Quinta-feira, sexta-feira e sábado da trilogia Millenium

por max 29. março 2012 04:36

 

Sabe-se que, quando Stieg Larsson começou a escrever a série Millenium, fez os esboços de um total de 10 livros. Antes de morrer, em novembro de 2004, e como já sabemos, havia terminado os três primeiros e estava partindo para o quarto livro. Sabe-se também, por causa de um e-mail enviado a um amigo, que já tinha terminado mais da metade desse quarto livro. Mas, além disso, é sabido também que havia acabado o final. Assim sendo, Eva Gabrielsson, a companheira de Larsson por mais de 30 anos, poderia terminar o quarto livro, pois, como muitos já sabem, ela esteve profundamente envolvida no processo de criação das obras. Este quarto romance se chamaria "A Vingança de Deus". Assim, poderia acontecer, em algum momento, de surgir um quarto livro da tal trilogia de Larsson-Gabrielsson. Claro, Eva teria primeiro que resolver os problemas legais referentes aos direitos autorais sobre Larsson na disputa que ela tem com o pai e o irmão do falecido autor. Enquanto esses problemas são resolvidos, e aguarda-se o lançamento do quarto livro, o Max prepara três dias da semana com a trilogia Millenium.

A partir desta quinta-feira, dia 29, delicie-se com os três filmes suecos dirigidos por Niels Arden Opley e protagonizados por Michael Nyqvist e Noomi Rapace. Na quinta-feira, dia 29: Os Homens que Não Amavam as Mulheres; na sexta-feira, dia 30: A Menina que Brincava com Fogo; e sábado, dia 31: A Rainha do Castelo de Ar. Somente um canal pode trazer o melhor da cinematografia mundial. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

Contracorrente, o fantasma da homossexualidade na vida rural

por max 26. março 2012 12:51

Contracorrente (2009), de Javier Fuentes-León, aparece na vida do cinema peruano depois de 11 anos da estreia de Não Conte a Ninguém (No se lo diga a nadie, 1998), de Francisco Lombardi, filme baseado no polêmico livro de Jaime Baily. Não se tem falado muito de homossexualidade no cinema peruano e, digamos, também não no latino-americano.

Ao contrário de Não Conte a Ninguém, o filme de Fuentes León não conhece o cenário da cidade, que é nomeada como uma referência longínqua, pois um de seus personagens, Santiago (Manolo Cardona), vem dela. Em Contracorrente, os fatos acontecem em Cabo Blanco, um povoado na costa norte do Peru, onde as mentes são mais fechadas para temas espinhosos (inclusive na cidade), neste caso, o amor entre homens.

Ali, em Cabo Blanco, chega Santiago, com sua condição homossexual, plenamente assumido, em busca de inspiração para sua arte, pois é pintor. Em sua chegada, conhece Miguel (Cristian Mercado), um jovem pescador, casado, com mulher grávida. Entre eles, começa uma relação sexual e amorosa, que termina com a morte de Santiago, perdido, afogado no mar. Neste momento, o filme do principiante Javier Fuentes-León tem uma reviravolta inesperada e ganha aspectos fantásticos, enraizados de certa maneira no realismo mágico latino-americano. No meio de um povoado afastado do Peru, o fantasma de Santiago faz uma aparição para pedir que Miguel busque seu corpo, que lhe dê o devido sepultamento mas, sobretudo, para instigar que ele se atreva, que se encha de coragem e aceite pessoal e publicamente sua condição homossexual. Miguel se envolve, então, em uma luta espiritual, que começa, como já destaquei, pela revelação dos seus segredos, de suas verdades. Miguel, antes de mais nada, deve aceitar sua essência, o que, naturalmente, já é bastante difícil, pois se já em Não Diga a Nnguém a aceitação da homossexualidade significava um enorme problema dentro do cenário das cidades, em Contracorrente, apesar de já ter se passado mais de uma década desde a estreia do filme de Lombardi, a situação relativa à sociedade e à homossexualidade, ainda que mais aberta, não deixa de ser crítica, especialmente porque falamos de um povoado de pescadores. Santiago, como consciência de Miguel, irá instigar o pescador, irá levá-lo até as portas da valentia, da honestidade com ele mesmo. O que torna interessante o filme de Fuentes-León é que ele trabalha este delicado tema não a partir do escândalo, não a partir do mero prazer dos homens no ato sexual, mas trabalha com delicadeza (para alguns críticos, com complacência) o tema dos sentimentos e da condição humana. O que Jaime Baily fez com o romance e Lombardi fez com o filme foi abrir uma porta, dar um duro golpe no escândalo, traduzindo em uma reflexão mais serena, humana, profunda e, por que não dizer, mais estética ao trabalho de Fuentes-León. Não podemos, claro, deixar de lado outras visões, outras opiniões, que destacarão certo titubear e falta de arrojo na proposta. Cada um que julgue por si só, cada qual que mergulhe no mar desta história. Podemos entender que o primeiro trabalho de Fuentes-León, sem cair no desprezível, contou, ao final, uma história de transgressão que, para muitos, pode ser incômoda. Tanto Miguel quanto Santiago são transgressores. Foram além dos tabus e viveram com toda a complexidade e plenitude da alma humana. O pescador não só se atreveu a viver no corpo de outro homem, mas também se atreveu a lançar-se à arte (às vezes, outra forma de pouca vergonha), à beleza e ao desfrute sem limites de seu corpo (posou nu para Santiago) e se colocou, além disso, acima do nível sócio-econômico de seu povoado (haja ousadia!) ao manter uma relação com o artista da cidade, filho acomodado de casta branca, criança burguesa que, por sua vez, também teve a ousadia de desafiar a rígida estrutura social de seu país.

