Ciclo de filmes ganhadores em Cannes: Outubro

por max 25. maio 2012 08:00

 

O filme peruano Outubro (Octubre, 2010) marca a estreia na direção de Daniel e Diego Vega Vidal e recebeu o Prêmio do Júri da mostra Un Certain Regard no festival de Cannes. Silencioso e minimalista, o filme se passa em Lima, durante outubro, mês dedicado ao tradicional Senhor dos Milagres. A trama faz uma alegoria da transformação de um homem –um agiota que, no início, parece estar totalmente morto por dentro. É Clemente, interpretado por Bruno Odar, que começa a viver sua odisseia de volta à vida a partir da aparição de uma recém-nascida. Da noite para o dia, ele descobre que ela é sua filha, da relação com uma prostituta, La Cajamarquina. Mas a mulher desapareceu e lhe deixou uma menina.

Intratável, solitário, Clemente não sabe muito bem o que fazer. É nesse caminho da incerteza, do novo, que circulam os irmãos diretores Veja Vidal, e o fazem com graça, silêncios e tomadas de câmera sóbrias. Realista e com fragmentos de tradicionalismo, regionalidade, Outubro também possui um humor fino e comovente que faz com que o protagonista, a princípio detestável, torne-se envolvente e agradável em seus infortúnios, antipatias e teimosias. Quem o ajuda nessa volta ao mundo é Sofía, uma solteira devota do Senhor dos Milagres, interpretada por Gabriela Velázquez, e o ancião Don Fico, o papel de Carlos Gasols. Eles acompanham Clemente nesse renascimento e também mostram seus sofrimentos e pequenas alegrias na pequena odisseia que é o despertar de Clemente.

Outubro, no ciclo de filmes ganhadores em Cannes, nesta segunda-feira, 28 de maio. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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A Caverna dos Sonhos Perdidos, ou as visões de Herzog

por max 25. maio 2012 07:52

 

Werner Herzog sempre me pareceu um visionário, um louco perigoso, um poeta, um místico. A primeira vez que o vi foi em uma entrevista que ele deu em um festival de cinema de Cartagena. Ali estava, com uma camisa colorida, estampada com alegres palmeiras. Tinha algo na mão e falava alegremente. A câmera havia passado por ali e o havia captado. Herzog e outro amigo dele, talvez também alemão, haviam reagido da melhor maneira. Estavam felizes. Pareciam dois bárbaros de outra época, uma dupla de cavaleiros medievais, curtindo um pouco de relax em seu castelo antes de partir para a batalha seguinte, para a seguinte extração de sisos, dentes e tripas.

Sim, Herzog é como um guerreiro de outros tempos. Mas um guerreiro monge, porque ele está muito estreitamente ligado à visão poética, religiosa ou metafísica do mundo. É um buscador, alguém que sempre terá perguntas e que não parará de buscá-las por todo o mundo. Nesse sentido, Werner Herzog é um peregrino que se comporta como um menino, cheio de força, que prefere seguir os caminhos mais difíceis sempre, porque esses são onde realmente se aprende sobre a vida e a alma.

Quando fez Fitzcarraldo (1982), enveredou-se pela selva amazônica e ali fez um enorme barco passar por cima de uma montanha. Era o que fazia o personagem, interpretado por Klaus Kinski (com quem o diretor teve uma dura relação de amizade e ódio) e também o que fazia Herzog durante as mesmas filmagens. Brian Sweeney Fitzgerald pensou em transpor o obstáculo de uma montanha para realizar seu sonho de construir um teatro de ópera no meio da floresta e, para isso, transportou seu barco por cima de uma montanha. Herzog fez o mesmo: passou o barco por cima da montanha, para também cumprir sua meta, seu sonho: fazer um filme magnífico, uma obra-prima. Assim é Herzog, um herói do impossível. Iguais são seus personagens: seres que lutam contra tudo e contra todos, seres que se rebelam contra o mundo, que põem suas ideias sobre a existência lá em cima e que, geralmente, são esmagados no final de suas guerras. Esses perdedores são graciosos buscadores da verdade, espelhos da alma do particular cineasta, destruidor de grandes enigmas. Herzog se aproxima deles, suspeita deles, os pressente, e abre uma fissura por onde entra e descobre. Algo arranca e algo fica em sua alma e na nossa. Algo que nos faz mais humanos, um pouco mais inseguros do nosso lugar e nosso papel no mundo, desse mundo sobre o qual nos contam e querem nos impor. Herzog, como todo buscador, como visionário, quer olhar porque no olhar está a fonte de sua mística, de sua magia. Essa visão que põe o dedo e cava nos lugares onde poucos estiveram, lugares de sua vida e morte, de faíscas de alguma verdade esquecida. Dali talvez tenham nascido seu interesse, nos últimos anos, por documentários.

