Duchamp, colocou uma bomba e saiu correndo pelos fundos da loja. A arte sempre sai correndo pelos fundos. Mas Banksy não joga apenas com o formato do gênero documentário. O jogo que propõe não é apenas para deixar aberta, se assim preferir, a discussão sobre a representação e a reprodução (documental ou não documental), mas também deixa aberta a questão da arte. Não é qualquer coisa o que temos diante de nós, não é qualquer coisa o jogo de interpretação proposto, sobretudo tratando-se de grafiteiros.

Já se levou muito tempo discutindo se o grafite é ou não arte. Assim como Duchamp, seus herdeiros, os grafiteiros, são uns incendiários, uns rebeldes, uns terroristas da correção. O grafiteiro pretende tirar a arte das galerias e levá-la para a rua. Uma parte da arte contemporânea, de fato, quer a arte para todos, feita por todos (lembre-se dos dadaístas). O grafiteiro também pretende utilizar outros materiais (igual a Duchamp). A independência dos materiais de trabalho é fundamental para o grafiteiro. Não é o óleo, não é o mármore, nenhum material tradicional. É o spray, o molde, até mesmo o adesivo, a colagem.

Claro, a pergunta está aí: o grafite é arte ou vandalismo? Por mais que o grafiteiro pretenda bombardear as bases da arte estabelecida, por mais rebelde que seja no uso dos meios não convencionais (a rua, os materiais), sua atitude e sua maneira de expressar-se fazem dele um artista? Acredito que Banksy busca por isso em seu filme, e essa é a outra parte do jogo que ele apresenta.

Banksy nos coloca em movimento (ele faz bem o jogo, assim como Hans-Georg Gadamer também faz bem quando fala sobre a arte) e nos leva a um caminho que nos questiona e nos põe a pensar. O que, a princípio, parece ser um documentário sobre a arte urbana e sobre o próprio Banksy, dá uma volta substancial e se centra na figura de um francês excêntrico chamado Thierry Guetta. Guetta, que conhecemos no início do suposto documentário, leva anos gravando os grafiteiros em seus trabalhos na noite de Los Angeles. Certo dia, dizem a Guetta que Bansky, célebre grafiteiro de Bristol, estará na cidade e precisará de um guia que o leve a lugares onde possa registrar seu trabalho. Assim Guetta e Banksy se conhecem e Banksy passa a ser apenas uma silhueta e uma voz alterada ao longo do filme. Em certo momento, Banksy propõe a Guetta realizar um documentário sobre a arte urbana com todo o material que vinha gravando. Guetta aceita e ele próprio faz a montagem. O resultado: um completo desastre sem pé nem cabeça.

Aqui temos a primeira chamada de atenção. Guetta não teve o talento para fazer o documentário. Por isso, Guetta se incumbe da tarefa de fazer-se "artista" do grafite. Começa a realizar uma série de pinturas muito a la Warhol sob o pseudônimo de Mr. Brainwash. Que tenha sido Warhol sua principal fonte de inspiração não parece casualidade. Lembre-se dos famosos 15 minutos de fama que o artista mencionou. Guetta coloca todo seu dinheiro em sua primeira exposição e, então, vemos como a ruína vai se aproximando à medida que Guetta investe mais tempo em fazer-se conhecer pela mídia do que em terminar de montar sua exposição. Para surpresa de todos, por fim, as portas do famoso evento se abrem, e Guetta vende todos os seus trabalhos. Isto faz de Guetta um verdadeiro artista?

Esta é a exploração central de filme e por trás dela parece haver uma resposta. A resposta é o próprio filme, isto é, Saída pela Loja de Presentes. A arte requer talento. Não importa quanta informação se tenha sobre algo (a massa amorfa da realidade, a massa amorfa do vídeo), essa informação, sem processar, não fará de ninguém um artista melhor. Não importa o quanto alguém acredite que possa romper uma lei ou uma norma; não importa quanta intensidade rebelde se tenha por dentro, isso não fará com que ninguém realize um trabalho artístico de primeira (o "documentário" de Guetta foi um desastre); não importa nem mesmo quanto "sucesso" se alcance nem quão famoso seja, isso também não faz um artista. O que faz um artista é a capacidade de trabalhar e criar com o material que a realidade entrega, para fazer algo, uma peça de arte que realmente convide ao jogo e à festa entre o artista e quem observa. Essa obra de arte é o filme que vemos, e esse filme foi trabalhado, editado, dirigido, interpretado, representado por um artista: Banksy. Bem, há egolatria no assunto, sim, mas que artista não é ególatra? Também há muito personagem medíocre que pretende ser artista e que é totalmente ególatra. Não sei se me engano, mas acredito que Banksy diz que qualquer um que saia para rabiscar qualquer parede, não é, só por isso, um artista.