Contracorrente levou o prêmio do público no festival de Sundance. Delicie-se nesta terça-feira, 27 de março. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Nostalgia da Luz, ou telescópio para os tiranos

por max 23. março 2012 04:44

 

Buscamos, buscamos no céu, nos confins do universo, com um telescópio no lugar mais alto, a três mil metros, perto do azul, do diáfano, do translúcido. Buscamos pelos deuses, ou por Deus, ou pelo segredo de Deus, buscamos uma resposta para nossa vida, para nossa beleza, para nossa nostalgia. Buscamos, em alguma parte de nós mesmos, algo como uma luz, algo que acreditamos estar desaparecido, enterrado, mas nunca esquecido. Buscamos, no céu, os traços da nossa grandeza, mas também procuramos na terra. Também o desaparecido, o enterrado, mas aqui pela fúria, pelos monstros da razão. Aqui, nessa terra, que na realidade se fez para nascer, para formar, para discordar dos mortos, dos nossos orgulhosos mortos, nunca acreditamos nestes, os anônimos, os difamados. Aqui no Atacama, aqui onde os astrônomos sonham com deuses elétricos, com deuses de matéria negra, com deuses big bang, aqui, bem debaixo do telescópio, as mães, as filhas, as esposas buscam embaixo das pedras. Buscam as raízes, suas raízes de família, buscam seus ossos de família, os ossos que dizem ser caules, troncos, ramos, folhas e bocas testemunhais de uma dor não tão antiga, de uma queda não tão angelical, de um horror tão recente, como recente é a ambição do homem. As mãos das mulheres buscam, buscam os que não voltaram porque não deixaram que voltassem. São mãos com rachaduras, cheias de terra, mãos secas, como desertos, mãos que alguma vez amaram e acariciaram e que agora somente escavam a terra. Acima, o céu nos observa, a galáxia, o universo e, em silêncio, eles nos julgam; enquanto isso, nós, iludidos, acreditamos que vemos, que sabemos que, a cada dia, ganhamos olhando ainda mais acima. Mas, tudo bem, tudo bem olhar para cima, talvez se olharmos mais acima, baixaríamos menos a cabeça, e alguns de nós escavariam menos, e outros de nós seriam mais humildes. Aos tiranos deveríamos dar telescópios de presente, para que percebam, para que entendam de uma vez por todas, quão pequenos são, quão pequenos somos.