Um de seus trabalhos recentes mais impressionantes é Encounters at the End of the World (2007), no qual nos mostra paisagens fascinantes da Antártida, nunca vistas, ou O Homem Urso (Grizzly Man, 2005), onde o mesmo Herzog parecia desafiar as imagens e as delirantes ideias do falecido Timothy Treadwell, aquele homem que pensava ser a Diane Fossey dos ursos. Treadwell gravou, durante anos, suas incursões por florestas, onde esteve muitas vezes absolutamente sozinho e falando para uma câmera, sobre seu contato com os ursos e sobre suas ideias de como é a existência, até o dia em que os ursos o comeram.

Em 2011, Herzog enveredou-se pelas profundezas da alma dos homens, onde os sonhos de um passado remoto, como disse o mesmo Herzog, foram congelados. Estamos falando de A Caverna dos Sonhos Perdidos (The Cave Of Forgotten Dreams), documentário que permitiu ao diretor explorar e capturar o interior das cavernas Chauvet, ao sul da França.

Descobertas apenas em 1994, as cavernas de Chauvet guardam um registro de mais de 400 pinturas rupestres de 32 mil anos atrás, as mais antigas descobertas até o momento. O visionário Herzog passeia através de suas galerias, que já são por si só mostras de arte da natureza, e questiona, com uma câmera 3D, o enigma do que ele vê.

Tal como já disse o mesmo cineasta, ao ver aquilo, ao contemplar tal cenário, algo nos deixa maravilhados e algo nos faz buscar não sabemos quais respostas nem quais interpretações. Seja lá qual for a conclusão a que cheguemos, aponta ele mesmo, estaremos equivocados mas, sem dúvida, sempre entenderemos que ali há algo que se relaciona, em um nível muito profundo, conosco.

Herzog, protagonizando seu próprio trabalho, explora este mundo muito antigo e continua fazendo perguntas e maravilhando-se com as pinturas rupestres. Tocando sempre, tocando e mostrando aquele lugar ancestral que muitos poucos viram e que, em seu silêncio, nos falam de nós mesmos.

A Caverna dos Sonhos Perdidos, de Werner Herzog, neste domingo, 27 de maio. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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La Nostra Vita, ou tão real quanto a realidade de Roma

por max 24. maio 2012 11:37

    

Desculpe a ladainha, mas este é um filme tão real quanto a realidade. Um filme humano que transita em tempos de ruptura e contrastes, nos quais os seres humanos vão pela vida buscando agarrar-se a algo para manter-se na superfície. E, às vezes, ainda falta uma perda, ainda falta a morte do amor para se cair no desespero e no vértice do que foi corrompido. Num mundo no qual perdeu-se o que é mais amado, em um mundo onde os filhos ficam à espera da salvação, Claudio (Elio Germano), um simples trabalhador da construção, tomará o caminho das obscuras negociações, dos silêncios e das conversas secretas visando superar essa realidade tão real que o esmaga, que o pegou com a morte, que o fez sumir no desespero da classe média dos subúrbios de Roma. Com a câmera na mão, lançando mão dessas contradições, quase em uma arrancada do cinema documental, o diretor Daniele Luchetti (Il portaborse, Meu Irmão é Filho Único, It's Happening Tomorrow) nos traz La Nostra Vita, um drama poderoso sobre o amor, a paternidade e a corrupção humana, defendido por Elio Germano, que, se por acaso não lembram, dividiu o prêmio de Melhor Ator com Javier Bardem em 2010 (no mesmo ano que Bardem ganhou por Biutiful). Roma já não é o que foi, mas a vida, seguirá sendo a mesma.

