Las Viudas de los Jueves, ou o isolamento seguro e a imortalidade falsa

por max 29. junho 2012 14:42

 

O tema do isolamento na sociedade tem uma origem. O isolamento, como narra o escritor uruguaio Horácio Quiroga em seu conto "A Realidade" é, no início da história do homem, uma busca por refúgio. O isolamento na caverna foi uma necessidade de segurança. Evidentemente, o isolamento como forma de segurança parece absolutamente compreensível. Mas este mesmo isolamento é entendido de outras maneiras, por exemplo, na obra de Platão, que vê a compreensão da realidade pelo homem como um jogo de sombras. O grupo de homens que Platão imagina, aprisionados em uma caverna, veem somente as sombras do real. As sombras que se projetam na parede da caverna. Aqui, a imagem do isolamento se distorce, torna-se obscura. O isolamento, a segurança da caverna, vira um equívoco. Em "O Anjo Exterminador", de Buñuel, o "confinamento" inexplicável dos burgueses na sala de uma casa abre portas para o cineasta mostrar toda a fúria animal que se esconde por trás dos códigos sociais. Naquela ruptura dos costumes sociais, percebe-se a crítica à cegueira burguesa, à cegueira produzida pela própria reclusão em busca de segurança. A segurança, a sombra da segurança, produz cegos sociais. Isso é o que Buñuel parecia dizer. Em "Malpertuis", livro de Jean Ray, e também na versão cinematográfica de Harry Kümel (1971), a ideia do aprisionamento como elemento de distorção também está muito presente. O isolamento é uma forma de esquecimento eterno, a segurança é uma espécie de falsa imortalidade e também de endeusamento. Em "Malpertuis", os confinados na mansão são deuses gregos, deuses em decadência. Jung dizia que aqueles que foram deuses se transformaram em doenças. O autor colombiano Álvaro Mutis, em "La mansión de Araucaíma", também mostra o aprisionamento como uma fonte infinita do mal; um romance gótico nos trópicos, um romance sobre o mal, que fez Mutis ganhar uma aposta de Buñuel, acertada em uma noite regada a martinis. Essa era fácil ganhar: o mal, gótico ou não, o mal dos cegos está em todos os claustros, em toda segurança com forma de imortalidade, até mesmo nas terras quentes de nossa América (Buñuel dizia que um romance gótico seria impossível por nossos lados).

No cinema latino-americano, existem algumas referências neste aspecto. O filme mexicano Zona do Crime (La Zona, 2007), dirigido por Rodrigo Plá, gira em torno da vida em uma área residencial de classe alta, super protegida onde, um dia, aparecem alguns ladrõezinhos "inocentes" e, por azar, morrem várias pessoas. Aquela região residencial é o lugar dos deuses falsos, daqueles que pensam estar acima do bem e do mal, e que acreditam que podem agir por conta própria, fazer justiça com as próprias mãos.

Outro filme latino-americano que também trata do tema do confinamento seguro como gerador de poderes falsos é Las Viudas de los Jueves, do cineasta argentino Marcelo Piñeyro. Piñeyro é um diretor prestigiado, que ganhou vários prêmios Goya por seus filmes O que Você Faria? (El Método) e Plata Quemada, este último baseado em um dos romances fundamentais do autor Ricardo Piglia. Las Viudas de los Jueves, seu mais recente filme (produção de 2009, Piñeyro é um diretor que se dá seu tempo), centra-se também em um condomínio fechado de luxo, onde moram famílias ricas. Um dia, em "Altos de la Cascada", aparecem três cadáveres flutuando em uma piscina. Para evitar intrusos ou incômodas intromissões, os moradores logo rotulam as mortes como acidentes. Porém, o horror destas três mortes inicia um proceso que irá desnudando todas as verdades, em um filme carregado de boas doses de suspense. Os atores Pablo Echarri, Ana Celentano, Leonardo Sbaraglia, Ernesto Alterio, Gloria Carrá e Juan Diego Botto, entre outros, interpretam os personagens desta obra em conjunto, que serve ao diretor para mostrar um reduto social que, em muitos casos e apesar do tamanho pequeno, pode até controlar ou ditar grandes pautas de comportamento em um país. A partir do isolamento, da cegueira, da falsa eternidade, eles querem o Olimpo e, do Olimpo, lançam seus tentáculos para o mundo.

Las Viudas de los Jueves, neste sábado, 30 de junho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Borgia, a série, apresenta os amores e a luxúria de Lucrécia Borgia

por max 26. junho 2012 10:33

 

O que já não se falou sobre Lucrécia Borgia? Se for dado crédito a tudo o que foi dito contra ela, ela será menosprezada, aviltada, pois veremos em Lucrécia Borgia um monstro, um verdadeiro monstro renascentista, uma mulher que levou essa necessidade de exploração do ser humano, do poder humano, do corpo humano, muito além do limite. Mas será que tudo o que foi dito sobre ela estará certo? Não era uma santa, sem dúvida. Ninguém foi santo no Renascimento porque, precisamente, uma das ideias que ocupavam a mente e a vontade das pessoas nessa época era negar toda a santidade medieval em prol da exploração do humano. Há quem diga que Victor Hugo, com sua obra sobre Lucrécia Borgia, foi quem iniciou o descrédito, ou melhor, a lenda assassina e poderosa sobre o único fruto feminino de Rodrigo Borgia, ambicioso cardeal e depois terrível papa, com sua amante preferida, Givanna Cattanei, mais conhecida como Vannozza, abreviação de Giovannozza. Lucrécia era irmã de Juan, César e Jofré, os dois primeiros autênticos mestres da intriga, do assassinato, da luxúria e dos abusos desmedidos de poder.