Nostalgia da Luz (Nostalgia de La Luz, 2010), documentário dirigido por Patrício Guzmán, neste domingo, 25 de março. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Especial Elizabeth Taylor, nesta sexta-feira, 23 de março

por max 22. março 2012 13:23

 

Elizabeth Taylor foi e sempre será uma das maiores estrelas de Hollywood. Desde muito pequena, até o final de sua vida, esteve ali, como beleza, como atriz, como produto de consumo de entretenimento. Ela sabia estar, ela sabia ser. Não sem motivo, chegou a dizer que não conseguia lembrar de nenhum momento de sua vida que não tenha sido bela. La Taylor soube ser a mulher mais bela de Hollywood e talvez do mundo, mas também soube ser uma grande atriz, e deixar para trás a velha Hollywood, da chamada Era de Ouro, para incorporar-se às novas tendências de atuação e de entender o cinema, encabeçadas pelo Actor´s Studio e por atores como Marlon Brando ou James Dean e, do lado feminino, por Faye Dunaway, entre outros e outras.

Podemos ver claramente esse panorama, podemos inclusive partir de uma data e, a partir dela, navegar. Essa data é 1963, ano em que ela interpretou um resquício do que era a velha Hollywood. Cleópatra, para os estúdios, foi uma tentativa desesperada de retomar aquele passado glorioso. Não deu certo, o filme foi um fracasso tanto de bilheteria quanto de crítica. Sua retumbante posteridade se deu somente em função da deslumbrante beleza de Elizabeth naquele papel sensual e glamoroso. Alguns anos antes, em 1957, a vimos em A Árvore da Vida (Raintree Country), outro esforço dos estúdios para retomar os anos grandiosos. Mas também, nesse período, a encontramos em filmes onde fez a diferença, onde ela demonstrou que sempre foi algo mais do que a versão morena de Marilyn. E a teremos em Assim Caminha a Humanidade (Giant, 1956), junto de James Dean e Rock Hudson, para ser lançada em cheio à interpretação séria, dramática. Porém, seu desejo de lançar-se plenamente à atuação é representado nos filmes Gata em Teto de Zinco Quente (Cat on a Hot Thin Roof, 1958), escrito por Tennessee Williams (o mesmo dramaturgo que com Uma Rua Chamada Pecado - A Streetcar Named Desire - lançou Marlon Brando à fama), e Disque Butterfield 8 (Butterfield 8, 1960), onde Liz encarnou uma prostituta de luxo. Este papel lhe deu seu primeiro Oscar de Melhor Atriz, em quatro indicações seguidas. Anos mais tarde chegaria Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (Who´s Afraid of Virginia Woolf?, 1966). Sua atuação neste filme foi considerada a melhor de sua carreira. A Academia de Hollywood reconheceu isso ao conceder-lhe seu segundo Oscar como Melhor Atriz. No ano seguinte, em 1967, interpretou um papel cômico sob a batuta de Franco Zeffirelli. As exigências da atriz foram muitas, pois encarnaria a selvagem rebelde de Shakespeare em A Megera Domada (The Taming of the Shrew). E à época, Elizabeth não somente era uma das mulheres mais belas do planeta, mas também uma grande atriz e, além disso, especialista em ser alvo das fofocas com sua vida glamorosa, escandalosa, agitada, cheia de joias e boatos.

Assim, ela continuou fazendo filmes que transitaram entre o drama e o suspense, com papéis sempre fortes, sempre de caráter, sempre em situações de conflito. Nestes anos, faria vários trabalhos com o amor de sua vida, Richard Burton. A Megera Domada com Burton, Dr. Faustus (Doctor Faustus, 1967 também) com Burton, The Comedians (outra de 1967)… com Burton e O Homem que Veio de Longe (Boom!, 1968)… claro… com Burton. Também trabalhou com Marlon Brandon, Robert Mitchum e Michael Caine. X, Y e Z (X, Y and Zee), com Michael Caine, foi o último filme que marcaria esse curto espaço... mas sem Burton. Depois de Caine, estrelou outra vez com Burton três filmes seguidos.

O fato é que X, Y e Z (1972), de Brian G. Hutton (também diretor de O Desafio das Águias, Where Eagles Dare) nos lembra um pouco La Taylor de Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? No entanto, o filme de Mike Nichols se concentrava no conflito de um casal e da maternidade, em X, Y e Z se move dentro do triângulo amoroso, o desespero da infidelidade e a vingança.

Isso sim, qualquer que fosse o filme, a diva sempre manteve seu status de atriz dramática. E, nos últimos anos, seria vista com maior frequência na televisão, em alguns filmes e uma ou outra participação especial. Ela irá se deixando levar, deixando-se diluir. Mas sua presença sempre será inegável. Sua presença será de um mito, de uma lenda.