La Nostra Vita, neste sábado, 26 de maio. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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A Special Day, um documentário direto de Cannes para o Max

por max 18. maio 2012 11:47

 

Gilles Jacob é, hoje em dia, o Presidente do festival de Cannes. E passou a ser desde 2001. Mas, de 1978 até esta data, foi o diretor do festival; o que é o mesmo que dizer que ele trabalha duro, duro de verdade. Hoje em dia, não trabalha menos, mas, claro, já é uma lenda, e já merece um pouco de descanso (não muito, mas um pouquinho). Como Gilles Jacob, um crítico de cinema, chegou a ser diretor de um dos festivais cinematográficos mais importantes do mundo? Pois ele mesmo nos conta como. Disse que havia sido despedido do L´Express por um desentendimento e que, durante um torneio de tênis, o cineasta Claude Lelouch lhe apresentou o prefeito de Deauville, Jean-Philippe Lecat, que logo depois foi também Ministro da Cultura. Um dia, depois de uma partida de tênis, se encontravam Jacob e Lecat, nus, nos chuveiros dos banheiros do clube de tênis (cada um em seu chuveiro, juntos, mas não misturados), e o ministro perguntou pra ele, assim, de repente, se ele estava pronto. Pronto para quê, senhor Ministro?, disse Jacob. Para assumir suas funções, respondeu o ministro nu. Desde então, Jacob começou a dirigir o festival. Sua participação, durante 34 anos no festival, tem sido fundamental. Jacob, podemos dizer, deu ao evento o brilho que ele tem hoje em dia. Introduziu sessões importantíssimas como Un Certain Regard e, além disso, incluiu a presença de estrelas no júri, o que deu ao festival o espírito magnífico de elegância que o evento tem atualmente. Em 2007, Jacob publicou um livro intitulado Citizen Cannes, no qual conta sua experiência e histórias engraçadas de todos estes anos no festival e agora, em 2012, neste domingo, 20 de maio e durante o festival de Cannes, estreará A Special Day, um documentário que nos apresenta um dia na vida de vários diretores lendários de cinema, entre eles Roman Polanski, Nanni Moretti —grande amigo de Jacob—, Ken Loach e o próprio Claude Lelouch, outro grande amigo. Em 2007, Jacob seguiu em frente, filmou e entrevistou estes cineastas quando estiveram em Cannes para a celebração dos 60 anos do festival e a apresentação dos 33 curtas-metragens do projeto de Jacob, Cada um com Seu Cinema (Chacun son Cinéma). Dessa experiência daquele ano, surgiu o documentário que estreará com pompa e circunstância neste domingo, em Cannes.

 

 

E por que digo tudo isto? Porque o Max, orgulhosamente, estreará A Special Day, justamente no dia seguinte a sua apresentação em Cannes, na segunda-feira, 21 de maio. Um privilégio único e excepcional que o Max oferece justamente antes da apresentação de Homens e Deuses, de Xavier Beauvois, dentro do clico de filmes ganhadores em Cannes.

Não deixe passar este grandioso momento. Esta segunda-feira, 21 de maio, será um dia realmente especial, com a estreia de A Special Day, de Gilles Jacob. Direto de Cannes para o Max. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Continua o ciclo de filmes ganhadores em Cannes, desta vez com Homens e Deuses

por max 18. maio 2012 11:43

    

Nesta segunda-feira, dia 21, o Max traz um filme ganhador do Grande Prêmio do Júri e do Prêmio do Júri Ecumênico (um prêmio de cineastas católicos). Trata-se de Homens e Deuses (Des hommes et des dieux, 2010), do cineasta Xavier Beauvois (Nord, Le Petit Lieutenant, N´oublie pas que tu vai vas Mourir), um filme baseado em um fato que aconteceu durante a guerra civil da Argélia, em 1996: o sangrento assassinato de um grupo de monges cistercienses sequestrados no monastério Nossa Senhora do Atlas em Tibhirine, a 60 quilômetros de Argel.

O cineasta centra-se na história dos monges, em seus conflitos internos e toma a via da espiritualidade, da dúvida, do coração e do templo. Busca neles, em seu interior, a decisão que os levará a ficar ali, quando poderiam, claramente, ter partido.