Saída pela Loja de Presentes, domingo, 29 de julho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Bancos de Praça, ou A Solidão Coral

por max 26. julho 2012 12:32

 

Em 2005, o cineasta francês Bruno Podalydès deixou de lado as produções de comédia de mistério sob a tutela literária de Gastón Leroux e seu pesquisador Rouletabille (Le mystère de la chambre jaune e Le parfum de la dame en noir), para embarcar na direção de um dos fragmentos de Paris te Amo (París, je t´aime), filme centrado em explorar diferentes histórias de amor em vários bairros de Paris. Estimulado pela experiência e seguindo, talvez, os caminhos do cinema coral de Claude Lelouch na França, e de Robert Altman e Woody Allen na América (sem deixar de lembrar a polifonia na qual tanto vinha trabalhando o mexicano Alejandro González Iñarritu), Podalydès partiu para a direção de Bancos de Praça (Bancs publics [Versailles rive droite], 2009), filme coral que gira em torno de uma praça, seus bancos, os negócios e pessoas que frequentam a região. A beleza da praça, o banco, se transformam em uma metáfora de confrontação do homem com a solidão. Nada mais belo e mais solitário que uma praça. É o lugar que, dentro da cidade, está mais próximo da natureza e também é o lugar para fugir do barulho urbano. A praça é um refúgio que faz mergulhar em uma solidão individual, por assim dizer, uma solidão que separa da solidão coletiva da cidade.

Bruno Podalydès e atores como Mathieu Amalric, Chiara Mastroianni, Emmanuelle Devos, Catherine Deneuve, Michael Lonsdale, Julie Depardieu e Denis Podalydès, entre outros, incluindo o próprio diretor, trabalham o filme com delicadeza, ternura e humor, para oferecer uma visão da vida e seus pequenos ou grandes momentos de solidão e companhia.

Bancos de Praça, no sábado, 28 de julho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Águas Turvas, ou dois caminhos e um passado

por max 24. julho 2012 06:21

 

Duas vidas, dois pontos de vista e um sequestro que leva à morte. Águas Turvas (DeUsynlige, 2008), do diretor norueguês Erik Poppe, transita pelas referências de uma história de redenção de duas vidas: a do suposto assassino e a da mãe da vítima, uma criança que foi sequestrada e assassinada.

Jan Thomas (Pål Sverre Valheim Hagen), o suposto assassino, nem completou 30 anos e passou sete anos na prisão. Agora que está livre, conseguiu trabalho como organista em uma igreja episcopal norueguesa. Conseguiu um apartamento e começa a criar uma relação muito próxima com Anna (Ellen Dorrit Petersen), pastora da igreja com um filho pequeno que, para Jan, parece muito com a criança morta, que o vive atormentando. O jovem ex-condenado não confessa por completo seu passado para Anna. No entanto, o segredo não ficará para trás, pois logo aparece Agnes (Trine Dyrholm), a mãe da criança morta. Agnes é uma mulher casada e mãe adotiva.

Com Agnes, revela-se outro ponto de vista. O filme começa a contar a história do ponto de vista dela e assim, da mesma maneira que em En el Bosque, de Ryonuske Akutagawa, vamos conhecendo as duas versões da tragédia do passado.

Agnes se transforma em uma perigosa acusadora que irá atrás de Jan na busca de respostas para a morte de seu filho. Assim, aprisionados dentro desse mundo de dor, tragédia e culpa, será forjado um tortuoso caminho de aceitação de destinos, de confissões e redenção.

Com este filme, Erik Poppe completa a chamada "trilogia de Oslo", que começou em 1998 con Schpaaa, cuja história era centrada em uma gangue de delinquentes juvenis, e que depois continuou, em 2004, com Hawaii, Oslo. Desta trilogia, Schapaaa é talvez a que mais se relaciona com Águas Turvas, pois é a peça que fecha o ciclo e volta ao tema da juventude e dos erros cometidos nesses anos, quando falta maturidade para medir as consequências das ações.