Nesta sexta-feira, 23 de março, o Max convida você a assistir três filmes de Elizabeth Taylor seguidos, um atrás do outro. Assim Caminha a Humanidade, A Megera Domada e X, Y e Z¸ três produções estreladas por Liz Taylor, três momentos, três registros de sua beleza e de sua magnífica capacidade de atuação. Nesta sexta-feira, 23 de março, reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

Com O Pátio de Minha Prisão, continua o ciclo de mulheres alfa no Max

por max 20. março 2012 08:34

 

Nesta quinta-feira, continuamos com os filmes protagonizados por mulheres alfa. Agora é a vez de O Pátio de Minha Prisão (El Patio de Mi Cárcel, 2008), primeiro longa-metragem de Belén Macías, que tem se destacado como diretora de séries de televisão espanholas.

Centrado no tema feminino, O Pátio de Minha Prisão contrapõe a disciplina da arte do caos à disciplina violenta da prisão, a sensibilidade do corpo feminino à rudeza do sistema. Em meio à aniquilação da alma e do corpo, em meio a essa situação que embrutece, um grupo de mulheres líderes, representadas principalmente por Isa, uma prisioneira (Verónica Echegui), e por Mar, uma carcereira (Candela Peña), decidiu dar sentido a suas vidas através do teatro, da arte. Seus corpos, por vezes tristes e sufocados, ganharão vida e voarão sobre os muros da prisão. A arte do teatro, a representação do mundo se transforma, então, em uma forma de liberação. Como em Hamlet, estas prisioneiras guerreiras se atrevem a fazer uma peça de teatro que trate de seus problemas carcerários, e isto, claro, aos olhos dos detentores do poder será uma insubordinação tão perigosa como qualquer outra. Em oposição ao controle obscuro, alheio e caótico da prisão, estas belas mulheres impõem o próprio controle, a luz de seus corpos e a ordem de uma disciplina artística. Esta história de prisão de mulheres não é qualquer história barata, é o drama, a paixão e o exemplo de um grupo de valentes mulheres contra as injustiças de um sistema.

O Pátio de Minha Prisão, nesta quinta-feira, 22 de março, no ciclo dedicado às mulheres alfa. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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O Sol Enganador 2: Êxodo, ou os paradoxos da guerra

por max 16. março 2012 12:13

 

A guerra é um fantasma que não tem voz, uma sombra eterna de sol, uma mancha que não se apaga. Sussurra nos ouvidos, reclama seu direito, sua voz conta outros momentos, outras histórias mais complexas onde o mal e o bem não são tão simples de determinar, onde se revela a face mais obscura da humanidade, daquele que é seu irmão, seu vizinho, seu compatriota, mas também onde se mostra a luz maior da bondade da alma, sua coragem e seu heroísmo.

Neste domingo, dia 18, o Max apresenta O Sol Enganador 2: Êxodo (Burnt by the Sun 2: The Exodus), um filme de Nikita Mikhalkov, o mesmo que, em 1994 com O Sol Enganador (Burnt by the Sun), receberia o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e o Grande Prêmio do Júri em Cannes.

Com O Sol Enganador 2: Êxodo, Mikhalkov volta a colocar-se por trás das câmeras, como diretor e, diante delas, como ator, repetindo o papel do general Kotov, desta vez preso em um campo de concentração em seu próprio país. Em contraposição à história original de 1994, Kotov não foi fuzilado, pois está ali, lançado ao esquecimento, acusado de traição ao regime. A situação se desenvolve em 1941 e começa justamente quando Alemanha e Rússia entram em guerra. Os nazistas bombardeiam o campo de concentração onde Kotov está preso e, em um estranho golpe de sorte, o veterano e outros prisioneiros acabam "libertados". O que acontece então? Parados em um limbo onde perderam suas condições de cidadãos de qualquer parte do mundo, o grupo forma um aguerrido batalhão de ex-prisioneiros. Mikhalkov, paradoxalmente filho do poeta Sergio Mikhalkov, que escreveu a letra do hino da União Soviética, realizou um filme que não prestou claramente uma homenagem à figura do pai Stalin. Estes homens, estes ex-prisioneiros lutaram não somente contra a ameaça da destruição nazista, mas também- e é o que acaba sendo mais forte -contra a perseguição de seus próprios conterrâneos, contra o ódio, o delírio e a obsessão do próprio governo russo. Duplo esforço para sobreviver, duplo esforço para manter-se vivo.