Lucrécia se viu submetida desde muito jovem aos desígnios políticos do pai e depois do irmão César. Rodrigo, posteriormente chamado Papa Alexandre VI, como muitos homens poderosos daquela época e outros tempos, via no casamento um contrato perfeito para estabelecer alianças. A filha Lucrécia, ele quis que se casasse aos 12 anos com um jovem e nobre valenciano (a origem da família Borgia encontrava-se na Espanha), chamado Querubín Juan de Centelles, a quem Lucrécia nunca chegou a conhecer, porque nunca chegou a se casar com ele. Assim que Rodrigo Borgia se tornou a papa, anulou o casamento e, sem mais nem menos, casou a filha com Juan Sforza, conde de Pesaro, filho de Ludovico, O Mouro. Os Sforza, vale acrescentar, eram então uma das famílias mais poderosas da bota italiana, amos e senhores do ducado de Milão.

Aos 28 anos e viúvo, Juan Sforza não era o que chamavam de um grande partido. Era fraco de caráter, nada galante. Contudo, o casamento foi celebrado com grande pompa e, para as pessoas não falarem mal, durante a festa foram sendo dados, através das janelas, os restos do banquete para o povo nas ruas, para que eles também vivessem esse momento de amor. O casamento com Juan Sforza não funcionou. O ato sexual, aparentemente, não se consumou e logo Lucrécia arranjou um amante, um jovem mensageiro espanhol chamado Pedro, Pedro Calderón, a quem chamavam Perotto. A lenda conta que o primeiro filho de Lucrécia, Giovanni ou Juan, foi fruto de sua relação com Perotto. Em uma bula papal posterior, o rapaz apareceria como filho de César, e em outro bula, ainda mais misteriosa, como filho do próprio Rodrigo. O Infante Romano, assim era chamado esse filho, foi o centro de muitas dúvidas na história dos Borgia e, sem dúvida, foi um marco na vida de Lucrécia. Como marido, Juan Sforza acabou lançando insultos sobre toda a família depois que César tentou matá-lo sem sucesso (outras alianças andavam bem e Lucrécia estava melhor viúva do que casada com um parceiro que já não valia a pena). Sforza acusou César e Rodrigo de ter relações com Lucrécia e, ao final, depois de falar essas coisas, teve que declarar-se publicamente impotente. Assim eram os Borgia, não perdoavam nada.

Depois, Lucrécia casou com Alfonso de Aragón, príncipe de Salerno, mais conhecido como duque de Bisceglie. Ela tinha 18 anos, ele 17, e era bonito, delicado e bom amante. Apesar de tratar-se de outro casamento arranjado por razões políticas, fala-se que Lucrécia amou Alfonso perdidamente, em seu castelo de Santa Maria em Portico.

Aliás, o vai-e-vem dos poderes terminou colocando o aliado nas linhas inimigas pois, em algum momento, o poderoso César Borgia pactuou com a França deixando de lado Aragón, inimigo feroz da França em sua luta pelos territórios fronteiriços da Espanha. Assim, Alfonso se viu em uma situação incômoda que o obrigou a fugir. Com a ajuda do papa Alexandre VI, pôde voltar, mas encontrou finalmente a morte no dia em que César Borgia e seus guardas o estrangularam na própria cama onde dormia com Lucrécia. Com Alfonso, ela teve um filho, Rodrigo, que morreria aos 13 anos de idade. A morte dele - ela já estava viúva e casada com seu terceiro marido – causou grande dor.

Durante seu casamento com Alfonso, não parece que ela tivesse amantes. Estava muito apaixonada. Em seu terceiro casamento, ao que parece, ela teve novos amantes. Falava-se de Francisco de Gonzaga, duque de Mantua, e do poeta e erudito Pietro Bembo. Seu terceiro marido, que não fique de lado, foi outro Alfonso, Alfonso de Este, filho do duque da também poderosa família Ferrara.

Alfonso era charmoso, mas rústico e descuidado como seu pai, Hércules. A relação não teve maiores empatias. Ela tinha 20 e ele 24 anos. Ela já tinha tido filho, amantes, um grande amor e era uma mulher bonita, apesar de triste por viver tanto em tão pouco tempo. Com Alfonso teve, contudo, seis filhos e, como duquesa de Ferrara, conheceu uma estabilidade de senhora de respeito.