Águas Turvas, quinta-feira, 26 de julho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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A Coleta, uma história (verdadeira) para não esquecer

por max 20. julho 2012 09:00

 

Estamos em julho, e em julho faz 70 anos que terminou um evento abominável chamado "Operação Vento da Primavera". Se você acredita que os nazistas foram os únicos vilões na história da Segunda Guerra Mundial, está equivocado. Aquele que consente, que deixa passar, também tem sua grande parcela de culpa.

Em 1940, o Terceiro Reich tinha tomado a França, sem maiores esforços. A Wehrmacht ocupava o território e o general Philippe Pétain e o político Pierre Laval, com seu novo Estado pseudonacionalista conhecido como governo de Vichy (que durou de 1940 a 1944), deixaram que os novos aliados fizessem o que lhes parecia melhor. Foi assim que, pelo compromisso com a tristemente célebre Seção IVB4, escritório responsável pela localização e deportação de judeus sob as ordens de Adolf Eichmann, foi realizada, em julho de 1942, a Operação Vento da Primavera, um vento que visava "limpar" a França da presença judia, o que aconteceu em grande parte.

A polícia francesa se mobilizou. Fala-se que cerca de nove mil policiais e militares participaram desta ação, que se deram ao trabalho de buscar, em cada residência, os judeus franceses, já fichados pelo regime nazista desde 1940. As instruções já estavam dadas desde o dia 12 de julho e no dia 16 as prisões foram realizadas. Sem levar em conta o estado de saúde nem as reclamações, sem permitir que avisassem ninguém ou pudessem se arrumar direito, com a maior rapidez e o máximo silêncio, ou seja, sem explicações, na madrugada de 16 de julho foram presos mais de 13 mil judeus (a previsão era capturar mais de 27 mil; por sorte, houve fugas e muita desobediência civil e de funcionários), que depois foram conduzidos ao campo de Drancy, ao norte de Paris, e ao chamado Velódromo de inverno.

As condições de prisão não poderiam ser piores. As crianças, cerca de quatro mil, foram separadas de seus pais, e todos, adultos e crianças, passavam dias inteiros sem comer nem beber água. Houve cerca de cem suicídios, aqueles que tentaram escapar foram fuzilados. Não é para menos que houve suicídios e tentativas de fuga, já que muitos deles seriam enviados a Auschwitz. Voltando às crianças, cabe destacar que foram enviadas diretamente a este campo de concentração e, dali, direto para as câmaras de gás. Eram crianças entre dois e doze anos de idade.

A Coleta (La Rafle, 2010), de Rose Bosch, explora este momento histórico a partir da ficção, através da visão de Jo Weissman (interpretado por Hugo Leverdez), uma das quatro mil crianças que sofreram toda aquela terrível humilhação. Baseada em testemunhos dos sobreviventes e tendo uma rigorosa documentação como guia, a cineasta nos apresenta este filme, um dos poucos que aponta, sem medo, a responsabilidade do governo francês na tragédia. De fato, foi só em 1995 que o presidente Jacques Chirac reconheceu publicamente a responsabilidade do Estado.

Com realismo e, ao mesmo tempo, fotografia e ambientação de primeira, Bosch se abre diante da dor e da profunda emoção de recriar uma das tantas histórias que não deveriam ter acontecido mas que, uma vez que aconteceram, não devem ser esquecidas. No elenco estão Jean Reno, Thierry Fremont Gad Elmaleh e Melanie Laurent.

A Coleta, nos 70 anos da tragédia, domingo, 22 de julho. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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O Quadrado, ou o abismo do mal

por max 18. julho 2012 07:08

 