Homens e Deuses é um filme sobre medos e atitudes humanas que vai mostrando o contraste entre a vida pacífica dos monges e o caos que começa a interferir de fora para dentro, à medida que a história avança. Ainda que o filme de Beauvois tenha destaque em vários personagens, não resta dúvida que a força da história recai sobre o personagem do Prior Christian, interpretado por Lambert Wilson. Beauvois segue este prior, este religioso e seus monges desde o começo das ameaças à comunidade, os crimes e o claro antagonismo que os fundamentalistas faziam a eles, sempre, isso sim, centrando no drama espiritual daqueles homens de bem.

Homens e Deuses, ganhador do Grande Prêmio do Júri em Cannes em 2010, nesta segunda-feira, 21 de maio, no ciclo de filmes ganhadores em Cannes. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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(E não perca, antes de Homens e Deuses e com exclusividade A Special Day, de Gilles Jacob, documentário que será visto em Cannes, com estreia programada para este domingo, dia 20)

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Inverno da Alma, ou a odisseia do mal

por max 18. maio 2012 11:34

 

E você pode se perguntar: de onde vem o mal? Qual é sua origem? O que produz tudo isso? Em uma região longínqua, onde não existem celulares, nem computadores, nem cinema, nem shopping center, ali, entre os bosques, névoa e veículos sem motor, nas portas das cabanas, o mal toma assento. Ele se instala em silêncio e cheira a anfetaminas. E alguém, outra vez, se pergunta: quem nasceu primeiro, a anfetamina ou o mal? Neste mundo do subúrbio não há modernidade, nem utopia bucólica. É um lugar perdido, um lugar onde o mal tem a forma do silêncio, do final, do tédio existencial. Assim é Inverno da Alma (Winter´s Bone, 2010), filme indicado a quatro Oscars e ganhador do Prêmio do Júri no festival de Sundance. Um trabalho independente dirigido por Debra Garnik, que nos faz mergulhar em obscuridades ainda mais patéticas e horrendas do que as que John Boorman havia apresentado em Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972); um mundo remoto, quase esquecido, onde os seres humanos parecem saídos das entranhas da terra, pequenos titãs, pequenos monstros consumidos pela ignorância e pela própria natureza. Digo pra mim mesmo que talvez o homem tenha criado a civilização para isso, para "limpar-se" da natureza, de seus abismos, de seus atavismos, de sua bestialidade, de seu poderoso silêncio, que é mais como o grito, o urro de um enigma. O silêncio do bosque sobressai, aterroriza. Não obstante, no filme de Debra Granik, a essa monstruosidade dos seres marginalizados soma-se algo novo, algo mais, outro fator de embrutecimento: a droga. A droga que já não é entendida como a entenderia um homem antigo, primitivo; não em sua sacralidade, senão dentro dela, paradoxalmente, bestialidade profana. A droga dessacralizada, que adormece e que, ao mesmo tempo, é fonte do mal ao converter-se em negócio obscuro, ilegal, de obscuras estratégias. Em Inverno da Alma há, pois, uma dupla articulação do horror: o mal é produzido por causa da anfetamina (droga que provém do mundo civilizado) e do abandono da essência humana e a adoção dessa animalidade arisca e crua do distante habitante rural. A comunidade onde vive Ree Dolly (Jennifer Lawrence), nossa pequena protagonista, parece o mundo de Boorman com drogas.

Ree, nossa heroína, vê a patética tranquilidade de seu mundo desgastada (deve cuidar de sua mãe inútil e catatônica e de um par de crianças) quando a estabilidade de seu lar é ameaçada. Ela pode perder o lugar onde vive, pois seu pai, um drogado fabricante de drogas, pôs a casa como garantia de sua fiança. O pai, ao sair, desapareceu, e agora Ree e sua família poderiam perder a casa. Ree, esta jovem garota austera e ao mesmo tempo bela e correta, sai em busca do pai perdido. Mas este pai não é Odisseu nem ela é Telêmaco. Neste mundo não há deuses, mas sobram titãs, os monstros, os homens que não querem falar porque se falassem, descobririam sua animalidade, o abismo no qual caíram. Lembro daquela cena na qual Pinóquio é levado a um lugar de prazeres infinitos, de prazeres que adormecem a consciência, que terminam transformando a ele e a seus companheiros em burricos desesperados. Este mundo de Ree é parecido. O prazer e o vazio transformaram essas pessoas em seres perversamente animais, selvagens mas, ao mesmo tempo, perversamente racionais. Contudo, mais perto da perversidade, o mal se traduz em silêncios cheios de terríveis segredos, de espantosas verdades. Ree, o único ser humano com capacidade de elevar-se contra a bestialidade, fará aqui uma viagem às profundezas dos invernos da alma.