Morreu aos 39 anos, vítima de uma febre depois do parto de sua última filha, Isabel. Sobre Lucrécia sabe-se que usou veneno (a famosa cantarella dos Borgia) para eliminar seus inimigos, mas não há nada de real sobre disso. Também costuma-se dizer que ela teve como amantes seu irmão César, que supostamente encontrou-a nua na cama com seu primeiro amante Perotto; César, excitado pela cena e pelo corpo de sua irmã, acabou requisitando seus favores. Também contam que Juan, seu outro irmão, também foi seu amante; este ao saber dos prazeres de César, também chegou a solicitar sua parte. Até mesmo com o pai ela se relacionou. A bula papal, aquela secreta na qual Alexandre VI contou ser pai do Infante Romano, rendeu muitos comentários. Tanto poder, tanta desgraça, tanta beleza e tanta traição rodeando a vida de uma mulher como ela, abre espaço para a mentira, a lenda e, como não, também à ficção.

Borgia, a série, em junho, toda quarta, no Max. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Knuckle, ou de mãos limpas

por max 22. junho 2012 14:23

 

Sim, esse cara andou uns doze anos por aqui. Ele ia e vinha, e nós o deixávamos por aí. Era um cara legal, que se mantinha à distância. Entendia a gente e se limitava a fazer seu filme, seu documentário. E, além disso, quem não quer aparecer nos filmes? Um tal de Brad Pitt até já fez o nosso papel. Sim, esse ator que também fez a Morte em um filme e, em outro, viveu um treinador de basquete, mas também fez um lutador brutal em um filme muito estranho, com clubes de luta ou algo assim, e tem aquele outro, onde ele faz um viajante, um cara igual a nós, um viajante irlandês sem casa. Viajar e lutar é o que conta, não é?! Bom, beber a noite toda, lutar durante o dia, depois viajar, chegar novamente a um lugar, voltar a beber durante a noite, voltar a lutar de dia. Lutar com os inimigos, claro. Com os Joyce. Nós, os Quinn McDonagh, sempre seremos o alvo e o motivo do ódio dos Joyce; eles que nos ofenderam, que acreditam ser melhores que nós. Porque é assim, você sabe, irmão. É preciso bater forte naqueles que pensam ser melhores do que nós. Bater com punhos limpos. Com estes punhos que já beberam sangue. Eu me chamo James Quinn McDonagh, tenho todas estas tatuagens para me entregar e me comunicar com nosso Deus católico e justiceiro. Os Joyce, malditos Joyce, que um dia foram nossa família e agora não são, apesar do sangue... Certamente, alguém me disse uma vez que um tal Joyce foi um grande escritor da Irlanda. Também dizem que um tal de Oscar Wilde era irlandês. Que era bom no que fazia, muito bom, mas que... Você já sabe, não gosto de falar disso. Meu papo com homens são as lutas de punhos limpos. Nosso Código proíbe isso. Mulheres e mais nada. Casar-se cedo, ter muitos filhos, bater nas mulheres, nunca divorciar-se. Nada de andar de carinhos com homens. Nada disso.

No final, esse Ian, Ian Palmer, ficou doze anos me seguindo. Aproveito e volto a dizer o que disse antes, meu irmão, é um prazer te ver depois de tanto tempo. Vamos comemorar! Sim, cerveja, mais cerveja...! Bom, o fato é que Palmer andou cheirando meu traseiro durante todo esse tempo, e eu o que fazia era viajar, beber e dar uns socos por aí, sempre cheio desse ódio glorioso que nos faz ser os Quinn McDonagh, inimigos da tribo Joyce. Doze anos, e o maldito cara lá. Uma vez, Palmer me disse: "Conhece Yeats?" Eu lhe respondi: "Luta bem?" "Não, é um poeta, mas os poetas também lutam bem", falou Palmer. Gostei disso: os poetas também lutam. Gosto de me sentir um poeta. Ah, não gosta de poeta? Viva a poesia! Mais cerveja, sim! O quê? Não quer mais falar de poesia. A poesia não é proibida pelo Código. Posso te dar umas porradas na cara. De punhos limpos, como sempre. Sim, sim, estou calmo, tudo bem. Mas deixe eu terminar a história, idiota. Eu disse para Palmer: "E o que acontece com o poeta Yeats?". E Palmer: "Há muitos anos, ele escreveu sobre sua gente." "Ah é?", eu disse, já não estava gostando dessa coisa toda. "Sim, em uma peça de teatro, ele disse que vocês são o povo dos caminhos, o povo sem casa". Não achei mal. Tá certo, somos mesmo o povo do caminho, não temos casa e, além disso, digo mesmo que somos como poetas. Os poetas são de todas as partes e, ao mesmo tempo, não pertencem a lugar algum. O que eu sei? Alguma coisa sei sobre poetas, idiota. Para eles e para nós, uma casa é uma prisão. Lembra? Dizemos isso sempre, que uma casa é uma prisão. Está olhando feio pra mim outra vez. Mas se você se esqueceu, nós nos chamamos Lucht Siúil, gente que caminha. Gente que caminha é um pouco poeta. E, claro, somos brutos e vamos de lugar em lugar, de vingança em vingança. Agora estamos nos filmes, o tal do Brad Pitt interpreta a gente, o tal Yeats falou de nós, tem filmes que mostram a gente. Não passamos despercebidos, meu irmão. Não passamos. Você acha que sou um romântico? Estou falando mais do que o normal? Isso sobre os poetas parece meio estranho? Isso te cheira mal? O que quer dizer com isso? Está duvidando da minha macheza, é?! Venha cá, desgraçado, venha conhecer meus punhos... Venha, quero beber seu sangue... Venha, desgraçado, que vou te deixar como um Joyce... Vem cá, maldito...