Toda história começa com um conceito já conhecido. A arte está na mudança do que vem em seguida, em fazer algo diferente. No caso do filme australiano O Quadrado (The Square, 2008), dos irmãos Nash Edgerton e Joel Edgerton, a história começa trilhando os mesmos caminhos de O Destino Bate à sua Porta (The Postman Always Rings Twice, geniais as duas versões cinematográficas inspiradas em James M. Cain, a de 1946 e a de 1981): um casal de amantes decide aproveitar-se do marido sem piedade e cheio de dinheiro, mas algo sai errado. Aqui é onde os irmãos Edgerton têm que se sair bem. Certamente, no caso de irmãos, um escrevendo - Joel, e outro dirigindo - Nash, nos leva a pensar nos irmãos Coen. E neste outro começo de história também deveria seguir-se um caminho diferente, que seria o caminho da originalidade dos irmãos australianos como artistas. Segundo os críticos, os australianos foram bem sucedidos. No caso de O Quadrado, temos Ray (David Roberts) e Carla (Claire van der Boom), ambos casados. Ele tem um casamento violento, ela, um marido delinquente (Anthony Hayes) que a humilha. Como muitos amantes cansados de suas próprias vidas, sonham em fugir, em viver bem longe. Um dia, Carla descobre um saco cheio de dinheiro em sua casa. Claro, pertence ao marido bandido. Decidem então roubar o saco. É Natal, e o melhor a fazer é provocar um curto-circuito nas luzinhas de natal. A casa pegará fogo e o marido acreditará que o dinheiro queimou-se com ela. Um plano muito simples, não é? Para levá-lo a cabo, os amantes contratam Billy (interpretado por Joel Edgerton), supostamente um especialista nestas artes. As coisas, como se pode supor, se complicam e, no dia do incêndio provocado, por azar, a mãe do esposo mafioso está na casa. A mãe morre e o marido mafioso descobre que o dinheiro não foi queimado, mas que foi, na verdade, roubado. Começa, então, a busca pelos ladrões, começam também a chegar cartas com chantagens, começam as descobertas, as mortes, a obscuridade, uma obscuridade que se abre cada vez mais em torno dos personagens, como o buraco que Ray está abrindo em uma construção na qual trabalha. E os personagens, atrapalhados e desesperados, se aproximam cada vez mais desse abismo que eles mesmos, achando que saberiam controlá-lo, foram procurando.

Sem dúvida, uma excelente proposta de film noir australiano que busca seus próprios caminhos em um enredo de histórias já contadas. Excelente primeiro filme, que recebeu várias indicações em festivais internacionais e o reconhecimento de Melhor Roteiro (sem dúvida, o roteiro é fenomenal), dado pelo círculo de críticos cinematográficos da Austrália.

O Quadrado, sexta-feira, 20 de julho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Imagine: John Lennon, ou a luz de uma estrela

por max 18. julho 2012 04:09

 

Muita coisa já foi dita sobre os últimos dias da vida de John Lennon. Há versões mais sombrias que dizem que Lennon era um prisioneiro de Yoko Ono e de seus próprios vícios lá em Nova York. Que não fazia mais nada além de consumir drogas e perambular de um lado para o outro na casa, enquanto sua mulher negociava sua imagem. Que ele era um trapo, que era uma marionete desconjuntada, fechado em seu quarto no edifício Dakota, dando pouca atenção a Sean, seu segundo filho. Certamente, há outras imagens de Lennon, muito mais luminosas que mostram um homem mais tranquilo, caseiro, pai preocupado com seu pequeno Sean, próximo inclusive do seu outro filho, Julian, e que deixou bem longe sua separação da primeira mulher e seu período de excessos na cidade de Los Angeles junto com estrelas como Elton John ou David Bowie (seu conhecido final de semana de loucura, que durou uns 18 meses).

O documentário Imagine: John Lennon (1988) sai exatamente no mesmo ano em que foi publicada uma biografia imensamente esperada de Lennon, preparada durante sete anos. A biografia The Lives of John Lennon, de Albert Goldman, apresentava um Lennon esquizofrênico, viciado em drogas, homossexual, manipulador e até mesmo assassino. Um golpe baixo muito claro e perigoso à figura de um homem que já estava morto. Imagine: John Lennon, dirigido por Andrew Solt, em seguida, veio então mostrar o lado luminoso do artista.

O documentário centra-se em sua vida privada e em sua carreira solo, e vai alternando, guiado pela locução do próprio Lennon, coisas divertidas da sua infância, a relação com sua mãe, sua idolatria por Elvis, seu problema com os vícios, seu casamento com Yoko Ono e seu papel como pai, sua luta pelo pacifismo, sua rebeldia e, em segundo plano, coisas do início com a banda, suas declarações controversas, a conquista da América e a separação da banda. Tudo com muito material inédito, sem dúvida, para combater aquela terrível avalanche de detalhes sombrios que havia caído sobre o ídolo com a biografia de Goldman. Lennon, por sorte, havia dado uma grande quantidade de entrevistas em áudio nos últimos anos e, como se estivesse pressentindo seu fim, falou profundamente de muitos assuntos de sua vida. Isso, somado aos arquivos audiovisuais pessoais de Yoko Ono e Lennon, permitiu que o documentário de valor fundamental na história da música fosse realizado. Assim sendo, além de qualquer especulação, este documentário e seus momentos musicais ficam como um tributo emocional e abrangente da vida de um dos grandes expoentes da música do século XX.