Inverno da Alma, neste domingo, 20 de maio. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Preso na Escuridão, Um filme de um diretor nada virtual

por max 17. maio 2012 02:52

 

A realidade virtual tem estirpe. Se lembrarmos a caverna de Platão, já a partir dali estamos falando de um mundo de aparências, de sombras. Cada vez mais entendemos que nossa percepção do mundo é limitada, que aos nossos sentidos escapam milhares de detalhes. Por outro lado, as teorias de Vlatko Vedral, físico quântico de Oxford, sobre a informação e a superposição de quanto elas são insólitas. "É incorreto, lógica e fisicamente, ou melhor, experimentalmente, falar de fragmentos de energia ou matéria que existam com independência de nossa capacidade de confirmar-los experimentalmente", diz Vedral. E ele vai mais fundo: "Nossa interação com o mundo é fundamental para que surja o próprio mundo, e não se pode falar dele independentemente disso. Por esta razão, minha hipótese é que as unidades de informações são o que se acredita ser a realidade, não as unidades de matéria, nem de energia."

A realidade não é uma só e não existe apenas uma resposta para entendê-la. O cinema e a literatura (e a filosofia) vem afirmando isso há tempos. Antes das visões da realidade virtual de Matrix (The Matrix, 1999), outros filmes e séries de televisão trabalharam essa ideia. Na década de 70, a série Dr. Who já falava de um lugar chamado The Matrix. E Tron (1982), filme da Disney, se passa todo no interior de um computador. O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990), de Paul Verhoeven, mostra um Arnold Schwarzenegger enredado entre duas realidades. O filme é baseado em conto de Philip K. Dick. Um dos principais escritores de ficção científica, ele publicou suas primeiras obras nos anos 70 e várias foram adaptadas para o cinema. Para Dick, a exploração dos mundos paralelos, virtuais, era uma maneira de questionar a realidade, de colocá-la em dúvida, de fazer-se perguntas sobre a existência. Mestre dos mestres, Philip K. Dick levou este tema à novas fronteiras e logo foi seguido por outros, como William Gibson nos anos 80.

Sim, o tema de uma realidade paralela, alterada, virtual, não é novo. Muita água correu embaixo dessa ponte e seguirá correndo. Um filme de primeira categoria, que explora a alma humana a partir da perspectiva de uma segunda vida, de uma nova oportunidade - não se sabe se bem sucedida - em uma realidade diferente, é Preso na Escuridão (Abre los Ojos), do espanhol Alejandro Amenábar.

Segundo filme do então ainda jovem realizador (40 anos), Preso na Escuridão se transformaria em outra mostra de seu inegável talento. Amenábar conheceu o sucesso já na estreia com Morte ao Vivo (Tesis, 1996), thriller emocionante e cru que se passa no mundo especulativo, quase se poderia dizer virtual, dos snuff films. As expectativas para os próximos filmes do diretor eram imensas e ele não decepcionou. No ano seguinte, com todos os olhares voltados para ele, lançou Preso na Escuridão, que encantou público e crítica.

Eduardo Noriega é outra vez o protagonista e Mateo Gil (com quem ele ainda trabalha), o roteirista. Amenábar conta uma história carregada de profunda desolação onde nem o amor, nem o sexo, nem o dinheiro trazem as respostas. Ao final, debaixo de toda essa tramóia montada pelo ego para nos convencer de que somos alguém e que estamos bem com o que somos, sem nada além da superfície, ao final disso, o que existe é um grande vazio, uma grande cegueira.

Preso na Escuridão reflete sobre isso e vai além. É um filme cheio de suspense, até com elementos de terror, uma jóia da ficção-científica sem efeitos especiais, onde o que importa é a história. Quando não se conta com um grande estúdio, o que realmente importa é roteiro e atuações. E o filme tem Eduardo Noriega, Najwa Nimri e Penélope Cruz em grande momento. Eles levam o roteiro, excelente desde o começo, além de suas expectativas. Ágil, ligeiro, cuidadoso com a fotografia, Amenábar dirige com mão leve e certeira este filme que já é um clássico. Tom Cruise refilmou a história em 2001 (Vanilla Sky), mas essa é outra história. Em 2005, com Mar Adentro, Amenábar ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e esta também é outra história. Mas é uma história muito agradável e importante porque mostra que Amenábar não é um diretor qualquer, um diretor virtual, desses que desaparecem depois da fama dos primeiros sucessos.