Knuckle (2011), neste domingo, 24 de junho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Come Rain, Come Shine, ou distorcendo o quadro

por max 21. junho 2012 12:34

 

Come Rain, Come Shine (2011), de Yoon-ki Lee, é um filme de contrastes dentro de um total minimalismo. Pode parecer que a premissa fundamental seja "sair do quadro". Na Semiótica e no estudo da narrativa, o quadro é uma história estereotipada que existe potencialmente em nós mesmos. Se temos a seguinte situação: esposa diz ao marido que vai deixá-lo por causa de outro, imediatamente pensamos em várias suposições sobre essa história, em que pode acontecer nela. Temos na memória todas as possíveis percepções, atuações, palavras, tudo sobre esta premissa. Vemos ou não vemos ali muitos gritos? Muita raiva? Muita discussão? Sim, é isso que vemos, não é? Mas Yoon-ki Lee, diretor de filmes excelentes, delicados e de sentido amplo como This Charming Girl (2004), Love Talk (2005) ou Ad Lib Night (2006), decidiu distorcer o quadro, distorcer a reação que tomaríamos como normal, e apresenta outra possibilidade de história, outra possível resposta ao conflito. Paradoxalmente, o que Yook-ki Lee mostra é silêncio que, por sua vez, é uma forma de solidão neste filme. O silêncio como uma forma de alienação em meio à companhia. Estes personagens, o casal, estão muito sozinhos por dentro e por fora, e essa solidão é tão imensa, tão assustadora, que ele, pelo menos ele, não tem espaço para discordância. Seu grito parece ficar muito dentro dele, muito no fundo, quase não chega a causar dor em nós. Quando há lágrimas é por causa de uma cebola, quando chega o momento que ela recolhe as roupas para partir, há colaboração do homem, quando há muito silêncio, ela reclama: ele não reage como deveria para parecer digno nesta perda. O silêncio dele com ela é uma forma de violência, de ataque. É disso que trata Come Rain, Come Shine, da tensão de sentimentos levada ao minimalismo extremo, levada ao extremo da solidão. A separação é uma partida adiada, uma câmera lenta, uma chuva perene, um gato perdido. A separação se transforma, aqui, em uma forma de amor; uma forma de amor em câmera lenta. Faça sol ou faça chuva, o amor está ali, negando-se a morrer. Como diz a letra da canção de Harold Arlen, o amor sempre está ali, sem vontade de ir embora.


You're gonna love me like nobody's loved me

come rain or come shine.

Happy together unhappy together

and won't it be fine?

Days may be cloudy or sunny

We're in or we're out of the money,

But I'm with you always,

I'm with you rain or shine

 

Come Rain, Come Shine, sábado, 23 de junho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

A série Borgia continua, toda quarta no Max

por max 19. junho 2012 11:35

 

Renascimento, época complexa

Com a série Borgia nos situamos na complexa época do Renascimento, o tempo de Leonardo da Vinci e Michelângelo, o tempo do humanismo, dos mecenas, da grande arte, da perspectiva pictórica, da volta aos gregos, do fim do dogmatismo cristão. O Renascimento foi um processo longo e único de agonia de uma época antiga e de vida nova à outra que estava por nascer. Isso não ocorreu em toda parte por igual, não foi em toda parte que fez-se luz com força total. A queda do império de Constantinopla, a aparição da pólvora que derrubou as paredes dos castelos, o descobrimento de outras terras, o comércio ou a abertura de um capitalismo nascente, a ascensão do comércio, afastado já sim do monastério e do antigo ofício ou condição da gleba, tudo isto influenciou na mudança.

Já o santo, a história da vida do santo, não é mais o centro do mundo, mas sim o ser humano e seu enaltecimento, sua luta por conhecer-se. Deus continua mandando, disso não há dúvidas. Mas Deus já não precisa de tanto isolamento. Sua igreja acumulou muito poder durante séculos entre Cruzadas, alianças e outras negociações e, a partir do que surgiu em contrapartida, é mais interessante ir para fora da Igreja, do que manter-se dentro. O isolamento já não é mais negócio e naquele pedaço de terra, que ainda não se chamava Itália, as cotas de poder se repartem, mas as tensões não cessam. O mundo é um livro aberto, e todos querem lê-lo ao mesmo tempo e, talvez, de forma exclusiva. Pretender ser o único leitor requer manha, astúcia e até maldade. Sobreviver requer ter os pés no chão. E por isso, Deus foi deslocado do seu centro. Agora é humano, é ser humano, um corpo para explorar.

 

O corpo renascentista

O corpo, antes tão temido, torna-se o centro do univero. Há prostitutas nas ruas, há sexo em toda parte, há estudos sobre o corpo, há corpos perfeitos nas pinturas de Michelângelo, há desenhos artísticos de corpos abertos nos cadernos de Leonardo (mas cuidado, nem é para tanto), há mentes criando discursos sobre o corpo. Há apetites sexuais, desejos, há paixões. Foram muitos séculos considerando o corpo um pecado; a reação: o corpo revelado. O corpo e o paraíso terreno, o corpo como máxima alegria de Deus, o corpo que se move, o corpo viajante.