Imagine: John Lennon, quinta-feira, 19 de julho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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As Acácias, ou crescer na estrada

por max 13. julho 2012 14:13

 

A estrada é, na verdade, uma metáfora de experiência de vida. Aquela que, certa vez, foi o mar de Ulisses, o caminho dos peregrinos, do Quixote de la Mancha, ou a falta de rumo do Louco do Tarô, é hoje uma estrada asfaltada. Jack Kerouac fez da estrada uma experiência existencial e literária. O cinema de Hollywood desenhou o roadmovie e Dennis Hopper, Jack Nicholson e Peter Fonda foram lançados em uma viagem de loucura juvenil. Também aconteceu com Warren Beatty e Fay Dunnaway interpretando Bonnie e Clyde, e Susan Sarandon e Geena Davis em seus papeis em Thelma e Louise, duas garotas que, literalmente, se jogaram na estrada em um filme de Ridley Scott. Uma das histórias de estrada mais comoventes e assustadoras dos últimos anos é, exatamente, La Carretera, de Cormac McCarthy, romance com o qual o autor obteve o prêmio Pulitzer. No mundo de McCarthy não há carros, ou se há, estão estacionados na grande rodovia do mundo. Pai e filho percorrem a estrada, fugindo da desolação e dos humanos que, mortos de fome no pós-apocalipse, comem-se uns aos outros. Um romance sobre o fim do mundo, uma obra de crescimento ou bildungsroman, como dizem os alemães. E é bem isso, na estrada crescemos, na estrada somos nós, nos descobrimos. A estrada nos desnuda e nos confronta com quem somos.

As Acácias (Las Acacias, 2011), primeiro longa-metragem de Pablo Giorgelli, também utiliza a estrada para contar uma história de crescimento interior. Sem estridência, sem grandes movimentos de câmera, com silêncios, gestos e expressões de rosto, Giorgelli apresenta um calado motorista de caminhão (Germán de Silva), que saiu do Paraguai e chegou à Argentina, levando uma mulher e sua filha (Hebe Duarte e o bebê Nayra Calle Mamani). Neste pequeno cenário centra-se Giorgelli para confrontar, sem pirotecnias, os mundos de seus personagens. A mulher que abre o homem, o homem que se abre diante da mulher, a estrada como balão de ensaio, o por do sol, a paisagem, o caminho sem fim. Giorgelli conta que trabalhou no roteiro por mais de dois anos e na montagem por sete meses. Foi um trabalho de depuração, um trabalho de essências. O personagem cresce e se desfaz de preconceitos, de rudezas, de crostas, o personagem feminino também mostra seu lado escondido, e o diretor faz tudo com respeito, com tamanha delicadeza, que o resultado final é a pura alma, sem sentimentalismo.

As Acácias recebeu o prêmio Camera D´Or em Cannes. Domingo, 15 de julho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Uivo, ou dez beats em torno de Allen Ginsberg

por max 13. julho 2012 14:06

 

Beat 1. Um dia, meados de 1955. Um homem caminha pelas ruas de São Francisco, cidade que, uma vez, foi lugar de perdição, onde os "caçadores" de ouro iam procurar mulheres e bebida. São Francisco, muito tempo depois, continua sendo assim: ouro e perdição, ouro e vícios, ouro e a liberdade de ser você mesmo. Quem você é, na verdade.

 

Beat 2: Um incenso, um cântico, um homem muito magro sentado sobre um pano em um parque qualquer (também poderia ser um apartamento). Depois da Segunda Guerra Mundial, depois dos grandes argumentos da razão, da luz da razão, da perfeição pura da razão, depois que toda essa maravilha não curou os males do homem, depois que o futuro deixou de ser futuro, depois que os jovens deixaram de acreditar, começou-se a buscar novos caminhos. A razão rejeitou a religião. Devemos voltar ao espiritual, dizem as novas vozes. Ah, mas não necessariamente à religião que tem mais de 10 mil anos a nos apezinhar. Não voltaremos à religião da cruz. Devemos lançar nossos olhares para a mística oriental. Ali, na ioga, nos gurus, no budismo, deve haver respostas para tanta loucura. Algo novo de tão antigo.