Cenas impactantes, muito realistas, violência, sonhos e reencontros familiares, neste drama da Segunda Guerra Mundial, onde um pai e uma filha se buscaram em meio à loucura, ao caos e à morte, ali onde as vozes da guerra, como vemos, nos falam dos paradoxos e das ironias do espírito humano.

O Sol Enganador 2: Êxodo, neste domingo, 18 de março. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Sonhos, de Akira Kurosawa, ou o homem contra a natureza

por max 16. março 2012 07:33

 

Este mês, o Max orgulhosamente apresenta Sonhos (Akira Kurosawa´s Dreams, 1990), um dos últimos longas-metragens de um dos grandes mestres do cinema japonês, talvez o mais internacional de todos.

Kurosawa já estava com 80 anos (morreria em 1998, aos 88 anos de idade), quando nos deu de presente esta obra-prima constituída por oito curtas-metragens inspirados em sonhos que teve durante sua vida. Estas oito peças refletem uma preocupação muito própria, particular da sensibilidade artística japonesa. Se nos remetemos, por exemplo, a Hayao Miyasaki, um dos diretores contemporâneos mais importantes do Japão, encontramos temáticas similares: a tecnologia, o abuso da energia e a guerra em contraposição às forças da natureza e, no caso de Kurosawa, também encontraremos a força da arte em união com o mundo.

Nestes curtas-metragens há uma variedade de argumentos, que vão desde a atração pelo mundo através do pensamento mágico próprio do universo do sagrado, até a atração pelo espaço e tempo profanos, onde o medo e o respeito pelos mistérios foram substituídos pela loucura racional do homem, levando à destruição da natureza e do próprio homem. A visão inicial do tempo sagrado se dá através dos olhos das crianças nos curtas "A luz do sol através da chuva" e "A horta de pêssego e a festa da estopa". Ali, a natureza é percebida como um lugar fascinante, muito próximo dos deuses e que se apresenta estranho, terrível e ao mesmo tempo belo. A natureza e o tempo interior da natureza pertencem ao medo primitivo, mas também à convivência, ao respeito, à reverência, ao ritual que nos aproxima, por momentos, dos deuses já perdidos. Assim, da visão infantil, Kurosawa dá um salto ao mundo adulto, mas também para uma maneira de relacionar-se com a natureza que, contudo, não é totalmente profana, que continua com alguma religiosidade. Trata-se do curta "A tempestade de neve". Diante do desafio da montanha, o homem percebe o natural de maneira dupla: é um esportista, um vencedor, um desafiante daquilo que temeu durante séculos. Mas, apesar de seu ego, ainda não se transforma em um destruidor. Há algo místico e religioso no montanhismo, um cara a cara ainda cheio de amor. Tanto é assim que a morte, nesta disputa de altura, espreita mais o homem que a natureza.

A morte também está na guerra, na solidão do soldado em "O túnel". Aqui, a guerra (ausente mas com uma presença inegável) mostra-se como a mais clara imagem da ânsia do homem por controlar e ser o senhor supremo do mundo. A guerra, paradoxalmente, é a máxima expressão da razão que somente na razão se recria. A razão que se livra de todo o pensamento mágico, sagrado, que se livra do medo e até do respeito à natureza. Mas a guerra, o pensamento da guerra, a possibilidade da guerra, mata o homem muito antes que ele esteja morto de verdade. Entre a morte, a vida e a guerra, não parece existir diferença. Neste ponto, Kurosawa sai em defesa da arte, e na metade do longa-metragem coloca "Corvos", onde Van Gogh (interpretado por Martin Scorsese), tem um significado fundamental. A arte em fusão com a natureza. Van Gogh recebeu um tiro, sim, certamente, seu contato com a arte e os campos não foi suficiente para evitar a morte. Mas também é verdade que somente nessa relação arte-natureza, ele encontrava seu refúgio, o pouco que podia ter. Depois, Kurosawa também oferece algo mais: ainda que o final de Van Gogh tenha sido trágico, sua obra, baseada em sua visão dos campos, das plantas, dos céus e das plantações, inspira a muitos outros; dá paz e beleza a eles. Ali, dentro dessa visão, parecia haver um ponto de equilíbrio entre o homem e a natureza. A arte como uma forma de religião conciliadora.