 

Humano, extremamente humano

É nestes tempos que aparece Rodrigo Borgia, o fundador, o cardeal, o futuro papa, o iniciador da dinastia, um clérigo no mundo que se abre diante da nova imagem do corpo liberado.

Rodrigo Borgia, poder e astúcia, poder que é uma forma de utopia do corpo. A experiência do poder é a experiência de uma falsa eternidade que coloca nosso corpo acima dos outros corpos. Que faz do nosso corpo um ente superior. Borgia foi assim, escalando posições como um "religioso" influente, em meio às lutas entre os Estados da península, no meio desse novo mundo que começava a nascer e que descia à Terra, que caía das nuvens da religião dogmática para explorar o mundo e suas possibilidades.

O fundador do poder familiar foi um exemplo do homem poderoso daquele tempo. Nunca teve escrúpulos para nada, porque os escrúpulos faziam parte daquilo que estava morrendo. A exploração devia ocorrer em todos os sentidos. As possibilidades do bem e do mal sobre os corpos começavam a se demonstrar infinitas.

De Rodrigo Borgia para seus filhos, a herança continua. O homem, orgulhoso do seu poder, de sua mente, de seu corpo, passará seus ensinamentos aos menos abertos, obscuros e raramente luminosos filhos. Toda uma saga de seres humanos tragados pelo poder, pela fascinação por eles próprios. Toda uma saga de paixões, traições, mortes e dramas que a série Borgia reflete completamente, dentro desta corrente contemporânea que marca o fim da história sagrada e mostra humanidade, corpos, loucura. Aquele Renascimento humano, demasiadamente humano, se repete neste nosso século XXI, humano, demasiadamente humano.

Borgia, a série. Em junho, toda quarta. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Vincere, ou nada se vence se você já estiver morto

por max 15. junho 2012 15:22

 

Esta era a ideia, bem da modernidade; esta era a ideia na cabeça do jovem Mussolini: emancipar-se de todo o mal, de todos os males do homem - a religião, que sempre pisoteou-o, massacrou-o com seu dogmatismo, com seu obscurantismo; a monarquia egoísta e parasitária, a ignorância, a injúria, a pobreza. Mussolini era um homem instaurado, incluído no pensamento da modernidade e queria salvar o mundo. Ele acreditava que os grandes argumentos de seu tempo, neste caso o socialismo, nos levariam a um futuro melhor. A modernidade e suas maravilhas, o uso da razão, a ideia de progresso forjariam o homem perfeito, o homem justo, o homem exemplar. Em Vincere (2009), o veterano diretor Marco Bellochio mostra um primeiro momento deste Mussolini idealista (Filippo Timi), que corresponde à modernidade. Um jovem cheio de ideais, que se apaixona, que é humano e que tem um filho com seu amor, Ida Dalser, interpretada magistralmente por Giovanna Mezzogiorno. Em pouco tempo, este líder político, tão humano e próximo, se perderá de nós na névoa do poder e negará a si mesmo. Daquele sonhador da razão (o sonho da modernidade é o sonho da razão) passará a ser um monstro perdido e inacessível, um monstro que Bellocchio deixa de mostrar através de Timi, e passa a fazê-lo através de imagens reais de arquivo. Parecia que não havia outra maneira de vê-lo em sua monstruosidade, senão com essa distância. O cineasta nos mostra, assim, a inutilidade desse projeto de modernidade, da morte desses ideais, desses argumentos, em um momento de plena ebulição e glória de nós mesmos. Bellochio, com este filme apaixonado, grande, dramático, retrata a verdadeira face do grande sonho irracional. Não pode ser humano, não pode chegar à perfeição da humanidade, aquele que abadona o amor, aquele que deixa de lado sua paternidade e que mente para mostrar-se poderoso, e que sobrepõe os interesses a seu espírito. Essa mulher que durante tantos anos foi escondida, que foi apagada da história oficial, é mais uma demonstração da farsa, da mentira que existia por trás do Duce e sua falação. Venceremos, venceremos, gritavam aqueles que acreditam ter a razão à luz de sua razão. Venceremos, e se não vencermos, vamos morrer. Vencer ou morrer. Mussolini não venceu, porque Mussolini estava morto muito antes de ter sido morto. Matou o amor em prol do egoísmo e do poder. Essa mulher, Ida Dalser, que percorre tudo com seu olhar e conduz todo o filme, é a testemunha viva de um fracasso. Porque ninguém vence se trai a si mesmo, ninguém vence se nega outros aspectos fundamentais do ser humano, como o amor, a paternidade, a fidelidade. Nada se ganha, nada se vence, quando, já de cara, o ser humano já está morto.