 

Beat 3. Uma boca se abre, um papel pequeno na ponta da língua. A expansão da consciência. Bater nas portas, passar para o outro lado. O surrealista André Breton falou de ir fundo na alma criativa, ir através dos sonhos, ir escrevendo sem pensar. Jung falou da imaginação ativa. Podemos tirar lá do fundo para fora, podemos inclusive colocar a mão na realidade e transformá-la, vê-la como realmente é. A realidade é suave, e as palavras da poesia nesta realidade suave são mais suaves ainda. Que viva a palavra suave!

 

Beat 4. Dois homens se beijam. Allen e seu amor se beijam. O amor não tem sexo, o amor não deve afundar-se em medos. O amor é o amor, e é puro desta forma. Está além daqueles que não entendem. O amor na poesia deve ser cantado, assim seja o amor entre os homens. Allen e amor, seu homem, voltam a se beijar.

 

Beat 5. Uma estrada. Uma estrada longa. A poesia está em uma estrada. A alma está na estrada. Não veem Jack lá longe? Jack, sim, seu sobrenome é Kerouac.

 

Beat 6. Lawrence Ferlinghetti lê, como uma performance artística, o poema «Uivo» (Howl), de Allen Ginsberg, em sua livraria, a célebre City Lights. Dias depois, Ferlinghetti é preso. Acusação: propagar, difundir, recitar literatura obscena. Todos acusam os poetas.

 

Beat 7. Um julgamento. Rostos indignados. O poema como uma arma, o poema como um insulto, o poema que vai a julgamento, como se fosse um delinquente. Allen Ginsberg e seu poema «Uivo» estão no tribunal. Acusados de serem indecentes, de serem imprudentes, de bombardear a moral. No país da liberdade, pretendem aprisionar um poema. Tudo fica nas mãos do juiz. Tudo fica nas mãos da consciência redentora.

 

Beat 8. Início de «Howl», ou «Uivo»: «Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura.... »

 

Beat 9. Uivo (Howl, 2010), de Rob Epstein (diretor premiado três vezes no festival de Berlim e ganhador de dois Oscars de Melhor Documentário) e Jeffrey Friedman (ganhador de três prêmios em Berlim, junto com Epstein), é um drama que mescla animação e um certo tom documental para retratar a vida de um dos maiores poetas da geração Beat. Os dois diretores, Epstein e Friedman, vêm desenvolvendo há anos um trabalho sério, sólido, duradouro, sobre a vida em São Francisco e os direitos da comunidade homossexual. James Franco interpreta Gingsberg. Franco, sem dúvida, tem rosto de rebelde. James Dean também foi. Por que não Allen Ginsberg? Há rostos rebeldes por excelência. Olhares rebeldes por excelência.

 

Beat 10. Uivo, neste sábado, 14 de julho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Ultraje, ou a violência, a morte e a alma em Takeshi Kitano

por max 13. julho 2012 02:06

 

Poderíamos dizer que Takeshi Kitano (1947) é uma celebridade multimídia. Também poderíamos dizer que ele é uma espécie de homem renascentista, daqueles que sabem e fazem de tudo. Kitano começou como comediante na televisão e também atuava em bares, depois passou a trabalhar como ator em filmes. Teve um programa semanal de variedades na TV e também publicou poesias e romances, 55 romances no total. Kitano é diretor e roteirista. Escreveu todos os roteiros de seus filmes. Por isso, não há dúvida, ele é um homem-orquestra. Violent Cop (1989), seu primeiro filme como diretor, acabou em suas mãos por sua própria culpa. Ao que parece, ele havia sido contratado como ator para o filme, mas Kitano se mostrou tão participativo em cada detalhe das filmagens que o diretor acabou abandonando o set. Então, diante de seu entusiasmo, propuseram que ele dirigisse. Ele aceitou, e recebeu não só esta tarefa, mas também pegou o roteiro e modificou completamente, à sua maneira.

A lista de fitas de Kitano é ampla e não há apenas filmes violentos (vale lembrar, por exemplo, Aquiles e a Tartaruga), mas ele é relacionado, principalmente, a produções onde é muito presente a luta entra a vida e morte, em contextos de violência extrema, onde o crime passeia pelas ruas, como se passeasse tranquilamente pela sala de sua casa.