Preso na Escuridão, sexta-feira, 18 de maio. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Ciclo de filmes ganhadores em Cannes: Um Homem que Grita

por max 11. maio 2012 13:00

 

E nesta segunda-feira, dentro do ciclo de filmes ganhadores de prêmios em Cannes, teremos Um Homem que Grita (Un homme qui crie, 2010), de Mahamat-Saleh Haroun (Bye Bye Africa, Our Father, Daratt). O filme é africano mas não tem os temas típicos do que poderia ser a África, e nos situa em uma sociedade e seus conflitos (início da guerra civil no Chade), mas seu ponto central está na relação entre pai e filho, a vida íntima, suas tensões, enfrentamentos. O cineasta aposta na complexidade do ser humano na figura de um homem já mais velho que se vê obrigado a deixar o trabalho de toda a vida para doar-se, dedicar-se ao filho, e para ver-se enfrentando o drama de uma guerra que se aproxima. O trabalho, a velhice, a paternidade, a morte como uma grande presença, Um Homem que Grita é um filme honesto, simples, mas profundo, sensível mas não do tipo água-com-açúcar, que ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes.

Lembre-se, nesta segunda-feira, 14 de maio, Um Homem que Grita. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

Especial Dia das Mães, no Max

por max 11. maio 2012 11:49

 

Há séculos, milênios que se rendem homenagens às mães. A mãe é um símbolo muito poderoso. A mãe é ventre, é o lugar onde nasce a vida, a fertilidade do cosmos. A mãe é a terra e há muito tempo os homens celebram. A mãe, esse ventre do qual brota a semente que se transforma em planta, em ser. Gea, Rea, Hera, Deméter, Isis, Kali são as mães férteis. Mãe também é o mar, outro lugar cheio de fertilidade. O mar e a terra são, sem dúvida, símbolos do corpo maternal. O símbolo da mãe implica em segurança, abrigo, calor, ternura, resistência, força que suporta tudo, alimento. A mãe, claro, é Igreja. A igreja é um ventre. Dentro dele, um refugia-se. Sai do templo renascido, cheio de Deus. Deus é vida. O pior insulto para a mãe, um dos tabus mais terríveis: o incesto. Édipo retira os próprios olhos com os broches de sua mãe; não é para menos: se casou com ela, fez sexo com ela, teve filhos com ela. Nada é mais sagrado que a mãe. O dia da mãe, que para muitos é um tema comercial, na verdade tem suas origens na antiguidade e, para dizer uma data mais definitiva, no século XIX. Tem seu antecedente na senhora Julia Ward Howe, defensora dos direitos das mulheres, abolicionista, ativista pelo voto feminino e também pacifista. Ela escreveu o famoso Manifesto do Dia das Mães em 1870. Ao ficar viúva, escreveu este documento, esta carta, na qual advoga o fim das guerras, defende o fim dessas horrendas separações dos filhos que vão em busca da morte nos campos de batalha. Já no século XX, a chamada fundadora oficial do dia das mães nos Estados Unidos é Ana Jarvis. A mãe de Ana, que tinha o mesmo nome, foi uma mulher que também lutou para melhorar a condição da mulher na América. Durante a Guerra de Secessão, formou um grupo de orgulhosas enfermeiras que arriscavam suas vidas no front. Dois anos depois da morte de sua mãe, em maio de 1907, Ana Jarvis teve a ideia de celebrar, de homenagear sua mãe, e destacou o dia 12 para tanto. Este dia serviria para homenagear sua mãe e todas as mulheres do mundo. Dedicou muito tempo fazendo campanhas para que se tornasse oficial nos Estados Unidos. Finalmente, sete anos depois, o presidente Woodrow Wilson oficializou este dia. Desde então, em diversos países pelo mundo, foi se adaptando o mesmo costume.

Este mês, o Max apresenta três filmes em um mesmo dia, para comemorar esta data. No domingo, 13 de maio: três filmes, três tipos de mãe em Entre Nós (Entre Nós, 2009), Mamma Gógó (Mamá Gógó, 2010) e O Estranho em Mim (The Stranger in Me, 2010).