Nos curtas-metragens seguintes: "O monte Fuji Vermelho" e "O demônio lastimoso", Kurosawa nos mostra as consequências da soberba da razão: destruição da natureza, morte do homem, caos. A razão como máxima destruidora, a razão como loucura. E, finalmente, o último curta-metragem, "O povo dos moinhos de água", que nos apresenta uma imagem poética desta relação entre o homem e a natureza, um estado ideal, um equilíbrio, uma utopia ecológica, uma ecologia onde a saúde espiritual é a ordem. Não é fácil falar destas ideias e não fazer propaganda exagerada. Kurosawa, um mestre por inteiro, consegue, no entanto, tratar destas complexas relações e fazer arte. Um de seus últimos legados é um chamado à humanidade, a seu desespero pelo poder, é uma mensagem de sabedoria e, ao mesmo tempo, uma expressão de arte magnífica. Do temor do tempo primitivo, passando pelo desafio espiritual e os batismos da arte, a ilógica guerra e a contaminação dos tempos profanos, e daqui à sabedoria ecológica final, Sonhos é um passeio pela mente do homem e sua relação com sua morada, com este mundo onde sonha, mas também, onde constrói pesadelos.

Sonhos, nesta sexta-feira, 16 de março. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

Reino animal, uma mulher alfa empunha as armas

por max 15. março 2012 03:22

 

O ciclo sobre mulheres fortes, dominantes, terríveis, fascinantes continua no Max... o ciclo de mulheres alfa. Na quinta-feira passada, começamos com Revolução em Dagenham (Made in Dagenham, 2010). Nesta quinta-feira, teremos Reino Animal (Animal Kingdom, 2010), um filme australiano dirigido por David Michôd. Trata-se de seu primeiro longa-metragem, uma obra que, logo de cara, rendeu as melhores críticas no circuito local e internacional. Livremente baseado em histórias reais e em uma certa família mafiosa que existiu realmente em Melbourne, o filme tem início com um racha. Josh Cody (James Frecheville) perdeu sua mãe, que morreu de overdose e, não tendo a quem mais recorrer, acaba chamando a sua avó Janine, interpretada pela magnífica Jacki Weaver. Janine é a mulher alfa da nossa história. Trata-se de uma senhora de caráter forte, expansivo e explosivo, que beija seus filhos na boca, os trata quase como se fossem seus amantes, e que tem sobre eles um poder que envolve tudo. Mas quem são eles, quem é esta família? São apenas um grupo de delinquentes de alta periculosidade que, no transcorrer da história, afundam cada vez mais em sua própria obscuridade, em seu próprio vórtice de crime, violência e morte. O jovem Josh estará ali para presenciar tudo aquilo, para cair nas armadilhas, para deixar enrolar-se pelo poder de Janine.

Cabe destacar que a atuação de Jacki Weaver, a excelente atriz, que interpreta esta perigosa e psicopata mulher alfa, foi considerada uma das melhores de 2010. De fato, recebeu a indicação de melhor atriz tanto no Oscar quanto no Globo de Ouro, e levou também vários prêmios.

Reino Animal, dentro do ciclo dedicado às mulheres alfa, nesta quinta-feira, 15 de março. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

Crime de Amor, ou o círculo do crime

por max 9. março 2012 07:14

 

Alain Corneau abriu e fechou um ciclo de vida (e de morte). Começou sua carreira cinematográfica com França, a Sociedade Anônima (France Inc., 1974), depois Police Python 357 (1976), A Ameaça (La Menace, 1977) e Série Negra (Série Noire, 1979), cinema noir, cinema de assassinato e intriga que lhe deu um lugar na cinematografia francesa. No primeiro, reúne alto escalão do governo, negócio com drogas e legalidade; Yves Montand atirando e batendo e fazendo enormes monólogos no segundo; um triângulo amoroso, uma mulher louca, um suicídio e um detetive no terceiro; e um vendedor ambulante que se mete a salvador de prostitutas e criminoso pelo bem, no quarto. Longe desse caminho, Corneau também abriu mão de seus outros interesses como, por exemplo, a música, da qual foi fiel seguidor em sua juventude e com a qual ele talvez tivesse se apegado definitivamente, caso o cinema não tivesse atravessado seu caminho. Talvez, como um sublime pedido de desculpas, o cineasta ofereceu a seu primeiro amor Todas as Manhãs do Mundo (Tous les Matins Du Monde, 1991), um filme histórico ambientado no final do século XVII, que envolve um mestre de violão e um jovem estudante de música interpretado por Gérard Depardieu. O remorso e a volta às suas origens valeram-lhe sete prêmios César.