Vincere, neste domingo, 17 de junho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Miniciclo de terror asiático no Max

por max 15. junho 2012 08:10

 

O cinema asiático de terror é belo... Afirmação estranha? Não sei. Podemos dizer que o cinema asiático de terror é duro, muito duro, e que, definitivamente, não se deixa levar pelas facilidades do gênero, sobretudo pela escola norte-americana, tão cheia de seres horrendos, deformados, sobrenaturais e sanguinários. O cinema norte-americano de terror é cheio de clichês, de conceitos fáceis sobre o mal e o horrendo. Em compensação, na Ásia a tradição é outra. Lembro, por exemplo, de um conto da cultura popular japonesa onde o terror é representado por seres sem rosto. Porque é assim, o terror também pode ser desprovido de rosto, ter a estranha beleza do vazio. É a partir dessa herança ancestral que o cinema asiático de terror se movimenta. Para o cineasta daqueles lados, o cinema de terror é outro meio de expressão, é também arte, não uma simples ferramenta de entretenimento. Kubrick, um ocidental, talvez tenha sido um dos poucos que entendeu assim. Na Ásia, sem dúvida, o entendimento estético e humano do terror é bem enraizado. Voltemos ao Japão com Kwaidan, originalmente um livro de contos populares de terror japoneses recompilados por um dos grandes divulgadores da cultura nipônica, Patrick Lafcadio Hearn. Kwaidan foi lançado nos cinemas em 1964, pelo diretor Masaki Kobayashi. O filme conquistou menção especial em Cannes e indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro. E do que estamos falando? Pois, estamos falando do terror, do cinema de terror. Mas já foi dito que, para os asiáticos, o gênero é visto de outra maneira, e ali estão colocadas suas preocupações estéticas e humanas. O terror serve, muito especialmente, para o drama, para apresentar situações humanas no limite, que tenham causado trauma nas pessoas. Por baixo do terror do cinema asiático, existe um drama oculto, uma segunda história carregada de dor, infidelidade, violência familiar, suicídio, até mesmo reflexão metafísica. Em raras ocasiões, o terror asiático é claramente terror. Os filmes transitam em uma linha fronteiriça, que permite aos cineastas fazer propostas estéticas carregas de imagens interessantes, delicadas, até diria belas. O cinema asiático de terror não se sente menos nem se deixa ser menos. Até mesmo Akira Kurosawa explorou as possibilidades da estética e do terror em filmes como Sonhos (Dreams, 1990) ou até em Rashomon (1990). Assim, o bom cinema de terror oriental nos deixa essa sensação: a de que o mundo é um lugar belo e terrível ao mesmo tempo, que a beleza é triste, e que o sublime aterroriza. Freud disse: sublime é a troca de rosto de quem é familiar por algo profundamente inquietante. No cinema asiático de terror, o mundo, nosso mundo, se transforma através da beleza e do drama para dar lugar ao sobrenatural. A beleza, poderíamos dizer então, também é capaz de gerar medo. O drama e a tristeza nos levam à melancolia: e, no fundo da melancolia, reside a loucura, seu medo, o medo.

Neste sábado, 16 de junho, o Max apresenta uma pequena maratona de cinema asiático de terror, com três filmes de primeira: Shock Labyrinth 2D, Herança Amaldiçoada (J-Horror 6) e Olhos de Criança (The Child's Eyes).


 

 

Shock Labyrinth 2D (2009), do grande Takashi Shimizu, criador da série Ju-on, também conhecida como The Grudge no circuito americano (O Grito no Brasil). Shimizu faz um filme com dinâmica um pouco mais próxima do cinema norte-americano, inclusive poderíamos dizer que juvenil, mas sem abandonar a estética, o trabalho das imagens e dos símbolos. Aqui temos um hospital como centro das situações de terror, e o hospital, por sua vez, é um labirinto e também a Casa do Terror de um parque de diversões. A viagem no tempo, a memória perdida, a volta do inferno, tudo está ali, latente nas obscuras esquinas das bases do gênero terror.

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Herança Amaldiçoada (J-Horror 6 / Kyôfu, 2010), de Hiroshi Takahashi, conhecido como roteirista dos clássicos filmes da série O Chamado (Ringu). Trata-se, desta vez, do filme de número 6 da série J-Horror Theater, produzida por Takashige Ichise. Eles são: Infecção (Infection, 2004) de Masayuki Ochiai, Premonição (Premonition, 2004) de Tsuruta Norio, Reencarnação (Reincarnation / Rine, 2006) de Takashi Shimizu, Crimes Obscuros (Retribution, 2007) de Kiyoshi Kurosawa, História de Terror (Kaidan, 2007) de Hideo Nakata, e finalmente Herança Maldita de Hiroshi Takahashi. Neste caso, voltamos às "profundezas" de um hospital, onde um médico e uma médica fazem experiências com implantes de dispositivos em um grupo de jovens, que fazem com que eles tenham experiências de vida após a morte. Com personagens marcados, torturados, enlouquecidos pelas visões, este filme é uma viagem de imagens alucinantes e de terror metafísico.

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Olhos de Criança (The Child's Eyes, 2010), escrito e dirigido pela dupla Oxide e Danny Pang, mais conhecidos como os irmãos Pang, diretores da série de filmes de sucesso, conhecidos como The Eye, voltam-se para o tema da visão como geradora de lembranças e imagens sobrenaturais e perturbadoras, mas, desta vez, a ação tem lugar em um velho hotel onde vai parar um grupo de jovens que não podem sair de Bangkok por causa de uma greve nos aeroportos. Assim, levados para este velho hotel, eles começam a viver uma série de estranhas e aterrorizantes experiências. Alguns deles desapareceram e é em um cão que recai a visão do mundo sobrenatural.