 

 

Entre Nós é um drama escrito, estrelado e dirigido pela colombiana Paola Mendoza junto com Gloria LaMorte, que nos mostra os avatares da imigração para os Estados Unidos. Mariana (Paola Mendoza) é uma jovem mãe que, recém-chegada a Nova York, tentará manter-se e proteger, sobretudo, seus dois pequenos filhos. Em 2009, o filme recebeu a menção honrosa do júri no festival de cinema de Tribeca.


 

Mamma Gógó (2010) é uma comédia com muito de drama, dirigida pelo islandês Fridrik Thor Fridriksson, que nos apresenta o maior momento de crise entre uma mãe com Alzheimer e um filho que dirigiu um filme e está falido. Mama Gógó foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Um filme comovente e ao mesmo tempo duro como a realidade.


 

O Estranho em Mim (2008) nos faz mergulhar em uma visão da maternidade, na qual uma jovem mulher, que acaba de ter um filho, se deixa levar por um arrebatamento de melancolia, depressão e loucura. Emily Atef dirige este drama alemão no qual o filho vira um estranho e a mãe se torna um possível perigo para si própria e para o pequeno. Surgirá, em algum momento, em alguma parte, o amor necessário para preservar a vida de todos?

Lembre-se, este domingo, 13 de maio, um especial do dia das mães, com o jeito do Max.

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O Som do Ruído, ou a música subversiva

por max 11. maio 2012 09:10

 

O col legno (ato de encostar e roçar a corda com o dorso do arco) de Berlioz na Sinfonia Fantástica; as serras ondulantes de Tom Waits; John Cage e seu piano preparado; ou seus 4 minutos e 33 segundos de silêncio que "ecoavam" pela sala para escutar a musicalidade do som ambiente; a percussão urbana, cujo exemplo mais conhecido é Stomp ou Blue Man Group; e até a música com vegetais (sim, vegetais) da Vienna Vegetable Orchestra... Sem dúvida, a música está em toda parte. De fato, o próprio Cage chegou a dizer: "Onde quer que estejamos, o que ouvimos é principalmente ruído. Quando o ignoramos, ele nos irrita. Quando o escutamos, achamos que ele é fascinante." Fascinante também é O Som do Ruído (Sound of Noise, 2009), filme sueco, dirigido por Ola Simonsson e Johannes Stjärne Nilsson, que nos leva a um mundo de sons ou de musicalidades conspiradoras, revolucionárias, ocultas e provocadoras sob a figura de uma banda de seis percussionistas mascarados que fazem suas performances por toda a cidade. O assombro, a maravilha de representar em lugares não tradicionais, até mesmo "sagrados", é algo fundamental para todo o filme. Não somente a utilização de objetos cotidianos para a produção de música será importante, mas também deve-se somar o espaço. A música é de todos porque é possível fazer música onde quer que seja. Realmente ela não pertence ao recinto acadêmico, nem ao estúdio de música, nem ao palco da estrela de rock. A música pode estar em todas as partes e, por isso, o espaço neste filme também é vital. A ruptura do espaço representativo para fazer que tudo seja representação, que todo espaço possa ser e fazer arte, inclusive esses lugares "proibidos" pelo poder; lugares solenes e sagrados. A música de O Som do Ruído vira, assim, uma ferramenta anarquista, terrorista digamos, segundo a visão do poder e da correta cidadania. Atrás da pista destes delinquentes tão particulares vai Amadeus Warnebring (Bengt Nilsson), um policial com absoluta nulidade em ouvido musical, em audição para música; alguém que, sem dúvida, detesta música, vindo, sobretudo, de uma família de músicos proeminentes, onde é o único que não destacou-se nessa área. Uma polícia representante dos poderes, de conluios, das pequenas confrarias.

O Som do Ruído é uma comédia original, um musical policial, cabe ressaltar, que nos fará passar bons momentos com essa excelente combinação de música "das ruas", espaços e instrumentos não tradicionais e comédia. Um filme sem grandes orçamentos, que nos faz mergulhar em uma experiência diferente, brilhante, finamente executada. Se há algo grandioso nesse filme é, sem dúvida, a criatividade e a arte de "tirar" música de todas as partes.

O Som do Ruído, neste sábado, 12 de maio. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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