Trinta e seis anos depois de ter lançado seu primeiro filme de ficção nas telas, em 30 de agosto de 2010, Corneau morre. Tinha terminado de filmar seu mais recente filme (que acabou sendo o último) e estava em processo de montagem. Tratava-se de outro filme noir. Mas, desta vez, o crime não ocorria nos submundos, e não entre policiais e ladrões nem tampouco entre homens rudes e peludos. Desta vez, com Crime de Amor, Alain Corneau apresenta um filme com uma visão atualizada sobre crime. Já a obscuridade dos bares e dos becos não ocupam os cenários, mas sim o ambiente empresarial, corporativo onde, nas últimas décadas, temos encontrado criminosos mais ferozes, as paixões mais baixas, as ambições mais abjetas. No mundo da Enron, os maus usam gravata e colarinho muito branco, são muito educados, ou também acontece de usarem saltos altos e saia. Neste caso de Crime de Amor, onde Ludivine Sagnier e Kristin Scott Thomas são a aposta principal do duelo de interpretação concebido pelo diretor. Scott Thomas, a executiva de alto nível, Sagnier, a jovem aprendiz, tão ambiciosa como sua superiora mas, num primeiro momento, ainda virgem no padecimento e/ou no exercício do mal. Assim, em Crime de Amor, Corneau ocupa-se do tema de gênero, de olhar a mulher e de explorá-la no mundo corporativo. Muitas mulheres, enormes quantidades de mulheres, tinham conseguido levar seus direitos até o mais alto do escalão empresarial, e tinham demonstrado que são tão eficientes quanto os homens. Mas Corneau, e com isto espero amainar qualquer intenção de fúria feminista, parece dizer que o poder, tanto no homem como na mulher, faz estragos idênticos. O poder nos converte em monstros, e os monstros, se me permitem brincar com esta ideia, não têm sexo. Ou digamos que: o poder é o que não tem sexo (mas é sexy). O poder corrói igual, e provoca intrigas, corrupção, abuso de autoridade e abuso sexual em todos os lados. De fato, em Crime de Amor, o tema lésbico entra para tomar parte desse vórtice do poder que não conhece homo ou heterossexualidades, porque funciona, na realidade, como um animal que come sexo para satisfazer seu ego. Não é questão de preferências, é questão de comer ali porque se quer e se pode, e porque assim também se humilha. O sexo como controle, como humilhação, e o poder também como atração, porque a parte subjugada também se deixa fascinar. Assim, neste jogo de tensões, a pessoa não é mais do que uma máscara. A figura delineada e o rosto bonito e sorridente se apresentam aqui, como partes que constituem o personagem que somos. Persona, lembremos, vem de máscara, de per sonar, "para soar". A máscara, o que esconde e está diante do rosto bestial do poder, é o que emite voz, o que se mostra ao mundo. O poder assume estas máscaras e, em consequência, o crime também. O crime que seduz, que fica obcecado com o outro até o ponto de transformar-se no outro e que, sob essa aparência, destrói. Isabelle (Sagnier), a jovem executiva, chegará a ser a voz, a máscara e a figura de Christine (Scott Thomas), em um jogo de imitação, de retórica obsessiva que nos mostrará a dualidade que vive em uma mesma pessoa, assim como a complexidade de conceitos como o bem e o mal. Nos vem à mente Persona (1966), obra-prima de Ingmar Bergman, na qual duas mulheres, Alma e Elisabet, entram em um embate, uma dialética perversa e surrealista de personalidades. Pradoxalmente, Alma é a voz e Elisabet, a muda. O que nos dá vida, o que nos dá "alma" é precisamente a voz. Contudo, essa voz, já disse, é da personagem, desse algo que realmente não tem vida própria, mas que não existe e que, no fundo, é altamente mimético. Mas já mais recente, penso em Mulher Solteira Procura (1992), de Barbet Schroeder, um tipo de Persona, mas a la Hollywood, com menos simbolismo e mais suspense, no qual Jennifer Jason Leigh é a máscara, a réplica desengonçada da perfeitíssima Bridget Fonda, alvo da inveja dessa complexada inquilina. Mas também me ocorre lembrar de O Preço da Traição (Chloe, 2009), de um falido Atom Agoyan, diretor que se deixa levar pela fascinação visual por Julianne Moore e Amanda Seyfried, em um filme também de suspense onde as duas atrizes são arrebatadas pela obsessão, o cio, a atração mútua e a paixão sexual até chegar a um ponto onde ambas são o obscuro reflexo uma da outra. Estes processos de mimeses e fusão se encontram magistralmente tratados em Crime de Amor, fazendo parte de um plano, de um álibi, de um crime e de uma vingança suprema. Ou seja, no caso de Corneau, podemos afiançar que a mimese se transforma em mimese, neste lamentável fim de carreira de um ator que abriu com o cinema noir e fechou com cinema noir as portas de uma sociedade que tinha visto cair os colarinhos brancos e as máscaras, e estremeceu diante das perturbadas faces do poder.