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Lembre-se, neste sábado, 16 de junho, miniciclo de terror asiático no Max. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

Em junho, a série Borgia estreia no Max

por max 13. junho 2012 05:21

 

 

A História morreu

A História já não é mais o que era antes. Ou seja, a História não é mais um herói impecável, um super-homem de voz estrondosa que aponta com um dedo os males do homem. A História já não acredita mais em si mesma, em sua capacidade de criar exemplos que construam o futuro. A História, essa História, morreu, pois, como alguns dizem, o projeto da modernidade jaz ao lado de seu próprio fracasso. Com a modernidade sem foco, morre a História como um apoio da ideia de Progresso. Agora, essa História –ou história– é um saco de roupa suja pronto para dar o salto mortal diante de nossos olhos atônitos ou, talvez, nem tão atônitos. Agora a História é história humana, extremamente humana.

 

A história na tela

Nos últimos anos, os produtores das grandes séries de TV e de filmes para o cinema ou para a TV chegaram ao seguinte: por trás dos personagens da História há homens de carne e osso. Gente mais interessante e menos solene.

Com a série britânica de TV I, Claudius (1976), a roupa suja fez Roma arder. Claudio era um homem maltratado, gago, nada colossal que, sem dúvida, governou bem seu mundo e, durante bons anos, manteve-se no poder. Por trás daquele Cla-Cla-Claudio – assim a série nos deixou vê-lo – moviam-se intrigas, paixões, o desejo sexual, a loucura. Sim, é certo, Roma desde que foi Roma, nunca foi santa. Mas a série foi um grande passo na dessacralização dos mitos históricos, uma aproximação do dia a dia, um olhar para a intimidade da casa desses supostos grandes homens. A História se cansou dos heróis que não vão ao banheiro, que não fazem sexo. Vamos com luxúria, vamos com mentira, vamos com sangue, vamos com paixões, vamos com crimes, vamos com loucura! Deixem-se ver, deixem-se contar. The Tudors, Spartacus, Roma são séries contemporâneas que se alçam nesse novo panorama dos tempos do desejo, do humano, extremamente humano. Carne, os tempos da carne chegaram. E, claro, os tempos do mal. Os tempos onde os maus ganham, onde os maus (mas esses maus são realmente maus?) fazem das suas e são os protagonistas do filme, ou da série.

Com tudo isto em perspectiva já no nosso século XXI, teria sido absurdo não voltar o olhar para o ponto exato, o lugar perfeito, uma das obscuridades mais luminosas da história do homem: ali, no centro mesmo, onde mora o lado negro da família Borja, ou Borgia.

 

Borgia, a série

Em junho, o Max apresenta Borgia, uma produção franco-alemã de 2011, criada por Tom Fontona, roteirista e produtor norte-americano de Oz – A Vida é Uma Prisão, The Jury e Homicide: Life on the Street, entre outros. Uma nova recriação dos avatares de uma das famílias mais poderosas do Renascimento italiano, que corre em seus primeiros quatro capítulos sob a direção de Oliver Hirschbiegel, o diretor alemão de filmes mais restritos e duros como A Experiência (Das Experiment, 2001) e A Queda! As Últimas Horas de Hitler (Downfall, 2004).

Como muitos devem saber, os dois filmes de Hirschbiegel são fascinados pelo mal. O primeiro gira em torno de um experimento que chega aos limites da crueldade daqueles que são subitamente investidos de poder; e o segundo projeta os últimos dias de quem, uma vez, foi o homem mais poderoso, mais cruel e também mais louco da Europa: Adolf Hitler. Assim sendo, uma biografia dos Borgia cai bem para o alemão. O mesmo acontece com Tom Fontana, que escreveu a série Oz – A Vida é Uma Prisão, demonstrando que também conhece o poder e o mal.

Para os seguintes capítulos –no total, são doze– contamos com Dearbhla Walsh, diretora irlandesa de televisão que trabalhou em Os Tudors (The Tudors); com Metin Hüseyin, britânico também de televisão, que tem em seus créditos Merlin e Shameless; e com o alemão Christoph Schrewe, diretor também de ampla e destacada carreira na televisão.

Doze capítulos do melhor da televisão europeia, com ares do melhor da televisão norte-americana. Doze capítulos de turbilhões, loucura, sexo e poder que têm início com o surgimento de Rodrigo Borgia, suas manipulações políticas e sua relação com seus filhos, passando por uma obscura trama de intrigas, assassinatos, sexo, corrupção, até chegar aos últimos tempos da família, a decadência, o fim.

Borgia, a série, tem início nesta quarta-feira, 13 de junho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

Para mais informações, consulte aqui este mini-site de Borgia.