A violência, ou melhor, a morte violenta na obra de Kitano é levada de uma maneira muito particular. No livro em espanhol Directores, de Mike Goodridge (editora Oceano, 2002), há uma entrevista onde Kitano é citado:


«Meu jeito particular de retratar a violência é parecido com o que faço em minhas atuações como humorista. Frequentemente, o que faz com que a atuação cômica seja divertida é dar ao público algo com que ele está familiarizado, temas cotidianos e, de repente, introduzir algum elemento completamente inesperado. Isso é o que faz as pessoas rirem. O mesmo acontece com as cenas violentas de meus filmes, que se desenvolvem nas situações mais improváveis.»

 

A violência em Kitano é um elemento insólito e, ao mesmo tempo, se apresenta com uma crueza que é um verdadeiro soco. A violência é, a violência está no mundo e a morte chega com ela. O elemento familiar, que é apresentado como uma coisa qualquer, é, ao mesmo tempo, seu terror. O escritor Roland Barthes, em A Câmara Clara, ressalta: «Um dia, na saída de uma aula, alguém me disse: "Você fala de uma forma muito simples sobre a Morte! Como se o horror à Morte não ficasse apenas na simplicidade, na banalidade!» E, apesar de Barthes tratar sobre fotografia no livro, pode-se concordar com suas ideias quando fala-se sobre Kitano: a violência em sua obra é uma banalidade exagerada, uma hipérbole. A hipérbole funciona como elemento estético, como ferramenta de arte para contra-atacar o horror à violência. O banal, o horror ao banal, torna-se estética em Kitano através dessa hipérbole, desse exagero. Assim, em termos de conteúdo, podemos dizer que o medo da banalidade está presente, mas a partir do ponto de vista da forma, esse horror banal toma um caráter estético, graças ao recurso do inverossímil.

Membros da Yakuza, empresários do crime, vinganças, violência gratuita, morte gratuita, onde o gratuito não é realmente tão gratuito assim, mas sim uma reflexão crua sobre a existência. Tudo está ali na obra deste homem múltiplo, que se desdobra em mil facetas para contar sua alma e seu tempo.

Assista Ultraje (Outrage, 2010), filme dirigido, escrito e com a atuação do grande Takeshi Kitano, neste domingo, 8 de julho, no Max. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Um Gato em Paris, ou o que um gato faz durante a noite

por max 5. julho 2012 03:34

 

O que os gatos fazem durante a noite? O que fazem depois que sobem no telhado? Estas e outras perguntas são respondidas na ficção Um Gato em Paris (Une vie de chat, 2010), de Jean-Loup Felicioli e Alain Gagnol, animação que foi indicada ao César em 2011 e ao Oscar em 2012, como Melhor Filme de Animação em ambas as premiações. Os diretores mostram Dino, o gato desta história, em seus dois mundos: o do gato doméstico diurno, que vive com sua dona (e dona poderíamos citar entre aspas, porque uma pessoa nunca é totalmente dona de um gato), a pequena Zoé, que não fala desde que um criminoso tirou a vida de seu pai, um agente policial que apenas cumpria seu dever. Todas as manhãs, Dino leva para Zoé uma lagartixa morta, mas, num belo dia, ele aparece com um bracelete. Esse bracelete é, como o espectador já sabe desde o início, um indício da outra vida de Dino. O felino, em suas andanças sob a lua, acompanha um simpático ladrão chamado Nico, que pelas circunstâncias, acaba sendo outro gato da noite e vira um personagem querido da história, mas também um cúmplice do assassino do pai de Zoé. Atrás da pista do bracelete estão a mãe de Zoé, que é policial, e seu companheiro de trabalho. Mas Zoé não ficará para trás e, de seu jeito, acompanhará Dino em suas aventuras noturnas. Assim, com todos buscando resolver o mistério, vão aparecer confusões e perigos.

Personagens estilizados, que lembram art-decó, a luz, a noite, as igrejas, as gárgulas, os gatos (claro), um ladrão que lembra um pouco cavalheiros galantes como Rocambole ou Arsenio Lupin, personagens tão tipicamente franceses, e um grupo de adoradores que fazem homenagem ao cinema de Quentin Tarantino. Tudo isso, dá forma a este filme elegante, delicado e belo, com aventura e redenção, relações familiares e enigmas que fascinam. Um magnífico trabalho de animação na melhor tradição europeia, com tintas e homenagens ao cinema americano. Mas isso sim, nada mais francês que um gato sobre um telhado. E, ao fundo, a torre Eiffel.

Um Gato em Paris, nesta sexta, 6 de julho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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