Crime de Amor (Crime d'amour), último filme de Alain Corneau, neste domingo, 11 de março. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Crematório, ou o Max se reinventa e imagina de novo, agora com séries

por max 6. março 2012 12:36

 

O Max imagina de novo, reinventa e descobre as séries de melhor qualidade. A partir de março, o canal abrirá as portas para um pacote completo de séries, que têm trama e produção fincadas na primeira fila da vanguarda da TV. A característica fundamental, já que se trata do Max, é a inspiração em fatos históricos ou em textos literários. Este mês, o canal inicia sua nova mania - e não há maneira de curar esse vício, nem você vai querer se curar - com a série espanhola Crematório (2011), produção do Canal+, que segue fielmente os padrões da HBO e os caminhos literários de William Faulkner, que sem dúvida, estão no romance que inspira a série, original do escritor Rafael Chirbes. E digo HBO porque a obra de Chirbes explora o universo da corrupção, das máfias, das armadilhas imobiliárias e outros negócios escusos; é neste ponto que a série, escrita e produzida por Jorge Sánchez-Cabezudo, busca a estética e as estruturas de roteiro encontradas também em Família Soprano (The Sopranos), Boardwalk Empire e A Escuta (The Wire), ótimas referências para uma série que se move em torno do thriller e do mundo do crime. E cito também Faulkner porque, uma vez mais, mesmo que a série seja baseada na novela de Chirbes, o recurso de criar uma cidade, um povo ou um lugar fictício tem sua raiz contemporânea mais conhecida em William Faulkner, com o condado de Yoknapatawpha (Gabriel García Márquez e seu Macondo também vêm à mente, mas lembremos a influência que teve Faulkner sobre o grande autor de Cem Anos de Solidão). Chirbes, muito "à la Faulkner", criou a cidade de Micent, à margem do Mediterrâneo, metáfora, sem dúvida, de cidades como Benidorm ou Marbella, e se propôs a interagir não com os Compsons, com os Sartoris ou os Snopes, mas sim com a família Bertomeu, encabeçada por Rubén Bertomeu, tenaz homem de negócios mergulhado em negociatas escusas. Chirbes trabalha muito como James Joyce em sua obra, com fluidez de pensamento e sem maiores precisões dramáticas, e isso na série se transforma em um complexo nó argumental, que recorrerá à agonia e ao êxtase de cada um dos Bertomeu e de seus agregados. Uma série que traz suspense, drama e até humor inteligente, mostrando o que, para muitos, é um reflexo da Espanha atual, ou da situação internacional em geral, em oito episódios dirigidos por Sánchez-Cabezudo e produzidos por Fernando Bovaira, produtor de Alejandro Amenábar — um dos diretores espanhóis mais próximos de Hollywood. Cabe destacar que Bovaira já havia trabalhado com Sánchez-Cabezudo em La Noche de los Girasoles (ou Angosto, 2006), seu primeiro e bem sucedido longa-metragem.

Crematório, nesta quarta, 7 de março (toda quarta, até o final da série). Iniciando as séries com toda força, reinvente, reimagine… Descubra o Max.

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