Tous les Soleils, ou tarantela à francesa

por max 8. junho 2012 12:49

 

Bem longe do poder corrupto, do circo, do homem que usa maquiagem e tem um império televisivo, do homem bufão e de suas prostitutas, bem longe do mal Berlusconi, em Estrasburgo, Alessandro (Stefano Accorsi) circula em sua moto, como também circulava Nani Moretti pelas ruas italianas em seu filme Caro Diário (Caro Diario, 1993). Moretti, como sabemos, nunca deixou de criticar o governo de Berlusconi; neste ponto, fazer o paralelo entre a moto de Alessandro em Tous les Soleils (2011) e a moto de Moretti é totalmente válido. Só que no filme de Philippe Claudel, Berlusconi está muito presente na memória de um expatriado, de um "exiliado" por motivos próprios.

Alessandro vive um tempo árido, um tempo vazio e vazio ele se sente por dentro: ele é viúvo mas ainda ama a esposa, tem uma filha de quinze anos que começa a exigir que ele respeite sua identidade e, ainda mais, precisa conviver com um irmão anarquista que odeia Berlusconi mais que o próprio Moretti.

Assim, na França de Philippe Claudel, na Estrasburgo fundada pelos romanos, naquele centro de terror de maus políticos, esta história triste e ao mesmo tempo divertida vai tomando forma como um canto à boa vida (e o canto não é gratuito), à vida simples, aos instantes que nos fazem humanos e que não têm a ver com o rugido dos políticos mas que, de forma irremediável, cria tensão, preocupação, dor, nos afeta.

Do duro drama de seu primeiro filme, Há Tanto Tempo Que Te Amo (Il Y a longtemps que je t'aime, 2008), Claudel salta neste segundo trabalho para a comédia italiana e, através dela, bate duro nos poderes do mundo, principalmente em Berlusconi. Mas também apresenta cinema francês, pois traz um músico pequeno burguês (professor de música barroca) que, apesar das tentativas de ser bom pai e bom homem que presta serviço em hospitais, tem uma vida que se esvaziou, sem amor e sem pátria. Alessandro, poderíamos dizer, é um homem duplamente exiliado, um homem duplamente perdido que, durante o filme, vai experimentar uma crise existencial no caminho das mudanças. A música, a poesia, o amor e até a dança terão um papel fundamental. Em Tous les Soleils, a música e a trama estão intrinsecamente relacionadas, até o próprio Claudel declarou que a história teve sua gênese em
uma tarantela italiana, ritmo que para muitos pode estar cheio de alegria, mas também cheio de uma profunda saudade. É isso que Claudel fez, uma tarantela cheia de alegria e de tristeza, de política, crise e amor, uma tarantela que faz rir e ao mesmo tempo comove.

Tous les Soleils, neste domingo, 10 de junho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Retornos, ou mais do thriller provinciano

por max 7. junho 2012 03:33

 

Retornos (2010), de Luis Avilés Baquero, me leva a pensar em David Lynch. No Lynch que se aprofunda na vida de um tranquilo povoado e que, ali, descobre a fonte do mal. Lynch em Veludo Azul (Blue Velvet, 1986), Lynch em Twin Peaks (1990-1991), Lynch em Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (Fire Walk With Me, 1992). O cineasta americano, que nasceu em uma pequena cidade do estado de Montana, cutucou tanto que encontrou uma orelha, um morto, um prostíbulo, satanismo, uma garota morta que tinha a ver com o bordel e, sobretudo, bocas que se calam entre as árvores, com os lábios bem apertados, porque guardam terríveis segredos. Lynch é um dos grandes mestres do noir do interior. Luis Avilés Baquero, da Colômbia à Galícia espanhola, trilhou esses caminhos verdes e nos apresentou Retornos, um thriller intimista (no fundo, não há nada mais íntimo que um crime) que acontece nas terras provincianas da Galícia (o filme foi rodado em Noia e em outras localidades da Corunha), um mundo fechado, pequeno, onde o passado nunca se apaga, onde a marca é imediata e onde, além disso, as pessoas preferem se calar, esconder os horrores do presente, talvez até para evitar as mesmas marcas que Caim ganhou de Abel, e ficar tranquilas, enquanto tudo, por dentro, desmorona. Não erra quem faz o mal, erra quem faz pública a sua maldade, ou seu erro com reflexos de maldade. Condena-se quem expia seus pecados, não quem comete o pecado. Isso, Álvaro (Xavier Estévez) descobrirá quando voltar a sua terra natal depois de 10 anos e descobrir que seus erros continuam vivos na mente dos outros e que, no entanto, junto com os mais breves silêncios se escondem obscuridades inconfessáveis. A volta ao inferno não será outra senão a volta à intimidade, à família, esse lugar que dá origem a todos os infernos possíveis e onde se escondem os segredos mais penosos. Pelo caminho dos romances do escritor norte-americano Ross McDonald — especialista em pecados familiares escondidos— e com este ingrediente muito lynchniano, Avilés Baquero busca a instauração da verdade por trás da violência silenciosa da prostituição imigrante, a visão tacanha, estreita, o drama familiar adúltero, o vício e a morte. Não são poucos os elementos que fazem o jogo de sombras, de espelhos e reflexos no filme de Avilés Baquero. Contudo, neste seu filme de estreia, o diretor administra com cuidado, com bom senso e respeito como fazem os grandes mestres, o que resulta em pontos a seu favor. E também, a inesquecível chuva. A chuva sempre lavando aquele que já não pode ser lavado, forjando uma redenção talvez impossível.

Retornos, neste sábado, 9 de junho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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